4. BULGULAR
4.1. Biyokimyasal Bulgular
As transformações formais, valorativas e políticas do campo artístico passam por vias difusas, por vezes dificilmente perceptíveis. Este é o caso da valorização do fazer artístico a partir da escola, bem como das crianças autodidatas identificadas publicamente como 'crianças prodígio'.
Considerar exposições de trabalhos escolares que ganharam as páginas de periódicos, a maneira da Ceará Illustrado, na década de 20, como índice de valorização social do fazer artístico, põe em relevo uma perspectiva de análise que ultrapassa outras. Estas privilegiam, às vezes sem o perceber, o pleno desenvolvimento das estruturas do campo artístico, no qual impera a organização de salões competitivos, a dinâmica do mercado de arte representado pela existência de galerias de arte, da atividade dos críticos, de museus e escolas de belas artes.
Na edição de 04/05/1924 (ano I, nº 2), o título Arte Escolar abre uma coluna que ocupa meia página da Ceará Illustrado, pondo em destaque a produção "artística" das alunas do Collegio Nossa
Senhora Auxiliadora. Em um periódico que divulgava
notícias sobre moda, cultura, política, problemas de estrutura urbana, assumindo a necessidade de discutir os valores que devem guiar a vida em sociedade, é significativo o fato de encontrar referências à chamada
Arte Escolar.
Ao título que inicia a matéria, seguem-se um registro fotográfico do certamen de arte, com uma legenda explicativa: Um dos lindos aspectos da encantadora
exposição de trabalhos das alumnas do Collegio Nossa Senhora Auxiliadora, desta capital. O bello certamen
esteve franqueado à visita do nosso publico, no domingo último, com grande êxito, tendo causado optima impressão aos numerosos visitantes.
Ao título, foto e legenda se junta, abaixo, um artigo que explicita o modo como tal mostra projetou socialmente os resultados do trabalho da digníssima diretora e de suas auxiliares. Em destaque o nome da escola deu título ao artigo.
COLLEGIO N. S. AUXILIADORA
Realizou-se, domingo passado, a exposição de trabalhos do Collegio de Nossa Senhora Auxiliadora.
Tivemos optima impressão, tanto pelo número de trabalhos de agulha e pinturas, como também pelo bom gosto com que os mesmos se achavam dispostos.
Os trabalhos elevam-se a 300: - no centro uma columna com uma secção de abafadores, ao lado outra de lindos almofadões, e, em sentido opposto a esta, outra, de trabalhos á machina bordados á mão, sob a direcção da professora de prendas, senhorinha Alcides Cordeiro de Almeida. Havia varios quadros a óleo, aquarellas, crayon a papel e a pyrogravura, sob a direcção da distincta professora d. Maria Rolim.
Embora o artigo aludisse a um universo eminentemente feminino, onde os trabalhos de agulha pouco se diferenciavam dos quadros a óleo, em que a professora de pintura não integrava o conjunto de artistas profissionais em Fortaleza, cujas alunas não despontaram como célebres pintoras é preciso admitir que este Colégio formava, no mínimo, um segmento de público sensível às exposições de arte na cidade.
O artigo segue citando as alunas responsáveis pelo conserto que movimentou tal certamen, bem como formalizando protestos de agradecimento e abundantes elogios à diretora e as professoras responsáveis por este evento: Felicitamos á provecta directora do Collegio N. S.
Auxiliadora, como ás suas dignas auxiliares, pelo exito da exposição.
Meses depois, a Ceará Illustrado, em uma página repleta de notas, voltou a convocar o público a comparecer a uma exposição semelhante no Collegio La Ruche. (ano II, nº. 73, 29/11/1925)
Cerca de um mês depois, na seção Sociaes do mesmo periódico (ano II, nº. 74, 06/12/1925), encontrava-se outra nota que destacava a repercussão social de duas exposições: aquela citada anteriormente e uma outra, do mesmo gênero, novamente no Collegio N. S. Auxiliadora.
No dia 25 de Novembro ultimo houve, no Collegio La Ruche, animada exposição de trabalhos escolares.
