Meurer (2000) afirma que o gênero é um fenômeno que se localiza entre a língua, o discurso e as estruturas sociais. Nessa direção, apresento algumas discussões sobre o assunto a partir de trabalhos com laços teóricos mais visíveis, denominados abordagens sociossemióticas.
Diversos são os estudos que tratam do conceito de gênero na mesma perspectiva, como é o caso de Halliday e Hasan (1989), para quem os gêneros possuem convenções recorrentes utilizadas pelos usuários e materializadas em seus textos. O argumento central nos textos de Hasan reside na necessidade e na possibilidade de analisarmos a linguagem como um sistema sociossemiótico. Em conjunto com Halliday, Hasan faz uso dos conceitos de gênero e de estrutura
potencial dos gêneros; para ambos, os gêneros possuem convenções recorrentes utilizadas pelos usuários e materializadas em seus textos. Hasan utiliza os termos estágios obrigatórios, estágios opcionais e estágios recursivos para tratar da organização textual.
A perspectiva apresentada por Hasan está em harmonia com a teoria social de Bernstein e com a linguística sistêmico-funcional de Halliday, que concebe a linguagem como um sistema de significações que intervém na existência humana. As relações sociais influenciam os padrões de seleção “do que é dito, quando é dito e como é dito” (BERNSTEIN, apud HASAN, 1999:22). A partir daí, Hasan recontextualiza a teoria sociolinguística de Bernstein e assevera que, quando se trata de analisar a linguagem, os fatores pertinentes aos contextos em que a vida humana está em andamento devem ser examinados; argumenta, ainda, que a análise da configuração do contexto nos possibilita perceber quais elementos da estrutura textual são obrigatórios e quais são opcionais.
Motta-Roth e Herbele (2005) ressaltam que, na relação funcional entre linguagem e contexto de situação, cada gênero corresponde a padrões textuais recorrentes. Desse modo, para atingir um determinado objetivo comunicativo valemo-nos do registro de linguagem comumente associado ao contexto em que se ambienta a situação de experiência humana.
Para Halliday (1989:12) e Hasan (1996c:39), as três variáveis (campo, relações e modo) da configuração contextual, doravante (CC), são necessárias para definir o contexto da interação pela linguagem. Essas variáveis, responsáveis pela CC, nos permitem prever a apropriação de um texto em um dado contexto, isto é, se o texto pode ser considerado exemplo de um gênero específico.
Ainda em relação ao gênero, Hasan (HALLIDAY e HASAN, 1989) diz que o gênero possui basicamente dois tipos de elementos: os obrigatórios e os opcionais. Entretanto, a autora ressalta que um gênero só é configurado pela presença de elementos obrigatórios em sua estrutura. Os elementos obrigatórios dispostos em uma ordem padrão permitem que reconheçamos se o texto está completo ou não. Hasan também afirma que os elementos opcionais são por definição aqueles que podem ocorrer, mas não obrigatoriamente. As possibilidades dos elementos obrigatórios e opcionais que podem ser constituintes de um gênero e
a ordem em que tais elementos ocorrem estabelecem, por sua vez, a Estrutura Genérica Potencial (EGP) desse gênero.
Motta-Roth e Herbele (2005:17) asseguram que, enquanto a CC determina uma classe de situações, o gênero se configura na linguagem e desempenha o papel apropriado àquele evento social. Segundo as autoras, a EPG se constitui, portanto, na expressão verbal de uma CC, e como tal depende de determinado conjunto de valores associados ao campo, relação e modo. Sendo assim, CC representa a interrelação entre a linguagem e seus contextos de uso em situações específicas. Essas situações, por tratarem de relações sociais ou atividades sociais específicas, são semiotizadas linguisticamente em determinados gêneros, e podem mudar conforme a evolução/alteração de tais relações. Em outras palavras, “exemplares de um mesmo gênero podem apresentar variações no seu esboço dentro de limites especificados na EPG” (MOTTA-ROTH e HERBELE, 2005:18).
Há uma tendência de os elementos obrigatórios da EPG aparecerem em uma ordem específica, e sua ocorrência pode ser prevista por elementos contextuais. Esses elementos são componentes essenciais de qualquer texto completo de determinada CC e, portanto, são definidores do gênero (Idem). Já os elementos opcionais podem ser mais variáveis e estão associados a determinado gênero, porém não precisam necessariamente estar presentes em qualquer texto que faça parte daquela atividade social específica. A ocorrência desses elementos não é condição necessária, pois é prevista por um elemento contextual não definidor do gênero. Há, ainda, um terceiro elemento textual, denominado recursivo, que não segue uma ordem rígida e que pode aparecer mais de uma vez em um evento comunicativo.
