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5.5. BULANIK ESNEK KOMŞULUK SİSTEMİ
Segundo Thomaz Junior (2010), a água é um dos focos dos empreendimentos produtivos capitalistas no campo, de forma que o autor utiliza o termo agrohidronegócio para enfatizar este caráter. Podemos tomar como exemplo o fato do Aquífero Guarani, terceiro maior do mundo e que compreende áreas do Brasil, Paraguai, Argentina e Uruguai, ser uma região altamente utilizada pelo agronegócio. Nessa região são cultivadas culturas do agronegócio e estão instaladas plantas processadoras da cana-de-açúcar (açúcar e álcool) e soja, milho, celulose. Exemplos destas transnacionais são a Bunge, a Cargill, Dreyfus e ADM17.
Outro exemplo é a própria transnacional Nestlé. Segundo reportagem do Jornal Brasil de Fato, de abril de 201318, o empresário austríaco Peter Brabeck-Letmathe, presidente do Nestlé desde 2005 afirma a necessidade de privatização do fornecimento da água, afirmando que os governos deveriam garantir 5 litros diários de água para beber e 25 litros diários para higiene pessoal por individuo, mas que o resto do consumo deveria ser gerido de acordo com critérios empresariais. O grupo Nestlé é uma das líderes mundiais em venda de água engarrafada, como qualquer outro setor alimentício e ter um valor de mercado.
Também parte do hidronegócio a construção das grandes hidrelétricas para fornecimento de energia. Apesar de no Brasil ter sido um setor construído pelo Estado, passou às mãos do capital na onda de privatização dos anos 90. Algumas hidrelétricas, como é o caso da Itaipu, ainda são Estatais, mas é base de um sistema de produção de energia para a produção de mercadorias. Outro exemplo é a Usina Hidrelétrica de Belo Monte, que está sendo construída no Rio Xingu (Pará). Tem a previsão de ser a terceira maior hidrelétrica do mundo, atrás da chinesa “Três Gargantas” e da Itaipu (Brasil-Paraguai). Segundo reportagem de Telma Monteiro escrita para o Jornal da cidadania em setembro de 210219, no Estudo de Impacto Ambiental/ Relatório de Impacto ambiental (EIA/RIMA) de Belo Monte, o projeto
17 Ver artigo do Livro Ensaios sobre a Questão Agrária nominado “O agronegócio na América do Sul: movimentos sociais e espacialização das transnacionais do grupo ABCD, de Andrea Batista e Julciane Anzilago.
18 FRANCISCO NETO, José (Trad.). Presidente da Nestlé diz que água deve ser privatizada. 24.04.2013. Disponível em: http://www.brasildefato.com.br/node/12746
19 MONTEIRO, Telma. Belo monte é forma de viabilizar definitivamente a mineração em terras
indígenas. 12.09.2012 Disponível em: http://telmadmonteiro.blogspot.com.br/2012/09/belo-monte-e-forma- de-viabilizar.html . Acesso em junho de 2013.
também prevê direitos minerários na região da Volta Grande do Xingu, onde há 18 empresas que estão fazendo requerimento para mineração de ouro, dentre elas a Companhia Vale do Rio Doce. A região em questão é um território indígenas onde nos últimos anos foram descobertas jazidas de bauxita, manganês, ouro, cassiterita, cobre, urânio entre outros minerais. Segundo a autora, a implantação do projeto hidrelétrico de Belo Monte “é a única forma de viabilizar definitivamente a mineração em terras indígenas”. Recorda-se que a mineração é uma das áreas que mais utiliza água para o processamento da mercadoria final, o que impacta também na qualidade das águas superficiais e subterrâneas.
Nesta região do Xingu nos últimos meses vem intensificando-se os conflitos territoriais entre indígenas, mineradoras e empresas hidrelétricas, como o caso de Belo Sun Mining Corporação. É o caso, por exemplo, do bloqueio da ferrovia de Carajás pelos indígenas das etnias Guajajara e Awá-Guajá em outubro de 2012.
