Tomando a memória como um dos pontos de reflexão a partir de Narradores de Javé, pode-se perceber que, no caso do Vale do Javé, ela é fundada na experiência tanto individual – uma vez que muitos dos narradores partilham suas histórias de vida – quanto coletiva, já que o mote principal é a história sobre a origem de Javé, a memória da comunidade. Essa memória é atualizada via narrativa, cuja matéria- prima torna-se a experiência do narrador.
Num contexto de problematização quanto ao papel do narrador com o surgimento do romance, Walter Benjamin (1996) acaba por diferenciá-lo do romancista, atribuindo ao primeiro a peculiaridade de retirar da sua experiência e da alheia o que ele conta, diferentemente do segundo. Benjamin considera que a matéria-prima do narrador da tradição oral é a experiência, que funda sua relação com a comunidade. Duas imagens retratariam esse narrador: a do viajante, que retira de suas aventuras longe de suas terras a base para sua narrativa, e a do camponês sedentário, cuja experiência seria pautada em sua vida na comunidade.
Durante a narração, tal experiência se mistura às experiências dos ouvintes, que a assimilam às suas próprias experiências e a recontarão um dia, contribuindo para sua manutenção. Para Benjamin (1996), “ela [a narrativa] mergulha a coisa na vida do narrador para em seguida retirá-la dele. Assim se imprime na narrativa a marca do narrador, como a mão do oleiro na argila do vaso” (BENJAMIN, 1996: 205).
32 A narrativa seria, então, um atualizador de experiências, uma forma de partilhar conselhos e sabedorias, mas com uma estrutura que permite ao ouvinte alcançá-los por ele mesmo, já que o gesto interpretativo não se faz presente. Nesse sentido, é por meio do narrador da tradição oral, aquele “que sabe dar bons conselhos” (BENJAMIN: 1996: 200), que se teria acesso aos elementos norteadores de cada comunidade. Tomando essa reflexão benjaminiana para pensar os contos orais, Vera Lúcia Felício Pereira (1996) ressalta que a função do narrador é estabelecer a relação entre o novo e o antigo: “Os contos orais exercem em seu contexto a função social de ensinar às gerações um modo de conciliação do muito novo e do extremamente antigo, mesmo arcaico, ideando uma colagem que sugira os caminhos do que se pensa moderno sem o abandono do passado” (PEREIRA. 1996: 62).
Se os contos orais teriam a função de repassar um ensinamento e ligar as gerações, ou seja, o passado e o presente com vias a um futuro, caberia ao narrador tal qual percebido por Benjamin fazer o papel de mediador nesse processo. No ato de narrar, os tempos se imbricariam e seria o narrador o elo entre o passado vivido e sua presentificação – ou atualização – por meio da narrativa. Dessa forma, essa memória fundada na experiência se realizaria na narração. É no momento em que há a relação narrador/ouvinte que a memória parece adquirir forma e se atualizar.
Voltando o olhar para os testemunhos e os relatos de experiências traumatizantes, como a dos campos de concentração nazistas no período da II Guerra Mundial e as do período da ditadura militar na América Latina, principalmente na Argentina, Beatriz Sarlo (2007) considera que não há experiência sem narrativa. Para ela, “a linguagem liberta o aspecto mudo da experiência, redime-a de seu imediatismo ou de seu esquecimento e a transforma no comunicável, isto é, no comum” (SARLO, 2007: 24). Assim, podemos considerar que o ato de narrar refere- se a uma atualização do passado para dotar de sentido o presente, o que, segundo Sarlo, funda uma temporalidade que a cada repetição e a cada variante torna a se atualizar. Entra em cena o papel da memória, não como um banco de dados ao qual se tem acesso com a lembrança, mas como um processo social que se dá via narrativa, e que pode ser constituída tanto da experiência do passado quanto de certa expectativa de futuro.
33 Nesse sentido, se tomarmos as considerações de Reinhart Koselleck (2006) sobre a construção dos tempos históricos, que, segundo ele, se daria na relação que se estabelece entre passado e futuro, o que ele chama de “espaço de experiência” e “horizonte de expectativa”, podemos pensar também a memória como uma construção que se dá nesse imbricamento de tempos. Segundo Koselleck, “a experiência é o passado atual, aquele no qual acontecimentos foram incorporados e podem ser lembrados” (KOSELLECK, 2006: 309), e estaria tanto ligada à pessoa e ao interpessoal. Da mesma forma se daria a expectativa, ou o futuro, haja vista que, segundo ele, “(...) a expectativa se realiza no hoje, é futuro presente, voltado para o ainda-não, para o não experimentado, para o que apenas pode ser previsto” (KOSELLECK, 2006: 310).
