3. TEDARĐKÇĐ SEÇĐM PROBLEMĐ UYGULANAN MODELLER VE KRĐTER
3.3 Tedarikçi Seçim Problemine Yönelik Bulanık Mantık Đçeren Modeller
3.3.2 Bulanık TOPSIS Yöntemi
Na revista Festa, Cecília Meireles contribui com a publicação de algumas composições poéticas133 e alguns desenhos. Logo no primeiro número, aparecem cinco poemas134 da autora de Viagem, peças enumeradas em algarismo romano, sendo que só o primeiro recebe um título específico, “Casulo”, e é datado de 1926. As outras quatro peças são apenas enumeradas e datadas de agosto de 1927.
No conjunto mencionado, destaco “Casulo” pelas imagens exploradas que envolvem formas visíveis e invisíveis, aspectos característicos da paisagem ceciliana. Nele, o “eu” lírico tenta, sem êxito, estabelecer diálogo com um inseto em fase de gestação, em seu casulo, o único, dentre vários outros, que não despertou para a vida. No malogrado diálogo, em que o interlocutor se mantém silente, a comunicação não se estabelece, restando a indagação sem resposta e a angústia ante o mistério impenetrável da vida, da morte e suas implicações.
As imagens trabalhadas, no texto, remetem para uma discussão relacionada ao ciclo da vida, à materialidade no plano temporal, ao invisível das formas e à sabedoria dos espaços. A indagação final do sujeito lírico esbarra no mistério impenetrável que transcende a
133 MEIRELES, Cecília. Cinco poemas. Festa: mensário de pensamento e de arte, n. 1, ago., 1927, p. 3; O canto
da jandaia, n. 3, dez., 1927, p. 4; Carnaval, n. 5, fev., 1928, p. 9; Aceitação, n. 6, mar., 1928, p. 4-5; Poemas – I, II, n. 8, mai., 1928, p. 3-4; Sombra, n. 10, jul., 1928, p. 5; Três brinquedos do menino poeta - I, II, III, n. 12, set., 1928, p. 2. Esses são os poemas publicados na primeira fase da revista.
existência sem se prender aos dogmas do cristianismo. Nesse aspecto, a poesia de Cecília Meireles difere da tendência tassiana de buscar solução, no plano espiritual, para todas as questões da existência. Na lírica ceciliana, persistem a ressonância do mistério e a conseqüente inquietação ante a impossibilidade de encontrar explicações para o mesmo.
Considerando os outros poemas do conjunto mencionado, constato que, em sua incessante indagação, vendo frustrado o diálogo com o inseto inerte e, na ânsia de encontrar respostas para as questões existenciais, o “eu” lírico passa a examinar outros elementos de sua vivência, pesquisando a paisagem física e a paisagem interior, analisando as possibilidades de harmonizar a dinâmica da vida. Participam desse novo raio de inspecção a “Terra de cactus duros” e “de fogos bárbaros”135 e a figura do “bem-amado”,136 configurando-se questões gerais relacionadas à vida.
A partir dessa inquirição minuciosa e, muitas vezes, malograda, como derradeiro território de investigação, o sujeito poético se volta para dentro de si mesmo em busca de um porto:
Volvi os olhos para dentro, Estendi os braços sobre o mundo,
– E o meu coração fluía sobre as criaturas Como um rio perene...
E eu era uma fonte serena, a perder-se...137
Entretanto a possibilidade de apaziguamento é ilusória, uma vez que se frustra ao longo da representação feita na última peça deste conjunto que venho analisando. O poema se abre para um impasse que instaura a angústia definitiva expressa nos versos finais: “Muda,/ Amarga,/ Sem ninguém...”
Na polarização de planos – entre a matéria e o espírito, a angústia, o desencanto e a esperança de resolução desse mistério que envolve a vida e a morte – movimenta-se o “eu” lírico e, nessa direção, a poeta lança a âncora que vai sustentar toda a sua trajetória lírica. Partindo do exame dos elementos sensíveis, extraídos da realidade física, ultrapassa a instância da matéria e atinge uma outra realidade conceitual que sustenta sua reflexão poética.
Na lírica ceciliana, o conflito, o mistério, a angústia existencial não se elucidam, não se dissipam, permanecendo em suspensão. Esse dado confere à sua poesia um
135 MEIRELES, Cecília. Poema III. Festa: mensário de pensamento e de arte, n. 1, ago., 1927, p. 3. 136 MEIRELES, Cecília. Poema II. Festa: mensário de pensamento e de arte, n. 1, ago., 1927, p. 3. 137 MEIRELES, Cecília. Poema V. Festa: mensário de pensamento e de arte, n. 1, ago., 1927, p. 3.
tom altamente reflexivo, apontando para a consciência do fluir implacável do tempo e da brevidade da vida. Em decorrência dessa atitude, surge a sensação de amargura e desencanto ante a vida que perpassam toda a sua obra, vinculando-a com aspectos do estilo barroco, de linha quevedesca, conforme assinala Leodegário A. de Azevedo Filho.138
Nos vários números editados durante a existência da revista, outros poemas de Cecília são publicados. Os temas explorados são diversos, apontando para questões de ordem circunstancial, como ocorre na edição do mês de fevereiro com a peça “Carnaval”,139 poema em que, explorando o evento popular dos mais divulgados do Brasil, o “eu” lírico desenvolve uma reflexão de natureza existencial sobre o uso de máscaras e de “roupas encantadas”, durante os breves momentos vivenciados, de ilusão e fantasia. Também, nessa linha de ordem circunstancial, publica-se o poema “O canto da jandaia”,140 na edição de número 3, dedicada a José de Alencar. No mencionado poema, é trabalhado o mito de Iracema que, através do anagrama, também remete à imagem da América.
