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A ideia de sustentabilidade é mais recente do que a de desenvolvimento, que, por sua vez, se estabeleceu pela construção de problemas, pela aplicação de soluções e pela criação de “anomalias”, tais como analfabetos e subdesenvolvidos, os quais deveriam ser tratados e reformados. As transformações na Teoria do Desenvolvimento Econômico dos últimos 20 anos foram inevitáveis. Entretanto, conforme exposto anteriormente, não há um rompimento completo dos antigos modelos de desenvolvimento, “mas um processo mais complexo de transição e deslocamento de padrões relacionais, que repõe os nexos – e permite novas recombinações entre as dimensões econômica, social e política” (SILVEIRA, 2005).

Assim, por volta dos anos de 1980 e 1990, surgem novas acepções ou rotulações do desenvolvimento, como desenvolvimento endógeno, local, sustentável e outros, ampliando os paradigmas de desenvolvimento e buscando novas conceituações. É neste contexto que surge o conceito de Desenvolvimento Sustentável, emergindo em um esforço para abordar os problemas ambientais causados pelo crescimento econômico. Este termo foi formalizado em 1987, no Relatório Brundtland, elaborado pela Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, criada pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas47.

Em 1992, foi realizada a Conferência Mundial sobre Desenvolvimento e Meio Ambiente da Organização das Nações Unidas no Rio de Janeiro, conhecida como Rio-92, exatamente vinte anos depois da Conferência de Estocolmo, na Suécia. Na Rio-92, o discurso

47 O debate sobre as questões ambientais foi retomado no início dos anos de 1980 pela ONU, que indicou a então primeira-ministra da Noruega, Gro Harlem Brundtland, para chefiar a Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, criada para estudar o assunto. Como resultado, a comissão elaborou o Relatório Brundtland, também chamado de Nosso Futuro Comum (Our Common Future), em 1987. Este documento indica uma série de medidas que devem ser tomadas para promover o desenvolvimento sustentável, definido pelo relatório como “aquele que atende às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem às suas necessidades”.

de sustentabilidade assume nova dimensão planetária e passa a ser um compromisso firmado por mais de 170 países. O seu principal resultado é a “Agenda 21”, cuja meta seria preparar o mundo para os desafios do século XXI - estabelecendo um novo padrão de desenvolvimento – amparado no tripé ‘justiça social, proteção ambiental e eficiência econômica’. É um programa de ação para ser aplicado em esferas global, nacional e local, por organizações das Nações Unidas, governos, setor privado e grupos locais, nas diversas áreas onde se verificam impactos significativos no meio ambiente. Representa uma estratégia conjunta, um plano de ação para melhorar a qualidade de vida em todas essas esferas, garantindo a sustentabilidade do Planeta.

Ao lado da sustentabilidade econômica e da sustentabilidade sócio-política, a sustentabilidade ambiental constitui-se, hoje, um dos pilares do desenvolvimento sustentável. De uma maneira simplista, pode-se dizer que a sustentabilidade ambiental consiste na manutenção das funções e componentes dos ecossistemas, a sustentabilidade econômica num conjunto de medidas que incorporam preocupações e conceitos ambientais e sociais. Já a sustentabilidade sócio-política estaria centrada no equilíbrio social48. Isto significa adotar iniciativas sociais, econômicas e ambientais que melhorem a qualidade de vida das gerações atuais e futuras, planejando os diferentes usos dos recursos naturais para atender às necessidades humanas e promovendo o chamado Desenvolvimento Sustentável.

Planejar a sustentabilidade no âmbito regional significa considerar as esferas global e local ao mesmo tempo nas relações entre sociedade e meio ambiente. Além disso, como bem ressalta Mathis [s.n.t] no artigo intitulado “Instrumentos para o Desenvolvimento Sustentável Regional”, é preciso considerar, ainda, as peculiaridades de cada região na construção do modelo de desenvolvimento49.

Sustentabilidade ambiental no nível regional significa organizar as relações entre sociedade e natureza de uma maneira que os fluxos energéticos e materiais que resultam dessa relação estejam, por um lado, encaixados dentro de um fluxo sustentável no nível global, e por outro lado, adequados às diversas condições ecológicas locais. Isso pressupõe reconhecer que cada região conforme sua dotação ecológica exige um modelo de desenvolvimento diferente, e que não existe a possibilidade de transferir ou copiar experiências de outras regiões. Planejamento para o desenvolvimento regional significa elaborar peças únicas (MATHIS, s.n.t).

