4. BULGULAR VE TARTIŞMA
4.2. Bitkilerin Toplam Fenolik Madde İçeriğinin Değerlendirilmesi
Considerando que os processos para construção do conhecimento são dinamizados, sobretudo por perguntas, elenca-se algumas das questões elaboradas preliminarmente que levaram a esta pesquisa:
1) A conquista dos assentamentos Celso Furtado, Ireno Alves dos Santos, Marcos Freire e 10 de Maio, desterritorializou a Araupel de parte de seu território, mas será que eliminou o sistema agrícola do agronegócio? Ou seja, há outras expressões do agronegócio que avançaram sobre o território dos assentamentos?
2) De que forma ocorre a territorialidade do agronegócio nos territórios camponeses? Porque ocorre? E quais as implicações deste processo?
3) Os assentamentos rurais são territórios de absoluta resistência camponesa e negação do agronegócio e do capitalismo?
4) A realização de práticas agrícolas típicas do agronegócio pelos assentados, podem ser potencializadas gerando renda e autonomia ao campesinato ou se constituem apenas como subordinação ao sistema do capital?
5) Seria o cultivo de commodities agrícolas de forma individual ou através das “parcerias” (arrendamentos) com outros assentados ou pessoas externas aos assentamentos uma questão de flexibilidade de adaptação a uma situação de crise? Ou esse processo nos revela indícios de descamponização?
6) Quais são as formas de resistência ao capital encontradas nos assentamentos em apreço, seus limites e possibilidades?
7) O modo de vida camponês assentado num conjunto de tradições e saberes é resistência ao agronegócio ou se constitui apenas enquanto subalternidade?
8) Qual é o futuro do campesinato: integração ao capital como afirmam os teóricos do paradigma do capitalismo agrário ou o enfrentamento ao capitalismo como defendem alguns estudiosos do paradigma da questão agrária?
A hipótese inicial da presente investigação considerava que os assentamentos rurais em apreço estavam se tornando territórios hegemonizados pelo agronegócio. A paisagem e as informações preliminares obtidas de forma superficial indicavam para tal compreensão. Ou seja, sinalizações que no limite do aparente indicavam situações lineares e escondiam a essência do processo de construção do território camponês, o qual precisa ser lido a partir de uma visão do todo, através de leituras espaciais que analisem a condição dialética em que estão inseridos no processo das determinações históricas. Assim, logo de início, as primeiras incursões à campo e os subsídios teórico-metodológico que fomos aprofundando destituiu a afirmação inicial e voltou o olhar para a complexidade em que a reprodução camponesa está inserida. Caminho reafirmado a cada nova conversa com os camponeses inseridos neste processo, em que se desvendavam subordinações que constituíam resistências e resistências que constituíam subordinações, e nesse conjunto dialético a construção, a partir da dinâmica interna de cada família, das estratégias de flexibilidade da classe camponesa para continuar se reproduzindo no campo.
Portanto, o esforço consiste em desvendar as nuances dos processos de territorialização camponesa superando as generalizações em relação à sua luta e a reforma agrária. Enquanto para uns (tanto conservadores quanto progressistas) a criação de assentamentos rurais para camponeses sem-terra de nada serviu, pois não possuem aptidão ao trabalho agrícola, são “aproveitadores”, arrendam seus lotes, trabalham de assalariados, cultivam commodities etc. outros, consideram os assentamentos rurais como o lugar por excelência do campesinato no enfrentamento ao capital, como se ali se desenvolvessem apenas ações de negação e enfrentamento à ordem desigual em que estão inseridos. Fugir a este entendimento, desmitificando os estereótipos, colocando às claras os conflitos e contradições nas quais os camponeses assentados estão implicados, de modo a avançar na compreensão da questão agrária e camponesa é, sem dúvida, a razão principal que instigou a realizar este trabalho. Ou seja, tentar saber a partir do conhecimento da realidade concreta destes camponeses, a lógica imbricada tanto à territorialidade do capital/agronegócio nos
assentamentos rurais, quanto às estratégias de resistência cunhadas pelos assentados. Ambas têm significações que perpassam transversalmente a subordinação e a autonomia, isto é, as disputas paradigmáticas estabelecidas, estando inseridas no contexto contraditório de reprodução das condições de existência camponesa.