1.1.3 Mineração
Os impactos sócio-ambientais da mineração e do garimpo são imensos. Por exemplo, somente em relação ao uso da água para mineração, segundo reportagem do Jornal Brasil de Fato, de julho de 201320, a mineração consumiu no ano de 2012, segundo dados incompletos da Agencia Nacional de Águas, cerca de cinco quatrilhões de litros de água.
A extração de recursos minerais como matéria prima para indústrias siderúrgicas, metalúrgicas, química e petroquímica e construção civil, ou ainda o carvão mineral e petróleo para fontes energéticas e indústrias químicas e petroquímicas são também focos de grandes transnacionais e/ou multinacionais do ramo, como é o caso da Vale, Petrobrás, Odebrecht, Ecopetrol, Codelco, Anfogasta, Petroperu, Refinaria de Pampilla, Basf, Heringer, Minera Cerro Verde, entre outras da América do Sul.
No caso da empresa Odebrecht, conforme quadro 8 acima citado, mantém operações comerciais na construção de hidrelétricas e na indústria química / petroquímica em países como Brasil, Argentina, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai, Uruguai, Venezuela e Peru.
Segundo reportagem no Jornal Brasil de Fato de dezembro de 201221, a empresa Odecrecht, é considerada por alguns analistas como a principal construtora de obras de
20 Entrevista de Carlos Bittencourt à IHU em 17.07.2013. Código da Mineração: “a urgência é do
mercado”, afirma Carlos Bittencourt. Disponível em http://www.brasildefato.com.br/node/13631. Acesso em 15 de agosto de 2013.
21 JORNAL BRASIL DE FATO. ZONTA, Márcio. Odebrecht onipresente no Peru. 26/12/2012. Disponível em: http://www.brasildefato.com.br/node/11367. Acesso em julho de 2013.
integração econômica capitalista no continente latino-americano. A empresa de capital acionário brasileiro realizou nos últimos 30 anos somente no Peru obras de hidrelétricas, infraestrutura de portos, gasodutos, vias urbanas e rodovias conectando o país a outros. No caso de projetos de integração entre países, a empresa conduz as obras da construção interoceânica sul e norte, da rodovia Sisa Cuñunbuque, interligando os principais portos do Peru a outros países. Outra obra da empresa é a construção de hidrelétrica entre os Andes e a entrada da Amazônia Peruana no rio Huallaga.
Em reportagem do Jornal Brasil de Fato de fevereiro de 200922, As construtoras Odebrecht e Camargo Corrêa, alem da Petrobrás, Vale e Votorantin foram apontadas como empresas que se internacionalizam com financiamento público, tornando-se agentes de conflitos entre países. O caso emblemático foi o conflito entre Brasil e Bolívia por conta da nacionalização do petróleo arrancada pela Bolívia em 2006. Ou mesmo as denúncias sob a empresa Petrobrás em sua atuação no Equador, onde a mesma pratica extração de Petróleo no Parque Nacional de Yasuni, uma área de diferentes comunidades indígenas e de grande biodiversidade. Ou ainda as denúncias à empresa Odebrecht na construção da Hidroelétrica São Francisco com recursos do BNDES no Equador por não cumprir leis ambientais e destruição de comunidades ribeirinhas.
O Equador, por exemplo, nos últimos anos tem investido em atividades mineras em larga escala. Segundo Acosta (2011) em seu estudo referente ao tema, para se produzir uma tonelada de cobre se requer e se contaminam entre 10.000 a 30.000 litros de água, no caso do ouro, “uma onza de oro requiere 8.000 litros de água”. Geralmente as minas a céu aberto secam as vertentes ao seu redor. Existem estudos de caso onde se registraram que as minas tem baixado o nível das águas dos lençóis freáticos em 300 metros, pois necessita “bombear cerca de 100 millones de galones de água diariamente para acceder al material mineralizado”. O autor ainda cita a enorme contaminação produzida pelos gases como o caso do cobre que contém arsênico e outros metais pesados. No caso da planta de Oroya no Peru, 99% das crianças apresentam chumbo no organismo acima das normas da Organização Mundial de Saúde. Ainda cita o deslocamento forçado ocorrido na Colômbia entre os anos de 1995 a 2002 em áreas mineras. (ACOSTA, 2011, p. 59-60)
O autor ainda comenta:
22 JORNAL BRASIL DE FATO. GARCIA, Ana; MENDONÇA, Maria Luísa. Transnacionais brasileiras são
denunciadas por movimentos latino-americanos. 12/02/2009. Disponível em http://www.brasildefato.com.br/node/4209. Acesso em julho de 2013.
