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ESTUDO DE CASO (I)

Nestes dois últimos capítulos da tese, desenvolvemos uma articulação teórica ou conceitual com as particularidades do estudo de campo dos saberes, processos educativos e uma nova cultura do trabalho que são investigados neste estudo de caso único na ABS95. As entrevistas realizadas com o propósito de identificar os modos pelos quais diferentes elementos dos saberes, das práticas e dos processos educativos são articulados no interior da Associação são costuradas aos estudos teóricos, revisão bibliográfica e reflexão sobre a problemática, análise de documentos e de dados secundários, notas de visitas, de observações e de conversas informais. Como diz Mary Jane Spink (2003), são como retalhos costurados constituindo uma colcha. Por isso, são dois capítulos.

Logo de início, tomamos de empréstimo a ressalva de Thompson (1981, p.61): essa totalidade não é uma “verdade teórica acabada”, nem um “modelo fictício”, é um “conhecimento em desenvolvimento, muito embora provisório e aproximado”. Esperamos contribuir nas discussões que têm sido produzidas pelo desenvolvimento muito recente de estudos96 das relações entre educação, trabalho e saberes, bem como sobre propostas de formação que permitam a apropriação crítica dos trabalhadores de sua experiência laboral. Segundo Schwartz (2003, p.23):

[...] toda a atividade de trabalho encontra saberes acumulados nos instrumentos, nas técnicas, nos dispositivos coletivos; toda a situação de trabalho está saturada de normas de vida, de formas de exploração da natureza e dos homens uns pelos outros.

Supomos que, nos processos de organização e gestão de trabalho pelas próprias bordadeiras, no espaço da ABS, os saberes e os processos pedagógicos

95 Os elementos teórico-metodológicos deste estudo de caso único encontram-se detalhados no

primeiro capítulo desta tese.

96 Nos capítulos anteriores, segundo e terceiro, analisamos contribuições de alguns estudos nas

discussões de que há uma constante construção dos saberes, levando em conta a historicidade e os valores, mas as muitas contradições ampliam a relação de dupla expropriação do trabalhador. De um lado, este é expropriado de seus conhecimentos e ofícios anteriores; de outro, é expropriado da autonomia de trabalhar para si. (CHARLOT, 2000; FISCHER, 2006; FISCHER; ZIEBELL, 2005; JOSSO, 1999; SANTOS, E., 2000, 2003; SCHMITZ, 2006; SCHWARTZ, 1988, 2000a, 2002, 2003, 2004; TIRIBA, 1997, 2000, 2001, 2006a, 2006b, 2008; VENDRAMINI, 2006, 2007)

(como práxis educativa), confrontados com elementos materiais e simbólicos da cultura do capital, constituem-se em elementos de uma nova cultura do trabalho. A pesquisa envolveu a busca de muitas informações, inter-relações e novos problemas que foram surgindo ao longo do trabalho de campo97.

A categoria - experiência – (THOMPSON, 1981) nos ajuda, visto que compreende a resposta mental e emocional de indivíduo ou grupo social a muitos acontecimentos inter-relacionados ou repetidos muitas vezes da mesma forma. Com Freire (1988), entendemos a percepção como ação humana que tem relação com a leitura do mundo e a produção de história e cultura. Relacionada à compreensão da importância do ato de ler, de escrever ou de reescrever, a leitura do mundo pode ser transformada em uma prática consciente, envolvendo a análise e a crítica da realidade. Nas leituras que fazemos do mundo, ainda que de forma não intencional, estamos construindo cognitivamente, comparando, analisando e refletindo sobre espaços e tempos vividos, o que repercute nas nossas escolhas e vivências/experiências e, portanto, nas dinâmicas identitárias98.

Lembramos de ter lido em Marx (1982a) e, com ele, concordamos que as categorias são expressões abstratas das relações sociais, ambas produzidas por nós e, portanto, históricas e transitórias. Nesse sentido, pela comparação das entrevistas, agrupamos respostas das entrevistadas identificando similaridades e diferenças, manifestadas nas categorias, subcategorias, padrões e relações, segundo conteúdos temáticos das respostas e referencial teórico.

Neste capítulo, o objetivo é analisar como as bordadeiras da Associação percebem e significam a relevância da experiência na construção de saberes e na aprendizagem, como identificam os saberes produzidos no trabalho e que reflexões fazem a respeito da relação entre esses saberes.