Buscando compreender tais questões e entender a realidade em seu movimento concreto utilizaram-se diversos procedimentos metodológicos, tais como: levantamento bibliográfico relativo ao conjunto de temas que envolvem a questão agrária e camponesa para o enriquecimento do arcabouço teórico metodológico. Análise de fontes jornalísticas e documentais impressas e virtuais que tratam sobre a questão agrária e a luta camponesa em geral e, mais especificamente, no Paraná. Consulta ao Banco de Dados da Luta pela Terra (DATALUTA/Paraná e DATALUTA/Brasil). Obviamente que este trabalho de gabinete é insuficiente para constatar o processo contraditório de recriação e construção do território camponês, por essa razão a pesquisa qualitativa com elementos resultantes dos trabalhos de campo permeiam esta tese como um todo. Assim, a etapa mais primordial da pesquisa foi a realização dos trabalhos de campo nos territórios em estudo, nos quais foram colhidos relatos imprescindíveis, através de entrevistas e depoimentos dos diversos sujeitos sociais envolvidos, isto é, procurou-se dialogar com todos aqueles que por algum motivo participam e/ou participaram direta ou indiretamente do nosso tema de estudo. Para a realização dessas ações foram adotados múltiplos procedimentos, os quais resultaram em dezenas de deslocamentos ao campo para a realização de entrevistas e coletas de dados junto a órgãos públicos (INCRA, EMATER, Prefeituras Municipais, Universidade, Câmaras de Vereadores, bibliotecas municipais, escolas etc.), cooperativas (COOPAIA, COPERJUNHO, COPAFI), entidades de assistência técnica (CEAGRO, Rede Ecovida, Prefeituras Municipais, EMATER etc.); e a pesquisa direta nos assentamentos. Foram várias visitas nos 4 assentamentos estudados, no acampamento “Herdeiros da Terra de 1º de Maio”, à feira agroecológica em Rio Bonito do Iguaçu e a participação em reuniões dos grupos agroecológicos. Nestas coletaram- se informações empíricas através de diversos procedimentos: aplicação de questionários previamente estruturados aos assentados seja por meio da técnica de amostragem aleatória ou, pela identificação de casos mais representativos tanto da territorialidade do capital quanto das resistências gestadas. Especialmente em relação a esta última, merece destaque a colaboração dos técnicos do CEAGRO que auxiliaram no sentido de orientar a localização, sobretudo, daqueles camponeses em processo de transição agroecológica. Através dessa metodologia aplicaram-se cinco questionários gerais no assentamento Celso Furtado, quatro gerais e dois específicos para orgânicos no assentamento Ireno Alves dos Santos, um geral para o
assentamento Marcos Freire e um geral para o Dez de Maio. Destaca-se que a aplicação de cada um dos questionários envolveu cerca de três a quatro horas, não apenas pela extensão dos formulários como pode ser visualizado nos apêndices, mas, sobretudo, pelo riquíssimo diálogo que suscitava novas interrogações e intervenções de ambas as partes e que iam sendo elucidadas no decorrer da proposta dialógica de interação e formação proposta como fuga à rigidez e o caráter sabatinador do simples quadro de perguntas fixas. Seguindo este caráter realizou-se ainda entrevista previamente estruturada a uma liderança do assentamento Celso Furtado.
Embora em ambos os mecanismos descritos (aplicação de questionários e entrevistas previamente estruturadas) trabalhou-se a partir de uma perspectiva dialógica, eles se mostraram por demais limitados diante da rica condição camponesa visualizada nas áreas de estudo, sendo que de imediato sentiu-se a necessidade de rompimento com tais procedimentos “rígidos”. Nesse sentido, as entrevistas e os questionários foram substituídos por uma espécie de orientação de pesquisa que continha um roteiro básico de assuntos a serem abordados, porém, sem nenhum encadeamento preestabelecido. Assim, intercaladamente a metodologia inicial realizou-se diversas visitas mediadas por conversas e entrevistas informais com os camponeses dos quatro assentamentos, acampados, lideranças dos assentamentos e acampamento, responsáveis pelo CEAGRO (parte educacional, organizativa e técnica), técnicos da ATER, presidentes das cooperativas COOPAFI, COOPAIA e COPERJUNHO; professores da UFFS que atuam nos assentamentos, representantes da rede Ecovida de agroecologia, com os camponeses que comercializam na feira agroecológica de Rio Bonito do Iguaçu, entre outros, das quais algumas se encontram gravadas (24 entrevistas, cerca de 50 horas de gravação) e outras registradas em caderno de campo. É importante registrar que estas, por vezes ocorreram de forma aleatória e, em outras circunstâncias, optou- se por visitar determinados lotes e camponeses elencados como mais representativos1 dentre as situações que se buscou trabalhar nesta tese. O principal critério utilizado para tal definição foi a averiguação da territorialidade expressa nos lotes (monoculturas, arrendamentos, experiência agroecológica, experiências de luta, estratégias alternativas, integração com fumicultoras, etc.). O procedimento escolhido e o vínculo com as famílias levaram também, em alguns casos, a realização de mais uma visita a estas. A opção por uma dinâmica mais flexível se refletiu na fluidez dos relatos o que permitiu apreender muitos outros elementos do que aqueles definidos como essenciais, ampliando os horizontes de compreensão do universo
1 Ocasionalmente estes camponeses foram eleitos antecipadamente, pois, na maioria das vezes, era no decorrer
camponês. Por outro lado, como não foi possível o retorno para que os relatantes revisassem as citações contidas no texto, optou-se pelo resguardo de suas identidades, razão pela qual nos trechos transcritos aparecem apenas as iniciais dos seus nomes, comunidade, assentamento e a data de realização do diálogo/entrevista/questionário.