Foi avultado o numero de visitantes. Os trabalhos muito apreciados, revelaram o excellente aproveitamento das alumnas.
O collegio Nossa S. Auxiliadora, effectuou sua exposição de (sic) dia 29 (domingo ultimo) tendo uma freqüência numerosa. Todos os trabalhos, de extrema perfeição, agradaram vivamente aos visitantes, que dalli sahiram encantados com a exposição.
De outro modo a produção 'artística' escolar veio a público através da revista Verdes Mares. Em 07/09/1929 (ano VII, nº 26, p. 22/23), este órgão de divulgação do Grêmio José de Alencar, ligado ao Collegio Cearense do Sagrado Coração, trouxe a público as reflexões sobre arte do aluno Ocello Pinheiro.
Em uma escola cuja formação era marcadamente católica, a concepção de arte veiculada era a da pintura como criação divina (senão, como seria possível o nada converter-se em edificantes
expressões?). Nesse contexto, o pintor configurava-se como simples mediador, apóstolo da belleza,
e à pintura cabe, embora seja uma das artes mais completas, simplesmente transpor essa dimensão divina, característica do belo natural, para a tela.
A PINTURA
Sublime arte inspirada pelo Divino Mestre! Por que não? Vejamos:
Volvamos nossos olhos avidos do bello á galeria Pictural da antiguidade remota, allumiadas pelas lanternas scintilantes das mentalidades translucidas de Zeuxis, Parrhasio, Miguel Angelo, Rubens e tantos outros que, devido ao número, se tornaria enfadonho fazê-los surgir á terra boliçosa do presente. Contemplemos os quadros que ornam essa majestosa galeria.
Com que estado de admiração apresenta-se nossa alma, ao contemplarmos aquellas combinações de côres tão vivas e tão sabiamente arranjadas, de modo a darem-nos um aspecto tão sadio e um todo harmonico tão impeccavel, daquillo que o pintor viu ou imaginou!
Numa pintura concentram-se a suavidade duma paisagem as procellas da comédia da vida; também na tela inerte, sem relevo, nem sulcos, synthetiza-se a féra dum sorriso... Se é a lua palida, fria e melindrosa que desperta, como que dum somno demorado, dentre as espêssas nuvens, e mira-se no espelho ondulante do lago azul, logo o pintor apostolo da belleza, apparelha-se de seu mago pincel e ei-lo a fazer sentir, falar na tela
muda e inanimada, com traços, ora bruscos e cheios, ora leves e delgados, o painel admiravelmente bello daquela noite enluarada.
Se é a aurora que desponta com seu astro rei a dardejar os seus mais novos raios por sobre as cristas verdejantes dos montes ou a alcatifa orvalhada, manchada de mil florzinhas, logo o dextro pintor esboça nervosamente todo esse esplendor da Natureza, que o tempo fallaz não consente durar muito, e depois sobre elle deposita côres harmoniosas com sabias pinceladas.
A pintura é uma das artes mais completas, pois reune em si a musica dos traços, a esculptura dos esboços, a poesia das cores, a sciencia da harmonia!
Oh! arte magica que desde remotos tempos, vens borbulhando na superficie plana e unida, as bolhas escuras e severas da realidade, por que ainda occultas este mysterio - o do nada, converteres em edificantes expressões?!
Ocello Pinheiro 22/07/29
Em um contexto em que os conhecimentos acerca da teoria e da prática artística não passavam pelo crivo de uma escola de artes, proliferavam artistas autodidatas (e que dizer acerca de um suposto 'discurso crítico' que reune em uma galeria Pictural da antiguidade remota representantes de diferentes momentos da história da arte?).
Neste caso, a aderência das concepções artísticas à esfera religiosa ainda era patente. Embora igualmente carregado de uma visão religiosa acerca da arte, Adília de Albuquerque Moraes, em artigo publicado na Ceará Illustrado (ano II, nº. 35, 08/03/1925), defendeu uma formação escolar no campo da arte.
