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Atualmente, apesar de não haver qualquer dúvida quanto à marcante presença das favelas na paisagem das principais cidades brasileiras e, especialmente, na Cidade de São Paulo, os estudos acerca do problema não chegam a um acordo quanto aos números de favelas e de população favelada do município. As disparidades são explicadas, em parte, pela adoção de conceitos diversos para o mesmo fenômeno – a favela – e, em parte, pela utilização de distintas metodologias de levantamentos/coleta dos dados. Problema que é substancialmente agravado pela inexistência de série histórica que permita o acompanhamento da evolução da densidade demográfica nas favelas. O quadro que segue foi construído a partir do mais recente estudo de Pasternak39 e mostra bem a rápida evolução da presença de favelas e população favelada em São Paulo, e permite uma primeira aproximação da polêmica dos números.

Dados 1980 (1) 1987 (2) 1991 (3) 1993 (4) 1996 (5) N° de favelas em

São Paulo 188 1.592 629 - 574

Nº. de domicílios em

favelas em São Paulo 71.258 150.452 146.891 378.683 176.905

População favelada em São Paulo 335.344 812.764 711.032 1.901.892 747.322 % da população favelada em relação ao total do município 4,07 8,92 7,46 19,80 7,60

Quadro 1: Favelas, Domicílios e População Favelada – Município de São Paulo (Pesquisas Diversas).

Fontes: (1) Censo Demográfico do IBGE; (2) SEHAB (atualização do censo de favelas de 1980); (3) Censo Demográfico do IBGE; (4) Fipe/Sehab (Usando a base de 1987 e fazendo recontagem por amostragem); (5) Contagem Populacional (In: PASTERNAK, 2001,p.34).

O que se destaca do quadro é que o Censo de Favelas, realizada pela Sehab – Superintendência de Habitação Popular, em parceria com a Fundação e Instituto de Pesquisas (Fipe), indica que a população favelada do município teria passado de 800 mil, em 1987, para 1,9 milhão de pessoas, em 1993, mais que dobrando em seis anos (representaria uma evolução de quase 20% do total da população do município em 1991, tendo crescido à taxa de

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15,2%40). Enquanto a Fipe indica esse espantoso crescimento o IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, no entanto, considera que a chamada população residente em setores subnormais não teria ultrapassado de 900 mil, tanto nos Censos de 1991, 2000, quanto na Contagem Populacional de 1996. Tais informações despertaram as atenções e provocaram uma série de debates, alguns levando, inclusive, à conclusão da piora das condições de vida da população residentes em tais assentamentos41.

O primeiro trabalho a contestar os números da Fipe foi realizado pelo Centro de Estudos da Metrópole (CEM). O CEM, a partir de um trabalho realizado em conjunto com a Habi e fazendo uso de sistemas de informações geográficas (SIG) e de sobreposição de bases cartográficas de favelas à malha dos setores censitários dos Censos do IBGE,42 chegou a uma estimativa de favelados comparando as informações de 1987 e 1993 aos dados dos Censos Demográficos. Pelo estudo do CEM os domicílios em favela na cidade de São Paulo somavam 286.954 unidades habitacionais que abrigavam 1.160.590 pessoas. Ou seja, números inferiores aos projetados pela Fipe para o ano de 1993, quais sejam: 378.683 domicílios e 1.901.892 habitantes.

Em artigo publicado por Torres e Marques (2002), coordenadores do estudo do CEM, eles se preocupam em deixar claro que os números do CEM também não são definitivos, tratando-se, na verdade, de uma estimativa, porém, segundo os autores um pouco mais realista que os dados tanto do IBGE quanto da Fipe/Sehab.