48 As Nações Unidas, através das Metas de Desenvolvimento do Milênio, procura garantir ou melhorar a sustentabilidade ambiental através de quatro objetivos principais: integrar os princípios do desenvolvimento sustentável nas políticas e programas nacionais e reverter a perda de recursos naturais; reduzir de forma significativa a perda da biodiversidade; garatir acesso à água potável e saneamento e combater a pobreza. 49 Texto produzido no âmbito do Grupo de Pesquisa Amazônia 21, sem notas tipográficas (s.n.t). Nesse artigo, o cientista político Armin Mathis faz uma reflexão sobre alguns instrumentos para implementar o desenvolvimento sustentável, além de provocar uma “discussão das suas possíveis adequações para a Amazônia e sobre as formas de fortalecimento do capital social levando em consideração que qualquer atitude de aumentar a capacidade de auto-organização e autogestão no nível local é uma contribuição para a democratização".

Nesse mesmo artigo, este cientista político diz que uma política de desenvolvimento que tenta operacionalizar essas regras de atuação para alcançar a sustentabilidade regional precisa, necessariamente, ser abrangente, intervindo, ao mesmo tempo, nas dimensões ambiental, econômica, social e institucional. Para ele, a sustentabilidade deve se manifestar em cada dimensão de uma forma diferente50.

Essas dimensões devem permear as tomadas de decisões para mudanças globais. Para adotá-las no seu conjunto, é preciso planejar as ações – e reconhecer que os recursos naturais não são inesgotáveis. O desenvolvimento sustentável é uma questão complexa e a aplicação de seus princípios envolve e exige mudanças no modo de produção vigente, bem como do próprio consumo, modificando sensivelmente a forma de pensar e de viver. O planejamento requer a reorganização do uso dos recursos naturais e a forma como os seus benefícios são compartilhados. Esta é uma estratégia, uma indicação de rumo a ser tomado para alcançar o desenvolvimento sustentável.

Sobre os elementos de estratégia com esse objetivo, Fearnside (1997) chama a atenção para o fato de que a estratégia deve ser baseada no que é mais provável para proporcionar uma base econômica de suporte para uma população – um suporte que define o desenvolvimento sustentável. Para este pesquisador, o mais provável é “transformar algo que é sustentável em desenvolvimento do que tentar fazer com que uma forma de desenvolvimento não-sustentável se converta em sustentável” (FEARNSIDE, 1997, p. 317). Como exemplo do que seria essa transformação, este pesquisador traduz:

Em vez de tentar prolongar a vida das pastagens por meio de adubos e mudanças nas espécies de capim, é melhor começar com a floresta tropical, que já se provou sustentável por milhares de anos de existência, e encontrar maneiras de introduzir no mercado os serviços que a floresta oferece (FEARNSIDE, 1997, p. 317)

Vender os serviços ambientais das florestas como base de desenvolvimento sustentável seria uma estratégia de longo prazo, porém precisa ter critérios imediatos. Quanto vale um serviço ambiental para manter uma floresta como a Amazônia, por exemplo? Até quanto as pessoas e países estão dispostos a pagar para manter as florestas? Até onde conseguem abrir mão do próprio lucro em prol da natureza? Quantos estão dispostos a mudar o seu estilo de vida e reduzir o consumo para manter a estabilidade dos ecossistemas, sustentar a população que habita as florestas (que precisam de respostas a curto prazo) e evitar perdas do patrimônio da floresta? É preciso reconhecer, como foi dito anteriormente, que os

recursos naturais são esgotáveis e que o seu uso implica em impor limites – e mudanças no modo de produção e na maneira de viver.

Reconhecer é uma atitude que geralmente advém de uma reflexão. Reconhecer o limite no uso dos recursos naturais ou reconhecer o direito do próximo e a necessidade de desenfrear a acumulação capitalista, ter preocupação com o desequilíbrio ambiental e com o mundo de amanhã. É preciso planejar, construir e aplicar uma política de desenvolvimento que inclua aquelas dimensões. Esse planejamento e reconhecimento são mais do que necessários. Como bem ressalta Castro (2010, p.11), é preciso reconhecer que as gerações futuras têm o direito a gozar de um ambiente saudável e das riquezas naturais – e aceitar que o crescimento econômico possa ir na contracorrente da concentração de renda, reduzindo a pobreza, a miséria e a injustiça.