A Arte, a fina, a excelsa, a verdadeira é quase desconhecida ainda entre nós. – Não, que ella não exista innata em nossa retina affeita ás colorações mais estupendas de nossos arrebóes outonaes. Não que ella não vibre na percepção do verde de nossos campos na maviosidade de sons de nossas águas correntes, que, em sua raridade, trazem maior encantamento. Não, que ella não cante em nossas vagas altaneiras na monotonia de brancas areias, sem fim... Mas, como manifestal-a, como reproduzil-a, como aquilatal-a, si tudo nos falta até agora para apprender a external-a pelo som, pela linha, pela cor?
É, pois, justo motivo de reconhecimento que experimentamos pelos insignes artistas, que, talvez consigam iniciar em nossa sociedade a cultura, o gosto pelos bellos quadros, as magníficas telas, e, quem sabe, si não, despertarão mesmo ao exmo. Sr. Presidente do Estado, cujo senso esthetico tanto se evidencia, a idéa de fundar uma
Escola de Pintura em nossa capital, que já tantos outros núcleos de aperfeiçoamento contam?
Os valores da religiosidade católica que marcavam de modo subliminar os artigos sobre arte publicados nesse magazine, não tornavam mutuamente excludentes a defesa da criação de uma escola de artes local e a valorização do potencial artístico manifesto por crianças prodígio. Ao contrário, estes 'pequenos notáveis' converteram-se por certo tempo em prova cabal de que o verdadeiro talento artístico brotava como vocação legítima, apesar de toda adversidade.
Desse modo a Ceará Illustrado empreendeu uma verdadeira campanha, mediante uma série de artigos, em favor do
Pequeno Edson.
O PEQUENO EDSON
Quem por ahi não conhece, de nome ou de fama o já célebre Edson, o garrulo e fadado garoto que pisa num palco como artista velho, que ali viveu por muitos annos de trabalhos?
Pois Edson, o nosso Jack Coogan, não quer se contentar com o que faz, deseja subir muito: quer seguir, definitivamente, a carreira dramática.
Para isso, precisa sahir daqui afim de estudar em centros de maior desenvolvimento, no intuito de alcançar os louros que o futuro lhe promette.
E, somente o publico que já o admira e tanto o applaude, poderá auxilia-lo nesse afan de conquista e de triumphos.
Appellando pois, para esse publico, Edson dará, no próximo dia 2 um festival dramatico, no 'Theatro José de Alencar' em que tomará parte num dos papeis da revista 'Macaquim tá no ôco'.
É de esperar seja Edson attendido galhardamente, conseguindo o amparo de todos os seus patrícios que tanto o admiram.
Se o pequeno Edson era notícia na década de 20, na década de 30 o Museu Histórico do Ceará abrigava o trabalho de pintura e escultura de outros jovens talentos.
No momento inicial de seu funcionamento, quando o acervo do Museu Histórico do Ceará ainda não era considerável, essa repartição abrigou, mesmo que os objetos apresentados não tivessem nenhum valor documentário e histórico, algumas mostras temporárias de artefatos populares. Dentre estas, a primeira exibiu objetos em gesso e madeira, fabricados por um menino de 12 anos de idade, chamado Antônio Ferreira Olímpio, natural de Juazeiro do Norte/Ce.
Hoje, das 19 às 21 horas, o Museu Histórico, dependência do Arquivo Publico do Estado, localisado à Rua 24 de maio, n° 238, desta cidade, abrirá as suas portas para a visita que, em determinados dias da semana, vem proporcionando ao público de Fortaleza.
Dentre os objetos expostos, serão apresentados pela ultima vez, desde que não se destinam às suas sessões, quando nenhum valor documentário e histórico possuem, interessantes trabalhos de estatuaria em madeira e gêsso idealisados e confeccionados por uma creança de 12 anos, residente em Joazeiro, os quais, nos seus mínimos detalhes, denunciam o senso artístico e pendor para a escultura de seu precoce autor. (Gazeta de Notícias, 22/01/1933, s. p.)