Pela extensão de material publicado e mesmo em virtude de sua persona pública, não é incomum que a historiografia da arquitetura atribua a Le Corbusier mérito quase exclusivo na postulação de modelos para a construção da cidade moderna. Entretanto, ao menos desde finais do século XIX, as questões do planejamento integral do espaço urbano e do estabelecimento de novas formas de moradia massiva vinham sendo estudadas e teorizadas por diversos pesquisadores, em várias partes do mundo. No século XX, dois bons exemplos são o trabalho do urbanista alemão Ludwig Hilberseimer, publicado de modo extensivo em seu livro Großstadtarchitektur e o do catalão Josep Lluis Sert, cujas ideias desenvolvidas sobre o tema encontram-se no livro entitulado Can our cities survive?.
No desenvolvimento da questão urbana, Le Corbusier defendeu a adoção da setorização urbana das distintas atividades, a segregação entre o tráfego de automóveis e pedestres e a adoção de tipologias habitacionais de grande escala que, mais que simplesmente adensar as cidades existentes, estabelecia um novo modelo urbano, de aplicabilidade virtualmente universal. A concentração das habitações, e também dos escritórios, em grandes blocos verticais seria articulada de modo a permitir a liberação de mais áreas livres de uso público destinadas às atividades desportivas e ao ócio. Incluem-se aí seus modelos para o Plan Voisin de Paris, a Ville Contemporaine pour trois millions
d'habitants, ambos de 1922 e o estudo de maior abrangência, e que mais repercussão
alcançou: a Ville Radieuse, apresentada extensivamente em livro homônimo publicado na França em 1933.
Figura 5.2.3.: Le Corbusier em frente a um croquis da Unité d'habitation, e a edição francesa de seu livro La Ville Radieuse, publicado em 1933.
Diferentemente das buscas por aplicação imediata que caracterizaram as proposições do mestre franco-suíço, as postulações de Hilberseimer têm caráter bem mais científico, como ele mesmo menciona em seu último livro Un' idea di piano, de 1963. Seu estudo, publicado em 1928 em Großstadtarchitektur (arquitetura da grande cidade), apresenta considerável evolução teórica à proposta corbusiana da Ville Contemporaine, projeto no qual o zoneamento de moradias, comércio, escritórios e lazer localizavam-se em setores urbanos distintos. Na proposta do alemão, ao contrário, a setorização da cidade se dava em estratos horizontais sobrepostos: no nível do solo, junto ao trânsito de veículos, seriam localizados os usos comerciais e de serviços e acima destes, a cidade residencial e a livre circulação de pedestres. A proposta previa uma atualíssima sobreposição de atividades, bem mais próxima da multiplicidade de usos e atividades caracterizadora do denominado sinequismo, qualidade urbana defendida por Jane Jacobs em seus estudos urbanos e revalorizada por autores contemporâneos como Edward Soja e Michael Storper dentro do grupo de estudos regionais de Los Angeles.
Figura 5.2.4.: À esquerda, modelo urbano apresentado no livro Großstadtarchitektur, de Ludwig Hilmerseimer. À direita, torres do Parque Central, em Caracas, projeto de Daniel Fernandez- Shaw de 1969, no qual a sobreposição de usos em estratos horizontais foi aplicada.
Embora também menos mencionado que Le Corbusier, o catalão Josep Lluis Sert tem papel importantíssimo na discussão do tema dos grandes projetos urbanos. Escassamente analisado e discutido a fundo, seu livro Can our cities survive? - an ABC of
urban problems, their analysis, their solutions, de 1942, foi em grande parte obscurecido
pela publicação da Carta de Atenas por Corbusier. Embora a versão corbusiana só tenha sido publicada em 1943 - embora o texto principal fora publicado em 1941 sob o título La
Ville fonctionnelle – ambos tratam basicamente do mesmo assunto: os temas discutidos no
IV CIAM, realizado em 1934. Uma análise mais detida permite sem dificuldade perceber a maior elaboração e caráter mais científico do livro de Sert, em comparação com o tom panfletário e messiânico adotado por Corbusier na redação da Carta de Atenas, o que prejudica sobremaneira uma leitura isenta do trabalho. À parte a intenção de Corbusier em atribuir à sua publicação certo caráter de produto consensual do IV CIAM, a introdução de Giedion ao livro assinado por Sert não deixa dúvidas de que, ao contrário, Can Our Cities
Survive? é que de fato poderia ser considerada a publicação, digamos, oficial dos resultados
do congresso náutico de 1934.
