4. BULGULAR
4.1. Birinci Alt Probleme Ait Bulgular
Nos estudos sobre a problemática fundiária no Estado de São Paulo, a região do Pontal do Paranapanema ficou caracterizada pela prática, desmesurada, da grilagem de terras públicas. De acordo com Fernandes et al (2006), este processo remonta a meados do século XIX, época em que a região ainda abrigava alguns grupos indígenas, sobretudo, da etnia guarani. A grilagem de terras trouxe consequências que, ainda hoje, refletem na dinâmica do desenvolvimento econômico e social desta região. Na primeira metade do século XX, o uso do “grilo” como recurso para a apropriação imobiliária foi tão intenso que nem mesmo a iniciativa do governo estadual em criar, na década de 1940, três reservas florestais25 foi capaz de frear os impactos causados pela exploração ilegal e insustentável das terras na região do Pontal.
[foi em meio a um intenso] processo de grilagem com exploração predatória dos recursos naturais da região (substituição de florestas pelas monoculturas do café e do algodão) [...] que nasceram os municípios que compõem atualmente a região do Pontal do Paranapanema (FERNANDES et al, 2006, p. 66).
Aliado à prática da grilagem, os conflitos fundiários no Pontal do Paranapanema estão relacionados também com a construção de usinas hidrelétricas realizadas pelo governo paulista em meados dos anos de 1970. Com o fim das obras dessas hidrelétricas, a mão de obra ociosa aumentou significativamente na região e isto ampliou as pressões, os conflitos e, consequentemente, as reivindicações em favor do acesso à terra (BARONE e FERRANTE, 2008; SÃO PAULO, 2001). Nesta mesma época, as atividades relacionadas à pecuária de
25 No governo de Fernando Costa foram criadas as seguintes reservas florestais: Morro do Diabo, Lagoa São Paulo e Grande Reserva do Pontal. Juntas, essas três áreas somam mais de 290 mil hectares de terra.
corte também se intensificaram e isto ampliou, sobremaneira, os impactos socioambientais na zona rural de vários municípios da região do Pontal.
A vegetação natural da região foi praticamente exterminada no decorrer das últimas décadas. Atualmente, mesmo os fragmentos mais preservados, já sofreram alguma forma de interferência por corte raso, fogo ou por retirada seletiva de madeiras de lei (SÃO PAULO, 2001, p. 8).
No início dos anos de 1980, os agricultores do Pontal do Paranapanema também foram estimulados a produzir cana-de-açúcar que, naquela época, tinha por objetivo fortalecer o PROÁLCOOL. Atualmente, a região vem sendo considerada um território privilegiado para a expansão do cultivo da cana, desta vez, tendo como pano de fundo um cenário de fortes incentivos à produção dos chamados agrocombustíveis. Tal perspectiva pode contribuir para o acirramento dos conflitos existentes em torno das questões agrícola e agrária nesta região do Estado.
Com as atenções voltadas para o Pontal do Paranapanema, podemos constatar que a expansão da agroindústria canavieira não traz alento para os trabalhadores e para a comunidade regional, visto estar se consolidando sem que seja assegurada nenhuma garantia à já ameaçada produção de alimentos, como financiamentos e políticas públicas para ampliar os horizontes da Reforma Agrária e de criação e viabilização de assentamentos rurais (THOMAZ
JUNIOR, 2007, p.16).
A questão levantada por Thomaz Junior vem sendo confirmada através de pesquisas recentes realizadas nos assentamentos do município de Teodoro Sampaio. Fernandes et al (2006), constataram que, com relação à produção para autoconsumo, apenas 1% dos assentados entrevistados conseguiam produzir, no lote, mais da metade do que consumiam diariamente. Esta situação pode, portanto, obrigar os assentados do Pontal a também recorrer ao cultivo da cana-de-açúcar em seus respectivos lotes, pois ainda que polêmico, o cultivo desta planta apresenta-se como o meio mais eficaz para a complementação da renda das famílias assentadas26.
As análises realizadas sobre os impactos advindos do plantio da cana nos assentamentos rurais em São Paulo indicam que, além das fragmentações internas e divergências entre os órgãos gestores dos assentamentos rurais, o cultivo de cana-de-açúcar destinado as indústrias produtoras de açúcar e álcool acaba por gerar uma substancial “[...]
26 O cultivo de cana-de-açúcar nos assentamentos na região do Pontal do Paranapanema teve início em 1993 com uma experiência piloto desenvolvida no Assentamento Água Sumida, este localizado no município de Teodoro Sampaio. Posteriormente, o cultivo da cana também passou a ser desenvolvido em assentamentos vizinhos ao de Água Sumida como é o caso do PA Santa Terezinha da Alcídia e do PA Alcídia da Gata (FERRANTE, 2009;
distorção das perspectivas de cooperação comunitária, impondo valores competitivos e danos ambientais” (BARONE et al, 2008, p.28). Outro problema apontado pelas pesquisas diz respeito às suspeitas de irregularidades contratuais praticadas pelos usineiros contra os trabalhadores assentados. Ainda que os projetos e contratos para o fornecimento de cana às usinas sejam acompanhados pelas autoridades e técnicos dos órgãos (INCRA e ITESP) gestores dos assentamentos rurais, há indícios de que estes contratos não são, integralmente, respeitados pelos empresários do setor canavieiro.
Nos contratos firmados com as agroindústrias há uma assimetria de informações. Os assentados desconhecem as fórmulas de previsão da safra, de preço da cana – as quais são de domínio de agentes contratados pelos usineiros – o que os leva a ficar, de fato, de fora do processo. Os assentados não conseguem saber o valor real de sua produção, o que foi gasto, a quantidade e qualidade dos insumos, a pesagem da cana e, muito menos, como esta produção entra no circuito nacional e internacional de expansão da cana (BARONE et al, 2008, p.25).
Como se pode apreender, a ineficácia das políticas públicas de desenvolvimento dos assentamentos de reforma agrária em São Paulo, aliada a expansão do cultivo de cana-de- açúcar nestes assentamentos tem feito emergir problemas de toda ordem – sociais, ambientais, políticos, trabalhistas, jurídicos, entre outros. De acordo com Ferrante (2009), isto ocorre porque, no contexto de implantação e desenvolvimento dos assentamentos rurais, existem dois modelos de desenvolvimento. Um baseado na racionalidade capitalista, expressa, por exemplo, nas parcerias entre assentados e usineiros; de outro lado, tem-se um modelo que, baseado no fortalecimento das políticas públicas para a agricultura familiar, vislumbra ampliar e diversificar a produção agropecuária nos assentamentos de reforma agrária o que, em tese, poderia garantir a segurança alimentar dos trabalhadores assentados, além de permitir usos mais sustentáveis dos recursos naturais.
Tomando-se este segundo modelo de desenvolvimento como um eixo norteador da reflexão proposta para este capítulo, veremos, na sequência, alguns aspectos de dois documentos, um elaborado pelo governo do Estado de São Paulo e o outro pelo governo federal. O primeiro deles é denominado programa Pontal Verde e vem sendo desenvolvido pelo ITESP na região do Pontal do Paranapanema desde meados dos anos de 1990; o segundo chama-se Plano de Ação Ambiental do INCRA. A guisa de conclusão deste capítulo apresentaremos alguns aspectos da proposta agroambiental que vem sendo construída pelo
MST, como um recurso para o enfrentamento daquilo que as lideranças do Movimento definem como modelo do agronegócio27.