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3. BİREYLER VE YÖNTEM

4.1. Bireyler ve Değerlendirme Sonuçları

Solicitou-se a José que fizesse a leitura do poema “O Bicho”, de Manuel Bandeira. Buscou-se diferenciá-lo de outros gêneros textuais até então utilizados, pois, segundo Emediato, é “pela função poética da linguagem que o sujeito que comunica constrói formas de expressão marcadas pelo desejo estético e pela intenção de tornar a significação algo instável, plural e polissêmico” (EMEDIATO, 2010, p. 23). Assim, considerou-se a necessidade de conhecer como José produz significados e interpreta as metáforas poéticas.

A seguir, a pesquisadora fez a leitura do poema para José e pediu-lhe que o comentasse.

O Bicho

Manuel Bandeira

“Vi ontem um bicho Na imundície do pátio Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa, Não examinava nem cheirava:

Engolia com voracidade. O bicho não era um cão,

Não era um gato, Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem”.

Figura 10 - O Bicho

Fonte: BANDEIRA, Manuel. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1985, p. 283-4.

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José: Gostei. Pode ler alto? Pesquisadora: Pode.

José leu a poesia em voz alta.

Pesquisadora: O que o senhor entendeu? José: Isso é uma história, né?

Pesquisadora: Sobre o que essa história fala?

José: Essa história é coisa muito certa, uai. Os bicho vai no mato caçar comida. Se a galinha então tá cheirando, o cheiro da galinha dá pra convidar qualquer vivente... O humano vê o cheiro da galinha; os bicho, a mesma coisa. Então, os bicho vê o cheiro da carne da galinha, a mesma coisa. A comida dele é a galinha. Pesquisadora: Mas aí tá falando de galinha?

José: Tá... Ah, péra. Ah, eu entendi errado (José olha para o texto). Não é galinha, é engolia.

Pesquisadora: O que é engolia?

José: Engolir é a pessoa come e engole. Pesquisadora: E o que é voracidade? José: Peraí. Vou achar e te falo.

Pesquisadora: Ao lado da palavra engolir. José: Já achei. Voracidade é o pensamento, né?

Pesquisadora: Não, engolir com voracidade é que ele tava com tanta fome que engoliu rápido, com muita vontade.

José: Ah, então tá certo. Eu li rápido (terminou a leitura). Pesquisadora: O que o senhor acha?

José: Acho que o bicho era o homem. O homem pensa tudo que é certo no mundo. Muita coisa ele pensa certo. Só se a pessoa não tiver com a ideia certa mesmo, tiver com a ideia variada. Tem muita pessoa doida, tem muita pessoa que tem ideia boa, tem muita pessoa que não guarda tudo na cabeça. Tem tudo isso. Pode sê o homem e pode sê mulhé, a mesma coisa. Tem mulhé que pensa uma coisa certa, tem outras que já num pensa. Quando assustô, já fez, e fez coisa errada, mas pra elas é certo. Pode tá certo que a cabeça delas num tá funcionando legal. Ce vê que tem muita gente orgulhoso, meio doido, é assim as pessoa.

Pesquisadora: Ah, tá. Eu vou ler um pedaço e o senhor me fala o que entendeu (a pesquisadora leu o primeiro verso do poema).

José: Catando comida no detrito?

Pesquisadora: Catando comida entre os detritos. O que ele tá dizendo que viu? José: O que ele tá falando que ele viu? Ah, porque ele tava passando e deve ter vêdo um bicho lá que era pra comê, foi lá e matou pra comê. Tem muito homem que gosta de comer carne de bicho do mato. Tem muita carne de bicho do mato que é gostoso. Tatu é gostoso, saracura... carne de saracura é ótimo. Já comeu carne de saracura?

Pesquisadora: Não.

José: É ótimo. Carne de rã é do mesmo jeito que carne de galinha. Carne de juriti é gostosa.

Pesquisadora: É um animal?

José: Num é um animal, não; é um passarinho. Tem um tamém... rolinha também. A carne dela é gostosa. Eu já comi muito quando eu tava na roça. Tem mais o que que eu já comi de bicho do mato? Jacu. Carne de jacu é gostoso. Hoje não pode comer mais, né. Se matar essas ave, dão cadeia, mas quando tava na roça, nessas época nossa, podia comer tudo. Carne de tatu é bom. É remoso52

Pesquisadora: O que é remoso?

, mas é gostoso.

José: Remoso é com sangue. O sangue costuma ferir a pele. Se você tá com um machucadinho e come carne de tatu, é ruim demais, entendeu, piora, então é remoso.

Pesquisadora: Ah, entendi. (a pesquisadora leu os dois primeiros versos do poema). O que tá falando neste trecho?

José: Engolia com voracidade? Porque ele tava com fome demais. Aí, na vontade que tava, quando achava, comia rapidinho.

Pesquisadora: “Mas o bicho não era um cão, não era um gato, não era um rato...”

