São comuns nas ciências humanas, análises que contrapõem o sentido e a apropriação da rua nas áreas residenciais da população de maior renda e das áreas residenciais da população de menor renda, em que naquelas é cada vez mais comum a ausência de pessoas em qualquer que seja o horário do dia ou o dia da semana, e nessas, a presença constante de indivíduos nas ruas, em qualquer hora, em qualquer dia. À medida que avança a semana, aumenta também a quantidade de pessoas nas ruas, quando aos finais de semana crianças, jovens e adultos lotam as vias das áreas periféricas das cidades.
Observando a permanência dos moradores nas ruas do Conjunto, desvendamos que o movimento das ruas é incitado pela presença das pessoas, e paradoxalmente, a permanência das pessoas nesse espaço é incitada pelo movimento das ruas.
Em Carlos (1996, p. 90) encontramos diversos sentidos para as ruas nas grandes cidades: passagem, mercado, festa, reivindicação, moradia, território de domínio de gangues, normatização da vida (através de placas, semáforos etc.), segregação socioespacial, encontro.
P at rí ci a M ª d e Je su s, D ez /2 00 7.
139 Contudo, se levamos em consideração as ruas das áreas periféricas das cidades, notamos também um outro sentido da rua: aquele da permanência. Trata-se do sentido de simplesmente ficar/permanecer na rua, sem que para isso haja um motivo específico. Mas é preciso ressaltar, que muitas vezes as razões da permanência são urgentes, necessárias, ainda que aos olhos desatentos pareça banal e menor.
As crianças (especialmente os meninos), sem espaço adequado para as brincadeiras tomam conta da rua, assim como a rua toma conta delas. Desse modo, a rua é ideal para o pega-pega, bolinha de gude, futebol, o teste do alcance e velocidade dos carrinhos, o encontro para ir à lan-house do lado de fora do Conjunto, à barraca de jogos eletrônicos ali mesmo no espaço do Conjunto, onde na barraca ao lado consegue-se o cigarro solto163 da mãe, que deseja mesmo ter os filhos na rua, pois não é possível, lavar, cozinhar, e limpar a casa, com eles por ali, pois, o espaço diminuto da casa não acolhe todos ao mesmo tempo, ainda mais quando os móveis não estão nos lugares planejados para eles , mas no meio da casa por ocasião da limpeza. Quando existe necessidade de manusear figurinhas ou cards para jogar ou trocar os repetidos , o vento da rua atrapalha, melhor nesse caso o corredor do prédio, no andar térreo (mais perto da rua na possibilidade de optarem por outra brincadeira), exatamente encostados na porta dos apartamentos, espalhados pelos primeiros lances de escadas, ou nos quintais e garagens das casas autoconstruídas do mutirão.
Os jovens (meninos e meninas) não suportam o enfado das quatro paredes . Dessa maneira, as meninas fazem o mais rápido que podem os afazeres domésticos para depois irem para a rua, chamar aos berros a amiga do outro prédio, e juntas conversarem, irem em busca do geladinho no bloco da Segunda rua, onde poderão também encontrar o menino que paqueram, a colega da escola. Dali, podem ir às 16h00 buscar o irmão menor de uma delas na creche, fazer companhia para comprar a mistura para hora do jantar, (recomendação da mãe que saiu pra trabalhar as 6:00 da manhã). Na repetitividade da vida diária, há ainda outras tantas coisas a fazer: ir ao posto de saúde marcar uma consulta para um membro da família, esperar lá fora o homem das frutas passar, receber para a vizinha o móvel novo, ir à casa lotérica pagar as contas, levar e/ou buscar os irmãos menores na escola, etc... À noite ainda resta ir à escola, ao curso de computação ou ajudar no jantar e voltar pra rua, encontrar alguém, combinar a próxima balada , decidir por qual tonalidade de cor para mudar o visual dos cabelos, emprestar um CD, enquanto esperam o dia findar.
163 Cigarro vendido de maneira avulsa. Um no máximo dois, vendidos à R$ 0,10 ou R$ 0,15 centavos de acordo com
140 Os meninos desocupados das prendas domésticas e de tudo que esteja relacionado a elas, ocupam-se em discutir as tramas dos filmes de ação, as estratégias dos jogos eletrônicos, as possibilidades de emprego ou de auferir algum rendimento, os modelos dos carros (objeto máximo de consumo), os acessórios para melhorar as motocicletas, as sensações desse ou daquele alucinógeno, as peripécias da última balada , a peleja da última partida de futebol, a seqüência dos exercícios de musculação.164
Às mulheres cabem as aspirações do móvel novo, as pequenas reformas para as habitações, as ofertas dos alimentos e demais produtos, os cuidados com os filhos e com a casa, a troca de receitas, a preocupação e reclamação com o serviço público de saúde, as indicações para os empregos domésticos, a espera por dias melhores.
