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1.2. Kamu Harcamalarının Sınıflandırılması Gerekliliği

2.1.6. Borçlanma

Ao mesmo tempo que é fundamental entender a experiência que constrói homens e mulheres, há que se considerar o risco de naturalizar as diferenças de gênero a partir da evidenciação da experiência (Scott, 1991). Referindo-se ao impasse dos feminismos, no sentido de dar voz, ao mesmo tempo em que se desconstrói a experiência das mulheres, Weedon (1997) argumenta que para uma perspectiva teórica ser politicamente útil para os feminismos, deve reconhecer a importância do subjetivo na constituição do significado da realidade vivida das mulheres. Afinal, é mote dos feminismos que “o pessoal é político!” Ela coloca que a teorização sobre a experiência se apresentou como prioridade política urgente, já na década de 70, pela necessidade de se entender “porque as mulheres são tão freqüentemente cúmplices em sua própria opressão” (p. 171).

Para não sucumbir ao risco da naturalização, torna-se necessário pensar

criticamente (Azerêdo, 2004) e historicizar esta experiência. Segundo Scott (1991), é fundamental historicizar tanto o poder da abordagem analítica de um(a) pesquisador(a) quanto os eventos que são objetos de seu estudo: “negando qualquer coisa que pareça operar como um fundamento” (p. 37). Historicizar implica, para a autora, aproximar-se da genealogia foucaultiana: recordar a história dos conceitos, possibilitando a emergência de diferentes interpretações. Investigar os sentidos da violência implica lançar um olhar sobre a experiência que produz identidades femininas e masculinas, historicizando-a. Indagar sobre os sentidos da violência é mais do que “evidenciar” (Scott, 1991) a experiência de homens e mulheres em situação de violência. Envolve a busca de compreender como as

diferenças de gênero se estabelecem, como operam, constituindo e posicionando sujeitos. Implica problematizar sentidos históricos e vasculhar como as ideologias operam para produzir identidades e padrões relacionais.

Trata-se, e isso serve como sugestão para a elaboração clínica, de esclarecer para as mulheres – e, diríamos, para os homens – a “não evidência” da experiência, e a existência da possibilidade de interpretá-la e reinterpretá-la de modos diferentes. Weedon (1997) argumenta ainda que para entender porque “voluntariamente” tomam os papéis estereotipados do feminino, é necessária uma teoria “do relacionamento entre subjetividade e sentido, e sentido e valor social” (p. 18). Para a autora, é preciso entender o poder e a impotência investidas nas possíveis posições subjetivas abertas às mulheres, e diríamos na presente pesquisa, aos homens.

Compreendemos, deste modo, que a relação entre sentidos compartilhados socialmente e a subjetividade não é direta. Para Lauretis (1994), o gênero “como representação e como auto-representação, é produto de diferentes tecnologias sociais, como o cinema, por exemplo, e de discursos, epistemologias e práticas críticas institucionalizadas, bem como das práticas da vida cotidiana” (p. 208). Se o “sistema sexo- gênero” é uma construção social e um “aparato semiótico” (p. 212) que atribui significado a homens e mulheres, definindo-os, também “é extremamente instável e fugidio nos seus processos de instanciação” (Segato, 1997). Os modos como os sujeitos se constituem, na mediação da cultura à qual pertencem; a maneira como se relacionam, interpretam e se constroem a partir do que é prescrito na matriz sexo/gênero dá possibilidades a nuances, a variações.

Lauretis (1994) aponta para o espaço de criação do sujeito, “na passagem da socialidade à subjetividade, dos sistemas simbólicos à percepção individual, ou de representações culturais à auto-representação” (p. 229). Ela reflete sobre como as armadilhas do gênero fazem com que mulheres e homens absorvam representações culturais como suas auto-representações, aceitando-as como reais, embora sejam imaginárias. Buscando entender a diferença de gênero de um modo que possa explicar mudanças, argumenta que é crucial que as pessoas não sejam vistas como vítimas dos sistemas de idéias que as engendram. Tão importante quanto compreender como as representações de gênero são construídas por diversas tecnologias sociais, é se perguntar sobre o modo como estas são subjetivamente absorvidas por cada pessoa, ou seja, sobre os processos subjetivos desta construção.

É neste espaço, o da subjetividade, que se abre caminho para que a construção de gênero seja problematizada, para o agenciamento. A pluralidade nas construções de gênero, nos modos de ser e de exercer a faminilidade e a masculinidade, explica-se pelos significados subjetivos atribuídos ao gênero e às posições colocadas à disposição, no discurso, para homens e mulheres. Segundo Lauretis (1994), é um investimento que faz as pessoas de ambos os sexos se posicionarem em certo discurso. Ou seja, por mais poderosas que sejam as tecnologias sociais de gênero, as pessoas tomam “posições diferentes quanto ao gênero e as práticas e identidades sexuais” (p. 225). Se o que se busca são mudanças, cabe indagar o que leva homens e mulheres a investir em seus posicionamentos nas interações conjugais e, em especial, nas interações conjugais violentas. E mais do que isso, cabe indagar o que poderia persuadi-los a tomarem posições diferentes, no discurso.

