Os profissionais que têm optado pelo trabalho na Proteção Especial da Alta Complexidade são, em sua maioria, originários do curso de Psicologia mais antigo no Estado, pertencente à Universidade Federal do Rio Grande do Norte, a Instituição de Ensino Superior (IES) com o maior número de egressos neste campo (4), seguida pela Universidade Potiguar (2), pelo Centro Universitário do Rio Grande do Norte (1) e por dois IES pertencentes a outros estados.
É perceptível, por outro lado, a crescente predominância das IES privadas na formação do psicólogo, já apontada por Bastos e Gondim (2010), caso de cinco dos psicólogos, formados por quatro IES diferentes. Tal fato abre possibilidades para uma maior variedade no exercício profissional e nos perfis formativos encontrados. Apesar disso, a área Clínica, foi à opção de estágio de três dos psicólogos.
Em segundo lugar está o estágio em áreas correlatas à Saúde - Clínica Hospitalar, Hospitalar e Saúde mental, álcool e outras drogas - seguido da opção pela área Organizacional (2). Assim, apenas um dos psicólogos, optou pelo estágio na área social, dado no mínimo curioso, quando comparado ao ano de formação dos profissionais, pois seis graduaram após a ampla abertura da inserção profissional dos psicólogos no campo da Assistência Social, já mencionada.
Mais à frente abordaremos de que modo a formação tem contribuído para a atuação destes profissionais nos SAI. Concorda-se com Dantas (2013), ao afirmar que, apesar das trajetórias individuais no decorrer da graduação diferirem sobremaneira, é inegável que a inclusão de temáticas e o desenvolvimento de competências e habilidades específicas facilitam a compreensão do profissional acerca dos serviços, além de incentivarem movimentos interessantes na ação profissional do psicólogo.
Mesmo considerando a impossibilidade da relação direta entre o percurso da formação e a prática profissional, é curioso que os profissionais não necessariamente busquem uma formação complementar associada à intervenção social, no intuito de sanar tal déficit. Quanto à Formação complementar, sete dos profissionais já concluíram pelo menos uma e a preferência tem sido dada a cursos de viés prático, a saber, capacitação (6) e especialização (7), conforme apresentado na Tabela 4.
Tabela 4
Formação complementar
Tipo de formação complementar*
Capacitação Especialização Mestrado Nenhuma
Formação complementar 6 7 1 2
*n=9. Mais de uma resposta por entrevistado
Nota-se, assim, que os profissionais têm optado por formações complementares de cunho mais prático. Há grande variedade na escolha da Formação Pós-graduada7 (Tabela 5), mas é possível perceber certa preferência por cursos ligados à Psicologia Organizacional, no caso, Administração de Recursos Humanos, Análise do trabalho e Gestão da Qualidade. Credita-se tal fato, provavelmente, à possibilidade de melhores remunerações do que as demais áreas (Bastos & Gondim, 2008).
Tabela 5
Área da Pós-Graduação
Área da Pós Graduação Casos (N)*
Psicologia Clínica 2
Álcool e outras drogas 1
Administração de recursos humanos 1
Avaliação Psicológica 1 Psicologia Hospitalar 1 Análise do trabalho 1 Público e Cidadania 1 Gestão da Qualidade 1 Total 9
*Mais de uma resposta por entrevistado
7
É interessante notar que a forte influência da área clínica, observada no estágio, já não se mostra tão evidente no momento da escolha do curso de Pós-graduação, o que sugere que os espaços onde estes psicólogos estão se inserindo, ao longo da sua trajetória profissional, demandam conhecimentos diferenciados. No caso dos Serviços de Acolhimento, é requerida uma maior variedade de conhecimentos, habilidades técnicas, em diversas áreas como: violência e exclusão social; dependência química; desenvolvimento infantojuvenil; seleção e desenvolvimento de Recursos Humanos; atendimento à criança, adolescente e família; atendimento em grupo; trabalho em rede; acesso a serviços, programas e benefícios; Sistema de Justiça (CONANDA/CNAS, 2009). No entanto, é visível a quase ausência da formação vinculada à Assistência Social ou Políticas Públicas, palco do campo de trabalho destes psicólogos nos SAI. Situação diferente é observada nas capacitações realizadas (Tabela 6):
Tabela 6
Área da formação complementar
Área da capacitação Casos (N)* Acolhimento Institucional 3
Ludoterapia 1
Medidas Socioeducativas 1
Trânsito 1
Total 6
* Mais de uma resposta por entrevistado
Dentre os psicólogos que realizaram algum tipo de capacitação, a maioria optou pela área do Acolhimento Institucional, demonstrando interesse destes profissionais em aprofundar os conhecimentos teóricos sobre a prática. Tal formação foi apontada pelos profissionais como importante para o desempenho das suas atividades, como observado nas falas abaixo:
Como o nosso trabalho é muito denso, a gente deveria ter tido, antes de ser inserido aqui, uma capacitação, um treinamento, uma orientação maior. (Psicólogo 1)
Só essa capacitação que o OBIJUV fez foi muito legal e foi tão curtinha... Depois eu fiz um resumo das oficinas para passar para as educadoras que não
foram. É tão precária a situação que a gente vive, que a gente tem que fazer por conta própria mesmo, não existe muita orientação (...) Gostaria que houvesse um mecanismo, tipo assim, um projeto de especialização na UFRN voltado para a questão de acolhimento; eu desconheço. Eu estou muito distante da Universidade, de leituras e capacitações para minha área. (Psicólogo 7)
Orientou a respeito das políticas da instituição, conhecendo os instrumentos, todas essas políticas, esses estandes que orientam o fazer do psicólogo dentro desta organização. (Psicólogo 6)
Essas considerações apontam para a fragilidade da formação continuada que deveria ser oferecida pelas instituições aos seus profissionais, tal como previsto não só nas Orientações Técnicas, como também na própria NOB/RH-SUAS, aliado à aquisição de conhecimentos específicos acerca do Acolhimento Institucional, em momento posterior ao ingresso no campo de trabalho. Além disso, mesmo quando oferecida alguma formação, ocorre do psicólogo não poder participar, devido a outras demandas da instituição conforme o exemplo:
Apesar de ler sobre o adolescente em situação de risco, de rua, é tudo muito novo. O que eu estudei de Psicologia Social me dá base para trabalhar, mas existem documentos técnicos, que documentos são esses? (...) O que a gente vem fazendo são os nossos estudos enquanto equipe técnica e seguindo as orientações da coordenação e das assistentes sociais, que parecem ter mais disso na formação. Eu sei que teve umas palestras (sic)... mas não pude ir, devido à demandas daqui. (Psicólogo 8)
Tal colocação evidencia algo já apontado por Paiva (2008), a carência de uma formação sólida na área da intervenção social, na graduação, pós-graduação e, até mesmo entre as formações complementares. De tal modo que raras possibilidades de aquisição de conhecimentos sobre o trabalho na Proteção Especial têm sido ofertadas a estes profissionais, seja durante a graduação ou após o ingresso no mercado de trabalho.