O processo de recontextualização caracteriza-se pela ―re-criação‖ (textual) do conhecimento científico visando a cada público destinatário (CALSAMIGLIA et al, 2001; CASSANY et al, 2000 apud CATALDI, 2008). Para que o discurso científico seja compreendido pelo grande público, os dados científicos devem ser reelaborados a partir de outros procedimentos expressivos, além daqueles próprios do âmbito científico. Para isso, por meio de um complexo circuito que envolve a sociedade e a ciência, ―conhecimento e discurso científicos ‗adaptam-se‘, ‗reelaboram-se‘ ou ‗recontextualizam-se‘ dinamicamente em cada novo canal ou situação comunicativa‖ (CALSAMIGLIA et al,
[1998?]
apud CASSANY; LÓPEZ; MARTÍ, 2000, p. 75).Calsamiglia (1997) sustenta que, de acordo com estudos sobre a divulgação, essa atividade envolve textos primários (a fonte científica) e secundários (um novo texto baseado no primeiro, mas com as mudanças exigidas pela nova situação comunicativa – como: identidade e status do emissor e receptor, finalidade, intenção, contexto e meio de transmissão). A autora acrescenta que a eleição das informações mais adequadas para a divulgação é dependente do conjunto de interesses e crenças do leitor do novo registro e o que leva o divulgador a retirar ou conservar certas informações é o critério de sua relevância para o sentido efetivado na prática. Portanto, ―a aplicação do princípio de relevância fica a cargo dos mediadores, que formam uma relação triangular com a comunidade científica e o público geral‖35
(CALSAMIGLIA, 1997, p. 16).
Essa etapa chamada de ―fase de intervenção‖ envolve as operações de ―redução‖ e de relevância e é seguida pela ―fase de recontextualização‖, que, por sua vez, supõe a ―ampliação”, com base nos interesses e aspectos culturais do novo leitor, e uma nova eleição do que é relevante no texto. O produto da divulgação é, então, o resultado do encontro ―entre uma opção na ordem do saber e uma eleição a partir dos conhecimentos, desejos e
preocupações do cidadão normal‖36
(CALSAMIGLIA, 1997, p. 16, grifos da autora). Nesse sentido, segundo ela, o texto secundário, que é o texto a ser divulgado, é o locus do encontro
35Tradução nossa para: ―[…] la aplicación del principio de relevancia corre a cargo de los mediadores, que forman una relación triangular entre la comunidad científica y el común de la gente‖.
36Tradução nossa para: ―[…] entre una opción en el orden del saber y una elección a partir de los conocimientos, deseos y preocupaciones del ciudadano normal‖.
entre dois mundos de conhecimento: o da ciência e o da vida cotidiana. Dessa forma, já que ―o encontro da temática científica com o mundo da experiência social cotidiana obriga a um
novo registro‖ 37
(CALSAMIGLIA, 1997, p. 15-16), a divulgação é a produção de um novo discurso, elaborado a partir de um ponto de vista diferente do da ciência (CALSAMIGLIA, 1997).
Segundo Calsamiglia (2000 apud CATALDI, 2008), o processo de recontextualização representa um grande desafio para os jornalistas e esse desafio é norteado pelas seguintes perguntas, no momento da produção textual: O que dizer? – envolve a seleção e a relevância temática; Como dizer? – considera o uso ou o descarte de termos específicos, o uso de substituições léxicas, de expressões denominativas, de paráfrases; Como
explicar? – diz respeito ao procedimento discursivo e aos recursos expressivos a serem
adotados; Como motivar? – define a partir de que perspectiva o tema terá ―sentido‖ na vida social, de que forma despertará interesse etc.; Com que intenção? – refere-se ao objetivo da divulgação: informar, explicar, divulgar.
