Saber que a população escravizada brasileira também era rebelde despertava insegurança quanto à longevidade da escravidão e da tranquilidade no país. Afinal, um ambiente de crimes e de revoltas cometidas por escravos remetia aos perigos da vida cercada por homens e mulheres negras. Neste sentido, o Brasil ainda era mais grave que o Sul norte- americano uma vez que lá os libertos não gozavam dos mesmos direitos que no Brasil e a população negra parecia não ser tão numerosa quanto no Império. O perigo da tão temida guerra racial e da tomada de poder pelos negros, motivo que os fizera sair da sua terra natal, poderia também ser algo iminente no novo país.
Harris Gunter tentou fazer algumas especulações sobre o futuro da escravidão no Brasil e de que maneira o país seria prejudicado pela imposição do trabalho livre. Disposto a se aventurar pelo mundo em busca de um ambiente ideal para reconstruir a sua vida e da família, Harris dizia ao irmão que a Argentina também recebia vários imigrantes, sobretudo ingleses. O Brasil estava sendo bom até aquele momento, mas, após a morte de D. Pedro com quem a sua família mantinha relações pessoais, o futuro do país seria instável e certamente pior. Levando em consideração o potencial revoltoso da população escrava e a quantidade de
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Carta de Susan M. Gaston para Katie, Campinas 11 fev. 1882. Coleção James Mcfadden Gaston
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negros, o jovem Gunter afirmou que a vantagem da Argentina em relação ao Brasil era que, após a abolição, o outro país era livre do “elemento negro” (darkey element).97
Os anos seguintes confirmariam as previsões negativas de Harris Gunter. As últimas décadas do cativeiro no Brasil foram marcadas por revoltas, crimes e pela formação do movimento abolicionista que, sobretudo a partir da década de 1870, teria forte atuação no estado de São Paulo, região onde estava localizada a maioria das colônias fundadas por imigrantes confederados. A articulação política nos gabinetes do Império não conseguiu conter as manifestações populares de rejeição à escravidão, sobretudo através de motins organizados pela própria população negra, escravizada e liberta. Abolicionistas de diversos segmentos combatiam a escravidão, cada um à sua maneira, uns através de debates, de jornais e atuações na justiça em prol da libertação dos escravos, e outros, representando uma militância mais popular, organizavam motins, formavam quilombos, promoviam fugas e “quebra-quebras”.98
Quando os escravos de Luiz Antônio de Pontes Barboza se sublevaram, em Campinas, em uma noite de outubro de 1882, gritando “mata branco” e “viva a liberdade”, o episódio repercutiu na região amedrontando a população local temerosa da fúria dos insurgentes.99 Certamente, a notícia da sublevação dos escravos em Campinas causou medo, mas, também, apreensão entre os muitos confederados que viviam na região. O caso foi registrado no diário de James McFadden Gaston Jr., no dia 1o de novembro de 1882, exatamente na manhã posterior ao ocorrido. Segundo o jovem Gaston, às 8 da manhã os escravos haviam se entregado à polícia afirmando que eles haviam matado o feitor, sob a alegação de que este os tratava muito mal. Para ele, cenas de revolta de escravos já eram indicativos do nível de crise que a escravidão havia atingido no Brasil.100
Naquela semana, retornar para os Estados Unidos se tornou uma ideia fixa para James Gaston Jr. Ele, que, assim como seu pai, era interessado em ciência racialista, antropologia e era um atento observador das características físicas e do comportamento dos negros brasileiros, certamente acreditava que o Brasil pós-abolição, repleto de negros e
97
Carta de Harris Gunter para William Gunter, Rio de Janeiro, nov. 1866, Gunter and Poellnitz
Family Papers, The Southern Historical Collection, University of North Carolina Libraries.
98
Sobre os últimos anos da escravidão no Brasil e os conflitos que ocorreram neste período, ver: MACHADO, Maria Helena P. T. O plano e o pânico: os movimentos sociais na década da abolição. 2. ed. São Paulo: EDUSP, 2010.