José: Mas era o homem.

Pesquisadora: Era o homem. O que o senhor entendeu?

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Segundo o dicionário Michaelis, reimoso adj (reima+oso) 1 Que tem reima ou reuma; cheio de humores glutinosos. 2 Que faz mal ao sangue. 3 Que produz coceiras. 4 De mau gênio; genioso, brigão. Disponível em: <http://michaelis.uol.com.br/moderno/portugues/index.php?lingua=portugues- portugues&palavra=reimoso>. Acesso em 10 maio 2013.

Na sabedoria popular, remoso é um termo usado em relação a alguns alimentos gordurosos que podem provocar problemas intestinais ou alergia e, assim, provocar ou piorar as infecções.

José: Que o homem que batia no mato que achava antigamente matava e comia, despenava rapidinho, fritava e mandava pra dentro. Assava, comia assado também. Era o homem, o bicho homem.

Pesquisadora: Entendi.

Após a pesquisadora realizar a leitura do poema, José expressou: “É uma história!” É possível afirmar que ele percebeu a diferença entre gênero informativo e gênero literário.

José leu o poema no sentido referencial e o transportou para sua vivência no campo, seu lugar de origem. Num primeiro momento, pareceu que José confundiu as palavras engolia e galinha e interpretou o poema a partir do equívoco feito, como se pode perceber:

José: Essa história é coisa muito certa, uai. Os bicho vai no mato caçar comida. Se a galinha então tá cheirando, o cheiro da galinha dá pra convidar qualquer vivente... O humano vê o cheiro da galinha; os bicho, a mesma coisa. Então, os bicho vê o cheiro da carne da galinha, a mesma coisa. A comida dele é a galinha. Pesquisadora: Mas aí tá falando de galinha?

José: Tá... Ah, péra. Ah, eu entendi errado (José olha para o texto). Não é galinha, é engolia.

É possível que estivesse falando do ciclo da vida de um animal ao se alimentar de outro. No decorrer de sua explicação, isso demonstrou ficar mais claro. Parecia estabelecer relações de lógica de causa e efeito.

A pesquisadora esclareceu, ainda, o conceito de voracidade, para o entendimento do aluno em relação ao poema.

José estabeleceu a relação que o bicho era o homem. Logo a seguir, descreveu algumas características do ser humano, sem fazer a correlação com foco no poema:

José: Acho que o bicho era o homem. O homem pensa tudo que é certo no mundo. Muita coisa ele pensa certo. Só se a pessoa não tiver com a ideia certa mesmo, tiver com a ideia variada. Tem muita pessoa doida, tem muita pessoa que tem ideia boa, tem muita pessoa que não guarda tudo na cabeça. Tem tudo isso. Pode sê o homem e pode sê mulhé, a mesma coisa. Tem mulhé que pensa

uma coisa certa, tem outras que já num pensa. Quando assustô, já fez, e fez coisa errada, mas pra elas é certo. Pode tá certo que a cabeça delas num tá funcionando legal. Ce vê que tem muita gente orgulhoso, meio doido, é assim as pessoa.

José construiu seu posicionamento sem inferir que o homem estava agindo como bicho, pelas condições de vida, e não o homem alimentando-se de bicho. No decorrer da análise, voltou a trazer informações sobre seu universo cultural, dizendo quais os animais podem ser ingeridos e, de certa forma, demonstrando um saber diferente do da pesquisadora: “Tem muita carne de bicho do mato que é gostoso. Tatu é gostoso, saracura... carne de saracura é ótimo. Já comeu carne de saracura?”.

Ao explicitar seu pensamento, José referiu-se aos conceitos de “cotidianos”, ou “espontâneos”, construídos a partir da observação e da vivência direta, gerados em situações concretas, como “O que é bom pra circulá o sangue é o limão” e “Os mais velhos têm que bebê tudo”. O processo de formação de conceitos, para Vigotski, é fundamental, como afirma Rego (2011):

O processo de formação de conceitos, fundamental no desenvolvimento dos processos psicológicos superiores, é longo e complexo, pois envolve operações intelectuais dirigidas pelo uso das palavras (tais como: atenção deliberada, memória lógica, abstração, capacidade para comparar e diferenciar). Para aprender um conceito, é necessária, além das informações recebidas do exterior, uma intensa atividade mental por parte da criança (REGO, 2011, p.78).

Vigotski (2001) distingue os conceitos “cotidianos”, ou “espontâneos”, dos conceitos “científicos”, que são aqueles adquiridos nas interações escolarizadas, transmitidos em situações formais de aprendizagem. Assim, observou-se que o uso recorrente de conceitos “cotidianos”, ou “espontâneos”, indica o modo de articulação do pensamento que não dispõe dos conhecimentos científicos no processamento e produção do conhecimento.

