A distribuição da pressão na interface assento/encosto-ocupante é um fator altamente ligado à percepção de conforto/desconforto dos usuários. Um alto nível de pressão superficial pode comprimir os vasos sanguíneos dos tecidos, restringindo a circulação e causando desconforto (NORO, FUJIMAKI, KISHI, 2005; MOES, 2000; GOONETILLEKE, 1998; STUMPF et al, 2002).
Vink, Looze, Kuijt-Evers (2005b) citam um estudo feito por Looze, no qual 15 cadeiras de escritório contemporâneas foram avaliadas, segundo o instrumento de avaliação proposto por Helander, Zhang (1997). Os resultados mostraram que a distribuição da pressão uniforme no encosto da poltrona é um determinante do desconforto, enquanto o conforto está associado à uniformidade na distribuição da pressão do assento.
Muitos estudos encontrados na literatura são direcionados à análise da distribuição da pressão em indivíduos portadores de deficiências, que necessitam fazer uso da cadeira de rodas. Esses estudos recomendam que o peso do corpo seja uniformemente distribuído pela superfície do assento a fim de evitar o aparecimento das chamadas úlceras de pressão, que ocorrem quando a pressão excede a pressão dos vasos capilares levando à diminuição da circulação local e à necrose isquêmica (KÄRKI, LEKKALA, 2006; DHINGRA, TEWARI, SINGH, 2003; JOHANSSON, NILSSON, 2006).
Entretanto, o mapeamento de pressão é principalmente utilizado para aplicações comerciais, como design e produção de poltronas, para monitorar a distribuição da pressão na interface assento/encosto-ocupante. O sistema é tipicamente constituído por um conjunto de sensores, um computador e um software que analisa os dados de pressão (KÄRKI, LEKKALA 2006).
A utilização desta técnica não é um processo simples, uma vez que pessoas diferentes sentadas na mesma cadeira podem gerar mapas de pressão diferentes, dependendo do peso e da estrutura corporal (STUMPF et al, 2002). Além disso, não se sabe ao certo quais valores de distribuição da pressão são ótimos, embora guias gerais existam (LUEDER, 1983).
Um fator que deve ser considerado é que mudanças no ângulo de inclinação do encosto afetam o centro de gravidade e, consequentemente o local e a magnitude da
pressão, bem como mudanças de postura, como o fato de cruzar as pernas ou elevar os pés. Todos esses fatores afetam na distribuição da pressão para as coxas e nádegas (TREASTER, 1987).
É por esse motivo que é difícil recomendar contornos ideais para assento e encosto, bem como os níveis de maciez capazes de minimizar os pontos de pressão desconfortáveis, para todos os usuários. As recomendações são que a distribuição da pressão seja maior na região dos ísquios, na posição sentada ereta, e nas áreas lombar e torácica na posição sentada reclinada, sempre evitando a área das coxas, próxima aos joelhos (STUMPF et al, 2002; FLOYD, ROBERTS, 1958; DHINGRA, TEWARI, SINGH, 2003).
Além disso, a borda do assento deve ser bem contornada para evitar compressão nos tecidos embaixo das coxas e a profundidade tanto do assento quando do encosto devem ser determinadas analisando dados de distribuição de pressão (TREASTER, 1987).
A tolerância à pressão varia para cada pessoa, mas no mapeamento de pressão, o valor de 32 mm de Hg tem sido utilizado em muitas pesquisas, de acordo com Kärki, Lekkala (2006). Qualquer valor maior que 32 mm de Hg é marcado no mapa de pressão com cores fortes, como amarelo e laranja. Os valores de pressão satisfatórios aparecem com diferentes tons de verde (KÄRKI, LEKKALA, 2006). Schmeler, Buning (1999) refutam esse valor ao afirmar que o valor 32 mm de Hg é a pressão dos capilares no nível do coração. Afirmam, portanto que o valor de 60 mm de Hg é um número melhor para se utilizar como referência no mapeamento de pressão.
