O meu menino é d’oiro É d’oiro fino Não façam caso Que é pequenino Não façam caso Que é pequenino.
Zeca Afonso, 2004
A família sempre teve um valor na sociedade tradicional portuguesa. A Santa Família ficou durante muito tempo como modelo, o pai tinha os valores de força, de coragem, de apoio moral e financeiro da casa, ficando para a mãe a parte afectiva e educativa das crianças, o bom andamento da casa e a submissão à autoridade paternal (Ramos, 1993).
A Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU) (1989), na Convenção Internacional dos Direitos da Criança, salienta a vulnerabilidade e a sua necessidade de cuidados especiais, dando ênfase às responsabilidades da família na sua protecção e nos cuidados primários.
Ser pai ou ser mãe não é fácil e ambos têm que aprender a sê-lo. Educar os filhos é “o trabalho mais difícil e complicado, angustiante e esgotante do mundo. Para conseguir ter êxito é necessário dispor de toda a paciência, senso comum, compromisso, sentido de humor, tacto, amor, sabedoria, consciência e conhecimento que (os pais) tenham à sua disposição” (Satir, 1997).
Nestas palavras encontramos todo um tratado de educação, complementado por Gimeno (2003).
“Entende-se por modelo educativo familiar o conjunto de crenças, valores, mitos e metas que fundamentam a educação dos filhos e que se manifestam em normas, estilos de
comunicação, estratégias e regras de conduta que regulamentam a interacção dos pais com os seus filhos” (Gimeno, 2003: 239).
Poucos se tornam pais tendo a consciência real da relação pais/filhos no que respeita aos cuidados a prestar. O papel é exigente, mas o acesso a ele já foi modelado pela nossa experiência passada, ou seja, ter sido criado pela mãe e pelo pai (Brazelton e Cramer, 1990, in Brazelton, 2000).
“As crianças que crescem em famílias que proporcionam segurança e afecto aprendem a gerir as emoções e os afectos, as separações e a fazer face aos problemas quotidianos” (Herstgaard et al. 1995, in Ramos, 2004:177).
Se o meio que rodeia a criança é favorável, se alimenta o seu desenvolvimento e realça todas as suas experiências, se cada vocalização da criança é reforçada por uma resposta encorajadora, se os pais reconhecem e aprovam o sucesso da criança acompanhado de reforços positivos, então a criança sentir-se-á encorajada a preencher as expectativas dos pais (Brazelton e Cramer, 1993).
“A família, através dos seus membros e das diferentes gerações, proporciona suportes básicos afectivos, psicológicos e materiais indispensáveis ao desenvolvimento integral e ao bem-estar multidimensional de todos os seus elementos, constituindo um espaço social, relacional, educativo e de cuidados. No espaço familiar, constroem-se laços de solidariedade e identidades, tecem-se vínculos e relações privilegiadas, desenvolvem-se competências emocionais e sociais e transmitem-se, através das gerações, representações e valores morais, humanitários, educativos e culturais” (Ramos, 2005:195).
De acordo com Coelho (1940), na evolução da educação das crianças, os pais devem ter um papel importante nos primeiros anos de vida. Devem “viver intensamente” perto da criança, vigilantes em relação à sua saúde, ao seu desenvolvimento psíquico, intelectual e moral, à sua formação da vontade e ao seu carácter (Ramos, 1993).
Em situações de alguma dificuldade, por exemplo, somos muito diminutos, apenas alguns pais recorrem aos seus próprios pais ou a amigos. Mas este pedido de auxílio surge, muitas vezes, quando as situações já apresentam elevada gravidade (Gimeno e Espinal, 1998).
Frequentemente, o único modelo de referência é a própria família de origem em relação à qual os pais de hoje já foram, noutros momentos, os mais críticos.
“Toma nota mãe: quando for eu a educar os meus filhos nunca lhes farei as coisas desta maneira” (Gimeno, 2003: 242) .
Cada um dos pais traz consigo o modelo de parentalidade que construiu na sua família de origem. Este reorganiza dois modelos parentais – o maternal e o paternal, aprendidos e triangulados na infância. Na construção do novo modelo de parentalidade vão ter, então, que articular-se estas quatro representações. Se a experiência filial da parentalidade não foi positiva, é possível que o novo pai/mãe procure ser, com o seu filho(a), o pai/mãe que não teve, mas que tanto desejou (Alarcão, 2000).
Ramos (2004) salienta que o comportamento parental vai ter influência na qualidade dos cuidados prestados à criança e este comportamento vai ser influenciado pela história, características e competências das mães e dos pais.
Ainda a mesma autora afirma que existem três aspectos do meio familiar que podem afectar a saúde e o desenvolvimento da criança:
“- um ambiente carenciado, conflitual, hostil, violento e abusivo;
- relações pais-crianças caracterizadas pela falta de afecto e não fornecendo o apoio afectivo e material necessário; - um estilo educativo autoritário e dominador ou incoerente e permissivo, não proporcionando à criança regras nem bases estruturais.” (Ramos, 2004:184).
As situações de stresse e de ansiedade familiar e ambiental vão reflectir-se na qualidade de “holding” e do “handling” na maneira como a criança se apresenta no psiquismo materno e paterno, e na maneira como o bebé, a criança, é cuidada (Ramos, 2004).
Neste sentido, Brazelton et al. (1982) in Ramos (2004), referem que as próprias características do bebé desempenham um papel essencial na qualidade dos cuidados prestados pelos pais, podendo algumas características da criança estimular, ou não, as competências e comportamentos de cuidados.
