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2. BOSE SİSTEMLERİNİN GENEL KUANTUM MEKANİKSEL

2.3. Bose Sistemlerinin Dağılım Fonksiyonu

Misteriosa mas invulgar criatura, por uns dada como cigana e por outros apontada como portuguesa dos quatro costados, era a cantatriz tida como capaz de feitos inimagináveis. Num dos muitos fados que lhe são dedicados, uma das quadras reza assim:

‘Até o próprio S. Pedro Às portas do céu sentado Ao ver entrar a Severa Bateu e cantou o fado’ 192

Permito-me sublinhar o contentamento atribuído ao Porteiro Celeste, que teria aproveitado de imediato para mostrar o seu amor à trova, cujas polémicas origens ainda continuam a apaixonar muitos empenhados e especializados investigadores, assunto que contemplámos noutro ponto de forma a ele não nos eximirmos. Gostaríamos agora de chamar a atenção para um outro facto patente na quadra e não menos importante do que

190 - O termo é muito lato, não significando, apenas, marginais ou exploradores de prostitutas. Muitos desses homens eram antigos criados de casas abastadas, embora à noite se vestissem de fadistas, indo para os cafés cantar e tocar. Geralmente, usavam navalha e não eram pacíficos.

191 - As prostitutas viam-se designadas por diversos termos caídos hoje em desuso, como noutro ponto referimos.

192 - Versos referidos in João Pinto de Carvalho (Tinop), História do Fado, Lisboa, Dom Quixote, 1982, p. 101.

85 a alegada fadistice do primeiro papa e bispo de Roma: apesar da famosa sacerdotisa de Vénus não ter levado (por inerência de funções) existência casta, surgirá sempre a entrar ou a habitar os céus católicos, com uma naturalidade nunca desmentida, nas diversas letras de fados por nós consultadas. É pormenor curioso, tanto mais que muitos destes autores estavam longe de o fazerem por desafio aos poderes eclesiásticos, que seriam postos em causa pela trova, sim, mas muito mais tarde, com o chamado fado operário, movido por inquietações sociais e ligado a ideais revolucionários.

Mas convoquemos a primeira testemunha de monta para um procurado retrato da Onofriana: o nosso já conhecido Luís Augusto Palmeirim, director do Conservatório Real de Lisboa, deputado e poeta, que conheceu pessoalmente a famosa mulher das vielas. Faz o vate, a dado passo, na interessante prosa que lhe dedica, uma apreciação contrastante com as visões de muitos outros autores:

A Severa não era mulher para pieguices, nem para choradeiras. Forte e resoluta como algumas dessas viragos de que rezam as nossas crónicas, com os cabelos soltos, e o clássico cigarro ao canto da boca, não pretendia ser amada pelos seus dotes femininos, mas comprazia-se em subjugar os seus admiradores pela suavidade da sua voz de meio soprano, pelo chistoso desembaraço da sua dança voluptuosa, e, acima de tudo, pela irascibilidade do seu génio, e não pouco também pela fortaleza do seu pulso, arredondado como de mulher, mas rijo como o de um atleta.193

Existia nela, porém, qualquer coisa de raro, como Palmeirim deixa amplamente transparecer:

Vi-a e falei-lhe uma única vez, e foi o bastante para nunca mais me esquecer da esbelta rapariga, que tinha lume nos olhos, uma voz plangente e sonora, e, apesar destas aparentes seduções, uns modos bruscos e sacudidos, que avisavam os seus interlocutores a porem-se fora do alcance de um revés da fortuna.194

E acrescenta:

Gozou em vida a Severa da máxima popularidade, a popularidade do alcouce, é verdade, mas o seu nome de todos conhecido, a sua voz invejada pelas companheiras, e o seu calão, original e pitoresco, granjearam-lhe uma celebridade que ainda há pouco vivia na tradição oral, e depois logrou a consagração do livro, no fado em que se lastima a sua morte (…) Quando eu conheci a Severa tinha ela então uns vinte e tal anos. Estava na força da vida, e cantava acompanhando-se à guitarra:

Quem tiver filhas no mundo

193 - Luís Augusto Palmeirim, «Os Excêntricos do meu Tempo», Lisboa, 1891, pp.286-287. 194 - Idem, ibidem, pp. 285.

86 Não fale das desgraçadas,

As que hoje são perdidas Também nasceram honradas.

E com tão doloroso acento fazia vibrar as cordas da banza, que era preciso ter o coração de pedra, para não reconstruir com a melopeia triste daquele fado um vago poema, em que a mocidade da cantora, nesse tempo petulante de seiva, se confundia com um instintivo e mal disfarçado horror, aos que falavam das desgraçadas, em cujo número ela se contava, sem grande arrependimento.195

Depois de diversos considerandos moralistas, que Palmeirim achou fazerem boa e necessária toilette à sua prosa, acaba por abrir o coração:

Devo também dizer que nunca me tentou o fado orgia, avinhadamente cantado, e brutalmente batido, que tem de ordinário por complemento uma polícia correccional. Mas se de longe me chegam aos ouvidos os sons de uma guitarra tocada com sentimento, deixo-me ir atrás desses sons aos mundos dos próprios sonhos, agradecido à aragem que mos trouxe tirando-me por momentos da aridez da vida positiva.196

Recorda, aliás, de forma muito viva aquele encontro tido em pleno Bairro Alto, local onde viveu por curto período esta mulher da Mouraria, «de quem até por vezes se ocupavam os noticiários dos jornais, narrando as suas partidas de estouvada, sem lhe poupar os elogios devidos às suas prendas de fadista, diga-se de uma vez para sempre, ser este o único título de glória que a trazia pelas bocas do mundo.» 197 Continuemos a dar a palavra a este futuro político ligado às artes teatrais, talvez um tanto despeitado por certa indiferença da diva em relação à sua então ainda irrelevante pessoa (Palmeirim andaria pelos vinte anos, se tanto, dado que a fadista faleceu em 1846):