Acrescenta-se ainda a participação do pesquisador na feira agroecológica do município de Rio Bonito do Iguaçu, bem como em reuniões promovidas pelos camponeses, como aquelas dos grupos em processo de transição agroecológica e dos debates em torno da organização da COOPAIA. Além disso, como fonte instrumental do trabalho foi realizado o registro fotográfico das mais diversas situações observadas em campo.
A pesquisa de campo realizada de forma mais livre e participativa permitiu também uma maior aproximação com os camponeses assentados. Nesse sentido, foram compartilhadas “caronas” entre pesquisador, camponeses e técnicos pelas estradas dos assentamentos, as quais permitiram conversas livres sobre os mais diversos assuntos que os afligem e que, embora sem o rigor científico postulado pela academia, resultaram em importantes fontes de dinamização da compreensão dos processos de construção do território camponês. Inserem-se neste contexto o estabelecimento de um conjunto de relações acadêmicas, políticas, científicas, institucionais, educacionais e pessoais com os camponeses e entidades visitadas. Portanto, considerou-se imprescindível dialogar com os sujeitos a fim de conhecer suas histórias de vida, suas subjetividades, seu território, enfim, seu modo de vida. Esse foi o caminho metodológico percorrido na busca pelo entendimento do processo contraditório de recriação camponesa e construção do território destes.
A partir do estudo dos referenciais teóricos, análise das fontes documentais, informações e dados coletados empiricamente resulta a presente tese, a qual se encontra dividida em seis capítulos com o objetivo de expressar o entendimento do processo contraditório de construção dos territórios camponeses.
No primeiro capítulo buscou-se apresentar que as compreensões sobre a organização e o desenvolvimento do campo brasileiro e mundial são diversas, resultado das teorias construídas pelos estudiosos para delinear seus pensamentos e compreensões de mundo. Tais compreensões podem ser organizadas em dois paradigmas: Paradigma da Questão Agrária (PQA) e Paradigma do Capitalismo Agrário (PCA). As teorias que fazem parte do paradigma da questão agrária defendem a existência da questão agrária, enquanto condição estrutural do desenvolvimento do sistema capitalista. A recriação do campesinato no capitalismo, sem ser parte dele, é central nesta compreensão que possui duas concepções de análise distintas: a proletarista e a campesinista. Já o paradigma do capitalismo agrário ignora
a existência de uma questão agrária e defende como inevitável a extinção do campesinato. Para este paradigma só existe lugar no campo para aqueles agricultores que se inserem de forma competitiva no mercado, que se modernizam e adotam tecnologias visando maximizar a produção. Esta compreensão também apresenta duas tendências de análise: a do agronegócio e a da agricultura familiar. Por fim, pontuou-se o debate paradigmático entre campesinato e o agronegócio.
O segundo capítulo foi destinado a debater a relação entre Estado e reforma agrária. Resgataram-se algumas compreensões destes e, buscando contextualiza-los no Brasil, foram tecidos apontamentos acerca dos projetos e propostas daquela política pública. Assim, procurou-se analisar o papel do Estado brasileiro nas políticas de reforma agrária, que não democratizaram o acesso a terra e enfatizar a atitude do campesinato na luta pela sua territorialização. Neste enredo, apresentou-se o contexto histórico e conjuntural das lutas camponesas no Paraná, bem como, as conquistas desta classe no estado. As discussões pontuadas neste capítulo são essenciais para se compreender a situação da sujeição da renda camponesa, subalternidade e territorialidade do agronegócio, manifestada nos assentamentos rurais, sobretudo, naqueles centrais a presente investigação.
No terceiro capítulo contextualizou-se historicamente a formação da mesorregião Centro-Sul do Paraná e dos municípios de Quedas do Iguaçu e Rio Bonito do Iguaçu. Abordou-se ainda o atual cenário socioeconômico mesorregional e dos referidos municípios evidenciando que as desigualdades instaladas neste território, são frutos do processo de “ocupação” deste, assentado na expulsão das populações indígenas, predominância do latifúndio e de um conjunto de relações patriarcais e coronelistas. Neste cenário enfatizou-se a formação do latifúndio Giacomet-Marodin/Araupel e como as lutas camponesas pela terra/território modificaram o Centro-Sul paranaense em geral e os municípios de Quedas do Iguaçu e Rio Bonito do Iguaçu em específico, destacando a imprescindível participação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) neste processo. Por fim, foi realizada uma breve contextualização da luta e conquista de cada um dos quatro assentamentos analisados por este estudo.
