A pretensão de esgotar esse assunto não faz parte dos ideais do pesquisador. A proposta é conhecer melhor o universo dos enfermeiros por meio da observação de sua prática diária.
Neste capítulo é apresentado o perfil sociodemográfico dos 12 enfermeiros que participaram do estudo, bem como os aspectos do processo de construção da identidade profissional por eles relatados.
A categorização dos sujeitos que compõem o estudo é primordial, pois possibilita delinear melhor o perfil da população estudada, bem como o grau de representatividade de cada área do conhecimento que compõe a formação inicial dos sujeitos pesquisados (DUARTE, 2002).
5.1 Perfil sociodemográfico da população estudada
O Quadro II sintetiza o perfil sociodemográfico e de formação do profissional a partir dos dados obtidos na primeira parte da coleta de dados.
As informações estão reunidas em relação ao sexo, à idade, ao estado civil, à religião, ao tempo de formação, ao tempo de atuação na enfermagem em outras categorias da profissão, ao tempo de atuação como enfermeiros, aos cursos de pós- graduação realizados, às áreas de concentração dos cursos.
Os participantes estão relacionados pela abreviação da palavra enfermeiro, seguido de um número, obedecendo à ordem em que foram entrevistados, como exemplo: Enf. 1, Enf. 2, Enf. 3, etc.
QUADRO II - População do estudo de acordo o perfil sóciodemográfico (N = 12)
Informação
População
Sexo Idade Estado Civil Religião
Tempo de formação em anos (Enf.) Atuação em outra categoria Atuação outras categoria s (anos) Curso de Especialização Curso de capacitação relacionado à área de Enfermagem
Enf. 1 Fem. 31 Casada Católica 08 Aux. Enf. 02
Cuidados Críticos/ Cardiologia e
Docência
____
Enf. 2 Masc 27 Solteir. Católico 08 Tec. Enf. 02 Emergência Urgência/ ____ Enf. 3 Fem. 45 Casada Evangel. 10 Tec. Enf. 15 Docência ____
Enf. 4 Masc 38 estável União Católico 03 Tec. Enf. 12 Urgência/ Docência
Emergência ____ Enf. 5 Fem. 56 Casada Católica 30 Tec. Enf. 03 ____ capacitação Curso de
na área Enf. 6 Fem. 27 estável União Católica 03 Tec. Enf. 05 Docência ____
Enf. 7 Fem. 32 Solteir. Católica 08 Tec. Enf. 03 Mestrado em Enf.
andamento ____ Enf. 8 Fem. 32 Casada Católica 04 Tec. Enf. 05 Cuidados Críticos/
Cardiologia ____ Enf. 9 Fem. 42 Casada Católica 09 Aux. Enf. 06
Docência/ MBA/Gestão e
infecção hospitalar
____
Enf. 10 Fem. 49 Casada Católica 10 Tec. Enf. 20 ____ capacitação Curso de na área Enf. 11 Fem. 42 estável União Católica 07 Tec. Enf. 16 ____ capacitação Curso de
na área Enf. 12 Fem. 31 Casada Evangel. 05 Aux. Enf. 04
Urgência e Emergência
Enf. do Trabalho
____
Fonte: (Dados da População Estudada)
Os dados reunidos em relação ao gênero da população estudada mostraram predominância feminina. Esse dado vem ao encontro dos resultados encontrados por outros autores, que também mostram que as mulheres são maioria na profissão (PADILHA; VAGHETTI; BRODERSEN, 2006, MACHADO; VIEIRA; OLIVEIRA, 2012).
Ângelo, Forcelha e Fukuda (1995) afirmam que a prática da enfermagem na sociedade sempre foi considerada como uma ação feminina, e que desde cedo o gênero feminino era preparado para desenvolver habilidades de cuidar. Nesse
sentido, Spindola e Santos (2005) constatam que a prática do cuidado está atrelada às especificidades das ações realizadas pelas mulheres em seu dia a dia, ficando o homem com a responsabilidade de trabalhar e manter a despesas da casa. Talvez seja por esse motivo que a enfermagem seja uma profissão exercida na maioria das vezes por mulheres (SPINDOLA; SANTOS, 2005).
Apesar de a prática do cuidado ser citada como uma ação feminina, no Brasil o estudo demonstrou que a ação não é específica do sexo feminino, mas também do masculino, pois antigamente, entre os índios, os feiticeiros, os pajés e os curandeiros realizavam o cuidado às pessoas que adoeciam (PADILHA; NAZARIO; MOREIRA, 1997).
A tendência da feminilização na profissão foi um fator avaliado em estudo. Embora se tenha observado, nos últimos anos, que esse cenário está mudando, pois houve um aumento considerável de alunos ingressantes nas faculdades de enfermagem, tornando evidente que cada vez mais o profissional do sexo masculino está se inserindo nessa profissão, evidenciando-se o despertar de uma nova tendência e mudando, ainda de forma tímida, o perfil da enfermagem brasileira (MACHADO; VIEIRA; OLIVEIRA, 2012).
A idade dos entrevistados variou de 27 a 56 anos, e a média de idade dos participantes foram 38 anos. Trata-se, portanto, de equipe em idade produtiva e ativa.
Em relação ao estado civil dos participantes, a maioria era casada, totalizando sete dos participantes; os solteiros perfizeram o total de dois; os com relação estável o total de três. Estes resultados vão ao encontro daqueles obtidos em estudo em que a maioria dos profissionais casados também foi maior. O autor ressalta ainda que o número de pessoas que vivem relações conjugais, mesmo não sendo regularizadas por lei, procuram constituir família por meio de união estável, considerando que esse seja um mecanismo protetor e de defesa. Acredita o autor que o fato de se ter uma família auxilia na manutenção, no equilíbrio e na preservação da saúde mental dos profissionais (HILLESHEIN; LAUTERT, 2012).
