Como é sabido, o convívio social exige a limitação das ações humanas, de maneira a assegurar uma relação pacífica entre os seus partícipes. Aquele que afronta conduta tida como reprovável deverá sofrer as conseqüências do seu ato, sendo submetido a uma sanção, visando sempre o bem-estar da coletividade, mesmo que em detrimento do individual, haja vista a supremacia do interesse público sobre o privado.
Neste sentido, é proeminente a citação das funções da pena em nosso ordenamento jurídico: o Código Penal (CP) em seu art. 59, caput propugna a natureza retributiva e preventiva da pena; a Lei de Execução Penal, ao seu turno, contempla, já no art. 1º, a necessidade de integração social do condenado e do
internado.
Portanto, para ser plenamente eficaz, a punição deve conglobar as características ressaltadas, objetivando promover um castigo ao autor da infração, submetendo-o a um mal a título de retribuição acerca da ação nociva praticada; evitar a prática de novos delitos, podendo ser vista sob dois enfoques: a prevenção geral, destinada à sociedade como um todo, e a especial, focada especificamente no sujeito ativo do crime; e, por fim, a permanência da socialização do infrator, já que na maioria das vezes os agentes desse tipo penal encontram-se integrados ao meio em que vivem.
Na tentativa de coibir a prática do trabalho escravo, em dezembro de 2003, o art. 149 do Código Penal Brasileiro foi alterado para dispor sobre o crime de reduzir alguém à condição análoga à de escravo, acerca deste tipo penal, Damásio de Jesus dispõe que “não visa uma situação jurídica, mas sim um estado de fato [...] consiste na vontade de exercer domínio sobre outra pessoa, suprimindo-lhe a
liberdade de fato, embora permaneça ela com a liberdade jurídica.” 72 Isto se dá em
função de não mais existir a escravidão legalizada em nosso país, quando então a
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JESUS, Damásio E. de. Direito Penal: Parte Especial: Dos Crimes Contra a Pessoa e dos Crimes Contra o Patrimônio. v. 2, 25. ed., São Paulo: Saraiva, 2003, p. 263.
condição de escravo era jurídica e não meramente fática, como ocorre hodiernamente.
A persecução criminal, entretanto, enfrenta dúvidas sobre a definição da competência para julgar o crime, o que dificulta sobremaneira a punição dos infratores deste delito.
A Emenda Constitucional nº 45 de 2004 acrescentou disposição ao art. 109 da Constituição Federal aventando a possibilidade de deslocamento de competência para a Justiça Federal em face de grave violação de direitos humanos, do que é exemplo claro a exploração de trabalho escravo.
Antes da aludida emenda, havia um paradoxo, crimes contra os direitos humanos, como o ora sob comento, eram da alçada da Justiça Estadual, mas, por constarem em instrumentos normativos internacionais dos quais o Brasil era signatário, a União era passível de responsabilização internacional sem que tivesse qualquer ingerência na apuração da sua ocorrência. Na tentativa de sanar essa contradição de nosso ordenamento, a Emenda nº 45/2004 possibilitou, nesses casos, o deslocamento da competência para a Justiça Federal, de forma a assegurar o cumprimento de obrigações decorrentes de tratados internacionais de direitos humanos dos quais o Brasil seja parte.
No entanto, na opinião de muitos profissionais ligados ao Direito do Trabalho, esta deveria passar à esfera de competência da Justiça do Trabalho, haja vista a intimidade desses juristas com os assuntos relativos às relações de trabalho.
Este posicionamento ganhou força principalmente com o advento dessa mesma Emenda Constitucional nº 45/2004 que alterou a redação do art. 114 da CF, ampliando sobremaneira a competência do Judiciário Trabalhista e deixando margem a crescimento ainda maior por obra do legislador ordinário, o que se infere pela redação do inciso IX de tal artigo, o qual consagra a possibilidade de extensão da competência da Justiça do Trabalho a outras controvérsias decorrentes da relação de trabalho, na forma da lei.