Tais considerações sobre o tempo histórico parecem ser pertinentes para se pensar a construção da narrativa da memória, que diz dos tempos passado e futuro no tempo presente em que ela é atualizada. Essa atualização, por sua vez, aconteceria na relação com o outro, ou seja, na esfera do social, que se dá no presente. É nessa interseção entre tempos e na tensão entre o individual e o coletivo que se construiria a memória, que, por sua vez, diz da experiência do sujeito, marcada pela experiência coletiva, uma vez que se trata de um processo construído socialmente, mas que possui marcas de uma individualidade.
Esse pensamento a respeito da relação entre narrador, experiência e memória encontra ressonância em Narradores de Javé. Como considera o crítico Alexandre Werneck, a memória no filme “é feita na fala, é produzida pela narração” (WERNECK, 2008). Todo movimento em torno da construção de uma memória da comunidade passa pela narração da experiência daqueles que contam suas histórias. Se é na oralidade que se funda a memória da comunidade, esta é articulada em forma de narrativa, em torno da qual as relações sociais e os laços identitários parecem se estabelecer. À primeira vista, pensamos tratar-se de uma narrativa que diz respeito ao mito de origem da comunidade. O que o filme mostra, no entanto, é que não há uma coerência nesta narrativa. Não seria uma narrativa da memória de Javé, mas várias. O que se tem são histórias partilhadas coletivamente e moldadas de acordo com o grau de interesse dos narradores, aos quais é atribuída a autoridade sobre a memória da comunidade.
34 Em artigo intitulado De mãos dadas com Mnemósine e Clio: narradores de memórias e sujeitos históricos em Narradores de Javé, a historiadora Soleni Biscouto Fressato (2005) considera a memória como uma construção do presente, a partir das experiências e vivências do passado, que está em constante mudança, sendo, portanto, seletiva. Para ela, “pela verbalização de suas memórias, os moradores de Javé constroem e reconstroem seu passado, a partir das perspectivas presentes” (FRESSATO, 2005: 5).
Ao colocar a “verbalização de suas memórias” como forma de reconstruir o passado, Fressato acaba por aproximar-se da noção de Maurice Halbwachs, sociólogo da tradição da sociologia francesa, herdeiro de Durkheim e primeiro estudioso das relações entre memória e história pública, que considera a memória como algo construído nas interações sociais. Em A Memória Coletiva, Halbwachs (1990) volta o olhar não apenas para a memória em si, mas para os quadros sociais da memória. Para ele, lembrar não é reviver, mas refazer, reconstruir, repensar, com imagens e idéias de hoje, as experiências do passado. Cada memória individual seria um ponto de vista sobre a memória coletiva, aquela criada a partir das relações sociais e do reconhecimento do indivíduo nessas relações. Para ele, o que é relembrado, a forma como o é e a ação de relembrar já estariam permeados pelo presente, pelo que está atual, e se daria na relação com o outro. A memória individual estaria amarrada à memória do grupo e esta a uma esfera maior da tradição, que é a memória coletiva de cada sociedade.
Retomando o conceito de memória coletiva segundo Halbwachs, Ecléa Bosi (2001), ao discutir a relação da sociedade com a memória, especialmente em se tratando da memória dos mais velhos, considera que esta teria um princípio central de conservação do passado e a soma das memórias individuais, principalmente dos guardiões da tradição – os mais velhos – traçaria o retrato da memória coletiva de um lugar. A existência de uma memória coletiva geraria um sentimento de pertencimento, um despertar para as tradições e para a construção da identidade individual. O instrumento socializador da memória, para ela, seria a linguagem, independentemente de como ela se apresenta. Para Bosi, “as convenções verbais produzidas em sociedade constituem o quadro ao mesmo tempo mais elementar e mais estável da memória coletiva” (BOSI, 2001: 56).
