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2.8. Kadına Yönelik Şiddetin Türleri

3.1.5. Bulgular

A oposição ao governo estabelecido por Getúlio Vargas em 1930 crescia no Rio Grande do Sul e no próprio ministério do presidente provisório. No final de 1931, em Cachoeira do Sul, lideranças políticas da Frente Única Gaúcha (FUG) reuniram-se com o interventor federal no governo do Rio Grande do Sul, general Flores da Cunha, buscando iniciativas políticas para barrar a influência do tenentismo no governo federal.236 Conforme

Elizabeth Cancelli, eram visíveis as contradições políticas no governo Vargas que se aliava simultaneamente “às velhas ‘oligarquias’ regionais e aos tenentes”.237 Assim, no início de

1932, quando militares empastelaram o Diário Carioca, em um episódio extremamente violento238, o presidente não puniu os tenentistas envolvidos. Como resposta, os gaúchos que

ocupavam cargos políticos federais retiraram-se coletivamente do governo. Barros Cassal, Batista Luzardo239, João Neves da Fontoura, Lindolfo Collor e o soledadense Maurício

Cardoso retornaram ao sul, reivindicando liberdade de imprensa e a realização de uma Assembleia Constituinte.

Assim, membros da FUG – liderados por Borges de Medeiros240 do Partido

Republicano Rio-Grandense (PRR), Raul Pilla, vice-presidente do Partido Libertador (PL), e Batista Luzardo – passaram a se articular com os paulistas que preparavam a insurreição. Em 9 de julho de 1932, quando eclodiu a Revolução Constitucionalista em São Paulo, era esperada a adesão do Rio Grande do Sul. A FUG aderiu, mas o estado estava dividido.241 O

general interventor federal no Governo do Estado, Flores da Cunha, acabou recuando e manteve-se fiel a Vargas.242 Ele manteve o controle da Brigada Militar e da 3a Região Militar.

Contingentes foram deslocados para o sul de São Paulo e batalhões provisórios foram formados em todo o estado para a defesa do governo de Vargas. Enquanto isso, em agosto, os

235 BANDEIRA, Aurélio. Aspectos Históricos. In: BRIDI, Eda Thereza Piccinin (coord). Histórico de Sobradinho. Venâncio Aires: Ouro Verde, 1976, p. 31, 33; DIÁRIO DE NOTÍCIAS. Porto Alegre, 17 de agosto de 1938; CORREIO DO POVO. Porto Alegre, 18 de abril de 1938; BOTTARI, Luiz Pedro. Sobradinho: Conferência. Santa Maria: Escola Tipográfica Santo Antônio, 1940, p. 13.

236 PESAVENTO, Sandra Jatahy. RS: a economia & o poder nos anos 30. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1980, p. 94. 237 CANCELLI, Elizabeth. O Mundo da Violência. A Polícia da Era Vargas. Brasília, Editora da Universidade de Brasília,

1993, p. 38.

238 NETO, Lira. Getúlio: Do Governo Provisório à ditadura do Estado Novo (1930-1945). São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p. 13-36.

239 Conforme CANCELLI, Elizabeth. Op. cit., p. 49, 53, o médico Batista Luzardo foi o primeiro chefe de Polícia do Distrito Federal pós 1930, reformulou a instituição para atender às necessidades “do modelo ditatorial” (p. 49): “Era a época científica da polícia, que se instalara desta vez para ficar.” (p. 53).

240 O ex-governador Borges de Medeiros acabou sendo preso pelo governador Flores da Cunha. Conforme GERTZ, René E.

O Estado Novo no Rio Grande do Sul. Passo Fundo: Ed. Universidade de Passo Fundo, 2005, p. 13.

241 PESAVENTO, Sandra Jatahy. Op. cit., p. 94. 242 GERTZ, René E. Op. cit., p. 13.

três principais líderes gaúchos da revolta, comprometidos com São Paulo, partiram para o interior com a finalidade de combater o interventor federal no Estado e a ditadura de Vargas.

Alguns levantes insurrecionais ocorreram no Rio Grande do Sul: em Júlio de Castilhos, liderado por Marcial Terra, em Santa Maria, pelo capitão Martim Cavalcanti, em Vacaria, com Otacílio Fernandes, em Soledade, chefiado pelo coronel Cândido Carneiro Júnior243 (PL), conhecido como Candoca, e, o mais significativo deles, o de Cerro Alegre, que

contou com a participação dos três líderes da revolta.244 Em Soledade, no final de agosto,

republicanos e libertadores preparavam a rebelião. Em 1o de setembro foi lançado o Manifesto

ao Povo do Rio Grande do Sul onde eram justificadas as razões dos soledadenses signatários

para aderir à causa constitucional. Estavam ao lado dos paulistas “contra uma ditadura funesta e nefasta aos destinos da nacionalidade”. Entre outros, assinavam o manifesto personalidades locais que podem ser vistas em posição de destaque ao longo da década: Olmiro Ferreira Porto245, Pedro Guilherme Simon246, Ludovico Thomasi247, Inácio Dihel248 e Deodoro

Serrano249. Alguns deles estiveram diretamente envolvidos com a perseguição aos monges

barbudos em 1938.

