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Para que haja o entendimento e tratamento da disfunção familiar, os terapeutas que utilizam uma abordagem cognitivo-comportamental têm, na maioria das vezes como foco, também os aspectos comportamentais das interações familiares, sendo estes de grande relevância para a terapia (Epstein & Schlesinger, 1999, 2006; Dattilio, 2006a, 2010).

Dentre estes fatores é possível destacar:

1. O excesso de comportamentos negativos e déficit nos comportamentos ligados à troca afetiva entre membros da família;

2. A falta de habilidades de expressão e de escutar, utilizadas na comunicação; 3. A carência de habilidades de resolução de problemas; e

4. A ausência de habilidades de negociação e mudança de comportamento.

Esta concepção comportamental da terapia familiar é oriunda dos modelos teóricos baseados na teoria do aprendizado social e na teoria da troca social. Os dois modelos admitem que os membros da família influenciam-se mutuamente. Segundo a teoria do aprendizado social a conduta interpessoal é aprendida, seja pelo condicionamento operante e observação vicária. Supõe ainda, que o comportamento atual é determinado por suas conseqüências reais ou esperadas (Epstein & Schlesinger,1999, 2006; Dattilio, 2006a, 2010).

Já a teoria da troca social propõe um relacionamento interpessoal como sendo uma permuta econômica na qual a satisfação do sujeito pode ser entendida como a média entre os benefícios adquiridos e os custos ou investimentos dispensados. Compreende-se que quando as partes trocam recompensas reciprocamente e diminuem a escalada de trocas negativas se produz um relacionamento satisfatório. Em contrapartida, o estresse no relacionamento parece estar ligado à forma mútua e descontrolada de trocas de comportamentos aversivos e coercitivos (Epstein & Schlesinger, 1999, 2006; Dattilio, 2006a, 2010).

A seguir apresentamos em maiores detalhes, os tipos de comportamentos que geralmente são foco do trabalho psicoterápico com famílias.

5.4.1. Trocas Comportamentais Satisfatórias e Não-Satisfatórias

Conforme vimos, a teoria da troca social propõe que num relacionamento, as trocas ocorrem de maneira recíproca, ou seja, cada pessoa tende a oferecer o que recebe da outra parte. Desse modo, os pais podem reforçar a conduta negativa dos filhos quando dão muita atenção a ela e, com isso, deixam de observar e estimular condutas adequadas. Observa-se ainda, que muitos pais na tentativa de restringir a conduta negativa de seus filhos, agem por meio de comportamento aversivo, utilizando a intimidação e punição física. Patterson (1982), citado por Epstein e Schlesinger (1999, 2006) afirma que tais estratégias dos pais suprimem os comportamentos inadequados da criança apenas a curto prazo, ao mesmo tempo em que servem como modelo (inadequado) para que as crianças aprendam que a agressão é a única forma de demonstrar raiva e desagrado em relação a outras pessoas.

5.4.2. Déficits nas Habilidades de Comunicação

Como vimos em seções anteriores, o viés de interpretação está diretamente vinculado a alguns problemas de comunicação que ocorrem entre membros de uma família, na medida em que mensagens que os membros desejam enviar são recebidas de maneira inadequada pelos outros, ou mesmo, quando o conteúdo da mensagem não está suficientemente claro para o receptor.

Estes desentendimentos podem derivar da expressão equivocada por parte da pessoa que envia a mensagem ou da pessoa que recebe. Ao avaliar a comunicação familiar é preciso

ter clareza dos diferentes tipos de comunicação e suas falhas. É possível utilizar o treinamento de habilidades de comunicação, nos casos em que hajam déficits reais nas habilidades de expressão e de escuta. Em outras circunstâncias, o treinamento das habilidades pode também ser apropriado, por exemplo, quando as pessoas da família enviam mensagens aversivas, sejam elas verbais e não verbais. Entretanto, é importante também identificar e modificar, quando possível, as emoções e cognições que tendem a levar um indivíduo a enviar mensagens de conteúdo aversivo (Epstein & Schlesinger, 1999, 2006; Dattilio, 2006a, 2010).

5.4.3. Comunicação Construtiva e Destrutiva

Em se tratando dos tipos de comunicação empregados pelos indivíduos no contexto familiar, Epstein e Schlesinger (1999, 2006) explicam que pesquisas indicam que em comparação com família sem conflitos, as famílias estressadas demonstram elevadas médias de conduta envolvendo comunicação negativa e baixas médias de conduta envolvendo comunicação positiva.

Além disso, as verificações de seqüências comportamentais que ocorrem entre cônjuges e também do relacionamento entre pais e filhos, apresentaram padrões de interação comuns em relacionamentos estressados, caracterizado por uma troca recíproca de comunicação aversiva. Nesse sentido, com base na fundamentação teórica e empírica a respeito da necessidade de uma comunicação clara e construtiva nas relações familiares, a terapia cognitivo-comportamental com famílias considera imprescindível a avaliação e modificação dos padrões de comunicação negativos presentes na relação familiar (Epstein & Schlesinger, 1999, 2006; Dattilio, 2006a, 2010).

5.4.4. Déficits nas Habilidades de Resolução de Problemas

Inevitavelmente as famílias enfrentam inúmeros problemas que afetam a vida familiar, e que muitas vezes demandam que seus membros trabalhem em conjunto para encontrar soluções. Essas dificuldades são variadas, e envolvem desde problemas simples até os mais complexos, que requerem diferentes formas de resolução (Epstein & Schlesinger, 1999, 2006; Dattilio, 2006a, 2010).

Saber resolver os problemas é um processo cognitivo-comportamental que envolve certas habilidades, tais como: (a) determinar um problema em aspectos comportamentais, (b) levantar e especificar soluções alternativas, (c) avaliar custos e benefícios ligados a cada solução proposta, (d) alcançar um consenso a respeito da solução mais eficaz, (e) implementar a solução e, por fim, (f) avaliar a eficácia da solução e modificar se necessário (Epstein & Schlesinger,1999, 2006; Jacob, 2004; Dattilio, 2006a, 2010).

Nesse sentido, quando se verifica que a família carece de repertórios para a implementação eficaz de estratégias de resolução de problemas, cabe ao terapeuta discutir isso com os membros da família, e propor formas para que essas habilidades possam ser desenvolvidas e postas em prática quando necessário.