Figura 5.2.5.: Capa e interior do livro Can Our Cities Survive, de Josep Luis Sert, publicado em 1942.
Na análise do livro de Sert, há que constatar, antes de tudo, a honestidade científica do autor ao diferenciar claramente suas hipóteses e proposições dos consensos dos congressos de 1934 e 1937, reunidas em uma espécie de ata em apêndice ao final do volume. Neste sentido, é também notável constarem das primeiras páginas não apenas a advertência “baseado nas propostas formuladas pelo CIAM”, eximindo os demais membros do CIAM de postulações das quais pudessem discordar, como também os créditos nominais e agradecimentos aos representantes dos grupos nacionais componentes dos CIAM e daqueles que colaboraram diretamente na elaboração do livro, denotando a generosidade intelectual do autor. Contrastando fortemente com as afirmações sem muita justificativa e palavras de ordem que constituem as páginas da Carta de Atenas, o livro de Sert, dividido em 15 partes e somando 260 páginas em grande formato, traz imensa quantidade de dados,
estatísticas, citações, notas, fotos, planos urbanos e projetos arquitetônicos. Mostrado de modo abrangente, claro e bem apresentado, o material reunido em Can Our Cities Survive? consiste assim em um panorama bastante amplo que inclui não apenas muitos dos estudos levados à discussão pelos representantes dos vários países nas discussões promovidas no âmbito do IV e V CIAMs – incluindo aqueles de Corbusier – mas também um grande número de propostas distintas daquelas defendidas por seus membros. Abordadas e discutidas no trabalho sem preconceitos no nível de ideias, contribuem para tornar o livro de Josep Luis Sert retrato fidedigno do estado da arte do planejamento urbano e dos temas correlatos à problemática urbana em debate no princípio da década de 1940. Foi ainda “o primeiro documento que introduziu nos Estados Unidos as experiências e doutrinas da arquitetura e do urbanismo desenvolvidos na Europa pelos CIAM. Durante uma década inteira, representou uma obra essencial de referência para os anglo-saxões.”27
Talvez fruto da aproximação menos dogmática do arquiteto catalão em relação a Corbusier, enquanto este experimentava sucessivas frustrações e era seguidamente preterido por governos franceses e estrangeiros, Josep Luis Sert, juntamente com seus sócios na firma Town Planning Associates, Paul Schlulz e Paul Lester Wiener, elaboram inúmeros planos urbanos e constroem extensivamente por toda a América Latina entre os anos de 1939 e 1953. Destacam-se os seguintes projetos: a Cidade do Motores, planejada para abrigar os funcionários da FNM – Fábrica Nacional de Motores, de 1945, não executada; o projeto para a nova cidade de Chimbote, no Peru, de 1948; o plano diretor de Medellín, na Colômbia, de 1949; o plano diretor de Bogotá, Colômbia, entre 1951 e 1953; os projetos de cidades novas na Venezuela, de 1950 a 1953 e o plano piloto de Havana, Cuba, entre 1955 e 1958.
Deste modo, e estes são apenas dois exemplos, pode-se depreender que, embora muitas da proposições do mestre Le Corbusier sejam dotadas de grande pertinência e tiveram uma colossal influência sobre o pensamento arquitetônico do século XX, é necessário ir além de suas propostas para que se alcance uma visão mais abrangente das questões que envolvem o urbanismo moderno e trânsito de ideias que contribuiu para a construção das muitas realidades urbanas do mundo contemporâneo como um todo e da América em particular.