O conceito de desenvolvimento sustentável expressa o desejo, ou a meta, de se encontrar uma outra via de desenvolvimento que não seja simplesmente o crescimento econômico. Um outro desenvolvimento que desse conta da questão social e da pobreza que crescia no mundo, como uma dimensão da justiça social. E que fosse um desenvolvimento ambientalmente sustentável. Isso queria dizer conseguir um equilíbrio ambiental como um compromisso ético (CASTRO, 2010, p. 11).

Dessa forma, o Desenvolvimento Sustentável seria uma tentativa de explorar a relação entre desenvolvimento e meio ambiente e, como ressalta Banerjee (2003), envolve uma racionalidade do mundo dos negócios, a lógica de mercado e da acumulação capitalista para determinar o futuro da natureza. Por isso, critica o Desenvolvimento Sustentável que, para ele, “ao invés de representar a quebra de um paradigma teórico, é subsumido sob o paradigma economicista dominante” (BANERJEE, 2003, p. 76).

Para Banerjee (2003), seria necessário situar o discurso do Desenvolvimento Sustentável dentro do discurso mais geral do desenvolvimento que, para ele, tornou-se apenas uma nova nomenclatura para o crescimento econômico: “A lógica era de que o crescimento econômico deveria ser maximizado, o que traria alívio para a pobreza pela criação de riqueza, a qual poderia ser usada para resolver problemas sociais” (BANERJEE, 2003, p.79). É uma lógica contraditória, porém, presente no discurso da maioria dos atores da CAINDR, como veremos mais adiante. Em nossa análise constatamos, exatamente, que muitos membros desta comissão fazem fervorosa defesa do crescimento econômico como uma solução para a pobreza na Amazônia – mesmo quando falam em defesa do desenvolvimento sustentável, mostrando, claramente, esse uso indevido do termo.

Redclift (2003) diz que a sustentabilidade tem sido propriedade de diferentes discursos que têm se enfrentado na arena dos interesses internacionais – e nacionais, regionais e locais

também, como veremos mais adiante nos discursos analisados nesta pesquisa. De maneira crescente, a “sustentabilidade” foi se separando do meio ambiente e a sustentabilidade ambiental foi confundida com questões mais amplas de equidade, governabilidade e justiça social, sendo usada como “sufixo” para quase qualquer coisa julgada desejável. Este autor acrescenta, ainda, que muito da “retórica ambiental” falha em reconhecer que os objetivos ambientais e sociais são diferentes e, às vezes, contraditórios. Para ele, a natureza crescentemente discursiva da política ambiental internacional apresenta outros perigos, esquecendo-se o fato de que o debate natureza/cultura está sendo materialmente rescrito através da genética e da informática.

Sobre a nova linguagem do Desenvolvimento Sustentável, Banerjee (2003) diz que a compreensão científica, a cidadania, os direitos das espécies e a equidade intergerencial obscurecem as desigualdades e distinções culturais que cercam os recursos naturais. Para ele, o discurso do Desenvolvimento Sustentável é uma nova retórica de legitimação do mercado, do capital transnacional, da ciência, da tecnologia e os vários discursos em torno deste desenvolvimento precisam ser desmascarados e desconstruídos.

Esse debate indica a necessidade de focalizar e rever tanto a ideia de sustentabilidade, como o conceito e a aplicação do termo desenvolvimento. Os impactos causados ao meio ambiente em nome do desenvolvimento econômico são significativamente mais prejudiciais às populações humanas, sobretudo, aos povos mais pobres dos países do Terceiro Mundo. As mudanças nos modos de vida indicam transformações, inclusive, nas formas de agir como humanos. O desenvolvimento sustentável é uma questão complexa, pois a aplicação de seus princípios envolve e exige mudanças na visão da produção vigente, bem como do próprio consumo, modificando sensivelmente a forma de pensar e de viver, em síntese.

Pelos seus valiosos recursos naturais, a Amazônia vem sendo sempre associada ao meio ambiente. Já a questão ambiental tem sido um princípio organizador das estruturas discursivas sobre poder, economia, relações internacionais e até intercâmbios. Associada à temática social torna-se uma questão de política e de modelo de desenvolvimento, cuja problemática ocorre em níveis local, nacional e global e apresenta-se transversal na relação Estado-Sociedade (CASTRO, 2004). A questão ambiental vem surgindo como uma das temáticas mais interessantes para pensarmos as relações entre o público, o privado e a cidadania. Compreendê-la como um bem comum, é compreendê-la como um espaço de ação política.

2.3 DISCURSO E TRAJETÓRIA DO ‘DESENVOLVIMENTO’ NA AMAZÔNIA: A

Benzer Belgeler