Na oportunidade em que se presta homenagem ao referido autor, pelo cinqüentenário de sua morte, a retomada do mito se enquadra no ideário geral do grupo que dá destaque às questões referentes ao nacionalismo, à tradição e à valorização do passado. No texto, a voz do “eu” lírico simula um diálogo com a filha de Araquém, propondo seu retorno, a partir do apelo melancólico da jandaia.
Os versos são longos, remetendo à prosa poética nos moldes da própria composição intertextual. Na arquitetura do poema, são recuperadas, igualmente, as imagens da narrativa alencariana: a “filha de Araquém”, o “guerreiro branco”, “as matas dos Tabajaras”, “Moacir”, a “jandaia”, os “verdes mares”. O poema se desenvolve em meio a inquirições dirigidas à virgem tabajara que teria traído a fidelidade de seu povo à qual estava presa pelos laços de Jurema. A voz do “eu” lírico faz eco à voz da jandaia e apela para a volta de Iracema, a fim de que pudesse preparar novamente “a bebida da Jurema, que tem espinhos, que amarga, mas que encanta”. A súplica final – expressa nos versos: “Filha de Araquém, é tempo de voltares para a tua raça./Ouve o canto da jandaia, apelando para o teu mito!” – sinaliza para uma atitude de adesão ao passado, o desejo de seu retorno, numa proposta evidente de valorização do passado e seus mitos.
138 AZEVEDO FILHO, 1972, p. 81, 99-100.
139 MEIRELES, Cecília. Carnaval. Festa: mensário de pensamento e de arte, n. 5, ago., 1928, p. 9.
Nas edições da segunda fase do periódico, testemunhando sua ligação com o ideário de Festa, aparecem mais dois poemas de Cecília.141 Em ambos, evidencia-se a sensibilidade da poeta e sua tendência para a reflexão sobre a vida cuja matéria é transformada em canto. Partindo da simplicidade do cotidiano, busca inquirir a vida e seus mistérios, no intuito de elucidar as complexas questões existenciais.
Nesse conjunto de poemas publicados em Festa, Cecília Meireles já acena com os instrumentos líricos que vai empregar, em sua trajetória, apresentando indícios do papel que desempenharia, como poeta, na tradição literária brasileira. Cumpre ressaltar que nenhuma das peças, presentes na revista, integra o conjunto de sua Obra poética publicada pela editora Aguilar. Acrescente-se ainda que a seleção dos poemas para a primeira edição da referida obra foi feita pela própria autora, que excluiu do conjunto as publicações anteriores a Viagem (1939). Assim é que foram desconsideradas as obras Espectros (1919), Nunca mais... e Poema dos poemas (1923) e Baladas para El-Rei (1925),142 configurando-se uma rejeição da própria autora por sua produção poética inicial, anterior a Viagem.
Analisando as composições poéticas de Cecília Meireles, divulgadas na revista Festa e comparando-as a composições de outros poetas, integrantes do grupo, destaco alguns aspectos para reflexão que considero básicos. Os traços, presentes na lírica ceciliana, sugerem uma trajetória peculiar e independente, configurando o que Mário de Andrade caracterizou em sua poética como “firme resistência a uma adesão passiva.”143
Para o crítico, Cecília Meireles é “desses artistas que tiram seu ouro onde o encontram, escolhendo por si, com rara independência.” Considera o “ecletismo” como o traço relevante da personalidade da poeta “se ainda não fosse maior o misterioso acerto, dom raro com que ela se conserva sempre dentro da mais íntima e verdadeira poesia.”144
Embora o autor do artigo esteja fazendo referência direta a Viagem, obra da poeta, publicada em 1939, penso ser pertinente considerar tais comentários inteiramente adequados na análise das composições que aparecem em Festa. A variedade de temas, o ecletismo marcante, na poesia de Cecília Meireles, traduzem o seu interesse plural pela vida. E, nessa trajetória eclética, os traços espiritualistas, presentes em sua lírica, desde as composições divulgadas na revista, esbarram na linha de tendência mais dogmática, presente na poesia de outros autores, dentre os quais, Tasso da Silveira constitui o exemplo mais vivo.
141 MEIRELES, Cecília. Poema. Festa: revista de arte e pensamento, n. 1, jul. 1934, p. 3c; Pensamento, n. 7,
mar., 1935, p. 5a.
142 MEIRELES, 1967, p. 91. Bibliografia.
143 ANDRADE, Mário. Em face da poesia moderna. In: MEIRELES, 1967, p. 47. 144 ANDRADE, Mário. Em face da poesia moderna. In: MEIRELES, 1967, p. 47.
Em entrevista concedida a Haroldo Maranhão,145 respondendo a uma pergunta sobre quais seriam as “raízes espirituais da sua poesia”, a própria poeta informa:
– Os autores nunca sabem dizer bem essas coisas, porque, na verdade, a poesia, praticada de um modo “vital”, está isenta das claridades da lógica. O poeta dificilmente pode “raciocinar” sobre a sua própria poesia. Esta é a função do crítico, intermediário na mensagem artística. Em todo caso, se for possível considerar “raízes espirituais” aquilo de que mais gosto, ou que mais repercute em mim, lembrarei o oriente clássico e os gregos; toda a Idade Média; os clássicos de todas as línguas; os românticos ingleses; os simbolistas franceses e alemães. E principalmente a literatura popular do mundo inteiro, e os livros sagrados.146
Nos termos apresentados, configura-se a rica matriz da poesia ceciliana, a diversidade de fontes de onde a autora de Romanceiro da Inconfidência extrai seu lastro poético.