A territorialidade do agronegócio nos territórios camponeses foi problematizada no capítulo quatro. Neste momento debateram-se as formas utilizadas pelo capital para subjugar a renda da terra camponesa, dentre estas o sistema de “integração”, a territorialidade do sistema agrícola do agronegócio, a produção de monocultivos de soja, pinus, eucalipto; o arrendamento das terras a terceiros (assentados ou não) e a pecuária leiteira. Tais elementos demonstram a existência contraditória e conflituosa entre o modelo camponês e o do
agronegócio no interior dos assentamentos rurais em análise, indicando que estes são territórios em permanente disputa. Ao mesmo tempo e, a partir de uma perspectiva contraditória, evidenciou-se que a territorialidade do capital no território camponês compõe, em determinadas ocasiões, estratégias de existência dos assentados. Ou seja, procurou-se pensar a reprodução camponesa como uma relação não capitalista situada no conjunto das contradições do capital, todavia, negando a recriação camponesa a uma pura e simples determinação do capital. Portanto, é a complexidade deste uso do território, marcado por uma unidade contraditória, que se procurou desnudar no referido capítulo como fuga às generalizações, comumente encontradas.
Às resistências camponesas foi reservado o quinto capítulo. Neste, evidenciando a contradição instaurada nos assentamentos rurais pesquisados, buscou-se apresentar e debater a importância das formas de resistências à subordinação do capital exercidas pelo campesinato na defesa de seu território e autonomia. Nesta perspectiva ressaltou-se a participação do MST que tem possibilitado a ampliação das lutas e resistências camponesas no enfrentamento ao capital, estimulando, por exemplo, o estabelecimento de práticas agrícolas alternativas centradas nos princípios da agroecologia, lutando pela efetivação da educação do campo, políticas públicas de comercialização da produção, formação política entre outras. No enfrentamento à agricultura capitalista e a subordinação da renda camponesa ressalta-se também o estabelecimento de resistências oriundas do modo de vida camponês. Ou seja, nos assentamentos rurais há o fortalecimento de um conjunto de práticas camponesas assentadas no território que se edificam como negação ao domínio capitalista. Dentre estas: a produção para o autoconsumo, a ajuda mútua, o trabalho familiar, comercialização informal da produção etc. Assim, o domínio e posse da terra, as relações tradicionais, culturais, econômicas e políticas cultivadas secularmente pelo campesinato se desdobram na construção do território camponês e se arquitetam enquanto resistências.
Ao capítulo seis, privilegiando a importância do conflito como expressão da política indissociável ao território, reservou-se uma discussão no sentido de compreender a hegemonia do PCA no contexto das disputas paradigmáticas existentes nos assentamentos selecionados. A partir de um conjunto de interrogações suscitadas procurou-se olhar internamente para o conjunto de contradições, disputas, conflitos, divergências e harmonias que transpassam as diversas formas de resistências gestadas nos assentamentos, gerando aceitações e recusas a estas. Por esse caminho procurou-se compreender o conjunto de barreiras que se levantam à resistência camponesa (coletiva/individual) de forma ofensiva ao capital.
Pelo exposto consideram-se os assentamentos em estudo enquanto territórios em disputa, nos quais se manifestam as contradições da luta pela terra e se estabelece o conflito entre a resistência camponesa e a exploração capitalista do território camponês que pedem interpretação. Esta pesquisa procurou identificar e compreender o movimento destas conflitualidades. Compreender a questão agrária no Centro-Sul paranaense passa, portanto, pelo entendimento das contradições e conflitualidades existentes nas disputas territoriais entre campesinato e agronegócio, antes e após a conquista da terra. Entender os interstícios destas questões é o que se persegue.
Por fim, não se pode deixar de assinalar a experiência repleta de receptividade e cordialidade vivenciada junto aos camponeses nas perambulações desta pesquisa. Laços foram construídos entre pessoas que nunca haviam se encontrado, os alimentos da terra camponesa foram repartidos durante as refeições e doados em profusão, a humildade e a solidariedade com que as trocas de informações ocorreram também foram marcantes, assim como, a alegria conjugada com a emoção que estampou as faces. Talvez este seja o principal saldo positivo deste estudo, ou seja, abalizar que no território dominado pelos camponeses a pessoa tem precedência. Um reencontro com as raízes e com a utopia.