Como já analisamos no segundo capítulo, a relação com o saber, forma de relação com o mundo, relação consigo mesmo, relação com os outros, é uma relação com sistemas simbólicos, notadamente, com a linguagem. É uma relação simbólica, ativa e temporal que um sujeito singular inscreve num espaço social. Portanto, essa relação com/ao saber é uma relação de sentido, tem significação e

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O trabalho de campo decorreu ao longo de dois anos, tendo sido realizados, em 2008, os primeiros contatos com a associação ABS, com a cooperativa Cobarts, as observações na sede e no Município, às quais se seguiram as entrevistas, no período de 15 de junho a 15 de outubro de 2009.

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Na leitura que fazemos das importantes análises feitas durante o seminário desta tese em 2009, escolhemos colocar de início as entrevistas das bordadeiras em diálogo com os esquemas teóricos.

pode mobilizar ou pôr em movimento um sujeito que lhe confere um valor, seja considerando um indivíduo ou grupo, por um lado, e os processos ou produtos do saber, por outro (CHARLOT, 2000). Iniciamos nosso relato pela categoria relação

com o saber no âmbito da atividade artesanal do bordado, por essa razão conceitual e

pelo que encontramos nas entrevistas das artesãs.

Ao responder à questão “o que você precisa saber para bordar?”, uma bordadeira mais experiente, (MAHE, 56) diz: “Primeiro você precisa ter vontade, querer trabalhar. Tem que ter amor, perseverança está em primeiro lugar para você aprender”.

Perseverar nos faz lembrar de esforço necessário para vencer dificuldades. A entrevistada se referiu às dificuldades da Associação, que constituem são objeto do próximo capítulo. No entanto, Mahe (56) responde que “o bordado à mão aprendi na escola. Depois do bordado à mão eu vi que necessitava do bordado à máquina. Aí eu aprendi à máquina”. E complementa: “Tem mais ou menos uns seis anos que eu aprendi o bordado à máquina. [...] A máquina foi através da Associação.”

Vejamos a entrevista de outra bordadeira, a mais jovem (LYNA, 21).

Primeiramente ter força de vontade, gostar do que faz porque sem isso você não faz nada. E ter muito prazer no que está fazendo porque você coloca todo amor naquela peça porque é muito bom você fazer uma peça e ver as pessoas felizes com ela. Ai que coisa linda, é muito bom, é muito gratificante você escutar isso.

A fala de Lyna (21) – “ter força de vontade, gostar do que faz”, “ter muito

prazer no que está fazendo”, colocar amor na peça, ver pessoas felizes - expressa

um saber que implica desejo e causa satisfação. Como Charlot (2000) elucida, não há relação com o saber senão a de um sujeito; e só há sujeito "desejante". O objeto do desejo está sempre, já, presente: o desejo do mundo, do outro e de si mesmo. É a relação do sujeito com o objeto de desejo e de saber que se particulariza, ou seja, o desejo do mundo, do outro e de si mesmo torna-se desejo de saber e de aprender.

O fato de bordar e ter o bordado aprovado, elogiado e, às vezes, comprado pode estimular um desejo, mobilizar e colocar em movimento uma artesã que confere valor a essa atividade ou produto do bordar. Esse desejo é o de uma bordadeira que se relaciona com os outros e consigo mesma, preocupada com sua comunidade e que acaba ensinando o que já sabe aos outros, como pode e

consegue fazer, seja em sua casa, seja na Associação. Por isso, a entrevistada Lyna (21) ensinou sua mãe a bordar que também se tornou bordadeira.

[...] Foi assim: minha mãe era lavadeira; só que, ela não queria mais lavar roupa, então ela decidiu aprender a bordar. Aí a gente conseguiu uma máquina, eu fui ensinando os primeiros passos a ela, ela foi conseguindo; foi assim uma terapia para ela o bordado. Pois quando ela vai para máquina ela diz que ali é o céu. (LYNA, 21).

Eis um exemplo da possibilidade do “ainda-não”, o trabalho em seu sentido ontológico, ou seja, como um processo que permeia todo o ser do homem e constitui a sua especificidade, conforme Kosik (1976, p. 179). Mesmo na relação com a máquina de bordar, Lyna, na perspectiva de humanização, ensinou a mãe a trabalhar o bordado, numa perturbadora contradição com o sistema do capital.

