I.III. Halit Ziya Uşaklıgil’in Romanlarında Modern Özellikler
1.5. Bir Dönemin Ortak Psikolojisi: Mai ve Siyah
Dar é grandeza, pedir é sujeição; dar é desprezar; dar é abrir as mãos próprias; pedir é beijar as alheias.
Pedir é vender-se, porque quem pede cativa-se.
Dar, finalmente, é ação de quem tem; pedir é ação de quem não tem. 1
I nicio a reflexão sobre a dádiva com a epígrafe deste capítulo. Trata-se de trecho de um texto do Padre Antônio Vieira, cuja publicação original é do século XVI I , mas, neste caso, a publicação é do Almanak Litterário e Estatístico do Rio Grande do Sul para o ano de 1910. A oposição é explícita: aquele que dá é sujeito, aquele que pede é objeto. Neste capítulo, procuro descrever as doações feitas para a Santa Casa por particulares e pelo Estado, o que poderia ser denominado respectivamente, a “caridade privada” (por vezes denominada de “caridade pública”) e a “caridade oficial”, e analisar as motivações de algumas pessoas e do Estado no financiamento da irmandade. A assistência dada aos pobres, fosse na doença, na velhice ou na falta meios básicos para subsistência, foi considerada como “caridade pública”. Tanto indivíduos quanto Estado justificaram suas doações como dádivas.
A irmandades da Santa Casa, como já sabemos, abarcavam uma série de atividades assistenciais. Para o exercício destas atividades, era necessária uma boa soma de dinheiro. As principais fontes de receita da Santa Casa de Pelotas não
1 O pedir. Padre Antônio Vieira. Citado em RODRI GUES, Alfredo Ferreira (org) Almanak Litterário e estatístico do Rio Grande do Sul para 1910. Ano 22. Pelotas; Rio Grande; Porto Alegre: Editores – PI NTOS & C. BCPUCRS. Na publicação original o texto é diferente, deve se substituir o “dar” por “deixar” já que Vieira está falando dos bens materiais e espirituais deixados pelos apóstolos para seguir Cristo. Veja-se: VI EI RA, Antônio. Sermão de São Pedro Nolasco. Pregado no dia do mesmo santo no qual se dedicou à I greja de Nossa Senhora das Mercês na cidade de São Luis do Maranhão. I n: Sermões. Disponível na Internet em: http:/ / www.klickeducacao.com.br/ Klick_Portal/ obras_ Literarias/ obras/ 228/ Padre_Antonio_Vieira_sermoes_ii.pdf. Consulta em: fevereiro de 2007.
tiveram muita variação ao longo do tempo estudado (ainda que as estratégias de sua obtenção tenham mudado). Dentre elas, estavam as doações e legados testamentários recebidos (além das doações em dinheiro, bens imóveis que eram alugados e apólices da dívida pública que eram aplicadas a juros), subvenção do Estado e a renda do cemitério e da cocheira fúnebre. Havia também outros rendimentos menores, como as jóias pagas por irmãos novos, uns poucos rendimentos da capela na década de 1890, e das diárias pagas por tratamento no hospital. De qualquer forma, se tomarmos o tempo compreendido entre 1850 e 1920, a receita proveniente de dádivas, seja de particulares (somada à renda gerada pelo aluguel dos prédios doados), seja do Estado, na maioria das vezes ultrapassa os 50% .
GRÁFI CO 3 – Proveniência da Receita da Santa Casa ( 1850-1920) 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 90% 100% 1850-1851 1852-1853 1854-1855 1856-1857 1858-1859 1860-1861 1862-1863 1864-1865 1867-1868 1875-1876 1877-1878 1879-1880 1881-1882 1884-1885 1886-1887 1888-1889 1893 1895 1897 1899 1901 1903 1905 1907 1909 1911 1913 1915 1917 1919
Estado Doações Renda Cemitério Hospital Jóias Terrenos e empréstimos Diversos Empréstimos recebidos
Fonte: elaboração a partir de dados constantes nos Relatórios anuais e bienais da Provedoria.
