Pedro Cieza de León é o único autor quinhentista a narrar em detalhes a entrada de Alonso de Mercadillo, mas não faz qualquer menção a participação de Diogo Nunes em seu relato. A fonte na qual nos basearemos é, na verdade, uma carta relatoria escrita pelo indiví- duo em questão e endereçada ao rei de Portugal D. João III. Dentre todas as expedições orga- nizadas a partir das licenças concedidas por Hernando Pizarro, esse destacamento é o único que costuma aparecer na historiografia brasileira. A menção ao seu envolvimento na "Jornada dos Guancachupachos" é sempre superficial e preliminar nesses trabalhos, atendo-se basica- mente ao roteiro apresentado pelo próprio missivista.
A carta de Diogo Nunes se diferencia da narrativa de Pedro Cieza de León sobre das outras entradas de 1538 em alguns quesitos. Primeiramente, apresenta-se como um "testemu- nho direto", produzido por alguém que escreve sobre o que supostamente viu, desse modo, é bem mais rico nos detalhes acerca dos povos contatados. As descrições do cronista, por seu turno, ainda que muito detalhadas, parecem seguir uma espécie de "fórmula geral", situação que será mais bem explicada adiante. Em segundo lugar, o texto de Diogo Nunes, em função de ser uma carta relatória, dirige-se diretamente ao rei e seu círculo de confiança, trata de assuntos estratégicos, referentes às empresas de descobrimento e conquista no Novo Mundo. Finalmente, o monarca que deverá fazer a interlocução de Diogo Nunes é o lusitano, e não o espanhol, para quem o missivista procura dar conta sobre uma rica província chamada Machi- faro (Machiparo), que alega ter descoberto, quando participou da jornada liderada pelo capi- tão Mercadillo.232
O momento de sua redação é difícil precisar, visto que ela aparece assinada, mas não datada. A historiografia costuma mencionar 1553 como o provável ano de sua feitura.233 Tal estimativa baseia-se na passagem onde o autor comenta ter trazido um índio daquela expedi- ção, tendo este ficado em sua companhia por quatorze ou quinze anos.234 Embora essa seja a datação mais aceita, ela não é absolutamente confiável, pois a frase de Diogo Nunes é tive em minha companhia por quatorze ou quinze anos, o que não nos autoriza afirmar que ele teria se livrado do indivíduo no mesmo ano em que escreveu a carta. Uma vez que se dirige à D. João III de Portugal, podemos estimar sua feitura entre 1553 e 1557, ano da morte desse soberano.
232No ãno de xxxbiij foi um capitão que se diz mercadilho E saymos do Peru ha Descubrir. In: Carta de Diogo Nunes, p.375.
233 Cf. UGARTE, Sertões de Bárbaros, p.36.
234trouxe comiguo certos Imdios destas prouimçias (...) De hum destes Imdios (...) tiue Em mynha companhia
109 A descoberta de Machiparo teria se dado quando Mercadillo organizou um destaca- mento de vinte e cinco homens, do qual ele teria feito parte.235 É possível que isso tenha ocor- rido enquanto o real esteve acampado na Província dos Mainas, onde permaneceu por cerca de um mês e meio. Cieza de León afirma que acordaron que seria cosa acertada enviar á descubrir el camino con guías naturales de aquella población: é luego salieron en cuadrillas españoles á buscarlo, é por el mejor que vieron que podían llevar los caballos camina- ron.236Se Diogo Nunes participou desse destacamento, como acredita Antônio Porro, ao cabo de vinte e cinco dias estes homens teriam encontrado Machiparo, tendo para isso adentrado o rio Marañon.237 Na carta, ele relata ter regressado ao encontro de Mercadillo, embora não o tenha mais encontrado, uma vez que a rebelião de seus homens já tinha ocorrido.238
A prisão de Alonso de Mercadillo (e a provável ignorância sobre a província) é o ar- gumento usado por Diogo Nunes para justificar o fato de os castelhanos ainda não terem to- mado posse daquela terra. No entanto, tendo em vista que a carta foi redigida nos anos 1550, é muito provável que a Coroa espanhola já soubesse de Machiparo. Os homens de Francisco de Orellana estiveram na mesma região no início da década anterior, havendo referências a seu respeito na relación de Gaspar de Carvajal. A expedição de Orellana já era conhecida naquele tempo, pois no próprio relato de Diogo Nunes, há referência ao “rio das Amazonas”, uma clara interpolação, já que esse nome só se difunde após essa outra expedição.239
A inclusão da carta de Diogo Nunes, com toda a sua descrição a respeito de Machipa- ro, contribui para essa pesquisa de diferentes modos. Aceitando ter esse indivíduo efetivamen- te participado da "Jornada dos Guancachupachos" constitui o único "testemunho direto" co- nhecido para as entradas de 1538. Sua condição de português, ou mestiço, bem como seu contato com a corte lusitana, colaboram para a difusão dessas imagens fora dos domínios de Castela, ajudando a entender como as primeiras descrições sobre a região foram divulgadas em outras partes da Cristandade. Finalmente, tendo em vista que a Província de Machiparo foi visitada por outras incursões, isso cria a possibilidade de uma comparação direta entre os rela-
235 Emtonce mandou vimta cinquo homês de caualo nos ques fuy Eu pôr mandado do dito capitão E cheguamos
a hua prouimsia a cabo de vimta cimquo Dias hachamos boa trã E bem pouada de Imdios E Riqua de ouro (...) Esta prouimcia aonde Eu cheguey se chama machifaro. Idem. p.375.
236 Cieza de León, Guerra de las Salinas, p.390. 237 Cf. PORRO, As Crônicas do Rio Amazonas, p.31.
238 Vista a trª ser tamboa nos viemos adar conta a nosso capitão aonde o tínhamos Deyxado E não no achamos
por q’ os seus o avião preso sobre certa deferença que entre Ele E os seus avião tido E o levarão ao peru preso E a esta causa não se pouoou esta prouymcia E por q’ todos nos tornamos ao peru. Carta de Diogo Nunes,
p.376.
239 Esta trª Esta emtre ho Ryo da prata eo brazil pela tra ademtro por esta tra vem o Ryo grande das amazonas. Carta de Diogo Nunes, p.376.
110 tos, verificando as semelhanças e diferenças de acordo com a escrita de cada narrador e, tam- bém, segundo a passagem do tempo.