Esta dissertação teve por objetivo analisar o setor eólico no estado do Rio Grande do Norte destacando os principais desafios ao seu desenvolvimento e o lugar do Nordeste e do Rio Grande do Norte no mapa da „expansão e diversificação‟ do setor elétrico brasileiro.
O estudo partiu da hipótese de que a energia eólica é um dos vetores de desenvolvimento do Nordeste e que os rebatimentos desta atividade sobre o desenvolvimento regional poderiam ser ampliados a partir da internalização, tanto quanto possível, da cadeia produtiva da energia eólica também na região.
Destaca-se que a hipótese da energia eólica como um vetor potencial de desenvolvimento não indica, em absoluto, que esta será a solução para as imensas contradições presentes desenvolvimento potiguar/nordestino.
A fim de verificar a hipótese da pesquisa. O estudo contemplou uma revisão bibliográfica centrada no papel do Estado na construção do Setor Elétrico Brasileiro (SEB), na evolução da energia elétrica no mundo/Brasil/Nordeste, bem como demonstrando o desempenho e potencial eólico no Rio Grande do Norte. O estudo também realizou uma pesquisa de campo junto a importantes atores relacionados ao tema no RN
Os resultados indicam que o Brasil, dado o recurso eólico extraordinário que possui e que complementa a fonte hídrica, introduziu políticas públicas de incentivo à produção, as quais resultaram em uma maior participação da energia eólica na matriz elétrica a cada ano.
De outra parte, também foi possível observar que o país, não sem percalços, tem registrados avanços na implementação da cadeia produtiva da atividade eólica no seu território, ainda que com uma capacidade produtiva limitada quanto ao fornecimento de equipamentos eólicos devido, fundamentalmente, à predominância de empresas estrangeiras e à dependência da importação dos componentes mais intensivos em tecnologia.
Observou-se ainda que, a evolução da cadeia produtiva segue um padrão concentrado, basicamente na região Sul/Sudeste, sendo o estado de São Paulo o destaque. No Nordeste, verifica-se que os estados do Ceará, Bahia e Pernambuco se sobressaem porque já possuem uma estrutura para montar todos os componentes e subcomponentes do setor eólico.
De modo geral viu-se que o país e o Nordeste estão acumulando conhecimento na montagem dos aerogeradores, na fabricação das torres (de concreto ou de aço) e nos processos de fabricação de bens para os parques. Entretanto, também foi possível observar que tanto no Brasil quanto no Nordeste, ainda é incipiente a geração de conhecimento através CT&I voltados para o setor eólico.
Como conseqüência, o desenvolvimento dos projetos são, em regra, realizados pelas empresas estrangeiras nos seus países de origem. De forma que, os aerogeradores e os componentes mais tecnológicos são fabricados para atuar com as características daqueles países. Então, todo o esforço de aprendizado, evolução e geração de conhecimento em novos equipamentos ou inovações no setor se volta para os principais mercados mundiais e para atender as necessidades destes países, e não necessariamente as do Brasil.
No caso específico do Rio Grande do Norte, a pesquisa de campo confirmou que o setor eólico é considerado um dos vetores de desenvolvimento do estado. Também confirmou o enorme potencial de produção que o RN possui e o seu lugar de destaque na geração de energia em nível regional/nacional.
Com relação às perspectivas de internalização da cadeia produtiva da eólica no estado, as conclusões anteriores para o Brasil/Nordeste não se alteram e se agravam mais ainda na escala estadual, dado o lugar do Brasil/Nordeste na cadeia global do setor. Os desafios relacionados à CT&I próprias para fazer frente às necessidades do setor ganham aqui, na escala local, especial relevância.
Aos desafios de CT&I se somam outros fatores limitantes, embora estes não sejam consensuais dentre os entrevistados. Os temas mais mencionados foram logística/infraestrutura (ex: linhas de transmissão, estrutura portuária) e qualificação de mão de obra ainda insuficientes para as necessidades do setor no estado.