Muitos autores buscam estudar a melhor distribuição da pressão em cadeiras e poltronas. Treaster (1987) examinou os efeitos dos ângulos de inclinação do encosto na distribuição da pressão na poltrona. Através de seu estudo, mostrou que quando o encosto estava em um ângulo de 120 graus a distribuição da pressão foi mais adequada do que em ângulos menores. A explicação está no fato de que, quando o tronco forma um ângulo de 90 graus com a coxa, muito do peso do corpo é sustentado apenas pelas tuberosidades isquiáticas e, como a área de superfície é relativamente pequena, os níveis de pressão são muito altos. Quando o ângulo entre o dorso e a coxa aumenta, uma maior parte do peso do corpo é transferida para o encosto e menos para as tuberosidades isquiáticas, favorecendo uma melhor distribuição da carga. Também a pressão no encosto foi melhor distribuída quando o assento estava inclinado a 10 graus do que a 0 graus.
Na indústria automobilística, recentes avanços em tecnologias de sensores têm permitido inovações e melhorias na caracterização da interface poltrona-ocupante. Alguns pesquisadores têm sugerido que a distribuição da pressão afeta as percepções do conforto. Isso, de acordo com Kolich (2007) é controverso. O que se tem dito, segundo o estado atual de conhecimento, é que uma boa distribuição da pressão indica suficiente e balanceado suporte para as áreas do corpo em contato com a poltrona do automóvel. Essa técnica tem sido largamente utilizada no ramo automobilístico.
Falando em estudos que buscaram correlações entre distribuição da pressão e desconforto em poltronas de automóveis, temos o estudo feito por Mergl et al (2005). Neste estudo, além do mapeamento de pressão, os autores realizaram a análise subjetiva que se deu através de uma entrevista desenvolvida e avaliada por Hartung (2005), citado por Mergl et al (2005), combinado com um Mapa Corporal aliado à escala CP50, desenvolvida por Shen, Parsons (1997), citado por Mergl et al (2005) (Figura 18). Em adição à escala CP50, os sujeitos avaliavam o nível de desconforto para cada parte do corpo, através de uma escala de quatro pontos, contendo as seguintes avaliações: bastante inaceitável, inaceitável, aceitável, bastante aceitável. Kolich (2007) compartilha da opinião de que uma avaliação subjetiva deve ser atrelada à medição de pressão.
Figura 18: Escala CP50 e Mapa Corporal. Fonte: Mergl et al (2005)
Como resultados, o autor encontrou algumas medidas importantes, que podem ser resumidos nas tabelas 7 e 8. Nestas tabelas, o autor fez uma comparação dos valores de porcentagem de pressão máxima e carga encontrados no seu estudo e os valores recomendados na literatura.
Tabela 7 – Comparação dos resultados com a literatura em relação aos valores de pressão máxima
Pressão máxima (Mergl) Pressão Máxima (literatura) Nádegas <20 kPa 10-30 kPa (Diebschlag, 1984) 7-20 kPa (Congleton, 1988) 5,1-6,4 kPa (Hartung, 2005) Coxas < 0,7 kPa 2-8 kPa (Diebschlag, 1984) <3 kPa (Hartung, 2005)
Fonte: Adaptado de Mergl et al, 2005
Tabela 8 – Comparação dos resultados com a literatura em relação aos valores de porcentagem de carga
Porcentagem de carga (Mergl)
Porcentagem de carga (Hartung, 2005)
Nádegas 24,5-28,5 28
Porção média das
coxas <14 15
Porcão anterior das
coxas < 3 3
Fonte: Adaptado de Mergl et al, 2005
Zenk (2008) citado por Vink (2009) também realizou um estudo para investigar a porcentagem ideal de carga para cada parte da poltrona, bem como as medidas máximas de pressão desejáveis (Figura 19)
Figura 19 – Valores ideais de carga e pressão em poltronas de automóveis. Fonte: Zenk (2008) citado por Vink (2009)
Podemos constatar que estudos apresentam resultados semelhantes quanto aos valores de carga e pressão para as regiões das nádegas e coxas.
Como foi visto, é difícil recomendar valores ideais de pressão na poltrona. O que é consenso hoje em dia, é que a distribuição da pressão seja maior na região dos ísquios, na posição sentada ereta, e nas áreas lombar e torácica na posição sentada reclinada, sempre evitando a área das coxas, próxima aos joelhos