A rua é vista para os mais conservadores como o locus da convivência masculina, lugar onde pode imperar a violência, o desmando, a embriaguez, o perigo de um modo geral. Por esse motivo, quanto menos as mulheres (crianças ou adultas) permanecerem na rua, melhor para a reputação e segurança delas165.
Em nossas observações, nos mais diferentes horários, dias e situações, lá estão os homens (crianças, jovens, adultos), donos da rua : brincando, na calçada, nos bancos improvisados, nas áreas de estacionamento, e nos bares. Os bares são interessantes por possuírem inúmeras funções. É nos bares que os homens passam horas conversando e bebendo. Mas os bares também funcionam como uma espécie de classificados do Conjunto Habitacional Parque Continental. Lá estão afixados inúmeros anúncios: uma casa ou apartamento à venda, uma excursão a ser realizada, um festival de futebol, uma festa para comemorar o dia das crianças, um show musical no Conjunto ou em outro local do bairro, um bingo beneficente, o serviço de elaboração de currículos, a declaração de isenção do imposto de renda, etc. São também referências, pois é da frente dos bares que saem os homens para o jogo de futebol e os religiosos para a visita da igreja matriz.
É também nos bares ou na proximidade deles que acontecem as batidas policiais. Aliás, de quando em quando há operações especiais no Conjunto e a polícia militar monta sua base justamente em frente aos bares. Ali monitoram a entrada das pessoas, mormente daquelas que chegam em automóveis ou motocicletas. Questionam para onde vão, de onde vêm, checam os
164 Sem a possibilidade de freqüentar academias de ginástica, os garotos constroem sozinhos os equipamentos para
a prática da musculação com cabos de aço, latas vazias de tinta e concreto. Treinam atrás dos prédios onde também deixam disponíveis os equipamentos para quem quiser usar. E assim alcançam rapidamente o ideal masculino de beleza.
165 Duas moradoras (amigas) em tom de desabafo contam que são mal vistas por freqüentarem os bares. Elas
dizem não fazerem algazarra, não se meterem em confusão, simplesmente vão ao bar porque assim como os homens gostam da cerveja, do petisco, e da conversa. Para elas não existe problema, mas para muitos homens e mulheres, bar é lugar para ser freqüentado por homens assim como a rua e tudo que a envolve.
141 documentos e pronto, o serviço está feito. Essas operações têm duração de três ou quatro dias. Sempre no mesmo local e (sic) no mesmo horário. Ressalte-se que há na área a prática do tráfico de entorpecentes, e alguns jovens fazem o controle da área vistoriando todas as ruas com aparelhos de rádio comunicação. A intenção é justamente antever a entrada de policiais na área do Conjunto e se necessário for dispensar o flagrante . Em lugares de onde vêem e não são vistos, cumprem a função de monitorar a área contra a ação da polícia.
Ainda que por consenso da maioria, todos os bares sejam o locus da convivência e da sociabilidade masculina, muitas mulheres têm de lá ir: para comprar o gás de cozinha, os fósforos que acabaram ou outros produtos comprados de maneira avulsa e que suprem a necessidade imediata.
Em relação ao suprimento de necessidades imediatas, vejamos a importância dos comércios itinerantes que têm boa clientela no Conjunto. Em carros, peruas e caminhões pequenos, os também pequenos comerciantes são fundamentais para a labuta da vida nesse território cotidiano. Vendem frutas, legumes e verduras, produtos de limpeza, iogurtes, sorvetes, pães, doces, salgados. Trocam velharias (panelas, garrafas, baterias de automóveis) por maçãs do amor. Suas mercadorias são, sem exceção, de menor qualidade que aquelas compradas nas feiras livres, padarias e supermercados. E seus preços nem sempre são mais convidativos. Todos, sem exceção, elaboram peças de comunicação para atrair a freguesia. Conduzindo o veículo a uma velocidade inferior aos 30 km/hora, regulamentados para as ruas do empreendimento, os comerciantes anunciam seus produtos e os preços que praticam. A qualidade da freguesia é sempre explorada de alguma forma em anúncios ora gravados, ora repetidos e decorados. A título de exemplo: Atenção distinta freguesia, acaba de chegar em sua rua o carro do padeiro. São duas bengalas doces por R$1,50, duas bengalas salgadas por R$1,50, bisnaguinha de creme, bisnaguinha de coco R$1,50, broa de milho. Venha conferir nossa variedade de pães caseiros .