99
Este episódio é narrado e discutido em MACHADO, O plano e o pânico..., cit., p. 99-102.
100
Diário de James McFadden Gaston Jr, 1 nov. 1882, p. 102. Journals and Notebooks of James McFadden Gaston (1868-1946). James McFadden Gaston Papers, folder 26-27. The Southern Historical Collection, University of North Carolina Libraries.
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mulatos libertos, não era mais um lugar onde as famílias confederadas poderiam viver. No dia oito de novembro de 1882, poucos dias após a revolta da fazenda em Campinas, cidade em que também vivia, escreveu em seu diário que “o Brasil, por ora, é um bom lugar para se estar longe”. O baixo preço do café seria um dos motivos, mas a principal razão seria o fato de que “os republicanos, abolicionistas e liberais ou pró-escravos, podem algum dia começar uma Guerra, da mesma forma que os negros já o fizeram três vezes contra os seus senhores nos últimos dois meses nesta mesma província”. Para Gaston Jr., os fatos que vinham ocorrendo no último ano confirmavam a urgência com que a sua família deveria retornar para os Estados Unidos.101
Naquele mesmo mês, e ainda aterrorizado pelas cenas de sublevação ocorridas, o jovem McFadden se assustou com gritos de “pega ladrão” que vinham da rua. Da sua janela, ele mesmo pôde assistir a toda a cena envolvendo um “homem negro e grande” que corria pelas ruas, desgovernadamente. O homem conseguiu escapar da polícia, que contava somente com um soldado que deixou o fugitivo escapar a despeito da delegacia ser “tão próxima”.102 No mês seguinte, os McFadden seria enganados por José, um motorista que prestava serviços temporários à família. José foi até uma quitanda e, com uma assinatura falsa do médico James MacFadden Gaston, conseguiu comprar “itens que a família não costumava consumir”. Com a farsa bem sucedida, José adquiriu duas garrafas de vinho do porto, uma lata de mortadela, duas latas de ervilha e uma lata de presunto. A compra, obviamente, foi paga pelo médico que exigiu mais atenção na próxima vez que alguém chegasse ao estabelecimento utilizando uma autorização de compra com sua assinatura.103
O fato de ser enganada por um negro brasileiro deve ter causado muita insatisfação à família McFadden. Além disto, eles devem ter entendido o ato de insubordinação como parte do contexto turbulento que marcava as décadas finais da escravidão no Brasil. Assim, temendo que o futuro no país viesse a ser muito semelhante àquele que tentaram evitar quando imigraram, os McFadden Gaston deram fim ao sonho escravista na América Latina e, assim como cerca da metade das famílias confederadas que
101
Diário de James McFadden Gaston Jr., 8nov. 1882, p. 112. Journals and Notebooks of James McFadden Gaston (1868-1946). James McFadden Gaston papers, folder 26-27. The Southern Historical Collection, University of North Carolina Libraries.
102
Diário de James McFadden Gaston Jr., 27 nov.1882, p. 112…., cit.
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haviam imigrado para o Brasil e que desistiram pelos mesmos motivos, retornaram para a América do Norte pouco antes do dia 13 de maio de 1888.104
Os irmãos George e Lucien Barnsley, da Georgia, deixaram seu país, em 1867, também atraídos pela possibilidade de “fazer dinheiro fácil” no Brasil. No entanto, após chegarem ao país, amargaram anos de experiências em negócios mal sucedidos e tentativas de voltar para os Estados Unidos. Vinham de uma família de plantadores de algodão na Georgia, portanto escravistas, e quando chegaram ao Brasil, em 1867, foram pouco a pouco desfazendo suas expectativas. Já em 1873, George reconsiderava sua escolha pelo Brasil e pensava em imigrar para a Califórnia ou o México. Além disto, a insatisfação com o país era tanta que ele revelava estar aprendendo a “odiar os brasileiros, seus modos e sua forma de governo”. Embora George fosse médico de formação, quando veio para o Brasil, ele tencionava ficar rico explorando minas de ouro. O fracasso do negócio fez com que ele fosse forçado a, contra sua vontade, exercer a medicina no país.105
Em diversos momentos ele revelou ter medo de fracassar na sua aventura. Em carta à irmã Julia, George reconheceu seu desejo de retornar aos Estados Unidos já no ano de 1879.106 Os sentimentos sobre os brasileiros também variavam de carta em carta. Em 1880, George descreveu os brasileiros como “curiosos e ignorantes”.107 Já em 1882, ele desejava que a propriedade da família na Georgia fosse vendida para que, com este dinheiro, ele permanecesse no Brasil, uma vez que o seu país “só oferecia violência”. Além disto, George também defendeu a conduta de uma mulher brasileira casada que sofria com a negligência do marido confederado. Indignado com as desconfianças da sua irmã Julia sobre o comportamento da esposa que, segundo ela, poderia ser a culpada pelos desmandos do
104
De acordo com Dawsey e Dawsey, cerca de 50% dos confederados que imigraram para o Brasil voltaram para os Estados Unidos já entre os anos de 1865-1875. Ver: DAWSEY; DAWSEY, The
Confederados..., cit., p. 18.
