BÖLÜM 3. MATERYAL VE YÖNTEM
3.2. Yöntemler
3.2.19. Boyama
Deve-se destacar que não há uma metodologia específica para se avaliar a variabilidade no comportamento do indivíduo até o atual momento. O presente trabalho sugere procedimentos metodológicos – descritos no decorrer deste capítulo – que se pretende que sejam mais adequados ao tratamento das variações individuais.
Dessa forma, a metodologia aqui proposta deve possibilitar a análise do comportamento lingüístico do indivíduo, considerando que esse comportamento é baseado em representações múltiplas (BYBEE, 2001, 2002). Neste caso, não podemos ter uma
hipótese exata sobre o comportamento de cada indivíduo em relação à realização dos fenômenos aqui analisados, os quais serão discutidos na seção 4.4.1. Assim, por exemplo, quanto ao cancelamento de “r” final em nominais (ex.: cantor Æ cantô), não podemos afirmar se um determinado indivíduo irá ou não realizar tal fenômeno ou se, realizando-o, irá cometer mais ou menos cancelamentos.
Ao considerarmos que o comportamento do indivíduo é baseado em representações múltiplas, pautado na experiência, no uso, é dinâmico e atualizado de forma on line (BYBEE, 2001), supomos que ele deve ser, de certa forma, imprevisível. Assim, novamente, não podemos formular uma hipótese forte a respeito do comportamento do indivíduo. Por esse motivo, adotamos como método o Estudo Descritivo Exploratório. Neste tipo de método, apenas se descrevem os resultados encontrados sem se buscar a confirmação de uma hipótese pré-estabelecida.
Esta pesquisa conta com uma abordagem de tempo aparente, já que é realizado um estudo transversal com os 12 indivíduos aqui selecionados. O capítulo 5 aborda tal estudo.
Ainda, o presente trabalho conta com uma abordagem de tempo real, já que apresenta três análises de caráter longitudinal, as quais podem ser conferidas no capítulo 6. Na primeira análise, avalia-se se houve mudança estatisticamente significante, para os 12 indivíduos em estudo, do corpus de origem de cada um deles (corpora 1, 2 e 3) para o corpus atual. Essa análise comparativa tem, assim, um caráter longitudinal, visto que observa a produção lingüística dos mesmos indivíduos em tempos diferentes: em pesquisas anteriores e na atual. A segunda análise incide sobre o estudo longitudinal de diversas interações aqui realizado; para sermos mais exatos, de 6 interações ou coletas
mensais de dados, com 2 dos 12 indivíduos do estudo transversal. Na terceira análise de caráter longitudinal que fazemos, observamos esses 2 indivíduos do estudo longitudinal de 6 coletas, comparando a produção lingüística deles no estudo transversal e no estudo longitudinal realizados neste trabalho.
Sobre o estudo da mudança em tempo real, Paiva e Duarte (2003, p. 17) fazem a seguinte afirmação:
O estudo da mudança em tempo real (de curta ou longa duração) permite recobrir aspectos que não podem ser detectados pelo estudo em tempo aparente, distinguindo mudanças que se produzem de forma gradual em toda a comunidade lingüística daquelas que podem caracterizar a trajetória de comportamento lingüístico do indivíduo ao longo da sua vida. (PAIVA; DUARTE, 2003, p. 17).
Por essa afirmação de Paiva e Duarte (2003), é possível notar que um estudo em tempo real é muito importante a este trabalho, por nos possibilitar identificar possíveis variações no comportamento do indivíduo. Podemos dizer ainda que, mais do que estarmos fazendo um estudo em tempo real, estamos realizando um estudo de painel: re- entrevistas com os mesmos indivíduos sobre um período de tempo (Cf. BAILEY, 2002, p. 329).
Segundo Bailey (2002, p. 329), dados desse tipo – obtidos em tempo real, em uma pesquisa do tipo estudo de painel – são cruciais para se explorar estabilidade e mudança em vernáculos individuais. Vale destacar, também, o comentário de Paiva e Duarte (2003, p. 17) sobre esse tipo de pesquisa: “O estudo de painel, através da comparação de amostras de fala dos mesmos falantes em diferentes pontos do tempo, permite captar mudanças ou estabilidade no comportamento lingüístico do indivíduo [...]”. É interessante retomar a pesquisa do Programa de Estudos sobre o Uso da Língua – PEUL, a qual foi abordada no capítulo 2. Como foi visto, nos dados desse estudo, os
quais provêm de duas entrevistas coletadas em dois tempos diferentes com os mesmos informantes (estudo em tempo real), foram constatadas variações inter e intra- individuais.
A proposta de se utilizar aqui o estudo longitudinal na análise da variabilidade individual é também motivada pelo fato de que trabalhos em aquisição da fonologia adotam tal estudo para observar variações individuais decorrentes do próprio desenvolvimento da linguagem infantil16. É sabido que toda criança, durante o processo de aquisição de uma língua, apresenta variações na sua fala (Cf. VIHMAN, 1996; DEMUTH, 1997; HAZAN; BARRETT, 2000), devido ao fato de que ela está se desenvolvendo lingüisticamente, de que ela ainda não adquiriu a língua.
Assim, observa-se que, nos trabalhos de aquisição, a adoção do estudo longitudinal como procedimento metodológico permite que se avaliem melhor as variações no comportamento do indivíduo (OLIVEIRA GUIMARÃES, em andamento). Contudo, é preciso dizer que esses trabalhos em aquisição não se interessam pela questão da variabilidade individual. Antes, neles, tal variação é analisada em função somente do desenvolvimento na aquisição da linguagem infantil.
Ainda, é preciso dizer que o presente estudo adota aspectos da Sociolingüística (LABOV, 1966), já que os fenômenos em análise apresentam-se como casos de variação. Dentre esses aspectos que utilizamos, podemos citar, por exemplo, a adoção da entrevista de fala espontânea e das tarefas de leitura e de nomeação por figura nesta pesquisa.
16
Para uma maior discussão a respeito da adoção do estudo longitudinal em trabalhos sobre a fala infantil e em trabalhos sobre a fala adulta, consultar Fontes Martins; Oliveira Guimarães (em andamento).