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Tecnicamente a metáfora é definida como

a figura de significação que consiste em dizer que uma coisa (A) é outra (B), em virtude de qualquer semelhança percebida pelo espírito entre um traço característico de A e o atributo predominante, atributo por excelência, de B, feita a exclusão de outros secundários por não convenientes à caracterização do termo próprio A.67

De um modo geral, o uso de metáforas se justifica pela semelhança dos incontáveis objetos que compõem o mundo; a impossibilidade de abstração absoluta e do contraste existente entre a pobreza vocabular que possuímos, em detrimento da riqueza de idéias que pretendemos expressar.

Othon Garcia dá conta de duas espécies de metáforas: in

praesentia, quando os dois termos – o comparado (a coisa A) e o comparante

66 SANTI, Eurico Marcos D. de. Lançamento tributário. 2. ed. rev. amp. São Paulo: Max

Limonad, 1999, p. 53.

67 GARCIA, Othon M. Comunicação em prosa moderna: aprender a escrever, aprendendo a

(a coisa B) – estão expressos, por exemplo: “seus lábios são duas pétalas de rosas”; in absentia ou pura, quando apenas o comparante está explícito: “duas esmeraldas cintilavam-lhe na face”.68

As palavras são metáforas à medida que são uma coisa no lugar da outra. O problema surge quando se pergunta o que as palavras substituem. Os realistas dirão que a realidade; os niilistas dirão que o “nada”; enquanto que os construtivistas, dentre os quais incluo Flusser, dirão que, “já que as palavras apontam para algo, substituem algo e procuram algo além da língua, não é possível falar-se desse algo.” E acrescenta: “as palavras são pequenos portais de acesso ao desconhecido que se abrem quando abrimos a boca mas pelos quais não passamos, quedando-nos na soleira.”69

Na atmosfera jurídica, os fatos jurídicos são enunciados que relatam a ocorrência de um suposto evento, daí porque podemos dizer que aqueles são metáforas que assumem o lugar deste. Porém, há que se lembrar, sempre, que as proposições jurídicas não coincidem com o relato social, portanto a figura representativa da metáfora, não só no Direito, como fora dele, há de ser tomada com parcimônia.

Sob essa ordem é que podemos dizer que os fatos jurídicos são fatos semióticos, no dizer de Jakobson, dada a sua natureza icônica, isto é, refere-se a uma ocorrência passada, registrando em linguagem competente apenas os predicados reputados como importantes para “representá-lo”, ainda que parcialmente.

68 GARCIA, 1997, p. 86. 69 FLUSSER, 2004, p. 41.

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Seguindo esse mesmo raciocínio, Torquato Castro Júnior, a partir dos ensinamentos de Johnson e Lakoff, conclui que “As metáforas seriam a base comum que uniria o cognitivo e o lingüístico”.70

É interessante realçarmos que o autor acima teve o cuidado de considerar a metáfora como instrumento vinculador entre o cognitivo e o lingüístico, e não entre esta e a realidade. Isso faz toda diferença, já que o que signo representa não é o dado bruto, mas, sim, a imagem por nós conhecida de um dado objeto, sendo isso o máximo que temos acesso.

Para que a realidade social adentre ao espaço legal, faz-se mister que ela seja traduzida em conceitos normativos. Ocorre assim a decodificação da linguagem social e a codificação desta em linguagem jurídica, para que, só então, aquela passe a fazer parte do repertório juridicizado.

O Direito não pode ser visto fora dessa realidade comunicacional, tanto que o prof. Paulo de Barros já advertira: “penso que nos dias atuais seja temerário tratar do jurídico sem atinar o seu meio exclusivo de manifestação: a linguagem.”71

Sabemos que os dados brutos, como são em si, são inacessíveis, intocáveis. Logo, as prescrições jurídicas não saem da esfera do dever-ser e adentram o mundo do ser, isto é, não toca o ser humano diretamente. Essa é a razão pela qual dizemos que o Direito tenta convencer os sujeitos que a ele se submetem, todavia o máximo que pode fazer é estimulá-los através dos meios lingüísticos que lhe servem a praticar a conduta, tal qual ele entende que deva ser, impondo, para quem se negue a cumpri-la, uma sanção. Vê-se, então, que os jurisdicionados têm livre arbítrio para agir conforme o Direito ou não. No

70 CASTRO JÚNIOR, Torquato. Interpretação e metáfora no direito. In: BARRETO, Aires

Fernandino et al. Interpretação e Estado de Direito – III Congresso Nacional de Estudos Tributário. São Paulo: Noeses, p. 663-672, 2006, p. 670.

dizer do Prof. Tércio, o Direito suporta a negação, que é o contrário do cumprimento de seus ditames, só não suporta a desconfirmação, que consiste em sua ignorância.

Como dissemos retro, o Direito prescreve como as condutas devem ser praticadas e não como elas efetivamente o são; isso deixa claro que a linguagem jurídica não coincide com a linguagem social, nem tem o dever de sê-lo. Tais linguagens são autônomas entre si, isto é, têm dimensões sintática, semântica e pragmática bem distintas.

Daí porque muitos iniciantes na Ciência do Direito não conseguem compreender algumas discrepâncias que se vislumbram entre o mundo do ser e do dever-ser, mormente quando algumas diretrizes jurídicas vão de encontro ao que o senso comum entende por moral, dando ensejo à célebre frase: nem tudo que é legal, é moral e vice-versa. Ou seja, o legislador pode confirmar proposições factuais, mas não se obriga a fazê-lo, tanto que podem infirmá-las sem que isso lhe traga qualquer prejuízo.

É tendo isso em mente que o Prof. Paulo de Barros nos ensina:

A autoridade que legisla passa por alto pela conformação da linguagem vivida no ambiente social, tomando o acontecimento como convém à disciplina de seus interesses regulatórios, exibindo, com isso, a manifesta independência que existe entre os dois seguimentos sígnicos.72

No mesmo diapasão, Gabriel Ivo colore esse tema de modo bastante interessante: “Ao regular a conduta, não teria sentido o direito coincidir com a realidade. Ao duplicá-la, estaria construindo um sem-sentido deôntico. O direito visa alterar a realidade, não repeti-la.”73

72 CARVALHO, P., 2008, p. 163. 73 IVO, 2006, p. XXV.

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É de se ressaltar que essa liberdade do legislador não é irrestrita e ilimitada, deve sim respeito aos imperativos impostos pelo próprio ordenamento jurídico. Porém, esse é um dos problemas filosóficos que até hoje atormentam muitos estudiosos. Como se conhecer efetivamente esses limites? Em que consiste a polêmica moldura criada por Kelsen? Infelizmente não há aqui espaço para enfrentarmos essa questão.

Benzer Belgeler