105
Carta de George Barnsley para Julia. Rio de Janeiro, 2 fev. 1873. George Scarborough Barnsley
Papers, 1837-1918. In: Southern Historical Collection, Davis Library – University of North
Carolina, Chapel Hill. Ainda sobre a experiência de George Barnsley no Brasil, ver: GRIGGS, The
elusive Eden..., cit. p. 47; 128.
106
Carta de George Barnsley para Julia. Rio de Janeiro, 14 set. 1879. George Scarborough Barnsley papers, 1837-1918, In: Southern Historical Collection, Davis Library – University of North Carolina, Chapel Hill.
107
Carta de George Barnsley para Julia. Rezende, Rio de Janeiro, 2 abr. 1880. George Scarborough Barnsley papers, 1837-1918, in: Southern Historical Collection, Davis Library – University of North Carolina, Chapel Hill.
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cônjuge, George rebateu as críticas dizendo que “ser uma brasileira, não significa nada. É prudente que você aprenda que nós somos tão civilizados quanto qualquer outro povo”.108
Contudo, em 1880, George Barnsley demonstrava algumas preocupações sobre o futuro político do Brasil. Naquele ano, ele revelava, para a irmã Julia, que “temia que todos os seus longos anos de sofrimento pudessem estar perdidos” e a razão do descontentamento do imigrante se expressava na frase “existe um grande debate sobre liberdade”. Este cenário marcava o início do desejo de George de voltar para os Estados Unidos: “Eu não sei se tudo está perdido ou não, mas o que é certo é que eu estou cansado de lutar e tenho que desistir”. George já havia lutado no exército confederado durante a Guerra Civil e, certamente, não estava disposto a, novamente, assistir ao fim da escravidão, fosse por meios pacíficos, fosse em circunstâncias que o fizessem presenciar uma outra guerra, desta vez, em um país estrangeiro.109
A partir de 1883, as cartas de George para a irmã Julia se resumiam ao tema pedido de dinheiro para voltar para os Estados Unidos. Em 1883, ele pedia ajuda para o próprio cunhado, Henry Schuwartz, marido de Julia, afirmando que “questões desastrosas” haviam reduzido ele e o irmão Lucien a um estado de “declarada pobreza”.110 Outras cartas com o mesmo tom foram enviadas, uma em março do mesmo ano, pedindo dinheiro para as passagens, e outra, em maio, reafirmando a urgência de ajuda para a saída do Brasil.111 Aparentemente, George não recebeu da família a ajuda que esperava, o que o fez se transferir para São Paulo, onde, exercendo a função de médico, mantinha sua família, ao mesmo tempo em que tentava acumular dinheiro para a compra das passagens para os Estados Unidos.
