B. ZAHRİYE SAYFASI TEZHİPLERİ
1. Birinci Zahriye Sayfası
3.1.1. A Perspectiva da Inclusão como Imposição Legal
A inclusão de alunos portadores de necessidades especiais nas escolas regulares é uma realidade educacional nova que carrega consigo diferentes históricos, referências, julgamentos e valores do mundo social e educacional que necessitam ser considerados, pois as suas diferentes perspectivas influenciam a forma como as comunidades escolares conduzem e conduzirão esse processo em suas instituições. Nesse sentido, a visão da inclusão como uma “imposição legal” foi relatada por 57,7% dos professores e gestores entrevistados, sendo que, desses, 66,7% classificam-na como uma “imposição com conseqüências negativas”, como o atendimento inadequado desses alunos na escola regular. O despreparo dos professores e a desestruturação das
escolas foram apontados como as principais causas dessa inadequação do atendimento. Os demais 33,3% consideraram a inclusão escolar como uma “imposição da legislação, mas trazendo conseqüências positivas” para as escolas e seus profissionais. Nesse sentido, foi destacado o aumento na necessidade de se buscar mais conhecimentos, nesta e em outras áreas, e a maior conscientização dos direitos dessas pessoas. Os depoimentos abaixo servem de exemplo para ilustrar diferentes formas de enxergar a inclusão como imposição legal.
Eu acho que a inclusão foi uma “imposição da legislação” mesmo! Por um lado eu acho que é certo, só que por outro eu acho que o governo tinha que dar condições pras escolas receberem estas crianças, e ele não está dando. Pra mim, o governo está jogando a educação destas crianças pra escola regular e sobrecarregando a escola mais do que ela já está sobrecarregada e não está dando as mínimas condições pra gente estar trabalhando com essas crianças. Até hoje a gente não engoliu isso direito, eu concordo em parte. Eu acho que a criança deveria estar na escola regular sim, convivendo com os colegas, mas eu acho também que ela tinha que estar tendo um atendimento especializado, específico para o caso dela nas instituições especiais. Então assim, eles só empurram pra gente, sem medir as conseqüências! (Sônia, Escola Profª Mª José Santana).
Eu acho que a inclusão “num primeiro momento” foi uma “imposição”, depois surgiu a necessidade de realmente saber trabalhar com essas crianças. E isso está sendo muito bom pra gente e pras escolas, por que está fazendo a gente crescer, buscar informação, buscar conhecimento. Então assim, eu acho que num primeiro momento foi obrigatoriedade total, mas à medida que o tempo está passando, muitos ganhos estão vindo e isto vai mudando a forma de ver (Dora, Escola Effie Rolfs).
Eu acho que a inclusão aconteceu “mais pela imposição da legislação”, mas por um lado foi bom por que a APAE estava virando um “depósito de crianças com problemas”. Qualquer criança que tinha dificuldade na escola e a escola comum não conseguia lidar com ela, mandava pra APAE. E, na maioria das vezes, era falta de limites, de disciplina, de educação mesmo. Gente, o que a gente recebia de crianças que não tinham nenhum comprometimento físico ou mental, não era brincadeira. As crianças com comprometimento mesmo estavam ficando até sem espaço. A APAE foi ficando“inchada” de tal maneira, mas com meninos com dificuldades sociais, econômicas, emocionais. Aí veio esta questão da
inclusão e está mudando a forma de pensar das escolas. Elas estão vendo que tem que aceitar, que tem que começar a assumir esses meninos, por que olha, até hoje ela quer é passar adiante. (Aparecida, APAE/Viçosa).