As bordadeiras dizem que aprendem a bordar bordando e que esse aprendizado é, muitas vezes, influenciado por condições de vida como local de residência e trabalho infantil na área rural bem como pela migração para área urbana, particularmente para Caicó. Das seis bordadeiras entrevistadas, por exemplo, Cafran (72 anos) e Maíra (59 anos) nasceram e viveram a infância e adolescência na área rural, tendo ambas aprendido o bordado à mão com uma bordadeira vizinha, mas, depois, tiveram trajetórias diferentes.

A entrevistada Cafran (72 anos) narra que aprendeu o bordado à mão e a costura no Colégio Normal Regional; no currículo escolar constava a disciplina Trabalhos Manuais (anos de 1940-50). No entanto, aprendeu o bordado à máquina, há uns dois anos em curso profissional.

[...] meus primeiros passos de bordado foram mais ou menos [aos] 12 anos, aprendi com a vizinha, depois passei pelo colégio normal regional [que] ensinava [...] uma disciplina do currículo, porque o normal regional preparava para exercer a função do magistério, além de preparar, também, a moça para ser uma boa dona de casa, uma boa mãe. Arte Doméstica era o nome da disciplina. [...] vivi numa escola profissional, eu aprendi muito a vivência com aquelas professoras, que eram de fato professoras de bordado, [...] estou colocando em prática; agora bordar na máquina mesmo eu não sei, eu sei bordar à mão. (CAFRAN, 72)99.

Assim, começa o trecho que selecionamos na entrevista de Maíra (59 anos): “[...] eu sou da zona rural, eu sou a primeira filha de 16 irmãos, 16 filhos, então meu

99 Nota: A disciplina recebia denominações diferentes em cada estado. Por volta dos anos de 1970,

pai trabalhava e nos colocou também para trabalhar junto com ele na lida da roça”. Nela, as marcas do trabalho infantil, da anulação ao direito de escolarização como criança e da exclusão, provavelmente, aguçaram o mergulho na existência, a tomada de consciência de como viviam, do que lhes faltava e de que podia mudar de vida. Começou a estudar na escola aos 11 anos, aprendeu a bordar à mão e à máquina, ainda na roça, porque queria sair dali.

E eu comecei a estudar já tarde, eu já tinha 11 anos quando eu comecei a estudar, eu fui naquela época [o que] a gente chamava “desasnada” em escola particular no sítio. Uma vizinha começou a ensinar a gente o ABC, só que eu não sabia ler, eu só sabia escrever porque a minha mãe colocava para eu copiar as frases dos livros, essa coisa toda, e tinha uma vizinha que bordava muito bem já para aqui, para Caicó e ela me ensinou a bordar à mão, só que eu aprendi rápido demais. E estudando, só que não dava tempo de fazer as duas atividades. Quando eu saía da escola, era 1 km, aliás, eram 6 km para onde nós morávamos, eu ficava, quando tinha hora vaga, eu ficava na janela de uma bordadeira observando ela bordar à máquina. E quando eu disse; não, eu vou bordar à máquina porque eu quero sair disso aqui. E aprendi numa semana com uma prima. (MAÍRA, 59).

A categoria relação com o saber no âmbito da atividade artesanal do bordado se desdobra em subcategorias: bordado à mão e bordado à máquina. A entrevista de Daro, 73 anos, traz referência à relação com o saber de complementaridade do bordado à mão e do bordado à máquina, mas com a preferência e predominância do primeiro, embora ela tenha relatado que aprendeu a trabalhar na máquina manual antiga na infância.

[...] comecei a bordar à mão, que foi sempre do meu gosto,[...] fazia em tecido grosso e em tecido fino; fazia todo estilo de bordado à mão, que eu ainda sei dessa parte. Como mais velha a vista distancia um pouco, eu vou bordar mais popular. Aí descobri o bordado com linha grossa. Eu bordo com linha Gross [...] Eu utilizo a máquina para dar o acabamento dos bordados. O meu bordado eu só ocupo tecido, agulha, tesoura e linha; eu só ocupo isso no meu bordado, mas no acabamento eu uso máquina. Eu comprei uma máquina nova para dar mais perfeição no acabamento [...] A máquina entrou como um auxiliar de complementar a peça porque assim que a peça é bordada à máquina não precisa contornar depois, mas o bordado à mão tem muito contorno, tem que ter os acabamentos, tem que ser tudo à máquina. Aí, a gente faz aquele acabamento à máquina de costura, eu tenho duas máquinas: a de costura e a de ponto. (DARO, 73).