Na luta pela erradicação dessa forma vil de aviltamento da dignidade humana muitos são os obstáculos que se levantam nesse caminho, cite-se a
necessidade de aparelhamento da fiscalização; a dificuldade de sua realização em um país de dimensões continentais; a atuação dos produtores rurais no sentido de dificultar o acesso às suas propriedades; a ausência do Estado na maioria dos locais onde o crime é praticado; a presença de inúmeras barreiras à aferição da existência do crime, ante principalmente o medo de denunciar, decorrente do temor de represália, reinante na maior parte das vítimas dessa exploração e das eventuais testemunhas; aliado ao valor das multas, que não tem por si só o potencial de inviabilizar economicamente o "negócio" da escravidão, em alguns casos, a cobrança em juízo pode se tornar mais dispendiosa do que o valor da multa.
Por essas razões, é vertente a grande dificuldade de que os processos por crime de trabalho escravo resultem em condenação efetiva na esfera penal.
A ineficácia do sistema de sanções pode ser demonstrada pelos casos de reincidência, demonstrando o não-alcance da função preventiva da pena, cujo objetivo primário é justamente obstar reiterações da prática delituosa punida.
Apesar das fiscalizações realizadas, das multas aplicadas e mesmo dos processos criminais encaminhados, há casos de propriedades rurais que foram autuadas novamente, pouco tempo depois, pelo mesmo motivo.
Segundo o Ministério do Trabalho e Emprego, o Grupo Móvel de Fiscalização, no período de 1995 a 2003, fiscalizou 1.014 propriedades rurais, encontrando exploração de trabalho escravo em 262 e libertando 10.789 trabalhadores. Em 1995, foram registrados três casos em 77 propriedades examinadas e alforriados 84 pelejadores. Esses números subiram em 2003 para 135 casos em 197 imóveis vistoriados, resgatando-se 4.995 trabalhadores.
Esses dados demonstram que a fiscalização tem aumentado sua eficiência e reprimido com vigor a utilização de mão-de-obra escrava. Todavia, apesar de tantos crimes registrados, só se tem notícia de um único caso de um escravizador condenado, mesmo assim, a pena foi convertida em entrega de cestas básicas.
Não se pode negar a suma importância da fiscalização no combate à escravidão, mas para acabar de vez com essa situação, o mais breve possível, é
imprescindível a adoção de medidas ainda mais enérgicas tais como a que ora se examina, permitindo a expropriação de propriedades onde se constate exploração de trabalho escravo.
Pode-se facilmente constatar, por tudo o que já foi argumentado, que tal prática não se deve à omissão de nossas leis e costumes. Ao contrário, essa forma de violação é repudiada pelo ordenamento jurídico e pela sociedade de forma contundente, só se explicando, hoje, no Brasil, como a exploração de um negócio ilícito, mas extremamente lucrativo. Nesse sentido, o confisco das terras desses pseudo-empreendedores rurais atinge o núcleo da questão: a inviabilização econômica da exploração do trabalho escravo pela imposição de pesados custos punitivos.
O dispositivo da PEC nº 438 proporciona ao Estado um instrumento de punibilidade ágil, eficiente e adequado, servindo de forma a repreender conduta tida como socialmente reprovável, ocasionando uma retribuição do mal causado (função repressiva); além de ser dotada se alto caráter preventivo, pois visa atingir o bem mais precioso dos poderosos produtores rurais que se utilizam desta prática infame: o patrimônio, especificamente a propriedade rural, instrumento de ampliação de riquezas (função preventiva). Dessa maneira, evita-se a impunidade e a sua reincidência, pois a experiência ensina que em relação a qualquer prática criminosa, somente a certeza da sua punição é capaz de erradicá-la.
A mais moderna das funções da pena e, muitas vezes esquecida, é a ressocializadora, visando primordialmente a reinserção do indivíduo ao meio social em que vive, objetivo de certo modo deixado de lado na aplicação da pena privativa de liberdade, cominada ao crime de redução à condição análoga a de escravo (art. 149 / CP).