Era prefeito municipal em Soledade o tenente-coronel João Carmeliano de Miranda que assumiu, dias antes, em 12 de agosto de 1932, e permaneceu no poder municipal por cinco meses, até 17 de janeiro de 1933.250 Os rebeldes tomaram dois corpos provisórios

denominação das forças auxiliares da Brigada Militar251. No amanhecer do dia 1o de

setembro, os rebeldes tomaram o quartel do 44o Corpo Auxiliar, o comandante e alguns

oficiais foram presos. O coronel Pedro Corrêa Garcez (PRR) assumiu o comando desse levante. Enquanto isso, o comandante do 33o Corpo Auxiliar, coronel Candoca, foi

proclamado comandante das forças revolucionárias constitucionalistas de Soledade. Com outros três coronéis – Caio Graccho Serrano, Hércules Boccardi252 e Urbano Benigno dos

Santos – instituíram o estado maior da rebelião. Eles estabeleceram um novo governo municipal e prenderam os contrários. Os insurgentes diziam possuir um efetivo de 1.500

243 O coronel Cândido Carneiro Júnior protagonizou vários episódios municipais na década de 1930, conforme será apontado no decorrer deste capítulo.

244 PESAVENTO, Sandra Jatahy. RS: a economia & o poder nos anos 30. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1980, p. 97. 245 Foi prefeito interino de Soledade em 1938.

246 Foi processado pela morte de André Ferreira França e Antônio Mariano dos Santos junto com outros seis acusados. Todos foram absolvidos.

247 Hoteleiro. 248 Fazendeiro.

249 Deodoro Graco Serrano foi entrevistado em Espumoso, em 02 de novembro de 1990. Alfaiate, ele estava com 85 anos. Ele viveu em Soledade até os 25 anos, por volta de 1928 foi residir no Jacuizinho.

250 WEDY, Garibaldi Almeida. Soledade: fatos políticos, violências e mortes, reminiscências. Década de 1930-1940. Porto Alegre: Editora Renascença, 1999, p. 28-30.

251 Ibidem, p. 35.

homens em Soledade. Com esse contingente, organizaram duas divisões para invadir os municípios de Carazinho e Passo Fundo.253 Pergunta-se: de onde sairiam tantos combatentes?

O coronel Candoca, em carta enviada ao interventor federal no Estado, general Flores da Cunha, dizia-se pressionado “pelo povo e famílias” para assumir o comando do movimento contrário à “ditadura” em Soledade. Afirmava, ainda, que organizara um corpo com 400 homens – com os recursos recebidos do Governo do Estado para lutar a favor do Governo Provisório –, por ser esse dinheiro do povo, reivindicou o direito de usá-lo contra Vargas. Candoca dizia-se um dos maiores contribuintes do fisco municipal e estadual, colocando os seus bens como garantia do recurso público confiscado. Afirmava lutar até a morte “nas matas deste município, quando não possa lutar no campo”.254 Observa-se que as matas, os matos, as

florestas e as serras, citadas pelos autores, podem ser vistas não apenas como um lugar físico de intensa vegetação, mas um espaço social de refúgio.

O governo estadual enviou pesada força para lutar contra os rebeldes. No comando dos legalistas estava o subchefe de polícia da região de Cruz Alta e Soledade, coronel Victor Dumoncel Filho. O contra-ataque chegou ao município pela estrada do Jacuizinho-Soledade. Os oposicionistas afastaram suas forças da sede municipal, indo para o interior, nas serras de Lajeado e Arroio do Meio. Em 13 de setembro, às margens do Rio Fão, no Passo da Barca, próximo à embocadura do rio Duduia, os insurgentes foram atacados por “um esquadrão do Regimento Presidencial” da Brigada Militar, o combate teria durado cerca de seis horas com baixas de ambos os lados.255 A força constitucionalista retirou-se para os matos.

O general Flores da Cunha, interventor federal no Estado, enviou um emissário para que o grupo da FUG aceitasse a pacificação, em 5 de outubro de 1932, no Povoado Vitória, tempos depois denominado de Maurício Cardoso. No mês anterior, o coronel Victor Dumoncel já havia tentado um acordo de rendição, por intermédio de Lúcia Spalding e Rosaura Tomasi256 – esposas de combatentes –, dada a evidente superioridade das forças

governistas que sitiavam os rebeldes ameaçando vencê-los pela fome. A essa primeira proposta, o general Candoca não aceitou porque a paz dependia da deposição das armas e da devolução da verba desviada. Teria alegado que as forças legais levaram de sua propriedade e da fazenda de seu irmão, Pedro Carneiro, gado, porcos e cavalos, produtos da lavoura e um

253 Conforme FRANCO, Sérgio da Costa. Soledade na história. Porto Alegre: Prefeitura Municipal de Soledade, 1975, p. 123-4, 126; PESAVENTO, Sandra Jatahy. RS: a economia & o poder nos anos 30. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1980, p. 96.

