Para compreendermos a filosofia de Espinosa é preciso situar o alcance de sua crítica perante as concepções filosóficas do seu tempo. Espinosa foi um crítico da tradição teológica-metafísica do seu tempo e, ao mesmo tempo da ciência nascente. Isso lhe custou a excomunhão de sua própria comunidade judaica.
Muitos afirmam que a filosofia de Espinosa é uma filosofia da alegria, da felicidade e, porque não, uma filosofia da saúde. (CHAUI, 2011). Mas o que nos permite pensar a filosofia de Espinosa como sendo aquela capaz de abarcar grande parte desses ideais tão nobres e desejados por todos?
Na abertura do Tratado de emenda do intelecto, Espinosa afirma:
Tendo eu visto que todas as coisas de que eu me arreceava ou temia continham em si nada de bom nem de mau senão enquanto o ânimo se deixava abalar por elas, decidi, enfim, indagar se existia algo que fosse um bem verdadeiro, comunicável e pelo qual unicamente, afastado tudo o mais, o ânimo fosse afetado; mas ainda, se existia algo que, uma vez encontrado e adquirido, me desse eternamente a fruição de uma alegria contínua e suprema. 33
O desejo de Espinosa é preciso: procurar um caminho que o faça feliz e o livre da culpa. Em outras palavras, Espinosa está desejando romper com os dois “fardos” que até então o subjugaram, a saber, o fardo da tradição teológica-religiosa, baseado na ideia de transcendência, e o fardo da normatividade moral, cujo princípio era a heteronomia, uma vez que o sujeito já não podia deixar de direcionar sua vida senão pelos valores que lhe foram impostos pelo rei e, conseqüentemente por Deus.
O homem é visto pela tradição teológica-metafísica como um ser perdido, devido ao pecado, necessitado assim da Graça Divina. O primeiro resultado da ação livre do homem foi o pecado e por essa razão ele não pode mais deixar se guiar por si mesmo, sendo necessário seguir as normas e decretos divinos. Daí resulta a condição de heteronomia a que está sujeito o homem.
Para que se possa compreender melhor a crítica de Espinosa, alguns conceitos chaves precisam ser melhor elucidados: Deus, a natureza do homem e sua relação com mundo.
Como vimos, a tradição-teológica parte do princípio de que Deus é um ser transcendente, onipotente, onisciente, eterno, criador do mundo, a partir do nada (“creatio ex nihilio”), por meio de uma ato livre. Deus não só cria o mundo, mas decreta leis que garantem a harmonia do cosmos. Por ser o legislador do universo tudo está submetido à sua vontade, de modo que está ao seu alcance suspender as leis naturais se assim o desejar, como no caso dos milagres.
Mas Deus não só cria o universo como também o homem. Criado à sua imagem e semelhança, o homem expressa a vontade de Deus por meio do seu livre-arbítrio. Contudo, caso o use de forma inadequada, Deus pode, como meio pedagógico de tentar salvar a criatura, impor-lhe castigos, como também pode beneficiá-lo com o paraíso. Essa imagem de Deus se apresenta incompreensível aos olhos humanos. Ora ele se coloca como bom, justo, misericordioso, amoroso, ora se apresenta como vingador, temido, colérico. (CHAUI, 2006). Em uma mesma natureza divina se encerram elementos humanos, pois a transcendência se confunde com a finitude dos homens.
Como Espinosa concebe Deus? Essa pergunta é fundamental e longe de estarmos aqui fazendo um tratado teológico sobre a natureza divina estamos apresentando os alicerces que constituíram toda a filosofia espinosana. A crítica da transcendência é condição necessária para a compreensão da imanência e do conceito de homem.
