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3.2. Bor Karbür

3.2.4. Bor karbür sentezleme yöntemleri

Em 1973, à medida que as organizações armadas foram sendo destruídas, as atenções do DOI e da máquina repressiva começaram a voltar-se na direção dos dois partidos comunistas que não haviam participado da guerrilha urbana, o Partido Comunista Brasileiro (PCB) e o Partido Comunista do Brasil (PC do B).259 O sistema repressivo reconhecia que o “terrorismo” fora vencido, mas mantinha viva a ameaça, considerando-a ainda atual, em estado “latente”, conforme relatório do II Exército:

o desbaratamento das organizações terroristas revelou a inviabilidade da solução “militarista”, sem o apoio popular, para a tomada do poder. Com isso, os inimigos da Revolução sentiram a necessidade de intensificar o trabalho de massa cujos resultados poderão criar novas condições ou oportunidades para a reativação do terrorismo que, não obstante as derrotas sofridas, continua em estado latente.260

Aos poucos, a ameaça ia sendo construída, tomando uma forma adaptada à conjuntura política do país, que vivia os últimos momentos do período mais duro do regime militar. Em outro relatório, podia-se pressentir para onde se estava encaminhando a energia repressiva:

Houve um aproveitamento da sensação de “abertura” propiciada pela conjuntura eleitoral e pelos índices divulgados pelos órgãos oficiais.

Sente-se que está havendo infiltração do PCB no meio trabalhista e nota-se que ele está tendo o cuidado de se utilizar de nomes sem antecedentes.261

As eleições de 1974, nas quais o partido oficial oposicionista, o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), recebeu uma votação massiva de setores da esquerda, permitindo que candidatos apoiados pelos partidos comunistas se elegessem, acirraram ainda mais os ânimos. O DOI, mais uma vez, preparava-se para a guerra, agora já sob o comando do tenente coronel Audir Santos Maciel e secundado pelo major Dalmo Lúcio Muniz Cyrillo.262 Em março de 1975 seus agentes elaboraram um extenso documento, em que faziam uma

259

O PC do B foi organizado em 1962 por dirigentes do PCB que romperam com o Partido Comunista por discordarem do apoio dado à linha política revisionista adotada pelo PC Russo, a partir de 1956. Ambos – PCB e PC do B – consideram-se a continuidade do partido fundado em 1922. MIRANDA, Nilmário; TIBURCIO, Carlos. Dos filhos deste solo, mortos e desaparecidos políticos durante a ditadura militar, p. 166.

260

Relatório Periódico de Informações n° 04/1974. 04/1974. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z-9, 183, 37441, fl. 15.

261

Relatório Periódico de Informações n° 09/1974. 09/1974. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z-9, 196, 39835, fl. 41.

262

análise da estrutura e da política do PCB em relação às eleições e à aliança com o MDB, a partir de artigos do órgão de imprensa do Partido, o jornal Voz Operária, e de manifestos políticos. O texto, difundido à comunidade de informações de São Paulo, citava dados detalhados a respeito de discussões travadas em reuniões, nomes de dirigentes, propostas debatidas e decisões tomadas. Indicava igualmente as ligações diretas ou indiretas de políticos com o PCB em vários estados, apoiados em declarações, prestadas em interrogatório preliminar, de um dirigente do PCB que compunha a Comissão de Entendimentos. Chama a atenção, nesse documento, a familiaridade com o universo da esquerda e do PCB, além da terminologia empregada. O recurso a termos como “conscientização”, “cenário político”, “reivindicações operárias e populares” e a recorrente citação de trechos de documentos do PCB dão a impressão de se estar lendo mais um texto de autoria comunista – com a exceção do termo “infiltrados”, que aparece algumas vezes.

Desse sentimento de familiaridade, pode-se extrair duas conclusões correlatas: uma delas aponta para o método de investigação, que consiste em conhecer o “inimigo” detalhadamente, identificar sua lógica de ação e prever seus passos; a outra indica o nível de conhecimento a que se chegou: o “subversivo” e o “terrorista”, com a experiência acumulada do órgão, já não constituía um estranho, uma incógnita, mas um “inimigo íntimo”.263 A conclusão reduzia o MDB a mero apêndice legal do PCB, cuja ascendência tendia a exacerbar: “Ao PCB interessa que o MDB tenha atividades acima mencionadas, pois facilitaria a atuação do PCB de vez que o MDB funcionaria apenas como fachada, sendo que atividades na realidade, seriam exercidas por elementos do partido comunista”.264

