Como medida de organização e análise dos dados, optamos pela análise de conteúdo, pois nos auxiliou na descrição e interpretação das nuances cognitivas e afetivas que permearam os textos produzidos, otimizando, com isso, nossa compreensão acerca do comportamento informacional do público salientado. Isto porque, na concepção de Bardin (1977, p. 42), este procedimento compreende:
Um conjunto de técnicas de análise das comunicações visando obter, por procedimentos, sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens, indicadores (quantitativos ou não) que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção (variáveis inferidas) destas mensagens.
Assim sendo, buscamos perceber, para além dos sentidos explícitos, os significados implícitos ligados ao contexto em que os discursos e práticas da comunidade de usuários, ligadas ao Programa de Pós-graduação em Física da UFC, são constituídos e desenvolvidos. Para tanto, a análise de conteúdo se organizou a partir das seguintes etapas:
Quadro 9 – Fases da análise de conteúdo
Etapas Atividades
Pré-análise
Escolha dos documentos Leitura flutuante
Constituição dos indicadores Exploração do
material Codificação dos dados Tratamento dos
resultados
Ações de descrição, inferência e interpretação Constituição dos resultados
Fonte: Bardin (1977).
A pré-análise compreendeu inicialmente a escolha dos documentos por meio da leitura flutuante, que visa a percepção geral das temáticas abordadas, bem como a seleção dos materiais a serem estudados e a identificação e seleção de indicadores (temas) que nos permitiram a sistematização, no âmbito de categorias e subcategorias, dos aspectos relatados nas respostas do instrumento. Contudo, isto não limitou a possibilidade de modificação ou inclusão de outras categorias no decorrer da análise dos dados, uma vez que foram percebidas, após a coleta, a formação dos seguintes aspectos: “Dimensão emocional do PBI” e a “BCF como mediadora da informação”, cujas discussões estiveram presentes ao longo da análise.
Este momento resultou no inventário das informações levantadas consoante os seguintes critérios: exaustividade (verificação de todos os elementos do corpus documental definido), representatividade (amostragem significativa), homogeneidade (busca pela unificação de sentidos) e pertinência (relação com as finalidades da pesquisa). (BARDIN, 1977).
Os documentos analisados foram criados por meio da plataforma do Google Docs. A natureza dos questionamentos, presentes neles, esteve pautada nas temáticas relacionadas ao problema e aos objetivos elencados durante o planejamento da pesquisa; validados após o exame de qualificação. Portanto, foram elaboradas duas modalidades de questionário, direcionadas para os docentes e discentes do PPGFIS. Nelas, continham indagações comuns
aos dois grupos, mas também questionamentos que, apesar de atentarem para o mesmo sentido, possuíam adaptações diferentes, em decorrência das particularidades de cada segmento.
Após a coleta de dados, a preparação do material envolveu a organização das respostas dos professores e estudantes em tabelas de acordo com as questões realizadas, o que nos permitiu a visualização de todas as respostas obtidas facilitando sua percepção, comparação e a sistematização das nuances comuns para cumprimento da etapa de codificação, pois segundo Bardin (1977, p. 103) esta “[...] permite atingir uma representação do conteúdo, ou da sua expressão, suscetível de esclarecer o analista acerca das características do texto, que podem servir de índices [...]”. Destarte, realizamos a seleção, classificação e agrupamento das unidades de registro, isto é, dos núcleos de sentido percebidos no decorrer do estudo das escolhas e textos registrados no preenchimento eletrônico do instrumento.
Assim, enfatizamos a definição das regras de enumeração que, nesta pesquisa, se basearam na integração dos critérios de frequência, presença (ou ausência) e associação de ideias identificadas no discurso dos sujeitos da pesquisa mediante o reconhecimento das unidades de contexto, ou seja, das circunstâncias que subsidiam a compreensão das unidades de registro. (BARDIN, 1977).
O tratamento dos dados contemplou sua integração e apresentação sintética por meio de gráficos e quadros. Os primeiros foram utilizados no caso de indagações fechadas respondidas pelos professores e estudantes intentando facilitar a percepção, comparação e interpretação dos resultados evidenciados. Neste caso, a plataforma do Google docs foi muito eficaz ao realizar o tratamento estatístico e nos disponibilizar os gráficos elaborados. Já o emprego das segundas, ocorreu na organização das respostas oriundas de questões abertas ou de perguntas fechadas que abriram precedentes para justificativas, a partir dos indicadores formulados.
Posteriormente, o conteúdo foi organizado no domínio de categorias e subcategorias que possibilitaram a construção de inferências e direcionaram nossa interpretação e, por consequência, a extração genuína dos significados que nos conduziram à contemplação da problemática levantada. De fato, Bardin (1977) aponta que as categorias devem ser determinadas observando os seguintes critérios: a) exclusão mútua: não permitir classificações simultâneas; b) homogeneidade: determinar um princípio único de classificação para sua composição; c) pertinência: relacionar-se ao referencial teórico e aos documentos escolhidos para análise; d) objetividade e fidelidade: estreita ligação com os indicadores e e) produtividade: geração de resultados férteis que atentem para os questionamentos formados.
Por oportuno, salientamos que tanto a elaboração do questionário como a coleta, organização e análise dos dados resultantes ocorreu, inicialmente, apoiada na categoria “Caracterização do usuário" constituída pelas seguintes subcategorias relacionadas ao conhecimento do público delimitado: a) docente: linha de pesquisa à que está vinculado(a), projeto de pesquisa que coordena, disciplina(s) que leciona no PPGFIS e atuação em laboratório(s); b) discente: formação acadêmica, estágio da pesquisa linha de pesquisa à que está vinculado(a) e participação em laboratório(s).
Adiante, no que concerne à categoria “Comportamento informacional”, utilizamos como parâmetro o Processo de Busca da Informação concebido pela autora Carol Kuhlthau, cujos estágios nos remetem às suas subcategorias de análise: iniciação, seleção, exploração, formulação, coleta e apresentação. É importante elucidar que, em conformidade com o modelo de Kuhlthau (1991; 2004a; 2004b; 2007), procuramos estudar o comportamento de busca e uso da informação dos usuários, integrando aspectos relacionados a seus sentimentos, ideias, ações e tarefas em cada uma das fases mencionadas.
Com base na perspectiva de Kuhlthau, o estudo realizado encontrou suas referências na abordagem alternativa dos Estudos de Usuários em razão de termos procurado analisar o comportamento informacional dos usuários da BCF, vinculados ao PPGFIS, considerando suas reações emocionais e, de acordo com Pettigrew, Sylvain e Leckie (2001), perceber como estes sujeitos pensam e agem em resposta ao reconhecimento de suas necessidades de informação.