5.1. Tartışma
5.1.1. Birinci Alt Probleme İlişkin Bulguların Tartışılması ve Yorumu
Ao lermos a instrução da prova de redação (FUVEST 2007), deparamo- nos com a seguinte formulação: “redija uma DISSERTAÇÃO EM PROSA, argumentando de modo a expor seu ponto de vista sobre o assunto”. Como se vê, o posto dessa formulação denomina a redação no vestibular como um texto dissertativo-argumentativo. Poderíamos, então, contentarmo-nos com esse “olhar institucionalizado” e buscar entender o funcionamento da redação como um texto simplesmente dissertativo-argumentativo.
Do ponto de vista institucional, o caráter institucionalizado da redação se resume a um acontecimento uniestilístico: um plano textual fechado e homogêneo, caracterizado pela simples organização de n seqüências do mesmo tipo (todas dissertativo-argumentativas).
No entanto, as redações selecionadas nos revelam dados que nos permitem questionar esse acontecimento uniestilístico. Como, então, justificar os dados abaixo que não correspondem a seqüências “puramente” dissertativo- argumentativas:
(1) Toma-se o coração como um vagão de um trem. O trajeto é longo, por vezes difícil, pessoas entram e saem, algumas ficam por bastante tempo, outras não, mas deixam sempre sua marca, sua importância para a integridade do trem. (Texto 17, §1º)16.
(2) Ele não sente, não pensa, não fala... não é seu companheiro, não apóia, não segura a mão... portanto, não pode de maneira alguma ser um amigo; entretanto, é assim que temos tratado nossos amigos: como chocolates. (Texto 37, §4º).
(3) Quando eu era garoto, amigo era um gordinho de carne e osso (mais carne que osso) que jogava no gol porque se saísse dali nós perdíamos o jogo de verdade. (Texto 51, §3º).
(4) Pedi-lhe desculpas e logo coloquei-o a lembrar, comigo, tudo o que já havíamos passado juntos ao longo de nosso anos de amizade: não precisei lembrar de muito para que ele notasse (...). (Texto 52, §2º).
(5) Um dia alguém me perguntou quantos amigos eu tinha. Pareceu-me uma resposta fácil a princípio, porém não consegui responder logo de cara e fiquei
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A notação (Texto 17, §1º) implica dizer que o exemplo foi extraído do primeiro parágrafo do Texto de número 17. Vale salientar que os textos de numeração até 50 correspondem às redações publicadas no site da FUVEST; a partir do número 51, os textos correspondem às redações cedidas pela instituição.
com essa dúvida durante um longo período. Refleti e não obtive nem o verdadeiro sentido da amizade. (Texto 176, §1º).
Do ponto de vista da lingüística textual, uma possível resposta a essa questão seria dizer que o texto é “uma estrutura hierárquica complexa que compreende n seqüências – elípticas ou completas – do mesmo tipo ou de tipos diferentes” (Adam, 1991, p. 16). Dando continuidade a discussão, um lingüista textual diria que é notável a variedade de seqüências tipológicas no gênero, pois os gêneros mostram uma grande heterogeneidade tipológica.
Nesse sentido, o lingüista textual diria que a redação no vestibular é um gênero textual cuja armadura comunicativa vê-se preenchida por seqüências tipológicas de base bastante heterogêneas, mas relacionadas entre si (cf. Marcuschi, 2003, p. 27). Portanto, quando a instituição nomeia a redação como “dissertação”, não se está nomeando o gênero, mas o predomínio de uma seqüência de base. Se a redação é, portanto, um gênero textual, ela não pode ser reduzida a um “tipo textual”17. É preciso reivindicar um “olhar” para além da sua tessitura dissertativo-argumentativa.
Tomar essa tessitura como o todo acabado da redação é limitar-se ao seu plano textual. Não buscamos compreender a redação simplesmente como um texto (como um conjunto fechado de seqüências tipológicas), mas, um texto enquanto prática discursiva ligada a campos da atividade humana. Dito isso, nosso objetivo para este capítulo é não simplesmente entender o funcionamento textual dessa prática, mas, sobretudo, ver a redação no
vestibular como um gênero instituído caracterizado pelo seu acontecimento
pluriestilístico.
Nesse sentido, a redação não é simplesmente uma fórmula pronta e acabada. Como fenômeno de emergência da linguagem – estando em constante movimento –, a redação continua se fazendo à medida que seu campo de atividade humana se desenvolve e se complexifica. Graças a essa dinamicidade:
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Para a lingüística textual, a expressão “tipo textual” designa “uma espécie de seqüência teoricamente definida pela natureza lingüística de sua composição. Em geral, os tipos textuais abrangem cerca de meia dúzia de categorias conhecidas como: narração, argumentação,
Propomo-nos a “ver” a redação como um gênero instituído que “radiografa” a pluralidade estilística, lingüística e discursiva de uma cultura dominada pela “escrita”;
Propomo-nos a compreender toda a riqueza e a diversidade do seu conteúdo, da sua forma e do seu material;
Procuramos mostrar como, por baixo das “cortinas” dessa cultura dominada pela “escrita tecnológica”, há outras manifestações, outras culturas, outras “barracas de feira”18. Em outras palavras, procuramos acentuar a existência de outros estilos para além do dissertativo- argumentativo, de outras linguagens para além do “padrão culto escrito” e de outros discursos para além dos “muros da escola”.
Essa pluralidade estilística, lingüística e discursiva (i) marca o quanto os gêneros não são fixos e puros; (ii) marca como os gêneros só existem no processo de interação verbal; (iii) marca como os gêneros, num determinado momento social e histórico, não podem deixar de tocar “os milhares de fios dialógicos existentes, tecidos pela consciência ideológica em torno de um dado objeto de enunciação” (Bakhtin, 2002a, p. 86). No caso das redações, o acontecimento pluriestilístico marca, sobretudo, como a escrita do escrevente pré-universitário enquanto “discurso na vida” é engendrada por fios de leitura que vão tendo seus percursos construídos no intradiscurso.
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Fazemos aqui referência a uma passagem de Questões de literatura e de estética em que Bakhtin aborda a questão da prosificação da cultura. Para o autor a prosaica, diferente da poética, constitui-se historicamente de forças descentralizadores que fogem da centralização cultural, nacional e política do mundo verbal-ideológico; a prosaica foge das altas camadas sócio-ideológicas oficiais. Para Bakhtin, a prosificação da cultura colocava em xeque a cultura letrada “poética”, mostrando que, por baixo, “nos palcos das barracas de feira, soava um discurso jogralesco, que arremedava todas as ‘línguas’ e dialetos, desenvolvia a literatura das fábulas e das soties, das canções de rua, dos provérbios, das anedotas. Nesses palcos não havia nenhum daqueles centros lingüísticos onde o jogo vivo se realizava nas ‘línguas’ dos poetas, dos sábios, dos monges, dos cavaleiros, etc.” (Bakhtin, 2002a, p. 83).