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3. SIVILARDA YÜZEY GERĠLĠM

3.3. Çözeltilerin Yüzey Gerilimi

Consta do Livro das Atas das Comunidades Latino-americanas que, em 28 de junho de 2006, celebrou-se a primeira Missa Latina, objetivando difundir as ricas e variadas expressões socioculturais das diversas coletividades latinas, presentes e atuantes em São Paulo nessa época histórica. Não obstante esse registro, para efeitos da celebração dos vinte (20) anos considerou-se 1996, constante do Livro Tombo brasileiro, como a data inicial dessa celebração, face a qual, sob a orientação do Padre Alejandro Cifuentes, atual pároco dos latinos, todas as comunidades latinas relembraram a data, mediante a realização de uma grande celebração litúrgica, seguida de uma massiva comemoração na Igreja da Paz. Dada a relevância dessa missa para as comunidades latinas de São Paulo, considerou-se pertinente registrá-lo, no intuito que o evento sacro e profano – simbolicamente chileno - que é a Fiesta del Virgen Del Carmen possa tornar-se objeto de estudo de outros pesquisadores.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Inquirir e interpelar o processo da imigração chilena em São Paulo, bem como, esquadrinhar o fenômeno migratório, sua composição e a inserção no variado e rico espaço deste vasto e múltiplo São Paulo, tornaram-se o alicerce da inquietude investigativa desta pesquisa.

Apesar do foco desta pesquisa estar centralizado nas experiências imigratórias chilenas, particularmente as desenvolvidas em torno ao espaço eclesial da Igreja da Paz em São Paulo, local que lhes possibilitou a estruturação e a evidenciação como um grupo com identidade e memória resignificadas, a temática propiciou evidenciar que esse grupo de imigrantes, assim como outros tantas agrupações, conforma o rico e heterogêneo mosaico paulista.

O recorte temporal da imigração chilena a São Paulo foi definido entre os anos 1973 – 2013, a partir do golpe militar de 11 de setembro, o período mais relevante dos movimentos imigratórios chilenos de todos os tempos. Processo imigratório que envolveu milhares de homens e mulheres, em busca de condições socioeconômicas e politicas adequadas, que rumaram além-fronteiras com o sonho de melhores dias para si e seus descendentes. Embora a delimitação temporal estender-se através de 3 décadas, a grande concentração desse grupo de imigrantes abrangeu o período de 1973 – 1990, no qual a maioria foi responsável e/ou participante das atividades, atualmente desenvolvidas pela comunidade, entre as quais, a “Fiesta de la Virgen del Carmen”.

Além de aglutinar as diretivas das associações e agrupamentos, esse período historicamente responde pela maior concentração de imigrantes legalizados ou não em São Paulo. Centralizar a pesquisa nesse período oportunizou transpassar barreiras e desconfianças para vincular alguns dos muitos motivos que os impeliram a saída do Chile, as dificuldades, os medos e as angústias dos que “se lançaram” em prol de um novo amanhecer.

É preciso registrar que, assim como os acontecimentos do dia 11 de setembro não tinham afetado a sociedade chilena por igual, aceder às memórias de imigrantes permitiu examinar o processo da saída e chegada, descortinando as diferenças em torno da entrada neste novo chão. Alguns apresentavam documentação que

legitimava sua emigração, enquanto os “ilegais”, desprotegidos, contavam apenas com sua coragem para cruzar fronteiras para nunca mais voltar.

Inquerir essas memórias foi primordial para auferir a relevância que, ainda hoje, a fixação espacial e a data de chegada à urbe paulista têm para alguns dos membros mais antigos da colônia residente. Essa percepção foi fundamental para entender, que “a priori, a memória possa surgir como um fenômeno individual ela é, acima de tudo, um fenômeno coletivo e social, ou seja, um fenômeno construído coletivamente” , PELO QUE SEI NÃO PODE TER CITAÇÃO EM INTRODUÇÃO NEM EM CONCLUSÃO PORTANTO, VOU REESCREVER A FRASE COMO SE FOSSE SUA APRENDIDA PELAS SUAS LEITURAS. SUGIRO ASSIM:

Inquerir essas memórias foi primordial para auferir a relevância que, ainda hoje, a fixação espacial e a data de chegada à urbe paulista têm para alguns dos membros mais antigos da colônia residente. Essa percepção foi fundamental para entender que, se a memória surge, à primeira vista, como um fenômeno individual, vindo das reminiscências de cada depoente, ela significa, antes de tudo, um dado construído coletivamente, assim, pode revelar fatos de um grupo social, no caso, o dos imigrantes chilenos. Dessa forma, durante o desenvolvimento de uma conversação aparentemente simples, as informações dados por eles permitiram “determinar” a legalidade ou ilegalidade do interlocutor quando de suas trajetórias.