Utilizando argumentos parecidos com os de Pasternak para explicar as disparidades, os autores afirmam que o maior problema para dimensionar o universo de favelas e população favelada refere-se à complexidade do próprio conceito de favela. Afinal, se perguntam: o que seria uma favela? Sabe-se que os atributos urbanísticos e de infra-estrutura não são suficientes para explicá-la. Argumentam que do ponto de vista sociológico e de políticas públicas, “a presença do status fundiário é imprescindível para estabelecer um caráter distintivo às favelas” (TORRES; MARQUES,2002, p.4). Entretanto, sob o ponto de vista da mensuração,

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TORRES, Haroldo da Gama; MARQUES, Eduardo César. Tamanho populacional das favelas paulistanas. Ou

os grandes números e a falência do debate sobre a metrópole.Disponível em :

http.//www.centrodametropole@br/t-bb-art.html#favelas. Acesso em : 05 de mai.2006.

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KOWARICK, L. In:. SARAIVA, Camila; MARQUES, Eduardo. A dinâmica social das favelas da região

metropolitana de São Paulo. Disponível em: http://[email protected]/t-bb-art.html#favelas.

Acesso em:05 de mai. 2006.

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A superposição permitiu a imputação de informações do Censo aos polígonos das favelas por meio da combinação das técnicas tais como o overlay e tag .

este elemento deixa de ser suficiente e torna-se um fator de geração de problemas. Este é o caso do IBGE, por exemplo, já na maior parte das vezes o morador de um assentamento subnormal é proprietário da sua casa, e o questionário do Censo não permite uma clara distinção com a propriedade do solo. (TORRES; MARQUES, p.4)

Torres e Marques não deixam de concordar com o fato de ser a ilegalidade da terra o elemento distintivo da favela, mas lembram que há quatro tipos de irregularidades possíveis: quanto à legislação edilícia, quanto ao uso do solo, quanto ao parcelamento do solo e quanto à propriedade. Afirmam que:

O quarto tipo de ilegalidade é o que está associado ao tema. Quando um conjunto de pessoas ocupa uma gleba ou terreno, para além de possíveis descumprimentos das legislações edilícias (porque as casas são construídas fora do Código de Obras), de uso do solo, há um problema associado à posse da terra. É nesses casos que a literatura sociológica e de políticas públicas denominam os núcleos de favelas, delimitando corretamente um fenômeno único, mas gerando sérios problemas de mensuração. (TORRES; MARQUES,2002, p. 4-5)

Além da dificuldade de se garantir uma clara distinção entre a propriedade do imóvel e o estatuto jurídico da terra, o cálculo da população de favela do IBGE enfrenta outro problema que diz respeito ao uso do conceito de setor censitário subnormal, enquanto definição de favela, pelas seguintes razões:

1. A qualidade da estimativa depende do grau de atualização da cartografia utilizada para o planejamento do Censo. Muito provavelmente, a qualidade de tal cartografia depende da colaboração entre o IBGE e outros órgãos públicos, tais como prefeituras e secretarias de Estado, que atualizam a cartografia com fins tributários e para planejamento de políticas públicas;

2. Isto faz com que a precisão da estimativa de população favelada varie entre os vários municípios, sendo mais atualizada para os municípios com cartografia de favelas mais recentes;

3. Favelas muito pequenas tendem a não ser consideradas setores subnormais, pois não têm tamanho suficiente para servir como área pesquisada por um entrevistador. Em outras palavras, mesmo com cartografias atualizadas, a população favelada pode ser subestimada. (TORRES; MARQUES,2002,P.3).

Dentre essas razões citadas por Torres e Marques, Pasternak ressalta a importância da terceira, ou seja, a desconsideração pelo IBGE das favelas muito pequenas, que significam setores subnormais com menos de 51 domicílios. Para demonstrar o erro de contagem que pode isso provocar, Pasternak lembra que em 1987, 21,9% da população favelada morava em assentamentos com menos de 51 domicílios; em 1993, esse percentual apresenta uma pequena redução passando a 21,2%.(PASTERNAK,2001).

Para explicar as disparidades dos números do Censo de Favelas (FIPE/SEHAB), Torres e Marques afirmam que, em termos metodológicos, este estudo é bem mais problemático do que os Censos Demográficos e justificam afirmando tratar-se de uma amostra, e não de um Censo para o ano de 1993. Por esta razão concluem que “o Censo de Favelas não pode ser considerado um empreendimento sistemático de coleta de dados, com toda a estrutura técnica e operacional – bem como todo o acúmulo de experiências – dos Censos demográficos brasileiros, especialmente quando referido a uma região metropolitana como São Paulo”. (TORRES; MARQUES, 2002, p..14)

A tabela a seguir, literalmente transcrita do artigo de Torres e Marques, apresenta os resultados obtidos pelo CEM ao revisar as estimativas de população e domicílios para 1991 e o cálculo estimativo para os anos de 1996 e 2000.

