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Mas para compreender o que aconteceu na Política de Educação do Estado de São Paulo, à partir de 1995, enquanto Paulo Renato e Maria Guimarães de Castro integraram o comando de F.H.C. na área da educação federal, é necessário trazer à tona um terceiro personagem deste grupo: o da professora Rose Neubauer (nome pelo qual esta secretária é mais conhecida), escolhida por Mário Covas para chefiar a Secretaria da Educação de São Paulo. Para iniciar a apresentação do que significou esta gestão para parte dos professores e integrantes da equipe técnica que estava à frente das escolas estaduais, selecionamos um trecho de relato que consta de tese de doutorado de Abigail Malavasi que atualmente é diretora de uma das escolas escolhidas para a pesquisa e que, na época já trabalhava nesta unidade:

“Era final do governo Fleury e início do governo Mário Covas. Saiu o PMDB e entrou o PSDB. Acreditávamos que, embora não tivesse sido eleito um governo de esquerda, o partido eleito faria avançar os tímidos passos que o governo anterior havia dado em direção a uma educação publica de qualidade. Ledo engano. No inicio do governo, a Secretária da Educação Rose Neubauer decretou a reestruturação da rede paulista de ensino. Em minha opinião, essa foi uma das políticas mais perversas de desmonte da escola pública paulista vivida até então”. (MALAVASI, 2006, pág. 55).

Tal opinião, que poderia decorrer de juízo emitido por aversão partidária ao grupo político mencionado, também aparece no relato feito por João Cardoso Palma Filho, no texto que trata da “Política Educacional do Estado de São Paulo” (1983-2008), ao tratar deste mesmo período:

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“A partir de 1 de Janeiro de 1995, o Estado de São Paulo passa a ser dirigido pelo PSDB ( Partido Social Democrático), que permanece governando o Estado até presente data. Em 23 de março de 1995, o Diário Oficial do Estado de São Paulo, publicou um comunicado da Secretaria de Estado da Educação com as principais diretrizes educacionais para o período de janeiro de 1995 a 31 de dezembro de 1998, que... definia como diretriz central da nova administração da educação “a revolução na produtividade dos recursos públicos”...e duas diretrizes complementares, a saber: 1) ”reforma e racionalização da estrutura administrativa”;

2) “mudanças nos padrões de gestão”. (PALMA FILHO, 2008, pág. 03).

Se estas linhas gerais perceptíveis na leitura das diretrizes demonstram sintonia com o modelo do gerencialismo, trazido do mundo empresarial, e suas fórmulas para a busca de mais “produtividade” do sistema, é na aplicação destas diretrizes que esta perfeita sintonia fica mais evidente:

“Durante o período em que o governador Mário Covas esteve na chefia do executivo estadual (1995-2002), as diretrizes foram objeto de várias ações tais como: extinção da Escola Padrão; Reorganização da Rede Física; Instituição da progressão continuada no ensino fundamental; extinção das Divisões Regionais de Ensino e criação das Diretorias Regionais de Ensino...o foco passa a ser a descentralização, com a transferência para os municípios da responsabilidade pelo funcionamento e manutenção das escolas de ensino fundamental, que ficou conhecido como municipalização do ensino fundamental. Tal transferência, em grande parte, foi impulsionada pela instituição por lei federal do chamado Fundo para o Desenvolvimento do Ensino Fundamental e Valorização do Magistério” (FUNDEF). (PALMA FILHO, 2008, págs. 3 e 4).

Mesmo com a reação que tais medidas provocariam, a série de paralisações de professores e a hostilidade mesmo dos quadros técnicos das unidades e os efeitos de tais medidas na vida das famílias, nos remanejamentos de turmas, mudanças de escolas, inseguranças entre os profissionais que tiveram que mudar seus locais de trabalho, com tudo isto, a secretária Rose Neubauer manteve sem concessões a condução do processo denominado de “Reorganização”. E não obstante, os protestos daqueles cujas vidas foram desorganizadas pela “Reorganização” o processo foi concluído. Mas não é no temperamento ou caráter da secretária ou do governador que deve ser procurada a maior causa da insistência neste modelo. Se estas medidas puderam ser implementadas, é porque, além de resistência, havia um relativo grau de aceitação em relação aos vários argumentos que tinha a sua base nestas noções de “produtividade” e “racionalização” que viria de “mudanças nos padrões de gestão”. Então, tratava-se de insistir em uma nova forma de “gerenciar” a educação.

Ao analisar as áreas em que estaria dividido o mapa da direita que atua na educação norte-americana, Michael W. Apple, em “Educando à Direita”, identifica como uma destas áreas, a do “gerencialismo”, a partir de suas principais características:

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“Uma das características-chave do discurso gerencial está no cargo que oferece aos gerentes. Eles não são elementos passivos, mas ativos – mobilizadores de mudanças , empresários dinâmicos...As instituições que habitam não são mais burocracias lentas e pesadas, submetidas ao um estatismo obsoleto. Elas e as pessoas que as administram são dinâmicas, eficientes, produtivas, enxutas e baratas”. (APPLE, 2003, pág.36)

Quais foram as conseqüências práticas dessas medidas ancoradas no discurso da racionalidade? Não houve aceitação pacífica desta mudança que foi imposta pela secretária:

“A reforma separou , no início de 1996, a escola de primeira a quarta série da escola de quinta a oitava série e Ensino Médio. Com a reforma, nossa escola, que antes trabalhava com todas as séries do ensino fundamental, passaria a comportar somente alunos da quinta série do Ensino Fundamental ao terceiro ano do Ensino Médio. Não podíamos aceitar aquele desmanche da escola em nome da melhoria da qualidade de ensino”.(MALAVASI, 2006, pág. 55).