Em relação à religião, os dados obtidos mostraram que predominou a católica, totalizando dez dos participantes. Dois eram evangélicos. Espíndula, Valle e Bello, (2010) afirmam que a preocupação do profissional da saúde deve ir além dos aspectos físicos. Independentemente de sua religião, a prática da religiosidade pode ter papel importante na relação que o profissional estabelece com o paciente, além de auxiliá-lo a construir um sentido para viver e colaborar na dimensão dos cuidados aos enfermos.
Em relação à formação dos participantes, os resultados mostraram que todos estavam formados e que atuavam na categoria de enfermeiros por um tempo superior a três anos. Andrade, Caetano e Soares (2000) afirmam que o tempo de formado e de atuação é um indicativo de experiência para o mercado de trabalho e de relativa maturidade, pois revela competências e habilidades do profissional. Um período de atuação de até dois anos na área da enfermagem é considerado como um bom período de adaptação desse profissional. Com três anos de atuação, ocorre a estabilidade, e acima desse tempo é que o profissional adquire experiências, o que permitirá que ele trabalhe com maior segurança nas diversas áreas da enfermagem, inclusive em situações de urgência e emergência (ANDRADE; CAETANO; SOARES, 2000).
Quanto à atuação em outra categoria da enfermagem, os dados do Quadro 1 mostram que três participantes foram auxiliares de enfermagem, e nove, técnicos de enfermagem.
Costa, Merighi e Jesus (2008) afirmam que, no dia a dia, os auxiliares e técnicos de enfermagem convivem com o enfermeiro na situação de subalternos, na hierarquia da enfermagem, e que muitos desses profissionais de nível técnico aspiram à formação superior em Enfermagem com a finalidade de melhorar sua condição de vida e seu poder aquisitivo. Ao ingressarem na área, muitos encontram dificuldades de relacionamento com a equipe e de aceitação aceitos por ela, visto que anteriormente eram subalternos e agora compartilham o mesmo nível hierárquico.
Assim, considera-se que o período de mudança e adaptação da categoria profissional seja de superação, e o indivíduo terá de se ajustar gradativamente. É
um período em que os enfermeiros, ex-auxiliares e ex-técnicos de enfermagem devem se “desvestir” de suas vivências anteriores, para absorver outra realidade. Alguns dos novos valores não lhes são totalmente compreensíveis, mas terão que vivenciá-los, por exemplo, o processo de gerenciar o trabalho e a sistematização da assistência de enfermagem (COSTA; MERIGHI; JESUS, 2008).
Hoje em dia não é mais aceitável que a formação de um profissional seja limitada à graduação. Além da formação técnica, deve-se estimulá-lo, sobretudo, a ter raciocínio científico, pois ele não deve apenas executar ordens e cumprir normas estabelecidas pela instituição em que trabalha, mas deve questioná-las por meio do pensamento crítico. Outros valores, como o trabalho em equipe, o exercício da cidadania, a solidariedade e o corporativismo fazem parte de uma enfermagem com qualidade (ZANGARI; BERGARA, 2010).
A prática da enfermagem no Brasil sofreu influências de fatores socioeconômicos, sendo necessária a profissionalização das pessoas que queriam atuar nessa área. É exigido, nessa profissão, que o profissional busque especialização e constante atualização, para que suas ações sejam exercidas de forma eficaz, procurando atender às necessidades da população assistida (ZUZA; SILVA, 2007).
Nesse sentido, observou-se, neste estudo, que a maioria, oito dos participantes, complementou sua formação acadêmica, prosseguindo nos estudos e realizando curso de especialização. Um estava concluindo o mestrado em enfermagem e somente três não têm nenhuma pós-graduação, embora tenham feito cursos de capacitação com temas relacionados à enfermagem.
Estudo demonstra que cada vez mais o profissional da enfermagem busca a qualificação, o que reflete positivamente na qualidade da assistência prestada aos pacientes, conferindo maior visibilidade e destaque ao profissional (HILLESHEIN; LAUTERT, 2012).
Considera-se que a especialização proporciona ao profissional da enfermagem melhor preparo, pois o direciona a uma área determinada do conhecimento, aperfeiçoando-o em relação às práticas do cuidado realizado, tanto
para os clientes quanto para os familiares e para a comunidade. Portanto, a especialização e a qualificação devem estar de acordo e em sintonia com o mercado de trabalho, que está em constante expansão, sendo grande a concorrência. Assim, considera-se que seja fundamental que os enfermeiros que atuam nos serviços de saúde estejam sempre buscando melhorar o conhecimento e o saber científico, para subsidiar a prática assistencial (OLIVEIRA et al., 2009).
Os autores acreditam que a especialização colabora para o crescimento profissional do enfermeiro e melhora o entendimento, pois permite que o conhecimento adquirido no meio acadêmico seja socializado no contexto do trabalho (OLIVEIRA et al., 2009).
De maneira geral, considera-se a educação e a atualização instrumentos de mudança e transformação para a sociedade. Assim, compreende-se que a educação seja uma forma que o indivíduo encontra para se capacitar. Por meio dessa estratégia, o profissional adquire maior possibilidade de se construir dentro do mundo do trabalho e de se fixar em uma instituição/empresa como um sujeito que constrói e desconstrói, em um movimento dinâmico e complexo mediado por valores políticos, culturais e éticos. Considera-se que esses fatores contribuem para a constituição da identidade profissional do ser humano (RICALDONI, SENA, 2006).