Espinosa parte de um conceito bem preciso, a saber, o de substância. Com efeito, nos afirma Espinosa (2010, p.13): “Por substância compreendo aquilo que existe em si e que por si mesmo é concebido, isto é, aquilo cujo conceito não exige o conceito de outra coisa do qual deva ser formado”
Em outras palavras, Espinosa ainda não está rompendo com a tradição, pois Tomás de Aquino já afirmara que somente em Deus coexistem a essência e a existência, ou seja, só ele é causa de si mesmo. Ao causar a si mesmo, a substância causa o universo todo, entendido em sua essência e existência. Ela é absolutamente infinita, no sentido de que é capaz de produzir a si mesmo de modo incondicionado e não no sentido meramente negativo do conceito de infinito, que atribui algo como sem começo e sem fim. Isso já começa a nos distanciar da tradição, apesar de ainda não radicalizar tal distanciamento. Sendo assim, Espinosa então lança mão do seu conceito de Deus: “Por Deus compreendo
um ente absolutamente infinito, isto é, uma substância que consiste de infinitos atributos, cada um dos quais exprime uma essência eterna e infinita”.34
Por “atributos infinitos” podemos entender infinitas qualidades infinitas, sendo desse modo um Ser extremamente complexo, capaz de se autogerar e gerar todas as coisas. Por essa razão que a existência coincide com sua essência. É a isso que Espinosa denomina de eternidade. “Por eternidade compreendo a própria existência, enquanto concebida como se seguindo, necessariamente, apenas da definição de uma coisa eterna”.35 Isso significa que
a eternidade não é mais um tempo sem começo e sem fim, como pensava a tradição teológica-filosófica, mas sim passa a ser a identidade do ser e do agir.
Desse modo, só há uma substância que pode ser infinita e eterna, que existe em si e por si, e que por si mesma, sem sentir-se coagida, pode gerar o universo inteiro. Essa substância é Deus.
Essas considerações acerca de Deus e de sua ação produtora de coisas no mundo trazem implicações ousadas. Ao mesmo em tempo que Deus causa a si mesmo ele causa o universo inteiro, não por um ato de vontade deliberada, mas por necessidade. Eis a heresia de Espinosa: Deus não cria o mundo, ou seja, ele é eterno e também não teve escolha em produzi-lo, mas se apresenta como uma derivação necessária de sua essência e existência.
Nas palavras de Chauí (2006, p.117): “O mundo é eterno porque exprime a causalidade eterna de Deus, ainda que nele as coisas tenham duração, surgindo e desaparecendo em cessar, ou melhor, passando incessantemente de uma forma a outra”
Contra a transcendência de Deus insurge a imanência, isto é, Deus não é mais causa eficiente transitiva de todas as coisas, mas causa imanente, o que significa que Ele não se separa daquilo que Ele mesmo produziu. As coisas, assim, O exprimem e nelas se pode sentir Deus.
Da imanência de Deus surgem duas modalidades de ser e de existir: a própria de Deus, como substância infinitamente infinita dotado de infinitos atributos e dos modos da substância. Por modos ou modificações entendemos os efeitos imanentes necessários produzidos pela potência dos atributos. “Por modo compreendo as afecções de uma
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Ética I. Definição 6.
substância, ou seja, aquilo que existe em outra coisa, por meio da qual é também concebida”.36
Em outras palavras existem duas formas de vida: a de Deus, dotado de infinitos atributos, que Espinosa denomina de Natureza Naturante e o mundo, entendido como a totalidade dos modos que são produzidos por Deus, denominada Natureza Naturada.
Disso decorre não haver mais um legislador do universo capaz de decretar ou suspender leis ao seu bel-prazer. A ordem do mundo nada mais é do que a conexão necessária de causas e efeitos produzidos pela potência imanente da substância infinita.
Devido a nossa finitude e limitação racional, conhecemos, dos infinitos atributos de Deus, somente dois, a saber, o Pensamento e a Extensão. O primeiro produz um modo infinito, o Intelecto de Deus, como também produz modos finitos, como as mentes humanas. Do atributo Extensão geram-se também dois outros modos: um modo infinito, que são as leis físicas da natureza (movimento, repouso, proporção) e um modo finito, que são os corpos.
Fixemos nossa atenção nos modos finitos dos atributos Pensamento e Extensão. Na proposição 7 da Parte II da Ética, Espinosa afirma: “[...] um modo da extensão [um corpo] e a ideia desse modo [pensamento] são uma só e mesma coisa, expressa, todavia, de duas maneiras”37
É a partir dos modos finitos que Espinosa pensa seu conceito de homem. Contrariamente ao que se apregoava na tradição teológica-metafísica, o homem não é uma “substância” finita, pois substância é somente aquilo que existe em si e por si, nesse caso somente Deus é substância, mas sim um modo finito dos atributos Pensamento e Extensão.