Nas entrevistas identificadas com respostas na subcategoria relação com o

saber no âmbito da atividade do bordado à máquina, salienta-se por um lado que

que aprender a pedalar a máquina. Na máquina comum, não na industrial a gente coloca o pé e ela vai fazendo quase todo o processo. Mas o acabamento, então, é na máquina comum como se fala por aqui” (LYNA, 21).

Ao estabelecer comparações, Maíra (59 anos), em sua entrevista, considera o bordado à mão como “simples” e introduz o conceito de design. As bordadeiras chamam de design no bordado ao desenho da figura que é o risco a ser bordado (preenchido) por elas à mão ou à máquina. No entanto, design tem sentido mais específico: o de reunir esforços criativos de modo amplo em que a bordadeira imprime uma identidade visual às peças que vai bordar. Essas peças têm as ilustrações feitas por ela mesma. Conforme a entrevistada, ela é uma designer do

bordado.

O bordado à mão [...] é muito simples, é um bastidor [...], feito em madeira que se coloca no tecido para ficar o tecido justo. E um design que geralmente são motivos florais minúsculos que se borda muito para recém- nascido, esse tipo de trabalho. Então as cores são suaves, é tom sobre tom e precisa também de muita paciência. (MAÍRA, 59).

As entrevistas referentes ao bordado à máquina consideram-no como mais complicado, para maior produção, orientado para produtividade e exige velocidade embora seja automatizada, podendo ser controlada. O mais importante padrão identificado nas entrevistas é que a produção do bordado é feita em série, com fragmentação ou divisão de tarefas entre artesãs e artesãos. No entanto, não foi encontrada qualquer referência em entrevista sobre a introdução da máquina, visando intensificar a produção e o próprio trabalho, mas reduzir o número de bordadeiras trabalhando.

O bordado à máquina [...] já é um pouquinho mais complicado, quer dizer, já é maior produção; é feito numa máquina pedalada, numa máquina simples também com a utilização do bastidor que é para ficar ajustando o bordado. Já o bordado é um pouco maior e a bordadeira segue a sua intuição da criatividade. Ela vai empregar muito sua criatividade na junção das cores, principalmente no bordado matizado. E na máquina industrializada, que

hoje exige ainda maior produtividade, não é assim [...] ele é feito em

série, [...] tem a velocidade muito grande, então ela não faz, ela não precisa ser pedalada; ela é ligada na tomada, [...] e só com a bordadeira encostando o joelho na máquina. Ela não maneja com as mãos, então a máquina faz todo aquele trabalho e não faz todos os pontos, [...] algumas bordadeiras que são muito criativas fazem mais de uma variedade de pontos, mas a máquina no nosso trabalho, nosso processo aqui do

bordado artesanal do Seridó ele é feito em grande escala somente [...]

se for colorido é só um ponto, e ele é feito em série porque tem a que cobre [...] a que cobre faz o motivo floral grande [...], depois que cobre vai

passar para o acabamento que é outra pessoa que desfia, por exemplo, se tiver uma bainha, um friso desfia, aí já vai passar para outra pessoa que faz o acabamento em si. E no final vai para lavadeira e passadeira que já lava, corta e dobra; já é acostumada a fazer esse trabalho, ela dobra e já vem prontinho no saco para a comercialização. (MAÍRA, 59, grifo nosso).

Segundo as bordadeiras, produtividade e rapidez são itens que justificam a utilização da máquina (doméstica e industrial) no bordado, como foi destacado na entrevista de Maíra, mas os trabalhos à mão ainda são considerados como mais artísticos e minuciosos, por isso, mais lentos na produção.

Há uma diferença entre o trabalho na máquina manual, na máquina que a gente chama doméstica e na máquina industrial; no entanto nós temos

profissionais que trabalham com a máquina industrial que ela consegue fazer o trabalho mais perfeito, para isso exige o quê? Exige

mais experiência, mais prática. Agora há uma necessidade, como eu sempre digo, de primar pela qualidade; é difícil, porque eu já falei anteriormente da necessidade que tem o artesão, que muitos trabalham para sua sobrevivência, para a renda familiar da sua casa, de sua família. Então, a máquina industrial ela é mais rápida, já tá dizendo. [...] (CAFRAN, 72, grifo nosso).

O destaque da artesã Cafran (72) refere-se aos “profissionais que trabalham com a máquina industrial” e conseguem “fazer o trabalho mais perfeito” e que isso “exige mais experiência, mais prática”. Portanto, cabe ao artesão ou à artesã dominar a máquina pela relação de saber, ou seja, saber específico de execução do trabalho automatizado.