Findo o governo do general Garrastazu Médici (1968-1974) e alcançada a derrota dos grupos revolucionários armados, iniciava-se uma nova era, tanto para o regime militar quanto para seu aparelho repressivo. O período de distensão foi marcado por gestos pendulares do general Ernesto Geisel no sentido de abrir gradativamente o regime, ao mesmo tempo em que demarcava os estreitos limites da abertura com medidas repressivas. De acordo com os autores do projeto Brasil: nunca mais, seu governo visava, com esse movimento, recuperar a

263

Tomo essa expressão de empréstimo a Carlos Eugênio Paz, dirigente da ALN que publicou o livro Viagem à

luta armada: memórias romanceadas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1996.

264

Informação n° 728/75-L5. 04/04/1975. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z-9, 198, 40206. fl. 38.

imagem da gestão militar, corroída pela falência do “milagre econômico”,265 pelas lutas internas nas Forças Armadas e pelas denúncias de desrespeito aos Direitos Humanos.266 No decorrer da “distensão lenta, gradual e segura” – nas palavras do presidente –, tratava-se de tornar a repressão mais discreta e seletiva.267

A ofensiva anticomunista possuía três aspectos diferentes, que, apesar de parecerem contraditórios, são, na realidade, complementares. Por um lado, tratava-se de uma estratégia para completar o trabalho iniciado com o extermínio das organizações de esquerda: “Os órgãos repressivos pareciam ter estabelecido como meta uma “última varrida” em todos os agrupamentos de esquerda, para aniquilar tudo o que tivesse resistido à repressão anterior”. 268 Não parece despropositado levantar como hipótese que a necessidade que a repressão sentiu de combater os partidos comunistas esteja intimamente ligada aos resultados obtidos pelo MDB nas eleições de 1974, uma vez que alguns dos candidatos do MDB eram, na realidade, militantes do PCB. Em segundo lugar, essa ofensiva teria como principal objetivo justificar a existência do aparelho repressivo, uma vez que a ameaça da guerrilha urbana não podia mais servir como argumento legitimador. Ao exacerbar o perigo representado pelos comunistas, esse setor valorizava, ao mesmo tempo, a importância e a necessidade de sua atuação:

Se não houvesse tranqüilidade, deveria haver repressão, porque só assim se restabeleceria a paz. Havendo tranqüilidade, ela seria falsa, manha subversiva. Portanto, a repressão era indispensável. [...] Temendo a normalidade, o aparelho de segurança do governo precisava de uma ameaça. Fabricou-a no PCB.269

Em terceiro lugar, o recrudescimento da repressão dirigida aos comunistas e aos políticos que possuíam ligações com eles adquiriu uma conotação de desafio ao projeto de distensão política do governo Geisel, visto que os setores ligados aos sistemas de repressão e de informações eram partidários de um regime mais fechado.270 Antonio Carlos Fon sugere que as prisões em série de militantes do PCB e do PC do B fariam parte de um plano arquitetado pelos órgãos repressivos no sentido de atingir escalões mais altos do governo de

265

No campo econômico, de acordo com Ronaldo Costa Couto, o país enfrentaria um “longo período de ajustamento, redefinição de prioridades, grave endividamento externo, flutuações de desempenho, dificuldades inflacionárias e, mais tarde, recessão”. COUTO, Ronaldo Costa. História indiscreta da ditadura e da abertura.

Brasil: 1964-1985. 4. ed. Rio de Janeiro: Record, 2003, p. 133.

266

ARQUIDIOCESE DE SÃO PAULO. Brasil: nunca mais, p. 64.

267

GORENDER, Jacob. Combate nas trevas, p. 264.

268

ARQUIDIOCESE DE SÃO PAULO. Brasil: nunca mais, p. 65.

269

GASPARI, Elio. A ditadura derrotada, p. 405.

270

São Paulo. Afirma, ainda, que em 1975 os agentes do DOI-CODI, além dos problemas relacionados à distensão promovida pelo governo do general Ernesto Geisel, circunscrevendo a sua atuação, tiveram que se contentar com a diminuição drástica das contribuições do empresariado, que não se sentia mais ameaçado pelos grupos da esquerda armada. As dificuldades enfrentadas pelo presidente deviam-se à autonomia funcional adquirida pelos órgãos repressivos durante o governo do general Garrastazu Médici.271

A perseguição ao PCB, anteriormente episódica e pontual, passou a ser sistemática. Um de seus pontos altos foi a desarticulação do jornal Voz Operária, em janeiro de 1975. Dentro de uma estratégia retórica repetidamente empregada pelo DOI, a importância atribuída ao jornal era diretamente proporcional ao tamanho do êxito alcançado em seu desmonte:

1. Após quase um ano de intensas investigações o DOI/CODI/II Ex logrou desbaratar o veículo da propaganda oficial da Seção de Agitação e Propaganda (SAP) do CC/PCB, traduzido na sua forma mais concreta no jornal “VOZ OPERÁRIA”.