Para esses imigrantes, a chegada à cidade de São Paulo na conturbada década de 1973 representou “respirar, trabalhar e sonhar”. A grande maioria dos imigrantes desta época chegava via antiga Rodoviária de São Paulo e, passado o pavor de enfrentar esta enorme cidade, para quem chegava sem apoio algum, surgia a necessidade de obter informações sobre trabalho, residência e comida. Não raro, essas referências eram conseguidas dentro do próprio terminal, motivo pelo qual as fileiras, tanto de recém-chegados quanto de imigrantes ilegais, que diariamente aproximavam-se da Igreja da Paz, na Rua Glicério, cresciam desmedida e rapidamente MELHOR COLOCAR A IGREJA POIS APENAS RUA GLICÉRIO NÃO EXPLICA NADA AQUI.

Dada a significância desse local de memória, não é insólito imaginar que esse espaço preservador da rememoração, tenha se convertido no lugar, em cujo interior as relações sociais imigrantes, fortalecidas pelas lembranças pátrias, propiciara a conformação de um grupo que, através dos hábitos e práticas religiosas, reviveram o sentido do ser chileno.

São Paulo, uma das maiores megalópoles do mundo, síntese de etnias e culturas, formas de expressão e de viver, foi o cenário onde descortinei trajetórias, as histórias de um grupo de homens e mulheres, cuja expressividade quantitativa não reflete a relevância e incidência das suas narrativas, no processo de construção cultural do ser chileno em São Paulo.

Nesse desvendar das andanças conterrâneas, alguns aspectos dessa trajetória foram destacados pelos próprios depoentes, entre os quais, certos eventos e comemorações, desenvolvidos no espaço paulista, ao longo do tempo, revelando-se assim, novos elementos de pesquisa, que facultaram rumos inéditos a serem interpelados e elucidados.

Refletir sobre a cultura, como uma ação dinâmica e permanente, implica em perceber que os lugares de memoria condensam, resumem e propiciam a partilha das memórias individuais e das coletivas, viabilizando assim, que através da sociabilização, seja politica ou seja histórica, pode acontecer um fenômeno de assimilação com um determinado tempo do passado comum, intensamente presente na memória chilena, haja vista, as motivações da partida estarem embasadas, recorrentemente, em dois eixos, o politico e/ou econômico.

A conjuntura econômica do Brasil nas décadas de 1970 a 1980 apresentou um grande desenvolvimento com o aumento da indústria e o crescimento das exportações, mas também um acentuado empréstimo externo, que favoreceu, particularmente, a um pequeno setor da população, em detrimento de uma grande parte da sociedade, que permaneceu afastada do mesmo, em virtude da rigidez da política salarial, pela qual, nem os trabalhadores e nem os sindicatos, nada puderam modificar.

Devido as condicionantes socioeconômicas e a excessiva rigorosidade politica imperantes no Chile, bem como as experiências pessoais, em relação às “dificuldades politicas”, que todos, que aqui chegaram, tinham enfrentado em maior ou menor grau e, apesar de que o cenário econômico, que se defrontaram ao chegarem ao Brasil, especificamente no tocante a emprego e salário, já revelava sérias dificuldades, relacionadas ao rigor e à violência do sistema imperante, “em momento algum” pareceu-lhes ter o alcance dessa situação, comentado pelos cidadãos locais.