Em alguns casos, os comerciantes utilizam-se de músicas entre o anúncio e a pausa para atender a clientela. No carro da maçã do amor e no carro do churros, por exemplo, além do anúncio, músicas da Xuxa ajudam a chamar a atenção das crianças. No caminhão das verduras, além do anúncio, são os sambas com temas prosaicos de Zeca Pagodinho que têm a função de atrair as donas de casa.
Passam no Conjunto durante toda a semana, ou seja, os moradores estão sempre servidos por um ou outro desses comerciantes. O caminhão das frutas, por exemplo, passa toda Segunda-Feira no período da tarde, o caminhão dos produtos de limpeza as Terças, Quintas e Sábados durante todo o período da manhã. Além desses comerciantes que usam algum tipo de
142 veículo para trabalhar, há também os que utilizam outros meios. Um rapaz vende mandioca e as carrega em um carrinho de mão (tipicamente utilizados nas atividades da construção civil), outro também usando um carrinho de mão vende verduras, outro vende mantas e redes carregando a mercadoria nos ombros e nas mãos. Seu corpo é seu veículo. Há também quem venda jogos de panelas, doces e queijos, panos de prato, calçados, lingerie, etc... e carregam suas mercadorias em imensas sacolas. Esses últimos, além de percorrerem as ruas, vendem também de porta em porta. Alguns usuários de drogas, ainda que não sejam necessariamente comerciantes, também fazem parte da provisão do Conjunto Habitacional. Ávidos pelo consumo dos entorpecentes, realizam pequenos furtos no comércio do bairro, fundamentalmente produtos de higiene pessoal fáceis de serem furtados por seu pequeno volume: cremes hidratantes, anti-sépticos bucais, colônias infantis, desodorantes antitranspirantes, shampoos, condicionadores, protetores solares. Vendem os produtos de porta em porta por valores convidativos: três frascos de creme hidratante por R$ 10,00, dois frascos de protetor solar com fator de proteção solar 20 por R$ 15,00166. Note-se que o dinheiro conseguido serve somente para o consumo imediato dos entorpecentes que são vendidos em pequenas porções e custam em média os mesmos valores que cobram pelos produtos roubados.
O aspecto mais importante dessa maneira de suprir as necessidades imediatas no Conjunto a nosso ver, diz respeito à comodidade com que são servidos os moradores. Isso porque é possível comprar as frutas e verduras enquanto a panela está no fogo, a lavadora de roupas em funcionamento. Não é preciso planejamento em relação ao horário, pois, enquanto se organiza a casa, as peças de comunicação anunciam a chegada do carro das frutas, do trocador de panelas, do vendedor de tapetes, do padeiro. Em poucos minutos está feita a compra, sem que seja necessária a saída de casa, a preocupação com a aparência para ir ao supermercado, o drama de não ter com quem deixar as crianças, ou pior para muitas mães: ter de levá-las ao local das compras.
Destacamos ainda a presença dos distribuidores do gás butano, sempre presentes no empreendimento, as maiores empresas do ramo cumprem uma escala semanal para atendê-lo e distribuem brindes às donas de casa como colheres, pano de prato e copo. Quanto às menores, são contatadas via telefone.
O caminhão de entrega das Casas Bahia167 está freqüentemente por ali. A soma do desejo e/ou necessidade dos moradores de trocar os móveis e eletrodomésticos e as
166 A prática de tão comum ganhou adeptos que fazem inclusive encomendas aos usuários.
167 Loja de móveis e eletrodomésticos voltada principalmente para a classe de menor renda, popular pelas
facilidades de créditos concedidos aos consumidores e pela rapidez na entrega dos produtos e montagem dos mesmos. Em conversa com os moradores obtivemos a constatação de que entre compra, entrega e montagem não
143 vantagens da compra via crediário, garantem o sucesso de vendas da loja e por isso o caminhão de entregas está sempre na área do Conjunto Habitacional. Entregando nas casas do mutirão ou nos edifícios Cingapura novos conjuntos estofados, mesas, beliches, camas, colchões, armários de cozinha, lavadoras, refrigeradores, aparelhos televisores de 29 , microcomputadores etc... Em qualquer dia da semana, também aos sábados, não raro aos domingos. Em horário comercial, mas notamos maior presença dos caminhões entregadores no período da manhã.