Como disseminador das idéias do Partido e o consequente elo com as massas, a “VOZ OPERÁRIA” cumpriu durante quase 10 anos (fev 65 a jan 75) as funções para as quais foi criada. Durante esse decênio, na mais absoluta clandestinidade, propiciada pelos longos anos de experiência do PCB, conseguiu manter todo o seu “Esquema” de impressão e distribuição a salvo dos Órgãos de Segurança.272

A investida foi muito além do órgão de imprensa do PCB. Tratava-se de identificar seus principais dirigentes e perseguir um a um. A partir das informações fornecidas por agentes infiltrados273 e outras arrancadas sob tortura de militantes, o DOI fez cuidadoso levantamento da hierarquia do partido, como comprova a seguinte informação:

271

FON, Antonio Carlos. Tortura, a história da repressão política no Brasil, p. 66 e 67.

272

Informação n° 169/75. 22/01/1975. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z-9, 192, 38987.

273

GASPARI, Elio. A ditadura derrotada, p. 393. O artigo “Palavra de Cachorro”, publicado na revista Veja de 11 nov. 1992, p. 32 comenta que o capitão Ênio Pimentel da Silveira – conhecido pelo codinome de dr. Ney –, agente do DOI paulista, chegou a controlar uma rede de doze informantes. Para o coronel Cyro Guedes Etchegoyen, que serviu no gabinete do ministro do Exército, general Orlando Geisel, na área de informações e contra-informações, foi o sistema de infiltrações que destruiu as organizações da esquerda armada e não os interrogatórios, por ele considerados “inócuos” e “desgastantes”. D’ARAUJO, Maria Celina; SOARES, Gláucio Ary Dillon; CASTRO, Celso. Os anos de chumbo, p. 118. O coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra conta que, no DOI paulista, era a Seção de Informações a encarregada do trabalho de infiltrações. Tratava-se de uma operação extremamente sigilosa: apenas o chefe, o subchefe e no máximo cinco agentes conheciam a identidade do infiltrado e tinham contato com o mesmo. Embora fosse um processo difícil e demorado, era eficiente nos resultados. USTRA, Carlos Alberto Brilhante. A verdade sufocada, p. 303. Jacob Gorender também comenta os progressos alcançados pela repressão através da passagem, para o seu lado, de militantes de esquerda, principalmente em se tratando de um dirigente ou de um militante próximo à direção. GORENDER, Jacob.

Combate nas trevas, p. 262. Aparentemente, no entanto, a afirmação do coronel Cyro Guedes Etchegoyen peca

1. O DOI/CODI/II Ex, analisando a estrutura e funcionamento do PCB, organizou uma relação de membros do CC que, pela atuação e posição no partido, se presos, causariam com suas “quedas”, danos irreparáveis a curto e médio prazo, a essa organização de esquerda.

2. Para organizar-se tal relação, foram considerados os seguintes aspectos: a. Repercussão política e quebra de “moral” nos comunistas;

b. Condições intelectuais e ideológicas, além de militância anterior, que possibilitem assumir postos elevados ou reorganizar setores do partido; c. Interesse dos Órgãos de Segurança, visando informações. 274

Entre os nomes citados na lista, pelo menos três foram assassinados em interrogatório, outros foram interrogados e torturados, mas conseguiram sobreviver. Consta, por exemplo, o nome de Orlando da Silva Rosa Bonfim Junior, sobre o qual se afirma: “Na atual conjuntura, tornou-se o 2º ou 3º homem do partido. Sua prisão causaria danos bastante grandes ao PCB. Trata-se de elemento de alto gabarito político e de comprovada capacidade de organizar e liderar comunistas”. Há também, entre outros, o de Elson Costa (“Eli”) e o de Hiran de Lima Pereira (“Artur”), considerados vitais para o partido:

Ambos foragidos, ligados a Seção de Agitação e Propaganda [SAP] e ao esquema da “Voz Operária”. As “quedas” de “ELI” e “ARTUR” apresentam maior importância, pelo fato de ter sido publicado o nº 120 da “Voz Operária”, referente ao mês de Fevereiro de 1975, possivelmente sob a orientação de um ou de ambos.