A antropologia filosófica de Espinosa se contrapõe ao homem tomista entendido como um composto de matéria e forma (unio substancialis) como também se contrapõe ao conceito cartesiano de composto mente-corpo. Não há no homem duas substâncias como apregoara Descartes, a saber, res cogitans e res extensa. Nessa nova antropologia inaugurada por Espinosa, o homem é apenas uma maneira de ser singular, oriunda da mesma natureza divina, porém se exprimindo de modo finito.
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Ética I. Definição 5.
Por “ser singular” Espinosa quer dizer todo aquele ser que existe de forma determinada e finita e que não pode, por si só, coincidir essência e existência. Enfim, é singular porque não é substância. Nas palavras de Espinosa (2010, p.81):
Por coisas singulares compreendo aquelas coisas que são finitas e que têm uma existência determinada. E se vários indivíduos contribuem para uma única ação, de maneira tal que sejam todos, em conjunto, a causa de um único efeito, considero-os todos, sob este aspecto, como uma única coisa singular. 38
Para Espinosa é preciso considerar que o homem é um ente singular complexo. Isso significa que em ambos os modos (pensamento e extensão) há uma relação intrinsecamente dinâmica que contribuem para a manutenção e preservação da vida.
No que se refere ao modo Extensão, Espinosa nos afirma que ele deve ser visto como sendo constituído por uma série diversificada e plural de elementos. Tais elementos se caracterizam por suas qualidades: duros, moles, fluídos que se relacionam numa teia dinâmica de proporções que visam o equilíbrio (movimento / repouso). Em seus postulados da Parte II da Ética, Espinosa assim define o corpo humano:
1.O corpo humano compõe-se de muitos indivíduos (de natureza diferente), cada um dos quais é também altamente composto.
2.Dos indivíduos de se que compõe o corpo humano alguns são fluidos, outros moles e, outros, enfim, duros.
3.Os indivíduos que compõem o corpo humano e, conseqüentemente, o próprio corpo humano, são afetados pelos corpos exteriores de muitas maneiras.
4. O corpo humano tem necessidade, para conservar-se, de muitos outros corpos, pelos quais ele é continuamente regenerado.
5. Quando uma parte fluida do corpo humano é determinada, por um corpo exterior, a se chocar, um grande número de vezes, com uma parte mole, a parte fluida modifica a superfície da parte mole e nela imprime como que traços do corpo exterior que a impele.39
Esses postulados buscam entender o corpo humano não como entidade isolada, mas sim dinâmica e complexa, que interage com outros corpos por meio de afecções, que lhes permitam afetar e deixar serem afetados por outros corpos no intuito de se regenerarem e de se transformarem.
No que se refere à mente, Espinosa considera importante desconstruir alguns conceitos que ao longo da história do pensamento filosófico contribuíram para aprisionar o
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Ética II. Definição 7.
homem em superstições. Em secções anteriores vimos que a tradição teológica-metafísica alimentou-se do ideário, primeiramente platônico, de que a alma era a grande condutora da vida humana. Metaforicamente falando, a alma era como um piloto no navio. O corpo nada mais era do que o túmulo da alma e só lhe servia como uma morada provisória. Por essa razão o cuidado maior deveria ser dado à alma e nem tanto ao corpo. 40
Em Aristóteles, a alma era vista como órganon, ou seja, um instrumento. E por meio dela que o corpo age no mundo e se relaciona com os demais seres. É graças ainda a Aristóteles que temos a famosa divisão da alma em três modalidades: alma vegetativa, alma sensitiva e alma racional, como já vimos anteriormente. Mas é sobre o conceito de alma cartesiana que irá se insurgir a filosofia espinosana.
O ponto de partida da crítica de Espinosa à relação causal entre mente e corpo de Descartes se refere justamente ao conceito de substância. Espinosa acredita ser inaceitável a tese que defende a dualidade substancial corpo e a mente. Para Espinosa só há uma substância: Deus. Todas as outras coisas nada mais são do que modificações dos seus atributos infinitos (Pensamento e Extensão). Assim, a mente nada mais é do que um modo finito do atributo Pensamento.