Quando entrei em casa da Severa, modesta habitação do tipo vulgar das que habitam as infelizes suas congéneres, estava ela fumando, recostada num canapé de palhinha, com chinelas de polimento ponteadas de retrós vermelho, com um lenço de seda de ramagens na cabeça, e as mangas do vestido arregaçadas até ao cotovelo. Era uma mulher sobre o trigueiro, magra, nervosa, e notável por uns magníficos olhos peninsulares. Em cima de uma mesa de jogo estava pousada uma guitarra, a companheira inseparável dos seus triunfos; e pendente da parede (sacrilégio vulgar nas casas daquela ordem) uma péssima

195 - Idem, ibidem, p. 285-286. 196 - Idem, ibidem, p. 287. 197 - Idem, ibidem, p. 288.

87 gravura, representando o Senhor dos Passos da Graça! Antes da minha apresentação, que foi rápida, e sem cerimónia, a Severa que logo conheceu não ser eu um oficial do ofício, isto é um fadista emérito, como quase todas as pessoas que lhe eram apresentadas, mimoseou-me com uma saraivada de injúrias, a que eu repliquei de pronto, dando lugar a uma sabatina pouco edificante, de que me saí como defendente a contento dela própria, que não esperava encontrar num liró um contendor capaz de lhe replicar ao pé da letra.198

Capaz de pintar esta cena sem recurso a pincéis, o bravo Palmeirim acabaria por «borrar a pintura», como certamente diria a cantatriz, quando pedindo desculpa aos

admiradores póstumos da mesma, decide afirmar: (…) não posso partilhar do seu

entusiasmo por uma mulher a quem faltavam dois dos principais predicados femininos — a modéstia e a timidez.199 E ela bem ralada, acrescentaremos nós, mais de século e meio volvidos sobre o acontecimento, sempre bem viva na memória popular.

Ficamos, pois, com um primeiro retrato verosímil da Severa, que terá sido desenhada à pena do natural por Francisco Metrass (1825-1861), conforme obra encontrada no seu espólio, havendo uma gravura de Roque Gameiro (1864-1935), alegadamente feita com testemunhos de quem a conheceu. Alberto Souza (1880-1961), crismado por Almada como o Dantas do Desenho,200 fez diversas aguarelas da fadista, quase todas elas de pura invenção em relação ao natural. Uma baseia-se nos traços de uma bonita actriz secundária de revista do princípio do século XX, que fez de Severa em palco.

Abordemos, agora, uma das fontes mais autorizadas nesta matéria, precisamente João Pinto de Carvalho (Tinop).201 Embora tratando-a por «meio-soprano dos conservatórios do vício», na linguagem colorida sempre por ele utilizada, garante este historiador e jornalista (1858-1936), com formação académica em Letras, que Maria Severa Onofriana nada tinha de cigana, ao contrário da lenda, tendo nascido na Madragoa, na futura rua Vicente Borga, onde sua mãe, Ana Gertrudes, conhecida pela Barbuda, devido à pilosidade exagerada, possuía uma taberna. Ali terá começado a rapariga a bater o fado, precisamente com o mais antigo fadista local, por alcunha o Manozinho. Durante curto lapso de tempo viveu no Bairro Alto (onde Luís Augusto Palmeirim a

198 - Idem, ibidem, pp. 288-289. 199 - Idem, ibidem, p. 292.

200 - In Manifesto Anti-Dantas e por extenso, de José de Almada Negreiros, Textos de Intervenção, vol. VI, Lisboa, INCM, 1986.

201 - A História do Fado, principal livro de Tinop, que foi um dos fundadores do grupo «Amigos de Lisboa», pouco antes de morrer, é brilhante reconstituição de toda uma época, com material de grande valia para as Ciências Humanas.

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topou, refere Tinop 202), indo dali com a progenitora para a rua do Capelão, que então era designada por Rua Suja, muito frequentada por marinheiros portugueses e de outras nacionalidades. Apesar de a mãe ser mulher de faca na liga, segundo este autor, a filha

era um tipo agradável, insinuante, uma rapariga alta, bonita, clara, graciosa, bem feita e bem posta, com olhos peninsulares que eram dois abismos negros cheios de vertigens do infinito.203 Os seus dotes de cantatriz mostravam-se inegáveis e tinha o hábito, então ainda pouco divulgado entre as mulheres da sua laia, de fumar em público. Diz Tinop que ela morou na loja da rua do Capelão n.º 36 moderno, à esquina do beco do Forno,

e num primeiro andar da rua da Amendoeira, num prédio que pertencia ao conde de Vimioso, e de que ela nunca pagou renda.204 Sabe-se que tentou opor-se pela força às visitas da polícia sanitária à Mouraria, liderando um autêntico motim de moças do mesmo ofício, que usavam penteados de bandós com as tranças enroladas encimadas por alto pente de tartaruga (ordinária, adjectiva Tinop), sendo de regra, na Quaresma, todas vestirem capote, encobrindo saias de grande roda, geralmente de chita cor-de-rosa,

que se pegavam a um roupão (conforme elas o denominavam) abotoado adiante.205 Além de fumar, a fadista apreciava vinho tinto, porventura com exagerada militância — e Tinop garante, contrariando o que considera a lenda do falecimento por indigestão de

borrachos regados de boa pinga, que a cantatriz adoeceu na sua casa da rua do

Capelão, à esquina do beco do Forno, e foi conduzida ao hospital, onde se finou na enxerga de uma enfermaria especialista.206

Benzer Belgeler