4.6. TÜRK FOTOĞRAFINDA ÇİNGENE TEMASI
4.6.1. Birol Üzmez
O insucesso do tratamento médico muitas vezes tem como reação comum a procura pela atribuição das responsabilidades, não somente por parte dos familiares e pessoas próximas ao paciente, mas também pelo próprio estabelecimento hospitalar ou da operadora de assistência à saúde vinculada ao tratamento.
Como não se bastasse isso, os meios de comunicação muitas vezes referem-se aos médicos como se estes sempre tivessem a missão de curar o paciente de toda e qualquer
doença e até mesmo os próprios médicos podem contribuir para essa expectativa irrealista do paciente ao apresentar-se com o dever de curar.
A propaganda em torno da eficácia da medicina é forte, seja por parte das empresas médicas que buscam mais clientes, seja pelo sensacionalismo utilizado pela mídia ao divulgar os novos avanços científicos e tecnológicos, notadamente no campo da procriação humana assistida, da engenharia genética e da cirurgia estética.166
Além disso, o avanço de tecnologias que permitem o prolongamento da vida trouxe a enorme expectativa de que a Medicina possa resolver tudo.
Ocorre que quanto mais o paciente possuir expectativas falsas sobre o poder de cura da Medicina maiores são as chances de descontentamento com seu médico contribuindo para a busca da reparação e consequentemente para o aumento de demanda judiciais contra médicos.
Mas, é importante deixar claro que mesmo que os avanços científicos tornem o diagnóstico e o tratamento cada vez mais precisos, ainda assim não devemos encarar a Medicina como uma ciência exata.
A Medicina não tem esse poder de salvar a vida, mas tão somente de preservá-la ou apenas adiar a morte.167
Ademais, é necessário ter em mente que tanto a medicina quanto a atuação do médico encontram limites de atuação a depender do grau de agressividade da doença, da periculosidade e da complexidade de cada intervenção médica.
Assim, a eficácia de um medicamento em determinado paciente pode não ser a mesma em outro caso clínico e causar efeitos colaterais imprevisíveis quando aplicado em outro paciente. Também situações de emergências ou complicações inesperadas que fogem do controle do médico podem surgir.
Em determinadas situações de fato, tais como as inadequações do sistema, as específicas circunstâncias do caso, a natureza da própria psicologia humana, podem ter combinado para produzir um resultado no qual a contribuição do médico pode ser tanto relativamente como completamente sem culpa.168
166 LIGIERA, Wilson Ricardo. op. cit., p. 41
167 MACHADO, Deise. Erro médico: a luta pela vida. Rio de Janeiro: Mauad, 1997, p. 141.
168 MERRY, Alan; SMITH, Alexander McCall. Errors, medicine and the law. Cambridge: Cambridge University Press, 2001, p.10
A Medicina é uma ciência de tamanha complexidade que os limites impostos pelo atual nível de desenvolvimento tecnológico impedem que a cura ou a recuperação sejam alcançadas em muitas situações, sem qualquer imputação de culpa ou de erro do médico.
Acrescente-se que a limitação da duração da vida é inerente à natureza humana, de forma que contra a morte a Medicina pode ainda muito pouco.
Em que pese tais fatos verifica-se forte inclinação legislativa e até mesmo jurisprudencial visando facilitar o alcance e a eficácia das alegações do paciente no tocante ao insucesso do tratamento médico e à comprovação da ocorrência do fato culposo.169
Para tanto, buscou-se inclusive superar a ideia de culpa, encaminhando-se até o conceito de má prática, e que significa, pura e simplesmente, a adoção de uma conduta que por qualquer razão não tenha sido aquela que recomendava a melhor técnica, independentemente da averiguação do animo subjetivo do causador do dano.170
É o que chamaríamos em nosso sistema jurídico de erro médico.171
Assim, o que se avalia é se o modo de tratamento empregado constituía naquele caso específico o modo recomendado pela atual ciência médica. A questão será, portanto, demonstrar se a conduta do médico foi adequada e condizente com as recomendações encontrada na ciência medica, tal como indicadas na sua teoria e passiveis de aplicação ao caso concreto. E uma vez concluído que houve falha do médico no modo de tratamento empregado caracterizado está o erro médico.
169 KFOURI NETO, Miguel. Culpa médica e ônus da prova. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2002, p. 53. 170 BARNI, Mauro. Diritti-doveri – responsabilità del medico dalla bioética al biodiritto. Milão: Giuffrè, 1999, p.8.
171 STOCO, Rui. Iatrogenia e responsabilidade civil do médico. RT, n. 784, São Paulo: Revista dos Tribunais, p. 109.
14 O ERRO MÉDICO
A responsabilização do médico está comumente ligada ao cometimento de um erro. Atualmente, muito se tem falado em erro médico. Todos os dias, a mídia divulga um ou mais casos de mortes de pacientes imputando a causa ao atendimento errôneo do médico.
A morte, embora certa para todos, ainda não é aceita por muitos como um processo natural da vida. E se tal ocorre após uma intervenção cirúrgica, surge forte tendência de responsabilizar o médico. Afinal, quando procura o médico, o paciente busca o restabelecimento de sua saúde, deposita nele e nos demais profissionais da saúde a expectativa de cura, negando por completo a possibilidade da morte.
Por isso é importante compreender exatamente o que vem a ser o erro médico.
Segundo Hildegard Tagesell Giostri, erro médico pode ser entendido como “uma falha no exercício da profissão, do que advém um mau resultado ou um resultado adverso, efetivando-se através da ação ou da omissão do profissional”172
O Manual de Orientação Ética Disciplinar do Conselho Federal de Medicina assim dispõe:
A falha do médico no exercício da profissão é o mau resultado ou resultado adverso decorrente da ação ou da omissão do médico, por inobservância de conduta técnica, estando o profissional no pleno exercício de suas faculdades mentais. Excluem-se as limitações impostas pela própria natureza da doença, bem como as lesões produzidas deliberadamente pelo médico para tratar um mal maior.173
Os erros médicos se dividem em duas espécies principais. Podem ser o erro de diagnóstico, ou seja, aquele cometido quando da identificação da moléstia; e o erro de tratamento, ou seja, aquele verificado no tocante à cura da moléstia que tenha sido identificada corretamente ou não.174
O erro médico pode ainda ser denominado de erro técnico ou má prática profissional, conduta impropria ou inadequada, falha ou falta médica e pode ocorrer por ato comissivo ou omissivo. No ato comissivo o médico pratica uma ação, no omissivo há inércia, o médico deixa de fazer o que deveria ser feito.
172 GIOSTRI, Hildegard Taggesell. Erro médico à luz da jurisprudência comentada. Curitiba, PR: Juruá, 1999. p. 136.
173 Disponível em: http://www.castelo.com./erro_medico.htm
174 BARNI, Mauro. Diritti-doveri – responsabilità del medico dalla bioética al biodiritto. Milão: Giuffrè, 1999, p.329.
Mas, qualquer que seja o termo empregado e o tipo de erro – erro de diagnóstico, erro no procedimento, erro na escolha terapêutica, falta de procedimento, erro na prescrição do medicamento, falha no atendimento – ele sempre produzirá um resultado danoso ao paciente produzido por uma conduta inadequada, um proceder imperito, negligente ou imprudente.