O homem, entendido na sua totalidade, é uma modificação de dois atributos (pensamento e extensão) que produzem seus efeitos, respectivamente mente e corpos, simultaneamente. A partir dessa perspectiva seria inconcebível pensar em uma relação de causalidade entre mente e corpo, uma vez que a interação é algo intrínseco àquele modo singular. Do mesmo modo não há como pensar que haja uma proeminência da mente sobre o corpo, como pensara a tradição até Descartes. A recusa de Espinosa é dupla: não há uma alma alojada num corpo como um piloto em seu navio, nem um corpo submisso à alma.
Uma outra crítica de igual magnitude incide sobre a famosa distinção cartesiana entre entendimento e vontade. Segundo Descartes há dois momentos no processamento do conhecimento. Primeiramente o entendimento apreende ideias de maneira separada e só posteriormente a vontade as reúne afirmando-as ou negando-as. Ora, Espinosa entende que vontade e entendimento nada mais são do que as próprias volições e ideias singulares, de modo que seria descabido atribuir-lhes funções distintas. Com efeito, nos afirma Espinosa (2010, p.147): “A vontade e o intelecto nada mais são do que as próprias volições e ideias
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Era essa a exortação que Sócrates fazia aos jovens. Não cuidar tanto do corpo, mas sim da alma. Ele retoma esse discurso a seu favor por ocasião de seu julgamento em Atenas. (Apologia de Sócrates).
singulares (pela prop.48 e seu esc.). Ora, uma volição singular e uma ideia singular (pela prop. prec.) são uma e mesma coisa. Logo, a vontade e o intelecto são uma só e mesma coisa”.
Em Descartes a distinção entre entendimento (intelecto) e vontade permitia ao filósofo explicar a causa do erro. Este resultava de um devaneio de vontade que sem as rédeas da razão ousava ir para além daquilo que lhe era permitido. Em Espinosa o erro não é fruto do uso inadequado da vontade, mas simplesmente a ausência do verdadeiro e não uma afirmação de algo falso. (CHAUI, 2011).
Neste sentido, pensar não é somente emitir julgamento do verdadeiro e do falso, afirmar ou negar algo, mas é sim afirmar e negar sua ideia. Isso implica dizer que a mente se volta para os seus ideados. É próprio da mente pensar sobre coisas, produzir conteúdos, ideados. Ora, a primeira coisa que a mente tem consciência é de seu corpo. Por essa razão é que Espinosa afirma que a mente nada mais é do que ideia da ideia do corpo, isto é, ideia de si mesma. Assim a mente se constitui como união de ideias (conexio idearum) assim como o corpo é uma união de corpos (conexio corporum). (CHAUI, 2006).Em sua proposição 13 da Parte II da Ética, Espinosa (2010, p.97) afirma:
Se, com efeito, o corpo não fosse o objeto da mente humana, as ideias das afecções do corpo não existiram em Deus (pelo corol. da prop. 9), enquanto ele constitui nossa mente, mas enquanto constitui a mente de outra coisa, isto é (pelo color. da prop. 11) as ideias das afecções do corpo não existiriam em nossa mente. Entretanto (pelo ax.4), temos as ideias das afecções do corpo. Logo, o objeto da ideia que constitui a mente humana é o corpo, e o corpo (pela prop. 11) existente em ato.
É essa relação intrínseca entre mente e corpo que garante a Espinosa propor seu paralelismo psicofísico. Na verdade não há nada que aconteça no corpo que a mente não tenha ideia, uma vez que a mente é ideia do corpo. Assim sendo, podemos pensar que existe uma verdadeira reciprocidade entre as experiências mentais e corporais. Com efeito, nos afirma Chauí (2006, p.121):
[...] quanto mais rica e complexa for a experiência corporal (ou sistema de das afecções corporais), tanto mais rica e complexa será a experiência mental, ou seja, tanto mais a mente será capaz de perceber e compreender uma pluralidade de coisas, pois, demonstra Espinosa, nada acontece no corpo de que a mente não forme uma imagem ou uma ideia (mesmo que estas sejam confusas, parciais e mutiladas). E quanto mais rica a experiência mental, mais rica e complexa a reflexão, isto é, o conhecimento que a mente terá de si mesma.