Enquanto o irmão de George, Lucien, ainda insistia no fracassado negócio das minas de ouro, era sua esposa quem, havia três anos, vinha sustentando a família atuando como professora. Segundo George, exceto vir para o Brasil, trocar a medicina pelo negócio das minas havia sido o maior erro da sua vida. Completamente arrependido da vinda para o Brasil, o imigrante então apostava tudo na volta para o seu país natal, o que acreditava poder
108
Carta de George Barnsley para Julia. Rio de Janeiro, 1882. George Scarborough Barnsley papers, 1837-1918, in: Southern Historical Collection, Davis Library – University of North Carolina, Chapel Hill.
109
Carta de George Barnsley para Julia. Barra Mansa, Rio de Janeiro, 3 maio 1881. George Scarborough Barnsley papers, 1837-1918. In: Southern Historical Collection, Davis Library – University of North Carolina, Chapel Hill.
110
Carta de George Barnsley para Julia. Rio de Janeiro, 27 fev. 1883. George Scarborough Barnsley papers, 1837-1918, in: Southern Historical Collection, Davis Library – University of North Carolina, Chapel Hill.
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Carta de George Barnsley para Julia. Rio de Janeiro, 5 mar. 1883 e 25 maio 1883. George Scarborough Barnsley papers, 1837-1918, in: Southern Historical Collection, Davis Library – University of North Carolina, Chapel Hill.
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fazer em alguns meses. Derrotado e arrependido, George Barnsley afirmava que, depois de muitos anos vivendo no Brasil e convivendo intimamente com os brasileiros, naquele momento da sua vida, ele se sentia “menos brasileiro de coração do que um ano após a minha chegada”. Com isto, o confederado, após tantos anos de residência, expressava o sentido inverso de sua sensação de pertencimento ao país. Logo, para ele, identificar-se como brasileiro estava condicionado a ter sucesso no país.112
Desde o no início de 1883, George Barnsley havia traçado suas expectativas sobre o que seriam os próximos anos da economia brasileira para aqueles que dependiam do trabalho escravo. Assim como os Gaston, ele também avaliou como os debates sobre a abolição faziam o Brasil deixar de ser um país promissor. Segundo ele, os negócios no país estavam em uma situação deplorável, que refletia no baixo preço do principal produto produzido no país, o café − “os grãos de café são pequenos e o custo de vida está aumentando diariamente” −, refletindo também no fracasso de toda a sua família. Sobre a abolição, ele afirmou: “A grande questão, que é a escravidão, está caminhando para uma decisão rápida”, o que causaria problemas gerais e particulares para aqueles que ainda viviam no Brasil. Em um balanço definitivo, o confederado acreditava que o país estava caminhando para a “falência ou para a revolução”.113
Para piorar ainda mais as previsões e o desespero de George Barnsley, ele não conseguiria juntar dinheiro para, junto com a sua família, voltar para os Estados Unidos em 1883, como havia planejado. Além do mais, a família Barnsley arrastava por anos pendências envolvendo a partilha da terra deixada pelo seu pai, uma propriedade na Georgia chamada Woodlands. Ao que parece, Júlia não enviava dinheiro para os irmãos, porque ela desejava fazê-lo com o dinheiro da partilha da propriedade da família. Assim, em janeiro de 1887, ele escreveu mais uma carta desesperada para Julia, desta vez em um tom mais duro que as anteriores na qual acusava a irmã de falhar em enviar o dinheiro para a sua volta, o que ela havia hesitado em fazer mesmo depois de ele ter autorizado a venda de Woodlands.114 Ele reclamava que Julia não retornava suas cartas havia meses e a culpava pelo estado de miséria
112
Carta de George Barnsley para Julia. Botucatu, São Paulo, 12 set. 1883. George Scarborough Barnsley papers, 1837-1918, in: Southern Historical Collection, Davis Library – University of North Carolina, Chapel Hill.
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Carta de George Barnsley para Julia. Rio de Janeiro, 23 jan. 1883. George Scarborough Barnsley papers, 1837-1918, in: Southern Historical Collection, Davis Library – University of North Carolina, Chapel Hill.
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Carta de George Barnsley para Julia. Pirassununga –SP, 1 jan. 1887. George Scarborough Barnsley papers, 1837-1918, in: Southern Historical Collection, Davis Library – University of North Carolina, Chapel Hill.