E malgrado esta disposição para a resistência realmente existente e verificável na série de manifestações ocorridas na época (reclamações feitas não apenas pelos professores, mas também por muitos alunos e familiares, atingidos, por exemplo, com a redução de vagas causadas pelo fechamento de escolas no turno noturno) também houve a adesão à proposta, por parte do professorado e membros de comunidade escolar:

“A Secretaria da Educação distribuía farto material apontando os benefícios da reforma... Com esse material e o discurso utilizado, a reestruturação conseguiu apoio de boa parte dos professores da região. Mesmo na nossa escola, havia uma parcela de professores que viam com simpatia a idéia da separação dos alunos”. (MALAVASI, 2006, pág.56)

A adesão de parte da sociedade e mesmo do professorado ao discurso que fundamentava tais ações não caracterizava um fenômeno local, restrito ao território de São Paulo, ou mesmo, do Brasil. Como veremos, à frente, com mais detalhes, na terceira parte desta dissertação; a defesa da racionalidade, a política de contenção de custos sociais, inclusive os da educação, integravam neste período, parte do poderoso ideário neo-liberal disseminado em escala mundial.

Ao tratar deste período, início dos anos 90, Bueno (2000) ajuda a entender a origem de parte das medidas adotadas no Estado de São Paulo que, num primeiro momento, ao separar, fisicamente, as crianças do primeiro ciclo do ensino fundamental, das crianças e adolescentes do segundo ciclo do fundamental e ensino médio, permitiria uma concentração dos investimentos no Ensino Fundamental e, no caso de São Paulo, na sua etapa mais diretamente responsável pela alfabetização.

60 Para que houvesse adequado direcionamento de recursos, imprescindível seria, pelo menos inicialmente, a separação física das unidades. Uma medida seguinte seria a de incentivo a transferência da maior parte destas unidades dedicadas ao ensino dos primeiros anos, às municipalidades.

Bueno cita a defesa deste direcionamento, feito pelo Banco Mundial, através do documento “Prioridades Y Estratégias para la educación”, de 1996:

“A educação, especialmente a educação básica (primária e secundária de primeiro ciclo), contribui para reduzir a pobreza e aumentar a produtividade dos pobres...” (Banco Mundial apud BUENO, 2000, pág. 113)

Nesta mesma direção, em um documento anterior, divulgado pelo CEPAL, o “Panorama Social de América Latina – 1995” justificava a necessidade que as reformas educativas deveriam se realizar com poucos recursos e :

“Ater-se as balizas de racionalização financeira pautadas em estratégias de redirecionamento de gastos, análises de custo/benefício e taxas de rentabilidade, bem como programas de descentralização, financiamento compartilhado e privatização”. (BUENO, 2000, pág. 118)

Este receituário também é citado por João Cardoso Palma Filho no documento já citado em que trata da Política Educacional do Estado de São Paulo:

“Neste sentido, os organismos internacionais, particularmente, o BIRD (Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento) passa a priorizar para os denominados países em desenvolvimento, a reforma da educação básica com forte ênfase nos processos de descentralização”. (PALMA FILHO, 2008, pág. 2)

Como já vimos, ao seguir este receituário de descentralização e racionalização dos recursos com conseqüências que provocaram novos arranjos em toda a rede estadual de educação, a secretária Rose Neubauer, mesmo com algum apoio obtido, conforme também mencionado, sofreu um grande desgaste ao longo de todo o período que esteve à frente da secretaria, principalmente por conta dos enfrentamentos feitos aos sindicatos que representavam os trabalhadores da educação neste estado. Em um destes confrontos, por exemplo, o ocorrido no ano 2000, uma paralisação dos professores durou 43 dias.

Neste período em que a secretária Rose Neubauer enfrentava seu maior embate com os professores não apenas pelas conseqüências da reorganização e campanhas salariais, mas também em virtude das reações à implantação do sistema de progressão continuada, São Paulo ainda era governado por Mário Covas, em seu segundo mandato. Covas também

61 agüentou as conseqüências da decisão de sustentar sua secretaria em episódios de agressão registrados pela imprensa.

Com a morte de Covas em março de 2001, seu sucessor, o vice-governador Geraldo Alckmin ainda preservou a secretária Rose Neubauer por cerca de um ano, até abril de 2002, mas neste ano haveria eleição em que o substituto Alckmin seria candidato.

2.4. O Governo de Geraldo Alckmin e a Posse de Gabriel Chalita na Secretaria da

Benzer Belgeler