35 Numa vertente que não a de Halbwachs, Michel de Certeau (1994) também coloca a memória como algo intrínseco à relação social, às práticas que se dão no cotidiano. Retoma o sentido antigo do termo, considerando a memória como a designação de uma presença à pluralidade dos tempos, ou seja, ela não se limitaria ao passado. Para Certeau, a memória não estaria pronta de antemão, mas se mobilizaria relativamente ao que acontece. Assim, ela transformaria as situações- surpresa em ocasiões e dependeria do outro para de fato acontecer. Na sua capacidade de ser alterada, deslocada e não ter lugar fixo residiria sua força. Segundo Certeau,
O modo da rememoração é conforme ao modo da inscrição. Talvez a memória seja aliás apenas essa ‘rememoração’ ou chamamento pelo outro, cuja impressão se traçaria como em sobrecarga sobre um corpo há muito tempo alterado já mais sem o saber. Essa escritura originária e secreta ‘sairia’ aos poucos, onde fosse atingida pelos toques. Seja como for, a memória é tocada pelas circunstâncias, como o piano que ‘produz’ sons ao toque das mãos. Ela é sentido do outro. E por isso ela se desenvolve também com a relação (...). (CERTEAU, 1994: 163)
O que ele reforça é que a memória não está em si mesma, mas sim no lugar do outro, de modo que ela se desloca, ou seja, é regulada pelo que ele considera “jogo múltiplo da alteração” (CERTEAU, 1994: 163). Desse modo, Certeau traz uma perspectiva diferenciada da de Halbwachs para se pensar a memória, embora também a associe às relações sociais que se dão no cotidiano. Para Certeau, a memória é muito mais maleável e passível de ser alterada e deslocada do que pressupõe o conceito de memória coletiva a partir de Halbwachs.
Também Andréas Huyssen (2000) revê o conceito de memória coletiva tal qual preconizado por Halbwachs, considerando-o insuficiente nas sociedades contemporâneas. Ao pensar a construção midiática da memória política, Huyssen afirma que tal conceito pressupõe formações de memórias sociais e de grupos relativamente estáveis, o que não seria adequado para se pensar a dinâmica atual da mídia e da temporalidade e os paradoxos da memória em relação ao tempo vivido e ao esquecimento. Para Huyssen,
36 As contrastantes e cada vez mais fragmentadas memórias políticas de grupos sociais e étnicos específicos permitem perguntar se ainda é possível, nos dias de hoje, a existência de formas de memória consensual coletiva e, em caso negativo, se e de que forma a coesão social e cultural pode ser garantida sem ela. (HUYSSEN, 2000: 19)
Se, de acordo com Huyssen, o conceito de memória coletiva não é adequado na sociedade contemporânea, chama-nos atenção o fato um filme contemporâneo como Narradores de Javé abordar tal tema, ainda mais por colocar em cena a figura de narradores que se assemelham àqueles sobre os quais discorreu Benjamin e que, para ele, já estariam em extinção na Modernidade.
Tais narradores ocupam papel central na trama, a ponto de serem evidenciados no título do filme. Cabe a eles o papel de acionar o passado com vias a um futuro, na tentativa de evitar a construção da represa. Apesar de toda a mobilização em prol desse objetivo comum, não há como barrar as águas e evitar o progresso.
Um dos aparentes motivos disso parece ser porque a relação dos narradores com a memória e a experiência acontece de modos diferenciados e não se consegue construir uma narrativa única que abarque a memória coletiva do lugar. Por causa dessa divergência, há na trama certo tom ao mesmo tempo dramático e cômico, sobre o qual pairam a incerteza, a instabilidade e a incoerência entre as narrativas. A memória coletiva parece ser, ao mesmo tempo, aquilo a que se credita a estabilidade da vida em comunidade e o que a desestabiliza; o grande patrimônio coletivo, mas cuja autoridade sobre ele é disputada individualmente; algo construído pela experiência comum partilhada, mas, ao mesmo tempo, incrementado pela imaginação de cada narrador. Da mesma forma, o narrador, que se apresenta como o grande guardião da memória do lugar, tal qual o narrador da tradição oral, não dá mais conta da sua tarefa de narrar experiências e, com elas, passar um conselho e orientar a vida em comunidade. Ao brincar com a dificuldade dos narradores de elaborarem uma memória coletiva coerente e ao construir cada um deles com uma relação diferenciada com a memória e a experiência, o filme parece problematizar tanto o papel do narrador quanto a função da memória nos dias atuais.
Todos esses apontamentos estão presentes numa narrativa fílmica produzida em 2003, que se volta para um espectador contemporâneo. Trata-se de uma narrativa atual, que retoma em sua estrutura uma discussão sobre a memória,
37 utilizando, para isso, elementos que dizem de uma tradição pré-moderna, como os narradores da tradição oral, o sertão rural, o mito de origem e o herói picaresco. Assim, ao apresentar uma memória coletiva descolada e individualizada, ao trazer um “historiador” picaresco e irônico em relação às suas fontes, ao retomar o sertão e o malandro, Narradores de Javé não estaria assumindo uma atitude contemporânea e urbana frente à tradição cultural brasileira e buscando aproximar-se de seu espectador? Se, ainda na Modernidade, Benjamin afirmou que o narrador tradicional, aquele que fundava sua narrativa na experiência, estava em vias de extinção, por que retomá-lo num filme contemporâneo? Qual seria, portanto, o papel da memória coletiva na sociedade contemporânea, à qual o filme se destina? Como narrar atualmente?
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