A perspectiva desses professores e gestores sobre a inclusão como uma “imposição legal” nos faz buscar Marshall (1967) e seus conceitos de benefício social e prestação de serviços. Esse autor chama atenção para o primeiro conceito e o tratamento dado pelo Estado e pela sociedade ao indivíduo dentro de uma perspectiva de incapacidade, o que lhe dificulta as condições para sua efetiva participação. Talvez, pelo fato de as escolas especiais (único espaço permitido para esses alunos por longos anos) serem consideradas sob essa perspectiva na construção de sua história, a sociedade não considerou (e ainda não considera) os alunos caracterizados como portadores de necessidades especiais como seres de direito, sendo “admitidos” no espaço da escola regular comum somente pela imposição legal. Já a perspectiva da prestação de serviços refere-se ao tratamento dado ao cidadão, encarado como um ser de direitos. Conforme colocado anteriormente, na abordagem de Marshall (1967) a educação inclusiva pode ser considerada como uma prestação de serviços, pois propõe que todos indistintamente tenham direito à mesma educação de qualidade. Nos termos dessa abordagem, o elemento qualitativo da condição de cidadão precisa tornar-se essência do serviço, levando-o a ser menos estigmatizado. Esse grupo de professores e gestores que vêem a inclusão como uma imposição legal ainda não encara os alunos caracterizados como portadores de necessidades especiais como cidadãos com direito à educação de todos e com todos.
3.1.2. A Perspectiva da Inclusão como Direito
Outra forma de definir a inclusão pelas comunidades escolares investigadas passa pela construção e efetivação dos direitos humanos. Das professoras e gestoras entrevistadas, 23% consideram a inclusão dos alunos portadores de necessidades especiais na escola regular, como um direito construído socialmente que vem acontecendo no decorrer de um longo processo histórico. A história da educação institucional dessas pessoas, destacada brevemente no início desta dissertação, indica claramente as mudanças nas formas de conceber e perspectivar a deficiência. Segundo as entrevistadas, esse é um processo em construção de longa data que culminou com a proposta de incluir esses alunos na escola regular como o ápice da conquista do direito à educação, do direito de se educar como todos e com todos. Também, a proposta de educação para todos vem sendo discutida e implementada há muitos anos no Brasil. Para as entrevistadas, a própria legislação nessa área vem mudando há muito tempo e fica difícil dizer em que medida as mudanças dos comportamentos vieram e a legislação está respaldando os movimentos históricos ou vice-versa.
Há, no entanto, que se ressaltar em relação a esse processo que a escola regular não acompanhou esse processo de forma tão próxima quanto a escola especial, pelo fato de a educação dos alunos portadores de necessidades especiais ter sido, por longa data, de responsabilidade da escola especial. Nesse sentido, somente quando esses alunos adentraram as salas de aula regulares foi que essa escola “acordou” para um processo que já vinha acontecendo e sendo mudado aos poucos há muitos anos. É interessante que, desse número de professores e gestores que pensam a inclusão como um direito socialmente construído, 50% pertencem à APAE/Viçosa e 50% à Escola Effie Rolfs, que trabalha há 20 anos com a educação desses alunos sob a perspectiva da Integração, mas também acompanhava, mais que as outras escolas regulares, as mudanças que vinham acontecendo no direcionamento da educação desses alunos. O testemunho a seguir caracteriza essa maneira de pensar a inclusão:
Eu acho que a inclusão é um processo histórico que vem acontecendo há muito tempo. Só que o sistema educacional regular não busca estas informações, não está antenado para estas questões, não presta atenção “nestes detalhes”. Isto atrasou o conhecimento de um processo que vinha acontecendo há muito tempo. E agora eles vêm dizendo que foi uma
imposição do governo. Não foi não! Aí, quando esse aluno chegou dentro da sala de aula, começou-se a prestar mais atenção nisto. “Olha, estão falando de inclusão, o que é isto?” Então, você vê claramente que é falta de conhecimento do processo que faz a gente ouvir “A inclusão veio de uma hora pra outra, com medidas de cima pra baixo e a gente é obrigado a aceitar”. E a questão já está toda lá legislada com medidas implantadas em várias escolas do país (Carla, APAE/Viçosa).