O gráfico acima, não apresenta valores reais. É claro que a receita real da Santa Casa cresceu durante os anos aqui apresentados. Este gráfico toma os valores
dos fundos de receita em relação à receita total, o objetivo é ver como cada uma das proveniências comporta-se ao longo do tempo em relação ao valor total.
Como é possível observar no gráfico 3, quase sempre a receita proveniente das subvenções do Estado, das doações e legados, e da renda de aluguéis de prédios urbanos ou apólices da dívida pública ultrapassa os demais ganhos da irmandade. Alguns anos em que este tipo de renda não ultrapassa os 50% podem ser justificados, por exemplo: em 1874/ 75 há um empréstimo feito para terminação das obras do hospital (v. capítulo 2); 1886/ 87 diminui muito a subvenção do Estado o que será tratado ainda neste capítulo. De 1901 até 1904 há novos empréstimos para reforma do hospital. Em alguns anos como 1911 e 1899 diminui o valor das doações.
Outro ganho importante é a receita proporcionada pelo cemitério e internações no hospital. Há também o pagamento de jóias, a venda de terrenos em caso de necessidade financeira. No começo ainda, há os empréstimos saldados, vemos que a prática de emprestar dinheiro a juros (como era comum nas misericórdias do século XVI I I ), chegou a ser praticada, porém apenas nos primeiros anos. De qualquer forma, a receita proveniente do hospital e do cemitério, decorria de um valor que era explícito, pago por um serviço. No entanto, no caso das doações, não havia uma obrigação ou um valor fixo a ser dado, nem mesmo no caso do Estado, porque as subvenções eram votadas anualmente em assembléia. Ainda assim, elas nunca deixaram de figurar como as principais receitas da Misericórdia.
Marcel Mauss, em seu “Ensaio sobre a dádiva”, afirma o seguinte sobre esse fenômeno:
os termos que empregamos: presente, prenda, dádiva, não são já de si, inteiramente exatos (...) é ainda uma noção complexa a que inspira todos os atos econômicos que descrevemos, e esta noção não é nem a da prestação puramente livre e gratuita, nem a da produção e da troca puramente interessadas. É uma espécie de hibrido que floreia ali.2
Neste trecho, Mauss procura compreender as motivações para a dádiva, esta que, segundo o mesmo autor sempre espera retribuição. Se não há uma prestação livre, nem um interesse claro, o que há então? Bem, esta é uma questão complexa e
não será respondida aqui. Os meus limites são muitos, e espero responder a algumas questões pontuais sobre as doações para a Santa Casa. O objetivo deste capítulo é descrever as práticas de dar e pedir entre os irmãos da Santa Casa, os benfeitores e o Estado; e pensar nas possíveis trocas existentes entre os grandes doadores e o governo de um lado, e a irmandade da Misericórdia de outro. Voltando à citação de Vieira, pretendo mostrar no primeiro sub-capítulo como dar e pedir são coisas muito comuns no século XI X, e não tão comuns nos últimos anos deste século. No segundo, discuto os possíveis interesses dos doadores individuais, mais especificamente dos grandes benfeitores da Misericórdia que obtinham prestígio e reconhecimento por parte da comunidade local, ou pelo menos daqueles que freqüentavam os eventos organizados pela Santa Casa (nos quais incluo as colocações de pedras fundamentais, inauguração de prédios, festas, e também as missas e festas religiosas). No terceiro, estudo a relação da Santa Casa com o Estado, onde não existe um contrato formal, ainda assim, a troca de subvenções por serviços é mais explícita. Ainda que tenha ocorrido uma regularidade nas subvenções provinciais, estaduais, municipais e federais e, mesmo que a irmandade estivesse “obrigada” a certas atividades assistenciais, é clara a postura de ambas as instituições: o dinheiro era dado, e os serviços assistenciais eram realizados como uma ajuda à Nação. Ainda que as subvenções fossem trocadas por serviços, não havia valores estabelecidos, mas uma reciprocidade de pedidos e doações por parte do Estado e da Santa Casa.