Enquanto não forem presos, a SAP terá condições de reorganizar-se.275

Orlando foi preso no dia 8 de outubro de 1975, no Rio de Janeiro. Segundo sua filha, morreu na prisão, durante um interrogatório, provavelmente efetuado pelo DOI do I Exército. Seu corpo nunca foi encontrado. Elson foi detido no dia 16 de janeiro de 1975. A data de sua prisão é anterior ao documento, o que teria duas explicações: uma improvável, os agentes do DOI desconheceriam o seu paradeiro; outra mais realista, sua menção no documento denotaria o cinismo de seus redatores, pois era de seu conhecimento que o dirigente havia sido assassinado por seus próprios colegas. Após a sua detenção, Elson foi levado à casa de

que o foco dos órgãos repressivos tenha sido dirigido para essa atividade. A infiltração de agentes repressivos, como explicou Ustra, era demorada e arriscada. Já a cooptação de militantes de esquerda passava por um processo de aterrorização dos mesmos, de ameaças das torturas pelas quais necessariamente passariam se não colaborassem. Além disso, os interrogatórios serviam como instrumento de afirmação do poder e de sujeição dos presos políticos, sendo a obtenção de informações apenas uma de suas funções.

274

Informação n° 485/75-L5. 13/03/1975. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z-9, 194, 39313-12.

275

Informação n° 485/75-L5. 13/03/1975. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z-9, 194, 39313-12.

Itapevi, onde funcionava um centro clandestino de torturas ligado ao DOI. Interrogado e torturado, teve seu corpo banhado em álcool, queimado e jogado no Rio Avaré. Hiran foi capturado pelos órgãos de repressão na mesma data em que Elson foi interrogado, foi torturado no mesmo local e teve seu corpo igualmente jogado ao rio.276

O jogo de forças estabelecido entre Geisel e a comunidade de informações teve seu ápice na ocasião das mortes em seqüência de três filiados ao PCB – o tenente-coronel da PM José Ferreira de Almeida (morto no dia 8 de agosto de 1975), o jornalista Vladimir Herzog (morto no dia 25 de outubro) e o operário metalúrgico Manoel Fiel Filho (morto no dia 17 de janeiro de 1976) –, ocorridas na sede do DOI paulista por suicídio através de enforcamento, segundo a falsa versão do DOI.277 Das três mortes, a de Vladimir Herzog foi a que mais chocou a opinião pública. O assassinato sob tortura de um jornalista de televisão – Herzog trabalhava no setor de jornalismo da TV Cultura – e a versão acintosamente mal construída de suicídio criaram uma comoção popular de grande repercussão.278 O pretenso “suicídio” de Manoel Fiel Filho279 levou à especulação, por parte de alguns setores, de que se trataria de uma provocação do DOI paulista à política do governo Geisel, conforme matéria publicada na Revista Veja alguns anos depois:

276

Para as circunstâncias das mortes citadas, consultar MIRANDA, Nilmário; TIBURCIO, Carlos. Dos filhos

deste solo, mortos e desaparecidos políticos durante a ditadura militar, respectivamente p. 329, 330 e 327.

277

Segundo matéria do Jornal do Brasil, a equipe de interrogatório que estava de serviço na ocasião dessas três mortes, seria a mesma, chefiada pelo tenente Tomotu Nakao e integrada, entre outros, pelo 2o sargento Luis Shiji Akaboshi. “IPM da morte de Fiel revela contradições”. Jornal do Brasil. 26 nov. 1978. Muitos anos mais tarde, uma matéria da revista IstoÉ Senhor apontaria como responsável pelo interrogatório de Vladimir Herzog o policial do DOPS, cedido ao DOI, Antônio Mira Grancieri que afirmava ter sido a pessoa mais diretamente envolvida na morte do jornalista. “Eu, Capitão Ramiro, interroguei Herzog”. IstoÉ Senhor. 25 mar. 1992, p. 21- 26. O jornalista Percival de Souza afirma que “As equipes que tiveram os três prisioneiros sob sua custódia eram as mesmas”. SOUZA, Percival de. Autopsia do medo, p. 208.