Monteiro e Castro (1996), por sua vez, salientam que são duas as posições dos pais, a propósito das concepções, sobre a educação e o desenvolvimento dos filhos: uma deriva das experiências dos sujeitos e a outra da sua localização social.
Para que a criança se construa psiquicamente, se autonomize e tenha um desenvolvimento saudável, é necessário que haja uma satisfação primária de contacto e afecto, que a criança sinta a segurança dos braços da mãe, pai e outros adultos cuidadores (Ramos, 2004).
Os “Decálogos” da mãe e do pai publicados em 1883, numa revista dedicada às famílias “A Mulher”, desenvolvidos por L. Leal (1981: 36), registam as diferentes tarefas que eram incumbidas à mulher e ao homem (Ramos, 1993).
Para a mãe, as tarefas são essencialmente a nível da alimentação (não dar alimentos condimentados), ligação mãe-filho, seguir os conselhos em relação à saúde dos homens das ciências (vacinação), vestuário, sono, higiene, protecção dos perigos, prepará-lo para a vida, espiritualidade (ter fé e ter como lema “ama se queres ser amado”).
No que respeita ao pai, este tem como funções formar uma família, trabalhar, manter a autoridade em casa, aceitar os conselhos da esposa, tomar conta de todos os problemas da casa, ser uma pessoa constante no afecto e interesse, apresentar comportamentos perante os filhos para que estes vejam nele um apoio enquanto crianças, a inteligência quando forem adolescentes e um amigo que aconselha
quando forem homens. O pai deve dar a conhecer aos filhos algumas dificuldades com a finalidade deles aprenderem a ultrapassar os problemas e as maldades da vida; deve prepará-los para “serem boas pessoas” antes de os fazerem cientistas.
Nos nossos dias com base nos princípios consignados na Constituição da República Portuguesa, a actual legislação contempla a responsabilidade e os mesmos direitos nos cuidados à criança para o pai e para a mãe (D.R. Lei nº 142/99 de 31 de Agosto/1999):
Artigo 3º
2. Os pais são iguais em direitos e deveres quanto à manutenção e educação dos filhos.
Nas últimas décadas, o pai começa a participar mais nas mudanças das fraldas, no banho do bebé, na rotina dos biberões, ou das papas, no brincar e no deitar. Mas nem sempre é fácil para o pai. Por vezes, a criança não o escolhe ou afirma claramente que prefere a mãe, ainda que esta tenha aberto a porta à entrada do pai (Alarcão, 2000).
De acordo com Brazelton e Cramer (1993), o pai no brincar tende a entrar em jogos pesados e estimulantes, empurra o bebé e toca-lhe, o que faz com que aumente a excitação deste.
“ A reacção do bebé ao ouvir a voz do pai, ao reconhecer a sua cara e outros estímulos, consistirá em erguer os ombros, como se fosse lançar-se sobre ele. O bebé começa por observar atentamente o pai, depois ri-se, grita de entusiasmo e em seguida recolhe-se rapidamente, antes de encetar outro período de atenção. As interacções de uma criança com o pai, em contraste com a mãe, caracterizam-se por um ritmo de picos mais altos e de períodos mais longos de recuperação ” (Brazelton e Cramer, 1993:122).
Sabemos que os bebés educados de forma tradicional e originários do mundo rural, como nos referencia Werner (1972), in Ramos (2004), sobretudo dos países não industrializados, comparativamente aos das cidades educados e cuidados de forma ocidental, têm um avanço sensório-motor relativamente às normas europeias e americanas. Este avanço deve-se à qualidade dos cuidados e às estimulações físicas e cinestésicas proporcionadas pela mãe ou sua substituta. O mesmo já não se verifica
na linguagem e também apresentam uma queda no desenvolvimento quando se dá o desmame ou pelo nascimento de um irmão.
Rota (1995) alerta os pais contra todas as teorias, frequentemente abstractas e variáveis consoante os caprichos da moda, que se oponham à sua espontaneidade e ao interesse dos seus filhos.
O mesmo autor acrescenta ainda que encontrar a dose de “amor” e “autoridade” não pode ser definido matematicamente: 50% para o primeiro e 50% para a segunda. Temos que ter em conta a personalidade própria de cada criança, uma vez que umas têm necessidade de demonstrações de ternura para se sentirem seguras, outras precisam de mais firmeza para chegarem ao mesmo resultado. Com a mesma criança é necessário ajustar constantemente o princípio base para a apoiar eficazmente (Rota,1995).
Continuamos a encontrar relações sólidas entre as várias gerações, como refere Ramos, 2005:
“As relações entre as diferentes gerações na família, entre avós, pais e netos, continuam sólidas, registando-se hoje novas alianças e redes de apoio entre as gerações (Attias- Donfut e Segalen, 1998, Belsky, 2001, Bengtson et al. 2003, Litwak e tal 2003). A família não perdeu a sua função enquanto rede social e encontrou outras formas de parceria com outras redes formais, sendo duas das suas principais funções, a socialização das crianças e o apoio aos adultos, partilhados com algumas redes sociais” (Ramos, 2005:203)
Para Ramos (2005), o papel e o poder dos avós está hoje reforçado na família, na educação da criança, na legislação e na sociedade, nomeadamente na sociedade portuguesa, tendo-se reconhecido em Portugal o dia 26 de Julho como o dia Internacional dos avós. Na cultura popular portuguesa, ser avó ou avô é ser mãe e pai duas vezes.