• Sonuç bulunamadı

A conclusão, preliminar, cautelosa e, no fim de contas, modesta é portanto, a de que é possível estabelecer comparações entre a forma de um filme e a forma de um romance, pelo menos no plano da estruturação da acção; a partir daí, fica livre o caminho a quem queira investigar melhor o modo como num certo clima cultural são postos, por diferentes artes, problemas do mesmo género com soluções estruturalmente semelhantes.

149

Tomamos aqui, para finalizar a presente dissertação, as palavras de Umberto Eco por nos parecerem por demais consentâneas com aquela que é, a nosso ver, a fundamentação das relações que se estabelecem entre a narrativa delfiniana e a narrativa cinematográfica. Com efeito, pudemos verificar ao longo do nosso estudo que tanto a relação de convergência como a relação de intertextualidade que aproxima as duas narrativas vem confirmar essa procura, por dois meios expressivos diferentes, de um processo análogo na representação de uma mesma realidade. Assim, se por um lado as duas narrativas se esforçam nessa tentativa de reproduzir de modo mais fiel as modificações perceptivas que nos chegaram com o último século, modificações essas que introduziram, por meio da expressão da temporalidade intrínseca do indivíduo, a incerteza sobre a própria noção de realidade,105 por outro, servem-se de uma semelhante desarticulação no modo de narrar.

Esta desarticulação, que vimos concretizar-se na narrativa delfiniana por meio de um conjunto de procedimentos que instituem uma permanente insegurança e confusão quanto aos diferentes níveis de tempo, espaço, realidade e consciência, obtém-se, em grande parte, porque se adopta o código cinematográfico como referencial expressivo e como método privilegiado na construção do romance. A O Delfim interessa a estrutura do discurso cinematográfico, na sua simultaneidade muitas vezes ilógica, na sua plasticidade e na sua forma peculiar de apreender o tempo e o espaço. Só a fluidez particular da sétima arte lhe permite escapar às limitações da horizontalidade e sequencialidade do seu medium expressivo, auxiliando-a na representação da descontinuidade inerente ao acto perceptivo e à própria memória, princípio constitutivo da obra, bem como na tradução dessa sensação de simultaneidade e ubiquidade temporal e espacial tão particular ao sujeito moderno.

105 É a essa mesma incerteza que se deve, no dizer de Carlos Reis, a configuração de O

Delfim como «uma espécie de nova ética de representação literária», à luz da qual, «a certeza

e a intensidade das convicções ideológicas inabaláveis cedem lugar à instabilidade e à relatividade de pontos de vista que, se não se anulam, pelo menos entram em contradição, como se o mundo, de repente, se nos revelasse menos harmonioso e coerente do que o supunha uma concepção da ficção literária teleológica e moralista» (Carlos Reis, ap. Luís Cardoso, op.cit.).

150

Deste modo, ao facilitar o caminho na expressão de uma temporalidade diversa e inovadora mais conforme à organização do pensamento e da subjectividade, o código cinematográfico, em vez de ocupar uma posição de supremacia em relação ao texto literário em análise, surge como uma fonte de renovação, pois que lhe permite alargar o seu meio expressivo.

Ao analisar os mecanismos através dos quais se opera esta transposição da técnica e da linguagem cinematográfica para o romance delfiniano, tentámos evitar uma abordagem superficial da temática, focando essencialmente aqueles aspectos que, nessa interacção entre as duas artes, constituíram elementos de produção de sentidos novos na obra e no autor em estudo. Encontrámos, pois, nesta obra de Cardoso Pires uma forma inovadora de percepção, forma essa onde o narrar é compreendido como um modo subjectivo de ver a realidade e não apenas como uma mera reprodução da mesma. Assim concebida, e por via desse contacto com o cinematográfico, a narrativa delfiniana adquire a sua poeticidade no modo de contar, na sua construção significante, porquanto o que se torna tema de reflexão (consciente ou inconscientemente) é o problema da estrutura temporal da narrativa e com ele a postulação de uma nova concepção das relações entre a própria arte, a realidade e o imaginário:

En transformant la nature et la fonction du visuel dans notre société et notre culture, les techniques de l’image n’ont-elles pas profondément retenti sur la façon qu’a l’homme de se situer par rapport au monde et de dire ses relations avec le réel, c’est –à-dire, du même coup, avec l’imaginaire? (Jeanne-Marie Clerc, 1993, 4).

Em função dos objectivos enunciados na nossa Introdução, e com base na análise d’ O Delfim, de José Cardoso Pires, podemos finalmente concluir dessa presença do cinematográfico nesta obra do autor, a partir da qual julgamos ter contribuído de alguma forma para o aprofundamento do estudo das relações entre as duas artes.

151

152 APÊNDICE 1 Prólogo Cap. I Cap. II Cap. III

Fig. 1: Confronto da ordem temporal dos eventos (prólogo e primeiros três capítulos). Legenda

PRESENTE ANALEPSE IMAGINATIVA ANALEPSE INTERNA

PROLEPSE “DENTRO” DA ANALEPSE ANALEPSE DE ORIGEM NÃO

ESPECIFICADA

153 APÊNDICE 2 Primeira visita à Gafeira (Analepse Externa: 1966)

 Primeira vez em que viu o Engenheiro Palma Bravo

(retomada três vezes): Prólogo (p.23) Cap. I (pp.25; 27-29) Cap. II (pp.31; 35; 35-36)

 Convívios, na Casa da Lagoa, com o Engenheiro

Exclusividade da Lagoa (duas vezes):

Cap. III (p.38) Cap. V (p.54)

Diálogo com o Engenheiro (duas vezes): Cap. V (p.49) Cap. XIII (pp.88-89) Domingos e o Jaguar (duas vezes): Cap. VII (p.62) Cap. XXIV (pp.145-147) Fotografias de M.M. (três vezes): Cap. XII (p.83) Cap. XVI (p.97) Cap. XIX (p.117)

História policial (quatro vezes): Cap. XIII (p.89)

Cap. XXI (pp. 130 – 131) Cap. XXII (pp.134-137) Cap. XXVI b) (pp. 166-168)

Passeio de barco pela lagoa (duas vezes):

Cap. XXVI – a (pp.157-163) Cap. XXVI – b (pp. 165-171)

 “noite das apresentações” (retomada três vezes):

Cap. II (p.31) Cap. V (todo) Cap. XI (p.80)

 “noite de mau vinho” (retomada quatro vezes):

Cap. II (p.35) Cap. VII (p.61) Cap. VIII (p.63-70) Cap. IX (pp. 71-74)  Eventos de localização não especificada

154

 Diálogo com o Velho Cauteleiro e entre este e outros habitantes Cap. II (pp.31-34) Cap. VII (p.60) Cap. XI (p.80) Cap. XVII (pp.106-107) Cap. XXVIII (p.178) APÊNDICE 3 Segunda visita à Gafeira (Analepse Interna: 1967)

 Diálogo com a Dona da Pensão, à chegada ao quarto Cap. II (pp.35)

Cap. III (p.41)

Cap. IV (pp. 43-44; pp. 46-47) Cap. VI (p.60)

Cap. XXVIII (pp.177-178)

 Diálogo com o Regedor, no pedido da licença para a caça Cap. III (p.38)

Cap. VI (pp.57-58) Cap. XVIII (pp. 109-111)

Fig. 3: Diálogo mantido com os habitantes, na segunda visita à Gafeira, narrado de modo intercalado.

(retomado cinco vezes): (retomado cinco vezes): (retomado três vezes):

155