Os depoimentos até então evidenciam fortemente a discussão levantada por Warren (2000) em seu “Projeto de Construção da Cidadania com Justiça Social que contempla a Diversidade”, quando ele associa os princípios éticos da responsabilidade e da solidariedade com os princípios políticos do reconhecimento, inclusão e participação. Segundo ele, só se conseguem os últimos, quando se têm os primeiros. Nesses relatos, observa-se a não-responsabilização da escola regular por esses alunos, refletindo na falta de (re) conhecimento e na não-efetivação da inclusão e participação desses alunos nesse meio. Se a escola regular não quer ou é obrigada a se responsabilizar pelos alunos portadores de necessidades especiais, se ela prefere “jogar” essa responsabilidade para a escola especial, se ela nem mesmo acompanha as mudanças que vêm acontecendo na educação dessas crianças, como é que ela vai realizar as mudanças exigidas na estruturação da escola e na capacitação de seus profissionais para que esses alunos efetivamente sejam incluídos e participem na sala de aula? Segundo esse autor, a situação de não responsabilização também leva ao não- reconhecimento público e ao não-reconhecimento do grupo dos portadores de necessidades especiais, como parte integrante daquela comunidade.
3.1.3. A Perspectiva da Inclusão como Desresponsabilização do Estado
De acordo com Warren (2000), “para que o reconhecimento, a inclusão e a participação se efetivem é necessário o direito de ter iguais oportunidades e recursos ao exercício da cidadania, exigindo um
tr
atamento diferenciado que atenda às diferenças”(WARREN, 2000, p. 49). E é exatamente sobre a questão do “tratamento diferenciado” para atender às diferenças que aponta a terceira forma de ver a inclusão relatada pela minoria de 7% da população investigada. Essa parte dos professores e gestores considera a inclusão como uma forma de desresponsabilização do Estado para com os cidadãos/alunos portadores de necessidades especiais, que demandam um atendimento diferenciado e especializado que só podem ser oferecidos, hoje, pela escola especial. Para elas, a escola regular, da forma como está estruturada, não consegue atender às reais necessidades desses alunos, precisando alocar maiores recursos para compra e adaptação de material, para capacitação de seus profissionais e contratação de novos profissionais/especialistas para atender e proporcionar desenvolvimento às limitações e dificuldades desses alunos. Segundo essas professoras e gestoras, só dessa maneira esses alunos vão poder conviver na escola e na sociedade em condições de igualdade. Da forma como está hoje a escola regular, esse aluno não participa na sala de aula em igualdade de condições. Ele é o aluno atrasado, o aluno que não dá conta, o aluno que não acompanha e, portanto, necessita de muito mais que os outros alunos.
Eu particularmente desconfio muito da legislação, por que sempre tem alguma intenção por trás. A não responsabilização do Estado para com esses cidadãos é uma questão que passa pela minha cabeça constantemente. Por que eu acho que este tipo de aluno tinha que estar com os melhores profissionais, ele tinha que contar com mais que cuspe e giz. Eu acho que esse direito dele freqüentar a escola regular é um direito meio controverso. Ele tem esse direito ou não tem o direito de ter o atendimento especializado que ele merece e necessita? (Lúcia, Escola Effie Rolfs).
3.1.4. A Perspectiva da Inclusão como Sofisma
A última forma de relatar a inclusão pela comunidade escolar investigada é como sofisma, ou seja, a inclusão para 12,3% desses professores e gestores possui uma
argumentação lógica e extremamente válida eticamente, porém na realidade esse argumento é não-conclusivo e, portanto, induz a erro de julgamento. Segundo elas, o discurso da inclusão é perfeito como medida transformadora da realidade social e educacional dos excluídos, como forma de conseguir uma sociedade mais justa e mais fraterna. Porém, a realidade educacional no Brasil não possui condições plenas de garantir essa inclusão, portanto a lógica final é errada, conforme o depoimento a seguir:
A inclusão é sofisma puro e simples e vende uma ilusão! Ela conduz a um erro de julgamento por que a realidade de nossas escolas públicas, na maioria das vezes, é lastimável. E eu não posso ficar só no discurso, eu tenho que vir para a realidade e o que está acontecendo na realidade, pra mim, não é inclusão de jeito nenhum. Desde o que o governo oferece para a escola trabalhar com esse aluno até a questão institucional formal (Andréia, Escola Effie Rolfs).
O relato dessa professora evidencia a distância entre o discurso e a realidade educativa no Brasil, e a desresponsabilização do Estado no oferecimento de recursos para atender a essa demanda escolar que exige maior estruturação e maior capacitação da escola regular para promover a igualdade de oportunidades, conforme relatou Warren (2000).