254 FRANCO, Sérgio da Costa. Op. cit., p. 126.

255 FRANCO, Sérgio da Costa. Op. cit., p. 127; WEDY, Garibaldi Almeida. Soledade: fatos políticos, violências e mortes, reminiscências. Década de 1930-1940. Porto Alegre: Editora Renascença, 1999, p. 130.

256 Lúcia Spalding era esposa de Kurt Splading e Rosaura Tomasi possivelmente fosse esposa de Ludovico Thomasi que assinou o Manifesto ao Povo do Rio Grande do Sul. WEDY, Garibaldi Almeida. Op. cit., p. 122.

automóvel Chevrolet. O comandante rebelde pedia que o produto do saque fosse abatido da dívida.257

Parece que a argumentação não convenceu o interventor federal, até porque os revoltosos também fizeram requisições de cavalos nas fazendas. Em 22 de outubro, em Guaporé, um acordo definitivo impunha que o coronel Cândido Carneiro Júnior, para ser libertado, vendesse terras para ressarcir ao Governo do Estado a importância de 90 contos de réis, correspondente ao valor entregue para a formação do 33o Corpo Auxiliar. Ele

comprometeu-se também a devolver as armas que estavam extraviadas. Em troca, o governo dispunha-se a assegurar garantias individuais aos revoltosos, sem coação ou responsabilidade criminal pelo levante. Essas questões de mobilização de contingentes, desvio de armamentos e substanciais recursos financeiros serão mencionadas novamente em 1938, como argumento de vinculação dos monges barbudos ao governador deposto Flores da Cunha.258

Segundo Sérgio da Costa Franco259, mesmo com a resolução do conflito armado,

“seguiu-se um longo período de intranquilidade para os soledadenses que haviam participado do levante. E vários incidentes e conflitos que ocorreram mais adiante, não passaram de reflexos da luta de 1932, dos ressentimentos e vinganças que desencadeou.” Segundo Loiva Félix260, no aspecto político na região serrana, os acontecimentos de 1932 apresentaram dois

aspectos fundamentais: a mobilização dos coronéis para a Revolução Constitucionalista e o início da mudança na prática coronelista. Para a autora, a Revolução de 1930 não acabou com o coronelismo, mesmo com o voto secreto, continuaram os apadrinhamentos e as intervenções políticas buscando benefícios. Apontava que o poder dos coronéis vinha da “capacidade de usar a força, a violência ou de acobertá-la sem que houvesse a possibilidade de ser molestado pelas autoridades oficiais, uma vez que, em geral, era ele também que, na órbita municipal ou distrital, fazia essas autoridades.”

Seguindo especialistas no tema261, a Revolução Constitucionalista pode ser vista como

a disputa entre dois setores das classes dominantes gaúchas: um, com interesses estaduais e, o outro, com perspectivas nacionais. A ala regional, temendo a perda do poder oligárquico, rebelou-se contra o poder central. Enquanto que a ala nacionalista, identificada com a orientação do Governo Provisório, aderiu à ordem como perspectiva para o desenvolvimento econômico. Vargas saiu vitorioso em seu projeto nacional, pois conseguiu submeter as oligarquias regionais. Em troca, continuou a assegurar uma política de proteção aos produtos

257 FRANCO, Sérgio da Costa. Soledade na história. Porto Alegre: Prefeitura Municipal de Soledade, 1975, p. 128; WEDY, Garibaldi Almeida. Soledade: fatos políticos, violências e mortes, reminiscências. Década de 1930-1940. Porto Alegre: Editora Renascença, 1999, p. 130.

258 FRANCO, Sérgio da Costa. Op. cit., p. 128; WEDY, Garibaldi Almeida. Op. cit., p. 130. 259 FRANCO, Sérgio da Costa. Op. cit., p. 128.

260 FÉLIX, Loiva Otero. Coronelismo, borgismo e cooptação política. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1987, p. 163. 261 PESAVENTO, Sandra Jatahy. A Revolução Federalista. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1983, p. 92-3, 185.

agrícolas, como o café e a pecuária. Paralelamente, buscava a diversificação da produção incentivando a colocação dos produtos da periferia no centro do país. Para Pesavento262,

estava em preparação “uma nova forma de acumulação de capital que iria se centrar na indústria”, possibilitada pela “utilização de mão de obra nacional remunerada a baixo preço”. A legislação trabalhista instituída não chegou até as áreas rurais.

Benzer Belgeler