Vindos e, como já registrado, a partir de duas vertentes, a saber, os documentados e os indocumentados, as dificuldades de inserção expressaram-se de maneiras diferentes. Para os documentados, ou legalizados, apareceu o trabalho

garantido resultado da especialização tão preciosa e necessária para a produção brasileira e, consequentemente, condições de vida sociofamilar equacionadas. Para os indocumentados, os ilegais, sendo, esses, a grande maioria, sua inserção necessitou de uma forte luta, com a busca diária e decididamente do emprego e da inclusão no campo laboral, enfrentando as dificuldades linguísticas, hábitos e práticas dissemelhantes próprios e inerentes a bases culturais diferentes. Enfim, todos, legais e ilegais, enfrentaram uma peleja pela inserção nessa nova terra, sem esquecer nem deixar para trás a cultura pátria e os hábitos de nascença, na vivência e no suporte do grupo, sustentáculo da memoria perpetuada, tangível ou sensivelmente, no âmago do grupal.

Na cidade paulista, global e impessoal, delinearam-se múltiplas trajetórias. Compartir das memórias dos chilenos das décadas de 1970 e 1980, permitiu que visitasse uma cidade, que foi conformando-se pouco a pouco com o aporte de milhares de mãos estrangeiras. Se bem que São Paulo não possua um espaço tipicamente chileno, existem determinados locais, que concentraram as atividades desenvolvidas pela nascente colônia chilena, aglutinada nos intra e extra-muros da Igreja da Paz, dirigida pelos Scalabrinianos.

As atividades sociais e assistenciais, bem como, as sociopolíticas, no que se referem à defesa dos direitos humanos do imigrante, foram propiciadas e incrementadas sob a guia e proteção dos Scalabrianos que, desde a sua fundação e embasados na sua missão, dirigem seus esforços fundamentalmente à atenção aos migrantes, seja no âmbito pastoral ou social, assim, têm apoiado e protegido os grupos das mais diversas etnias, que se aproximam da sua casa. Em termos de sociabilidade, o grupo chileno sobressaiu pelas comemorações alicerçadas nas práticas religiosas, de tal maneira, as preces, as novenas e fundamentalmente a “Fiesta de la Virgen del Carmen”, padroeira do Chile, gerando os encontros anuais da coletividade, no espaço litúrgico e no espaço social da igreja dos Scalabrinianos.

Desde a realização das primeiras festas, ela resignifica-se em dois espaços distintos do âmbito eclesial, o sacro – litúrgico, no interior da igreja - e o profano – comemoração festiva, no exterior do edifício. Ambas as atividades, sujeitas a regras rigorosamente obedecidas e dirigidas por membros distintos de uma mesma equipe, a Pastoral Chilena, incumbidos da responsabilidade da organização, administração, análise e aprimoramento da totalidade do evento ano a ano renovado.

Alguns protagonistas dessa experiência celebrativa expuseram por meio das recordações orais, vivências, incentivos, fatos relevantes, dimensões e aspectos da reconstrução de seus hábitos e costumes nesse “lugar de memoria”, onde permanece e de onde se nutre a sua identidade e sua razão de ser.

A comemoração aciona a memória individual e coletiva que, intensa e dinâmica, e através dos ritos, performances e práticas de uma coletividade, criando raízes no espaço concreto, por meio dos artefatos, das figuras imagéticas dos gestos, ou seja, das representações, para recriar e resignificar sua cultura e trajetória de maneira sempre viva e surpreendente.

Desta maneira, essas e outras lembranças, entrecortadas pela emoção e, não poucas vezes, pela respeitabilidade das lágrimas que, entre reminiscências de viagens, dificuldades linguísticas, alegrias e tropeços durante o estabelecimento nesta cidade, desvendaram sentimentos, trunfos e derrotas imigratórias, revelando-se, entre individualidades e generalidades. Os laços construídos, a sociabilidade arquitetada e os espaços delineados, descobriram a cotidianidade de suas lutas e os remansos festivos de ressignificação e identidade.

Recriar a festa, concedeu, aos conterrâneos, restabelecer o laço do pertencimento, origem e eixo da identidade, de assemelhar-se, de rememorar. Recompor o processo histórico, através da religião, tornou a festa o elemento vivo do reencontro com a participação, tão cara e vital, para a integralização do desenvolvimento sócio participativo desses latino-americanos do fim do mundo.

O processo da resignficação das práticas culturais transpassa o conceito da devoção e da doutrina, ele perpassa a prática da oração comunitária, percorrendo a senda da confraternização devotada à “Virgen del Carmen”, em prol do auxílio daqueles imigrantes, que, assim como eles, hoje tanto precisam da ajuda, da mão fraterna, da preservação da fé e devoção geracional.

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