Servet ARSLAN 1 , Mahir Murat CENGİZ 2
BULGULAR Canlı Ağırlık
A agricultura, enquanto atividade econômica, foi decisiva para a consolidação da posse das terras ocupadas pelos portugueses na América Meridional no início do século XVI. Segundo Prado Júnior (1996, p.123), a exploração agrícola foi um elemento essencial do processo de colonização. “Apoiada fundamentalmente na grande propriedade, no trabalho servil e na monocultura, a economia agrária brasileira se constituiu na base em que se assentou toda a estrutura do país, econômica e social”.No entanto, a natureza da ocupação e da exploração das terras pela metrópole portuguesa deu origem a múltiplos processos cujos desdobramentos marcaram profundamente a sociedade que aqui se formou.
Ainda de acordo com este autor, nos primeiros séculos da colonização, a economia agrária alicerçou-se sobre três pilares fundamentais, sendo estes relativos a uma dada estrutura, a um determinado modo de funcionamento e a um processo de evolução. Quanto à estrutura, a economia agrária brasileira conformou-se como um mero produtor de mercadorias, onde predominou a grande propriedade dirigida por poucos; quanto ao funcionamento, o setor agrário colonial restringiu-se ao papel de fornecedor dos gêneros requeridos pelo comércio internacional. No que diz respeito à evolução, a economia colonial de base agrária buscou consolidar mecanismos de exploração intensa, no tempo e no espaço, dos recursos naturais existentes no território ocupado.
Embora as análises sobre o processo de desenvolvimento do capitalismo agrário no Brasil sejam divergentes, vários autores concordam que a economia rural brasileira foi, desde sempre, uma economia dependente. Conforme Fernandes (1981, p. 196), “[...] a economia agrária evoluiu na direção do capitalismo moderno, mantendo os laços de dependência diante das economias centrais ou criando novos laços de dependência”. Para este autor, a agricultura no Brasil esteve diante de uma dupla dependência: primeiramente, dependia da dinâmica do mercado externo e, posteriormente, do desenvolvimento do seu próprio mercado interno.
Ao analisar o histórico da agricultura no Brasil, Szmrecsányi (1990) afirma que, no sentido real do termo, isto é, enquanto atividade econômica especializada, só podemos falar em agricultura no Brasil após 1822. Para este autor, portanto, somente após o advento da nossa independência política é que a agricultura consolidou-se como um ramo da economia com caráter intensivo e permanente. Outro aspecto importante apontado por este autor diz respeito aos diferentes sistemas de produção da agropecuária brasileira.
Não existe no Brasil uma agricultura brasileira em geral, mas sim sistemas diferenciados quanto ao nível de capitalização, grau de tecnologia, e as relações com o setor industrial e com o Estado. Assim, uma análise dos limites e potencialidades do processo de desenvolvimento das atividades agrícolas requer um recorte espacial e regionalmente diferenciado (SZMRECSÁNYI, 1990, p.83).
Tomando a agricultura brasileira como um conjunto de atividades constituído por dois setores, a saber: a grande lavoura agroexportadora e a agricultura de subsistência, Szmrecsányi descreve as principais características de ambos. Com relação à grande lavoura argumenta que, depois do declínio do ouro em Minas Gerais, a cana-de-açúcar voltou a ser uma atividade interessante no Brasil. Em todos os casos, ainda no século XVIII, a grande lavoura de cana era feita, praticamente, nos mesmos moldes do século XVI, ou seja, havia ainda o problema da baixa produtividade e de um incipiente investimento técnico. Assim, o aumento da produção dava-se, principalmente, pela incorporação de novas áreas. Esses aspectos revelam o caráter nômade e extrativista da nossa “proto-agricultura” (SZMRECSÁNYI, 1990, p.83).
A grande lavoura foi a força motriz daquilo que Graziano da Silva (1996, p. 7) definiu como Complexo Rural. Segundo este autor, tal complexo caracterizava-se por uma incipiente divisão do trabalho onde as unidades produtivas eram obrigadas a produzir praticamente todos os meios necessários a produção de um determinado produto. Desse modo, no interior das propriedades, “internalizava-se um departamento de produção de meios de produção”.
