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7 - BORÇLANMALAR Kısa Vadeli Borçlanmalar

Pela revisão da literatura, observamos que os estudos sobre o humor recaem sobre três teses amplamente reiteradas: a primeira que o humor é próprio do homem, a segunda que o humor acontece quando escarnecemos do Outro e a terceira que o humor seria próprio da sociedade. Enumerando essas três teses, pudemos considerar uma característica que talvez englobe a todas elas e que, a nosso ver, é a que menos poderia ser contestada: o humor é um

fenômeno social.

Assim, o estudo do humor e de suas manifestações impõe, como uma de suas premissas básicas, a observação paralela de hábitos e valores culturais, o que explicaria o regionalismo dos atos de humor centrados em estereótipos associados ao português ignorante (Brasil), ao francês traiçoeiro (Inglaterra) ou ao inglês apático (França), para ficarmos em poucos exemplos. Estudar o humor, sob esse ponto de vista, torna-se uma maneira eficaz de estudar também hábitos sociais, macro-idéias e concepções de mundo compartilhadas por uma determinada sociedade. (Travaglia, 1990:59)

A percepção de que o riso é libertador vem de Freud (1905), um dos precursores do estudo do humor. Segundo o autor, o cômico é um ataque a uma repressão física ou mental ao indivíduo ridente. A abordagem psicológica do humor também enxerga sua manifestação como forma de exprimir o socialmente inexprimível (tabus como os que envolvem sexualidade e violência, por exemplo).

Gay (1923:372) corrobora com essa idéia com a seguinte afirmação:

Não há dúvida de que o trabalho psicológico feito pelo espírito e pelo humor é fortemente sobredeterminado. Ele pode controlar ou saudar um súbito alívio de tensão. Pode expressar ansiedade ou aliviá-la; as piadas de bravatas são, para o medo físico ou a inquietude social, como assobiar quando se passa por um túmulo. O humor pode servir como salutar ato de regressão – agradáveis férias de responsabilidade sisuda, um afastar-se temporariamente da seriedade que circunscreve o superego punitivo que os seres humanos carregam consigo. Mais ainda: significativamente, o humor pode ser uma ardilosa afirmação de dignidade ou uma peça de autocrítica feroz - agressão verbal dirigida para fora ou para dentro.

Propp (1992:40) enfatiza, com seus estudos indutivos com base em obras humorísticas da literatura russa, a natureza dialética do riso. De acordo com o autor, “para rir é preciso saber ver o ridículo; em outros casos é preciso atribuir às ações algum valor moral (a comicidade da avareza, da covardia, etc.)”. Esses valores morais seriam atribuídos

diferentemente segundo cada cultura. Ressalvado isso, o autor demonstra concordar com a parte central da teoria bergsoniana, segundo a qual o riso nasce da súbita descoberta de um defeito moral (de caráter), físico ou intelectual – posto em outras palavras, a rigidez como denúncia da inadequação social.

A depreensão de que o humor é antes de tudo social, é reiterada pelas diversas teorias que com ele se preocupam:

O humor é divertido e sério ao mesmo tempo: é uma qualidade vital da condição humana. O que o torna fascinante e relevante para antropólogos e historiadores é o fato de fornecer pistas para o que é realmente importante na sociedade e na cultura. O humor quase sempre reflete as percepções culturais mais profundas e nos oferece um instrumento poderoso para a compreensão dos modos de pensar e sentir moldados pela cultura. (Driessen, 2000: 251)

Sobre a inserção sócio-cultural do cômico, diz Le Goff (2000:65) que

o riso é um fenômeno cultural. De acordo com a sociedade e a época, as atitudes em relação ao riso, a maneira como é praticado, seus alvos e suas formas não são constantes, mas mutáveis. O riso é um fenômeno social. Ele exige pelo menos duas ou três pessoas, reais ou imaginárias: uma que provoca o riso, uma que ri e outra de quem se ri, e também, muitas vezes, da pessoa ou das pessoas com quem se ri. É uma prática social com seus próprios códigos, seus rituais, seus atores e seu palco.

Completando o caráter do riso sob o ponto de vista cultural, Gay (1993: 372) explica que a suas variedades são grandes, mas que

suas formas são previsíveis, pelo menos em parte, como expressões características de mentalidades individuais, hábitos de classe e estilos culturais. O que é engraçado para uma pessoa, uma época ou uma nação pode parecer apenas grosseiro ou ofensivo para outra. Assim como cada cultura, ao que parece, tem sua neurose favorita, tem também seus impulsos favoritos de achar graça.

O humor garante forças a quem o exercita, permite revirar o mundo alheio, ele castiga os adversários.

Para Travaglia (1990:55), o humor também tem seu caráter social, pois seu maior objetivo não é “fazer rir”, mas sim, desequilibrar uma situação - levar ao agradável ou ao conflito -, o que justifica sua necessidade de presença em situações não esperadas:

Ele [humor] é uma espécie de arma de denúncia, de instrumento de manutenção do equilíbrio social e psicológico; uma forma de revelar e de flagrar outras possibilidades de visão do mundo e das realidades naturais ou culturais que nos cercam e, assim, de desmontar falsos equilíbrios.

Em outro momento, referindo-se ao humorista Ziraldo, argumenta que uma posição de espírito

é o que faz com que o humor seja visto por quase todos os estudiosos, como um recurso, um meio, um caminho, um instrumento, uma arma usada em todas as sociedades para descobrir (através da análise crítica do homem e da vida) e revelar verdades escondidas e falsificadas, permitindo uma visão especial da vida, uma nova visão do mundo pela transposição de conceitos, uma ampliação dos contatos com nossas realidades. O humor seria o senso das proporções e da verdade escondida. A alegria da descoberta revelada de forma não-convencional, sinuosa, intuitiva é que geraria o compromisso do humor com o riso. (...) diante do humor podemos ter sempre a reação de falar:— Ué! não é que é isso mesmo. (op.cit.:66)

A representação humorística mostra ser capaz de libertar o pensamento, de “desmascarar o real, de captar o indizível, de surpreender o engano ilusório dos gestos estáveis e de recolher,enfim,as rebarbas das temporalidades que a história, no seu constructo racional, foi deixando para trás.” (Saliba, 2002:29)

De acordo com Propp (1992), os caracteres cômicos não existem por si só, eles têm relação com as atividades do homem no mundo social. Dessa forma, quando estamos rindo de um macaco em um zoológico, na verdade, não rimos do próprio animal, mas dos gestos que correspondem a determinados significados na coletividade humana.

Bremmer e Roodenburg (2000:15) também confirmam que o humor é um fenômeno determinado por características sociais:

O riso pode ser ameaçador e, realmente, os etologistas afirmavam que o riso começava numa exibição agressiva dos dentes. Por outro lado, o humor e o riso também podem ser muito libertadores. Todos nós sabemos como uma pitada inesperada de humor é capaz de desfazer um clima tenso num instante. Em um contexto mais amplo, o carnaval e as festividades análogas podem corromper temporariamente as regras sociais rígidas a que todos nós obedecemos, embora, freqüentemente, com humor de baixo nível, em vez de alto.

Benzer Belgeler