É importante ressaltar ainda que José explicitou sua concepção sobre o comportamento dos seres humanos, suas contradições, suas formas de pensar e agir. Segundo ele, “o homem pensa tudo que é certo no mundo. Muita coisa ele pensa certo. Tem muita pessoa doida, tem muita pessoa que tem ideia boa, tem muita pessoa que não guarda tudo na cabeça. Tem tudo isso. Pode sê o homem e pode sê mulhé, a mesma coisa [...]”. José coloca o pensar como escolha das pessoas, podendo ser certo ou errado e cada um se

responsabilizando por suas atitudes. Com esse exemplo, José demonstrou a importância da autoria de pensamento definida por Fernandéz (2001, p. 90) como “processo e ato de produção de sentidos e de reconhecimento de si mesmo como protagonista ou participante de tal produção”. Assim, José, ao construir seus argumentos, expressou a importância que atribui ao sujeito que pensa, que faz escolhas e, a partir delas, tem atitudes.

Um mês após a realização desta atividade, a pesquisadora apresentou novamente o poema53

Segue o diálogo entre a pesquisadora e José:

, com o objetivo, agora, de esclarecer algumas palavras do vocabulário que talvez tivessem dificultado a compreensão, como: imundície, detritos, engolia e voracidade. Utilizou os mesmos procedimentos do texto “Campanha Maléfica”.

Pesquisadora: “O Bicho – Manuel Bandeira”. O nome da poesia é “O Bicho”. Quem escreveu foi uma pessoa chamada Manuel Bandeira.

A pesquisadora leu a poesia. José: Essa eu lembro.

Pesquisadora: Então, quando fala “Ontem eu vi um bicho...” José: É um homem. O bicho é um homem.

Pesquisadora: Muito bem. “Na imundície do pátio” é o quê? Um lugar imundo... José: É sujeira, só sujeira.

Pesquisadora: Isso. E ele tava catando comida entre os detritos, quer dizer, entre os restos, objetos, entre aquilo que estava ali naquela imundície, como se fosse um lixão.

José: Você lembra como que eu te falei da outra vez?

Pesquisadora: Lembro. Mas o que o senhor entendeu agora?

José: Igual eu tô falando com cê. É isso mesmo que eu falei da outra vez. Às vezes, a pessoa passa muito tempo sem comer, dá aquela fome, ele não alembra de nada, só quer comer pra rapidinho satisfazê ele. Mas é uma coisa que tamém vai fazer mal pra ele tamém. Ele tá comendo aquilo porque a fome tá tanta que tá passando do limite.

Pesquisadora: O que ele faz na imundície do pátio? Cata o quê?

José: Pra alimentá. Nós, humanos, lixo humano. É da criação mesmo. A natureza humana vai da criação mesmo. O problema da criação eles não fala,

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mas se você solta um gato pra comê e bebê da água suja, tudo sujeira, ele tá tomado. Igual antigamente meu patrão falava: ‘Não tem nada pra comê, a gente bebe até água suja’. E é mesmo. Se num tem nada pra comê, ninguém ajuda aquela pessoa. Se cismá com aquela pessoa, ela bebe até água suja. É uma coisa muito certa mesmo.

Pesquisadora: Então, quando fala “beber até água suja” quer dizer que ele bebe qualquer coisa?

José: É porque não tem água. Ele não tem costume. Tudo é costume. Eu já passei nessa vida, né. Já trabaiei sem comê, já fiquei sem comê o dia inteiro. Você chega em casa e num tem nada pra comer. Já passei por isso.

Na análise desses dados, consatou-se que José ampliou seu entendimento, tendo relacionado homem-bicho:

José: É um homem. O bicho é um homem.

José: Às vezes, a pessoa passa muito tempo sem comer, dá aquela fome, ele não alembra de nada, só quer comer pra rapidinho satisfazê ele. Mas é uma coisa que tamém vai fazer mal pra ele tamém. Ele tá comendo aquilo porque a fome tá tanta que tá passando do limite.

A partir da mediação da pesquisadora, foi possível a José ampliar a capacidade de compreender e de refletir.

Pesquisadora: O que ele faz na imundície do pátio? Cata o quê? José: Pra alimentá. Nós, humanos, lixo humano.

No entanto, a surpresa que o poeta prepara para o leitor quando anuncia que, na realidade, o bicho era um homem não causou perplexidade em José. Parece que ele compreendeu o poema no sentido referencial, fazendo analogias com a sua vivência. Assim, não conseguiu perceber a denúncia das condições degradantes da vida presentes no poema. Ele analisou a condição humana e a comparou, ainda, com a fome, porque já experimentou, associando ao pensamento de seu patrão: “Não tem nada pra comê, a gente bebe até água suja”. Entretanto, pode-se pensar que a proximidade do conteúdo do

texto com a sua vivência e com as condições desumanas pelas quais já passou tenha levado José a não descolar a sua compreensão sobre ele de suas vivências cotidianas.

Benzer Belgeler