278

Vários elementos contribuíram para que a morte de Vladimir Herzog tivesse tamanho efeito sobre a sociedade civil naquele momento. Herzog não era um militante ativo do PCB, possuía emprego fixo e fora espontaneamente prestar depoimento no DOI, após ter sido convocado para tal no dia anterior. Sua viúva, Clarice Herzog, não sucumbiu às pressões para enterrá-lo às pressas e, com isso, permitiu que várias pessoas comparecessem ao enterro. Havia outros jornalistas naquele momento presos no DOI e, com a morte de Herzog, havia o sentimento de que corriam risco de vida. Além disso, todos os profissionais da área com simpatias políticas pela esquerda sentiam-se ameaçados de serem, a qualquer momento, presos e torturados e mobilizaram- se como categoria em torno da morte do colega. O culto ecumênico celebrado em homenagem a Herzog reuniu cerca de oito mil pessoas, a despeito dos bloqueios policiais, e contou com presenças importantes, como a do cardeal dom Paulo Evaristo Arns e do arcebispo de Olinda, dom Helder Câmara. Sobre esses episódios, ver ALMEIDA FILHO, Hamilton, A sangue quente: a morte de Vladimir Herzog. São Paulo: Alfa-Ômega, 1978; JORDÃO, Fernando Pacheco. Dossiê Herzog. MARKUN, Paulo. Meu querido Vlado: a história de Vladimir

Herzog e o sonho de uma geração. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005.

279

Se a encenação do suicídio de Vladimir Herzog parecia evidentemente falsa, devido à pouca altura entre a “forca” e o chão – o que o teria forçado a dobrar as pernas para provocar o sufocamento –, no caso de Manoel Fiel Filho foi ainda mais improvável, pois este teria se enforcado com as próprias meias.

A caminho da solução judicial, o caso Fiel continua a ser um mistério policial, pois ainda há a forte suspeita de que o operário tenha sido morto deliberadamente, para colocar o presidente Geisel diante de um novo caso Herzog, levando-o a uma crise militar que, na concepção de seus idealizadores, terminaria com o enfraquecimento do presidente. [...] A principal prova da provocação é o fato de que agentes policiais foram à casa da viúva, gritaram que seu marido estava morto e atiraram em frente à sua porta as roupas de Fiel, como se quisessem acelerar a divulgação do caso.280

O então comandante do II Exército, general Ednardo D’Ávila Mello, e o secretário de Segurança Pública, o coronel Erasmo Dias, integravam o setor de linha-dura contrário à política de “distensão” do governo. Por isso, quando houve essa terceira morte, nas mesmas circunstâncias, Geisel reagiu imediatamente destituindo o general Ednardo D’Ávila Mello, sem consultar nem mesmo o seu irmão Orlando Geisel, ex-ministro do Exército,281 em atitude de grande impacto entre os militares. Todos aqueles direta ou indiretamente responsáveis pelo episódio foram afastados, inclusive o comandante do DOI, o tenente-coronel Audir Santos Maciel, e o subcomandante, Dalmo Lúcio Cyrillo.282 O acontecimento levou o eminente advogado de presos políticos e presidente da Comissão de Justiça e Paz de São Paulo, José Carlos Dias, a escrever em artigo:

A importância política do episódio é incontestável. Se a morte de Vladimir Herzog marcou um instante de “basta” e de conscientização da opinião pública contra a tirania, o operário morto teve a marca de um reconhecimento de que “agora fomos longe demais” do próprio Poder. E a história registra, pela primeira vez, que um operário removeu um General Comandante do Exército.283

De acordo com Elio Gaspari, a atitude presidencial, entretanto, não estava revestida de uma preocupação com os direitos humanos, mas restringia-se a uma questão de disciplina militar.284 Tolerante com a tortura e os assassinatos de presos políticos, não podia aceitar que

280

Foi crime: União é condenada pela morte de Fiel. Veja, 24 dez. 1980. Arquivo Ana Lagôa, Seção de Recortes, R03542. Disponível em: <http://www.arqanalagoa.ufscar.br/db/pesquisaRecortes.asp>. Acesso em: 20 ago. 2007.

281

Foi crime: União é condenada pela morte de Fiel. Veja, 24 dez. 1980. Arquivo Ana Lagôa, Seção de Recortes, R03542. Disponível em: <http://www.arqanalagoa.ufscar.br/db/pesquisaRecortes.asp>. Acesso em: 20 ago. 2007.

282

SOUZA, Percival de. Autopsia do medo, p. 209. Aparentemente o tenente-coronel Rufino Ferreira Neves foi

Benzer Belgeler