Motta-Roth e Heberle (2005:19) esclarecem que a CC, situação na qual o gênero se constitui, e a EPG, linguagem que medeia a atividade social nessa situação, são por essência conectados, ou seja, a CC oferece pistas para a compreensão do significado em função da EPG e vice-versa, de maneira que traços específicos do contexto correspondem a elementos do texto de um gênero e à ordem na qual aparecem. Para Hasan (1994:128), o construto da EPG assemelha- se a um esboço ou plano capaz de esclarecer quais elementos devem/podem ocorrer em cada e toda instância de um discurso particular; e também como esses elementos se relacionam. Em relação à EPG, Martin (1985, apud HASAN, 1995:187)
argumenta que até certo ponto a EPG impõe uma visão linear e objetiva de gêneros, o que a coloca como uma categoria desconectada do evento que a originou. Para Martin, um modelo como a EPG, quando prioriza a representação abstrata, não dá conta da individualidade e da dinâmica de cada evento particular. A perspectiva teleológica adotada por Martin (1985, 1989, 1992, 1997, 2000) para a análise de gêneros tem sua origem em diversos trabalhos, como o de Halliday (1985) e Matthiessen (1995). O modelo de contexto utilizado por Martin em seus trabalhos anteriores (1985,1989) tem sua base em Ventola (1987) e nos conceitos de contexto de situação e de registro de Halliday (1978).
Sob a perspectiva teleológica, o conceito de gênero é definido como um sistema estruturado em partes, com meios específicos para fins específicos. A teleologia “considera o mundo como um sistema de relações entre meios e fins”; sendo assim, os estágios nos quais um texto se estrutura levam o usuário a um ponto de conclusão que, segundo Martin (1992:503), poderá ser considerado incompleto caso a conclusão não seja atingida. Para um melhor entendimento, vale mencionar o exemplo dado por Vian Jr. (1997): se um usuário da língua está ao telefone e a pessoa com a qual ele/ela esteja falando não assinala o fim da conversa com algum elemento linguístico e desliga o telefone subitamente, haverá uma “quebra” no gênero. Em outras palavras, o ouvinte possui conhecimento desse gênero e sabe como deve ou deveria ser o encerramento, e quais são os elementos linguísticos pré-estabelecidos no contexto. Nesse caso, o gênero é considerado incompleto.
Retomando a importância do contexto, Martin (1992:494), no que se refere à teoria de linguagem hallidayana, ressalta que a teoria intrínseca da função da linguagem é projetada no contexto como uma teoria extrínseca de linguagem em uso. A relação entre contexto e linguagem é, então, tratada como uma relação simbólica.
Por outro lado, visto da perspectiva de cultura, o contexto pode ser interpretado como um sistema de processos sociais. Essa perspectiva fundamenta de certa maneira o trabalho de Bakhtin no que se refere ao gênero pois, para esse autor, a língua é utilizada em todas as esferas de atividade humana, em forma de enunciados, que podem ser orais ou escritos. Essas formas são compostas por um conteúdo, um estilo verbal e uma construção composicional. Para Bakhtin
(1992:279), os três elementos “fundem-se indissoluvelmente no todo do enunciado, e todos eles são marcados pela especificidade de uma esfera de comunicação”. Martin (1992) ressalta que essa perspectiva mais “holística” (grifo do autor) presente no trabalho sobre gêneros de Bakhtin converge surpreendentemente com o desenvolvimento dos estudos sobre gênero na teoria sistêmica:
Todas as diversas áreas de atividade humana envolvem o uso da linguagem. A natureza da forma do uso da linguagem é muito compreensivamente, tão diversa quanto as áreas da atividade humana (...). A língua é realizada sob a forma de declarações concretas (oral e escrito) por participantes das diversas áreas da atividade humana. (...) Todos os três destes aspectos – conteúdo temático, estilo e estrutura composicional – estão inseparavelmente ligadas à totalidade da declaração e são igualmente determinados pela natureza específica da esfera particular de comunicação.21
O ponto de tensão entre as duas perspectivas – Halliday e Bakhtin – pode ser esclarecido quando entendemos os dois planos de comunicação do contexto, gênero (contexto de cultura) e registro (contexto de situação).
Halliday (HALLIDAY e HASAN, 1989:38) define registro como um conceito semântico. O registro, que se manifesta no texto por meio de traços linguísticos – sejam eles fonológicos, lexicais, gramaticais, locucionais ou discursivos – é “uma configuração de significados que são tipicamente associados com uma configuração particular de campo, modo e relações”. As relações sociais existentes no cotidiano – os processos sociais –, podem estar refletidos no registro.
A situação, compreendida como as circunstâncias referentes a cada interação, origina-se nos processos; por essa razão, a cada contexto de situação está relacionado um tipo de registro, ou seja, não é possível utilizar um único registro para todas as situações do cotidiano que vivenciamos. O registro está relacionado à organização da situação ou do contexto, e o gênero à organização da cultura e dos propósitos sociais em torno da linguagem (SWALES, 1990).