Todo esse processo pode ser representado no seguinte esquema:
Figura 1 – Proposta de esquema da atividade de divulgação, baseado em Calsamiglia (1997)
Fonte: A autora, 2014
37Tradução nossa para: ―El encuentro de la temática científica con el mundo de la experiencia social cotidiana
A princípio, a dificuldade em transpor o conhecimento científico da esfera científica, de divulgação entre os pares, para a esfera jornalística, deve-se à própria característica desse conhecimento na esfera científica. Isso porque, apesar de a notícia científica compartilhar características com as notícias de outros âmbitos, aquela se diferencia destas por apresentar a temática científica dentro da informação divulgada (CIAPUSCIO, 1997). A linguagem científica apresenta léxico unívoco, preciso, referência estrita ao objeto e clareza; evita ou nega a subjetividade; é sucinta, exata e completa; e apresenta sintaxe simples e sem apelo emocional. Essas características exigem do jornalista, ou produtor do texto jornalístico sobre ciência, além de domínio sobre o tema a ser abordado, a destreza na elaboração desse novo texto38 (CIAPUSCIO, 1997). Isso porque, na esfera jornalística, a divulgação é endereçada a ―uma audiência ampla e heterogênea, que tem sido pouco exposta ao referido registro [especializado] e que, consequentemente, dificilmente pode compreender os dados em
questão‖39
(CASSANY; MARTÍ, 1998, p. 58).
Ciapuscio (1997), a partir da perspectiva da Linguística Textual, acrescenta que a elaboração do texto jornalístico de divulgação científica representa uma ação reformulativa geral de um conteúdo ligado à determinada fonte científica, tendendo à referencialidade, mas que envolve aspectos emotivos da linguagem. Nesse sentido, ―os problemas globais e locais para a reformulação do novo texto são resolvidos com o uso de três estratégias gerais:
expansão, redução e variação‖40
(CIAPUSCIO, 1997, p. 24), também chamadas de procedimentos linguísticos-discursivos, que, por sua vez, subdividem-se em diversas estratégias divulgativas.
Vejamos algumas considerações sobre essas estratégias.
3.2.1 As estratégias divulgativas: recursos expressivos da popularização da ciência
Ciapuscio (1997) defende que a divulgação da ciência tem um duplo propósito comunicativo: informar sobre ciência e promover a persuasão acerca da importância da utilidade do conhecimento divulgado. Nesse sentido, a investigação das estratégias
38
Destacamos que, ainda que todo texto exija o domínio temático para sua elaboração, entendemos que a temática científica, por seu caráter específico, é ainda mais difícil.
39Tradução nossa para: ―[...] a una audiencia amplia e heterogénea, que ha sido poco expuesta a dicho registro y que, en consecuencia, difícilmente puede acceder a los datos en cuestión.‖
40Tradução nossa para: ―Los problemas globales y locales para la formulación del nuevo texto se resuelven
divulgativas que, segundo Cassany e Martí (1998, p. 59), ―são distintos tipos de recursos ou procedimentos verbais utilizados nos textos estudados para tornar acessível ao público leigo o conceito técnico41‖ podem nos ajudar a entender como se constrói esse duplo propósito na divulgação debate do tema em questão.
Considerando que essas estratégias envolvem ―um conjunto variado de fenômenos linguísticos que abarca questões de seleção da informação, organização da mesma, formulação discursiva, seleção léxica, tratamento tipográfico, etc.42‖ (CASSANY; MARTÍ 1998, p. 60), entendemos que o processo de recontextualização tende a definir a finalidade divulgativa da mídia, desde a seleção do assunto científico até sua inserção em um novo contexto, desta vez, o jornalismo impresso. Tal finalidade, no caso do tema desta pesquisa, pode ser, por exemplo, informar, persuadir, esclarecer, divulgar, criticar ou sensibilizar o leitor quanto ao desmatamento na Amazônia, suas causas e consequências.
Cassany e Martí (1998) subdividem a etapa em que se opta por incorporar o conceito científico na divulgação, no processo da recontextualização, em estratégias léxicas e discursivas. As estratégias léxicas envolvem a escolha de termos ou de outros recursos denominativos para se estabelecer referência aos conceitos específicos da ciência. Dentre essas estratégias estão: a definição, a denominação, etc. Já as estratégias discursivas, segundo Cassany e Martí (1998), abarcam os diferentes recursos verbais de nível supraoracional que se relacionam indiretamente com o conceito científico e influenciam na seleção da informação, na estrutura textual, no que diz respeito às sequências discursivas, e na modalização da enunciação. Nessa categoria, os autores incluem o alto nível de contextualização, a modalização e as sequências discursivas narrativas. Apesar dessa distinção categórica em que a denominação aparece como estratégia léxica, entendemos que ela pode também se manifestar como uma estratégia discursiva, dependendo do contexto em que for utilizada. Essa estratégia, portanto, pode se configurar como realização léxica que se manifesta discursivamente.