Tabela 1 - População Favelada segundo os Censos Demográficos e Censos de Favelas. São Paulo, 1980-2000

População – Censos Demográficos Anos

Total Setores Subnormais

Censo de Favelas Diferença (%) (**) 1980 8.493.226 375.023 --- --- 1987 9.209.853 (*) 530.822 (*) 815.450 53,6 1991 9.646.185 647.400 1.434.134 (*) 121,5 1993 9.722.856 (*) 686.072 (*) 1.901.892 172,2 1996 9.839.066 748.455 --- --- 2000 10.434.252 896.005 --- ---

(*) Dados interpolados geometricamente.

(**) Calculada como (Censo de favelas – subnormais)*100/subnormais Fonte: IBGE e Prefeitura de São Paulo

IN: TORRES e MARQUES, 2002, p.7

As conclusões dos autores não são distintas daquelas já apontadas por Pasternak (2001), qual seja: que o IBGE, de fato, subestima o número de população favelada de São Paulo, da mesma forma que os dados do Censo de Favelas implicam numa sobrestimação do universo de favelados. Argumentam que “para aceitar uma taxa de crescimento de 15% na população favelada entre 1987 e 1993 requer imaginar que a população não favelada do município de São Paulo decresceu substancialmente em termos absolutos.” (TORRES; MARQUES, 2002, p.7).

O estudo do CEM leva à elaboração de quatro diferentes hipóteses de densidades demográficas médias para os trechos de favelas, e chega a uma conclusão de estimativa que é na verdade a combinação de duas das hipóteses, o que resulta em um número que oscilaria

entre 0,9 e 1,1 milhão de habitantes ou entre 8 e 11% da população do município para 1996 (TORRES; MARQUES, 2002), concluindo que:

(...) a população favelada de São Paulo tem crescido a taxas superiores às da população do Município, o que equivale a dizer que sua proporção se elevou na última década. Os dados de setores subnormais, apesar dos seus problemas, apontam para um importante crescimento da população favelada entre 1980 e 2000, numa taxa de 4,4% ao ano, 4 vezes superior à média da metrópole. (TORRES; MARQUES, 2002, p.16)

Esta é a mesma conclusão a que tinha chegado Pasternak (2001): reconhece que os resultados da Fipe e do IBGE são significativamente diferentes, entretanto indicam tendências semelhantes que é de um expressivo aumento de favelas e de população favelada em São Paulo.

Finalmente, o trabalho de Pasternak (2001) traz ainda algumas informações que merecem aqui ser destacadas e que importam para o escopo da presente tese:

• São Paulo concentra mais de ¼ das favelas brasileiras.

• A área ocupada por favelas em 1987 foi estimada pela Secretaria Municipal de Planejamento (Sempla) em 1.822 hectares (1,27% da área total do município e 2,15% da área urbanizada naquele ano estimada em 84.915 hectares).

• A densidade bruta das favelas como um todo para o ano de 1987 pode ser estimada em 446,2 habitantes por hectare.

• A taxa de crescimento anual dos domicílios favelados no Brasil cresce muito mais do que a taxa de crescimento total de domicílios no Brasil (7,65% contra 1,89%).

• Na década de 90 as favelas se espalharam no tecido urbano e se adensaram43. • As invasões coletivas de terras passam a existir em São Paulo a partir de 1982, sendo

raras atualmente.

• Em 1993, 42,51% das favelas situavam-se na Região Sul de São Paulo (represas e córregos) e 29,71% localizavam-se ao na zona norte (serra e altas declividades).

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Não é sem razão que é entre o final dos anos de 1980 e início de 1990 que se iniciam as experiências de verticalização de favelas em São Paulo.

Benzer Belgeler