Aunque parezca paradójico, este tipo de Estado, que muchas veces delega parte sustantiva de las tareas sociales a las empresas petroleras o mineras, abandona, desde la perspectiva del desarrollo, amplias regiones, tal como se ha visto en la Amazonia ecuatoriana. Y en estas condiciones de desterritorializacion del Estado, se consolidan respuestas propias de un Estado policial que reprime a las víctimas del sistema al tiempo que declina el cumplimiento de sus obligaciones sociales y económicas. (ACOSTA, 2011, p. 59-60)
Mesmo que o extrativismo petroleiro e minero tenha uma larga trajetória na América Latina, ele assume nova característica neste momento histórico. Gudynas (2011), baseado na reflexão de práticas estatais de uso do extrativismo para programas contra a pobreza, o define como neoextrativismo progressista. Estes processos, segundo o autor, mesmo que progressistas são práticas de alto impacto sócio-ambiental, além de serem completamente dependentes de “circuitos econômicos globales”. (GUDYNAS, 2011, p. 76).
Considera o autor que na América do Sul, uma nova esquerda vem forjando os governos nos últimos anos, e mesmo que estes, mesmo com características distintas, compartem uma crítica ao reducionismo de mercado e políticas pela redução da pobreza como uma das tarefas prioritárias.
La nueva izquierda ha logrado conquistar varios gobiernos sudamericanos en los últimos anos. Su presencia ha sido clara bajo las administraciones de Nestor Kirchner y Cristina Fernandes de Kichner en Argentina, Evo Morales en Bolivia, Rafael Correa en Ecuador, Luis Inacio Lula da Silva en Brasil (y su actual sucesora Dilma Roussef), Tabaré Vasquez en Uruguay (y su sucesor, José Mujica), Hugo Chávez en Venezuela. A esa corriente se la ha sumado el gobierno Michele Bachelet de Chile (que sin embargo fue reemplazado por una administración conservadora), mientras que Fernando Lugo en Paraguay muestra una vocación progresista pero enfrenta una base partidaria muy débil. De distintas maneras se ha llegado a que al menos ocho países se encontraran bajo la nueva izquierda en los últimos años. (GUDYNAS, 2011, p. 76)
Neste sentido, o extrativismo contemporâneo, ou neoextrativismo progressista é um dos pilares estratégicos de projetos desenvolvimentistas e de combate à pobreza sob a gestão destes governos acima mencionados. Para Gudynas, esta contradição neoextrativismo-
governos progressistas, mesmo que esteja nos marcos de um Estado mais ativo e com regras
mais claras “(independientes si estas sean buenas o no)”, em muitos casos estes programas de combate à pobreza acabam possibilitando uma pacificação dos protestos sociais. (GUDYNAS, 2011, p. 79), assim como, incentivam a exploração de sectores como a mineração, petróleo e monocultivos para exportação.
En efecto, desde la Venezuela de Hugo Chavez al moderado Lula da Silva en Brasil, persistió la apuesta a sectores como minería y petróleo. El porcentaje de productos primarios sobre las exportaciones totales supera el 90% en Venezuela, Ecuador y
Bolívia, y es más del 80% en Chile y Perú; en Brasil de Lula creció hasta llegar al 60% (según datos de CEPAL). En este sesgo el papel clave no juegan la minería, hidrocarburos y monocultivos de exportación. (GUDYNAS, 2011, p.77)
Outra tese defendida pelo autor é que este neoextrativismo é funcional na globalização comercial-financeira e mantém a América do Sul numa inserção subordinada. Neste proceso: “persiste la fragmentación territorial, en áreas desterritorializadas, generándose un entramando de enclaves y sus conexiones a los mercados globales, que agravan las tensiones territoriales”. (GUDYNAS, 2011, p. 80-81).