Cassany, López e Martí (2000), ao apresentarem a tarefa da divulgação a partir de um modelo de divulgação, no qual o discurso divulgativo é resultado de uma rede conceitual que envolve o discurso geral e o discurso científico, chamam as estratégias divulgativas de
41Tradução nossa para: ―[…] a los distintos tipos de recursos o procedimientos verbales que utilizan los textos estudiados para hacer accesible al público lego el concepto técnico‖.
42
Tradução nossa para: ―Se trata de un conjunto variado de fenómenos linguísticos que abarca cuestiones de selección de la información, organización de la misma, formulación discursiva, selección léxica, tratamiento
‗recursos expressivos‘ ou ‗recursos discursivos‘. Os autores destacam a presença de três operações, empregadas no diálogo entre esses dois discursos para se produzir o divulgativo, que são ‗reelaborar‘, ‗textualizar‘ e ‗denominar‘ e, segundo eles, essas operações desenvolvem-se de forma circular, recursiva e interativa no processo de recontextualização (CASSANY; LÓPEZ; MARTÍ, 2000). Dentro da operação da textualização, os autores identificam os recursos expressivos oriundos do discurso científico (exemplificação e definição) e do discurso geral (sequência narrativa, sequência dialogal e modalização valorativa) e outros recursos discursivos que não se vinculam expressamente aos dois tipos de discursos, mas que estão presentes na divulgação (aclaração discursiva, metáfora e variação de registro). Na operação da denominação, podemos identificar a estratégia denominação.
A seguir, apresentaremos alguns apontamentos sobre algumas dessas estratégias empregadas na divulgação.
A denominação refere-se aos procedimentos léxico-semânticos empregados para fazer referência ao termo científico ou conceito divulgado (CATALDI, 2011; 2007). O uso dessa estratégia é evidenciado pelas diversas referências que retoma o mesmo termo ou conceito científico, na divulgação. Já as sequências narrativas são uma forma de utilizar a narração e seus recursos linguísticos na explicação de conceitos ou informações especializadas. A modalização do discurso, por sua vez, pode apresentar elementos altamente subjetivos (juízos de valor, opiniões, apreciações, etc.) e tende a denunciar o ponto de vista do jornalista sobre determinada enunciação e delimitar o discurso à compreensão desejada (CASSANY; MARTÍ, 1998).
Cassany, López e Martí (2000) defendem que o uso da metáfora favorece a relação entre conceitos científicos e a realidade do público considerado leigo e que a metáfora é um recurso retórico próprio da textualização e recontextualização da informação científica. Os autores reforçam que ―talvez uma das particularidades das metáforas divulgativas seja a complementação científica (com termos especializados do âmbito científico disciplinar) do
elemento metafórico geral‖43
(CASSANY; LÓPEZ; MARTÍ, 2000, p. 94). Segundo Ciapuscio (1997), a metáfora favorece a expansão textual no aspecto cognitivo e emotivo e é muito usada na divulgação por permitir a associação com questões cotidianas. Segundo a autora, essa associação, além de favorecer a acessibilidade do leitor leigo, estimula o interesse
43 Tradução nossa para: ―Quizás una de las particularidades de las metáforas divulgativas sea la
complementación científica (con términos especializados del ámbito científico disciplinar) del elemento
deste por questões científicas. Calsamiglia (1996) sustenta que a construção de analogias através de comparações e metáforas, a partir da utilização do que já é de conhecimento do leitor (como conhecimento proverbial, popular e metáforas cotidianas), atende a um propósito exitoso da divulgação, quanto a tornar compreensíveis realidades alheias à vida cotidiana.
A exemplificação, por sua vez, é um mecanismo próprio de textos explicativos, dentre os quais estão os científicos. Na tarefa divulgadora, o uso desse mecanismo serve para apresentar ―exemplos concretos e cotidianos [...] para explicar conceitos abstratos e especializados [...]‖ 44
(CASSANY; LÓPEZ; MARTÍ, 2000, p. 90).
Com base no exposto, podemos verificar, a partir da análise, como as estratégias divulgativas são utilizadas na divulgação debate pelos atores envolvidos nessa prática social.
Na sequência, apresentaremos alguns apontamentos em relação ao estudo das representações sócio-discursivas e ideológicas vinculadas às questões de poder, presente na divulgação debate.
3.3 O CONTROLE DO PODER NA DIVULGAÇÃO DEBATE: POR QUE CONSIDERÁ-