Outra subcategoria remete às mudanças tecnológicas introduzidas no trabalho, além das máquinas de bordar, já citadas nas entrevistas. A entrevista de

Maíra, a seguir, apresenta relato sobre as formas de realização do desenho e risco

ou de design do bordado das bordadeiras: o feito com papel-carbono e o com a máquina de picotar, esse, geralmente, realizado por artesãos. Dessa forma, observamos que a inovação tecnológica é estratégia de promover a acumulação capitalista pela mais valia absoluta100, tal como ocorreu com a atividade produtiva do bordado na Ilha da Madeira, essa nos anos de 1880, e em Caicó, nos anos de 1980/90. Eis o trecho da entrevista de Maíra.

Antigamente era feito com carbono, era um papel que era utilizado, dupla face, e hoje [...] ele é feito de duas formas, faz o design e vai riscando com a mão livre, mas para desenvolver esse trabalho, [...] fazemos o desenho grande que é para máquina industrializada, industrial, [...]. E quando é

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criado esse design, esse desenho eles perfuram com uma máquina que é tipo agulha, eles perfuram e passam num papel especial, papel vegetal, fazem o desenho inteiro, por exemplo, numa toalha de mesa de 3m, fazem uma parte inteira. Então colocam em cima de uma mesa grande, fazem uma “boneca” de algodão ou de tecido mesmo, molha, dissolve anil numa quantidade de álcool aqui do posto de combustível e passam rapidinho em cima desse design que já está perfurado, então ele sai rapidinho, ele passa para o papel rapidinho. Agora ele exerce uma intoxicação muito grande, tem uma influência muito grande, para as pessoas que fazem esse trabalho; isso não é bom para gente, não é? [...] é quando o homem entra nesse processo, [...] porque as atividades que ele já desenvolve na bonelaria então ele não vai ter preconceito, não vai ter vergonha de fazer no bordado também, porque só muda o tamanho da peça e o motivo floral também. E depois que já tiver riscado ele coloca ao sol para sair aquele cheiro forte e aí então, a seguir, é que passa para a empresária distribuir para suas bordadeiras. (MAÍRA, 59).

Outra inovação tecnológica importante à organização capitalista do trabalho de produção do bordado objetivando a acumulação de capital foi o tipo de máquina de bordar que passou a ser utilizado em cada época. Segundo Freitas (1948), o bordado à máquina surgiu no séc. XIX, a partir da adaptação da máquina de costura tornando a atividade mais rápida. No início do século XX, utilizava-se uma máquina de costura doméstica reta a pedal, considerada muito complicada por parte de quem borda, já que exige movimentos de braços e pernas e apresenta pouco rendimento comparado a outras formas de bordar. Na década de 1950, a máquina de costura

zig-zag industrial garantia uma produtividade maior, contudo exigia mais habilidade e

agilidade, pois o movimento do bastidor requeria que fosse feito de forma manual. Acompanhando a evolução tecnológica, na década de 1980, surgiram as máquinas bordadeiras eletrônicas profissionais e industriais101, que vieram acompanhadas de

softwares de criação, aliando, ao antigo prazer de bordar, a facilidade, a praticidade,

a produtividade e a elevação da renda. Sendo essas máquinas apropriadas para produzir múltiplos bordados iguais ao mesmo tempo, elas são mais utilizadas em produções em grande escala.

Consideramos, então, nas entrevistas o que foi dito sobre saberes de uso

das máquinas de bordar. Segundo cinco bordadeiras entrevistadas, no bordado são

utilizadas máquinas domésticas e industriais, seja para bordar, seja para acabamento das peças. Parece haver maior uso e familiaridade com a máquina “pedalada”, mais simples. A doméstica é usada, particularmente, para os bordados

101 Exemplares dessas máquinas bordadeiras podem ser vistos com suas especificações em

tradicionais e acabamentos. No entanto, a máquina industrial, mais rápida, é de uso mais recente.

[...] Eu utilizo mais a máquina do que a mão. Porque tem uns bordados como se diz recém-nascido hoje estão fazendo à máquina; facilita, é mais rápido. Antigamente ía para máquina comum, mais devagar [...]. Hoje já tem a máquina industrial que ajuda [...] Agora o bordado tradicional mesmo é na

Benzer Belgeler