A existência de apenas um produto – o açúcar – com valor comercial significativo, fazia com que a dinâmica do Complexo Rural fosse alterada em função das flutuações no preço desse produto no mercado internacional. Assim, quando os preços caiam, todos os fatores de produção – homens, equipamentos e a terra – eram deslocados para a produção de bens necessários a manutenção das próprias unidades produtivas; o contrário acontecia quando o preço do produto destinado ao mercado externo voltava a apresentar um valor compensatório.
Com relação às atividades agrícolas voltadas ao abastecimento da população, isto é, a chamada lavoura de subsistência, cabe dizer que este tipo de atividade era desenvolvida, praticamente, dentro dos domínios da grande lavoura de exportação, ou seja, elas não comprometiam a sua reprodução e nem afetavam o funcionamento das instituições (MARTINS, 2003). Homens brancos livres e pobres, escravos, ex-escravos eram os que se dedicavam às culturas de subsistência. A proximidade do mercado consumidor como o Rio de
Janeiro e a falta de alternativas na região das Minas Gerais, contribuíram para ampliação das culturas de subsistência no Brasil. No entanto, “[...] as culturas de subsistência nunca deixaram de constituir atividades secundárias e subsidiárias em relação às grandes lavouras escravistas de exportação” (SZMRECSÁNYI, 1990, p.16).
De acordo com Szmrecsányi (1990), Prado Júnior (1996), Graziano da Silva (1996) e outros autores, essa foi a dinâmica que predominou na agricultura brasileira até meados do século XIX. A partir deste período, as pressões internacionais em favor do trabalho livre e o fim do tráfico internacional de negros africanos, no ano de 1850, foram os dois elementos que contribuíram para a crise e consequente fim do sistema produtivo definido como Complexo Rural.
Com a implantação da cafeicultura, a dinâmica da agricultura brasileira modificou-se radicalmente, pois, entre outros fatores, o cultivo do café impôs um deslocamento do eixo econômico do Nordeste para o Sudeste do Brasil, proporcionou ainda a abertura de novos mercados, entre eles os Estados Unidos e, acima de tudo, possibilitou a criação das bases para a industrialização do país. Contribuíram para este processo as seguintes questões: farta mão de obra vinda da crise da mineração e da decadência dos engenhos de açúcar nordestinos, mão de obra esta que mais tarde foi substituída pela força de trabalho dos imigrantes europeus e asiáticos. Além disso, a abundância de terras também colaborou com o desenvolvimento dos cafezais, sobretudo, as terras existentes no eixo Leste-Oeste do Estado de São Paulo.
Esses fatores possibilitaram uma produção elevadíssima de café entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX no Brasil. O saldo positivo obtido com a exportação do café permitiu aos grandes produtores reinvestir o capital acumulado. Estes investimentos não se resumiam a produção agrícola em si, mas estendiam-se a outras atividades, tais como, a abertura e ampliação de ferrovias, a instalação de pequenas indústrias, financiamento de bancos e outras atividades urbanas lucrativas (GRAZIANO DA SILVA, 1996. p.44). Além do café, o algodão e o cacau, este produzido no Sul da Bahia, também passaram a compor a agricultura brasileira de final do século XIX. Todavia, na virada do século XIX para o século XX, o café foi o produto que determinou os rumos da economia agrária brasileira.
Além dos seus aspectos econômicos, o desenvolvimento da agricultura no Brasil também está relacionado a fatores de ordem política. Isto é, no caso brasileiro, o desenvolvimento do capitalismo agrário tanto foi determinante quanto determinado por conjunturas políticas, isto porque, “[...] do mesmo modo como o Estado desenvolve diretrizes e atividades, de maneira a organizar e orientar a agricultura, também a agricultura ressoa nas
diretrizes e atividades do Estado” (IANNI, 1984, p.253).A passagem do Complexo Rural aos chamados Complexos Agroindustriais (CAIs) apresenta-se como um exemplo evidente da estreita relação entre economia e política no Brasil, ou seja, entre os interesses da classe econômica e os da classe política, ambas dominantes em diferentes épocas da história brasileira. As descrições acima referidas compõem, pois, o quadro sócio-histórico do processo de desenvolvimento da agricultura no Brasil, particularmente, aquele vigente nos quatro primeiros séculos que sucederam a ocupação Lusitana. O desenvolvimento da agricultura brasileira no século XX, embora finque raízes nos processos precedentes foi, como veremos, algo absolutamente novo.