Chauí (2011) nos chama a atenção para a presença de dois verbos citados a pouco, a saber, os verbos“perceber” e “compreender”. Espinosa afirma que o corpo não causa pensamentos na mente, nem a mente causa ações no corpo, mas que a mente “percebe” o que está ocorrendo no corpo e com isso consegue “compreender” o que se passa. Desse modo, as afecções do corpo nada mais são do que afetos na mente, ideias que podem ser interpretadas pela própria mente. Não há aqui nenhuma alma que toca a glândula pineal e faz mover os espíritos animais em direção aos nervos periféricos. O homem é uma unidade dos modos, corpo e mente e se apresenta como uma singularidade em interação com outras singularidades.
Assim, pelo fato da alma não ser uma substância, a expressão comumente utilizada, “uma percepção na alma”, só pode ser entendida como sendo um estado de consciência, isto é, uma idéia cujo fundamento, em hipótese alguma, deve ser entendido como substância imaterial, mas simplesmente como sendo dependente do corpo. (LIMA, 2007). Ao interpretar Espinosa, Teixeira (2001, p. 122), nos afirma: “O pensamento é sempre de alguma coisa, e para Espinosa a alma não é senão o pensamento ou a idéia do corpo e das coisas que afetam o corpo, sem nenhuma referência, repetimos, à idéia tradicional de uma alma substância, suporte das idéias”.
Ainda na Proposição 7 da Parte II da Ética, Espinosa afirma: “A ordem e conexão das ideias é a mesma que a ordem e conexão das coisas”. O que Espinosa quer dizer com isso? Sendo a ordem e conexão das causas corporais e a ordem e conexão das causas mentais a mesma coisa, segue-se que ambas nada mais são do que efeitos imanentes de uma única substância, seguindo as mesmas regras, porém, do ponto de vista qualitativo, são diferenciadas, pois se referem a modalidades diferentes da realidade (pensamento e extensão).
Mas como a mente se relaciona com suas ideias? Vimos anteriormente que é próprio da mente estar em contínua relação com seus ideados, com suas ideias. Ora, a primeira ideia de uma coisa singular que a mente é capaz de perceber é a ideia do corpo. “A mente humana percebe não só as afecções do corpo, mas também as ideias dessas afecções.”41
Espinosa quer nos dizer que a mente é ideia de si mesma ao mesmo tempo em que é também ideia do corpo. Por essa razão, as ideias das afecções corporais são sentidas, conscientemente, do mesmo modo em que são sentidas as afecções mentais.
Desse modo, a relação existente entre mente e corpo não é um acontecimento em que a mente influi sobre o corpo ou vice-versa, mas ambas simplesmente “são” quando são corpo e “são” quando são mentes. Com isso se dissolve o difícil dilema da união entre corpo e mente. A mente é por natureza um “voltar-se” constante sobre o objeto que constitui seu pensamento: o corpo.
Espinosa emprega um exemplo da geometria para explicar a unicidade da substância e suas modificações. Um círculo existente na natureza e a ideia desse círculo constituem uma só e mesma coisa, porém explicadas por vias diferentes.(CHAUI, 2011). Ora por meio do atributo extensão (círculo desenhado sobre um muro), ora por meio do atributo pensamento (a ideia desse circulo na mente). Isso não significa que sejam dois seres, mas apenas um único ser, visto a partir de dois modos diferentes. Da mesma maneira acontece com o ser humano. Ele é constituído por dois modos distintos, extensão (corpo) e pensamento (mente), imanentes a uma única substância, por meio de seus atributos.
Mas o fato da mente ser a ideia da ideia de um corpo implica necessariamente ser essa ideia verdadeira? É preciso que se tome cuidado, pois há uma distinção fundamental feita por Espinosa entre ser consciente das afecções que ocorrem no corpo e ser essa percepção verdadeira. Inúmeras vezes afetamos e somos afetados por outros corpos. Essas interações permitem ao corpo produzir imagens sobre si, que podem ser visuais, gustativas, olfativas, auditivas, tácteis. Logo, ao que nos parece, a primeira atividade mental no processo de interação é imaginar. Essas percepções imagéticas são fugazes e transitórias,