Por outro lado, a voz do Governo do Estado do RN, representado pelo Secretário Adjunto da Secretária de Desenvolvimento Econômico, ressalta que o grande potencial eólico estado possibilita, pelo lado da oferta, que as empresas sejam atraídas a instalar- se no território. Todavia, observa-se este discurso não realça o papel estratégico do estado na ação mais efetiva e/ou ativa na condução do desenvolvimento da energia eólica no RN, a exemplo do que outros estados do Nordeste estão realizando. Porém, adverte-se que apenas a abundância de „vento‟ como vantagem comparativa frente aos demais estados - principalmente, CE, PE e BA, que veem atuando e desenvolvendo políticas específicas para o setor - não assegura ao RN atrair, manter e ampliar uma
cadeia produtiva da energia eólica. Logo, esperar pelas forças de mercado para a constituição de uma estrutura produtiva para RN, num cenário altamente competitivo na atração de fabricantes de máquinas e equipamentos eólicos, revela o despreparo do governo do RN no desenvolvimento de políticas públicas voltadas ao setor eólico. Ademais, o estado também revela pouca preocupação em melhorar a sua infraestrutura, que seria fundamental para alavancar competitividade, não só para atrair fabricantes do setor eólico, mas também para outros setores da economia.
A despeito dos desafios encontrados para que o setor eólico se constitua num real vetor de desenvolvimento do estado, viu-se que há espaço para a atuação de todos os atores: econômicos e institucionais como os governos (em suas variadas escalas), entidades de ensino e pesquisa, apoio/promoção. Neste sentido, muitas ações foram reveladas pelas entidades entrevistadas, as quais provavelmente impactarão sobre o setor eólico.
É plausível afirmar que, a combinação de políticas específicas relativas à produção, como o Proinfa e os Leilões de energia (fator competitivo para estabelecer menor preço da tarifa), associada a projetos CT&I voltados para a realidade do país/região/estado, poderia efetivamente estimular a atividade, com transbordamento sobre o desenvolvimento local. Logo, sugere-se que é preciso ir além da produção de energia por fonte eólica. É preciso investir mais e mais na tecnologia industrial, abrir parcerias com instituições e empresas líderes, visando acumular conhecimento e progredir tecnologicamente. Caso contrário, o país, a região Nordeste e o Rio Grande do Norte continuarão sendo dependentes da tecnologia estrangeira.
Acredita-se ainda que estas ações, somadas a inúmeras outras políticas públicas poderiam realmente empoderar e valorizar os espaços, conforme sugere Macedo (2015), quiçá redefinindo a lógica exógena que predomina no setor, na atualidade. Isto é sumamente importante, inclusive porque o Brasil/NE/RN apresentam elevado potencial em outras energias renováveis altamente estratégicas para o desenvolvimento sustentável neste milênio (ex: solar, bioenergia).
Entretanto, mesmo diante da atual conjuntura e da realidade em que o setor se encontra, com os complexos industriais estrangeiros predominando no território nacional, ainda assim é possível afirmar que a atividade eólica impacta sobre a estrutura produtiva do Nordeste e Rio Grande do Norte, deixando benefícios, como uma maior diversificação produtiva, geração de emprego e renda, aprendizado, dentre outros ganhos.
Por fim, considerando que não era pretensão deste estudo exaurir o tema, mas tão somente contribuir para o seu melhor entendimento, acredita-se que pesquisas futuras possam se somar a esta e fornecer ainda mais elementos para desvendar a relação entre o setor eólico e o desenvolvimento neste milênio. Questões como acesso à terra é um elemento de conflito em qualquer atividade no Brasil, particularmente na energia eólica. Ademais, outras questões como emprego, mudanças socioeconômicas e ambientais nas comunidades e municípios atingidos certamente se somam a este estudo e comporão futuras pesquisas.