Uma contribuição que a clínica psicológica pode oferecer é colocar em questão o status de vítima das mulheres (Narvaz & Koller, 2006; Strey, 2000). Paradoxalmente elas se julgam e costumam ser vistas socialmente como merecedoras e culpadas pela violência que sofrem, ao mesmo tempo que se colocam no lugar de vítimas (Gregori, 1993), produzindo- se como não sujeitos (Azerêdo, 2004). Problematizar o status de vítimas, portanto, envolve o movimento paradoxal de reconhecê-las como vítimas e de mobilizá-las a se verem como tal para, a partir deste reconhecimento, empoderá-las para que mudem seu posicionamento (Pondaag, 2003; Soares, 1999). Quando se queixam da situação de violência que vivenciam na esfera conjugal, as mulheres colocam a responsabilidade do que estão vivendo no outro (Araújo, 1995; Azerêdo, 2004), sem que haja compromisso com esta situação. É preciso reconhecer a queixa, acolhê-la e, ao mesmo tempo, descontrui-la: “nada podemos fazer com a queixa, no sentido de possibilitarmos mudança na situação a partir das próprias mulheres, a não ser transformar a queixa em demanda, demanda que é social, que emerge em situações coletivas, das quais resultam vivências compartilhadas” (Azerêdo, 2004, p. 123).

Mobilizar as mulheres a adotar novos posicionamentos envolve levá-las a perceber que suas relações com determinadas posições discursivas são “investimentos de poder” (Lauretis, 1994). Deste modo, resgata-se sua agência onde supostamente ela não estaria (Lauretis, 1994; Saffioti, 2002). Deslocá-las do lugar de vítimas para o de sujeitos que fazem “escolhas”, propicia que explorem outros investimentos. E aqui outra tarefa se impõe: como desconstruir a sedução de possíveis poderes que poderiam obter assumindo a “posição feminina do casal” (Lauretis, 1994) – o poder relativo almejado nas sedutoras imagens patriarcais (Weedon, 1997) - para que possam explorar, investir “em outros

posicionamentos, em outras fontes de poder capazes de alterar as relações de gênero?” (Lauretis, 1994, p. 226). Quanto aos homens, que posicionamentos seriam mais atraentes do que aqueles comumente assumidos por eles – de domínio, de poder, de controle - nos jogos conjugais violentos? Como criar tecnologias desconstrutivas tão sedutoras como as de engendramento?

Weedon (1997) não propõe a negação da experiência subjetiva, já que “os modos nos quais as pessoas fazem sentido de suas vidas é um ponto de partida necessário para compreender como as relações de poder estruturam a sociedade” (p. 8). Para ela, assim como a razão, a experiência requer tanto desconstrução quanto reconstrução. Isso me leva a acreditar no potencial da clínica como espaço para o exercício das propostas feministas: atenta ao subjetivo, não se restringe a ele, mas constrói/desconstrói a partir dele. Ao mesmo tempo em que se configura como espaço de reconhecimento das experiências , das identidades de mulheres e de homens e do sofrimento, muitas vezes, atrelado a elas, busca alternativas subjetivas e relacionais que possam permitir que eles se desvencilhem dos modos de ser prescritos para os sexos, viabilizando leituras polissêmicas de suas histórias. Ou seja, como pesquisadoras (es) e terapeutas é imprescindível estarmos, ao mesmo tempo, “dentro e fora do gênero”, contribuindo para a visão de um “outro lugar” (Lauretis, 1994).

Este estudo orienta-se pela tese de que os sentidos da violência se constroem na interseção de outros sentidos, como da conjugalidade, do vínculo amoroso e do gênero. Considera-se, portanto, fundamental compreender como estes operam, contextualizando a produção subjetiva de sentidos para o vivido. Este estudo parte da suspeita de que há múltiplos sentidos para a violência conjugal e de que a produção destes é contraditória. Esta perspectiva é desconstrutora: “não assume um correspondência direta entre palavras e coisas”, “não aponta para a resolução da contradição” (Scott, 1991, p.35) e toma as categorias de análise “como contextuais, contestáveis e contingentes” (p. 36).

Indagar sobre os sentidos atribuídos por homens e mulheres às experiências conjugais de violência é se voltar para o caráter discursivo, histórico, subjetivo, intersubjetivo, dialógico e polissêmico das experiências conjugais. Considerando o contexto dialógico da construção de sentidos como um lugar de negociações identitárias, pode-se arriscar a dizer que as interações estabelecidas na pesquisa ou no atendimento psicológico têm o potencial de transformar, de fazer dos envolvidos outros. Este poder de transformação intensifica-se ainda mais se provoca a contestação de verdades dadas, supostas, que fundamentam, justificam e legitimam a violência na conjugalidade. O

movimento de produção de sentidos critica, “perturba” (Ravazzola, 1997) práticas e representações normativas que supõem a hierarquização na família, a imposição do poder, a conversão de sujeitos em coisas. Nesta perspectiva, indagar e provocar a produção de sentidos, tanto na pesquisa quanto na intervenção é uma prática política.