César Barros Leal, no seu livro Prisão: Crepúsculo de uma Era 73, decreta
a falência da pena de prisão, considerando-a ineficaz na tentativa de atingir as funções da pena privativa de liberdade (retribuição, ressocialização, incapacitação e intimidação), apresentando como solução de parte dos problemas relacionados à execução penal, a substituição da pena de prisão por penas alternativas, como
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multa, prestação de serviços à comunidade, reparação do dano, admoestação, restrição do exercício de direitos, perda de bens e valores etc.
Assim, poderia ser evitado o contágio moral de criminosos ocasionais, facilmente pervertidos em um sistema carcerário deficiente, que não recupera, mas corrompe, perverte, contribuindo para a dessocialização de pessoas antes plenamente adaptadas ao convívio social e que, após a pena de prisão, dificilmente conseguirão se reinserir na sociedade, até porque os estabelecimentos penitenciários servem como uma escola da criminalidade, onde criminosos de baixa periculosidade se transformam em potenciais delinqüentes perigosos.
A substituição de penas essencialmente retributivas por medidas profiláticas e pedagógicas, tem o condão de promover uma maior inserção do condenado ao convívio social, além de evitar a impunidade, servindo não só ao caráter intimidativo, no que tange principalmente à prevenção, mas também, no caso da expropriação de glebas em que se verifique a ocorrência de trabalho escravo, como forma de assegurar às vítimas desta espécie abjeta de submissão meios de terem uma vida digna, com o atendimento de suas necessidades básicas, através do trabalho na terra confiscada, revertida em prol do assentamento prioritário dos trabalhadores vítimas do crime; e até mesmo diminuir os custos do Estado com os encarcerados ante a redução do número de presos, já que se evitaria a reclusão dos sujeitos ativos do delito em questão, punindo-os de maneira alternativa, e até mais eficaz que a tradicional reclusão.
A cominação de penas alternativas, a exemplo da perda de bens e valores, como é o caso da sanção posta em debate, elencada no art. 43 do CP, traz uma série de vantagens às diferentes esferas da sociedade, ao condenado, que fica imune ao ambiente nocivo da prisão; aos sujeitos passivos do crime, que têm assegurado terreno do qual possam extrair seu sustento e de sua família; à comunidade, que presencia uma diminuição, mesmo que ínfima, das desigualdades sociais, por meio da distribuição de terra aos trabalhadores explorados, consistindo numa forma de consecução da política agrícola nacional, exteriorizada por meio de uma reforma agrária; e ao próprio Estado, ao qual compete um ônus praticamente inexpressivo, não se furtando, entretanto, do seu dever de punir.
A própria Constituição Federal em seu art. 5º, inciso XLVI, admite a pena de perda de bens, onde, como já foi dito, é seguida pelo Código Penal, que a consagra em seu art. 43.
O Estatuto Criminal dispõe acerca desta espécie de sanção em seu art. 45, § 3º, estabelecendo que a perda de bens do condenado dar-se-á em favor do Fundo Penitenciário Nacional, ressalvada legislação especial, que pode, portanto, destiná-lo a outras entidades e fins. Damásio de Jesus exemplifica essa possibilidade citando o atual art. 243 da CF, o qual prevê a expropriação de glebas destinadas ao cultivo ilegal de plantas psicotrópicas, devendo ser revertidas ao assentamento de colonos para o cultivo de produtos alimentícios e
medicamentosos.74
Logo, por tudo o que já foi fartamente aduzido, é plenamente cabível a instituição da hipótese de sanção aventada, produzindo-se, à semelhança do que ocorre com as propriedades onde é localizado o cultivo ilegal de plantas psicotrópicas, a perda da propriedade em que seja verificada a prática de trabalho escravo, pena esta que atende plenamente a todas as suas funções: repressiva, preventiva e ressocializadora, não excluindo, todavia, outras sanções previstas em lei.