A. ZİHNÎ İMKÂN AÇISINDAN
1. Bir şeyi Yoktan Var Edebilenin Onu İkinci Defa Var Etmesinin Daha Kolay Olması
Husserl identifica em sua época três grandes direções traçadas pelas investigações lógicas: a psicológica, a formal e a metafísica (die psychologische, die formale und die metaphysische)40. Conquanto nos Prolegômenos Husserl não se demore na caracterização do que ele nomeia lógica metafísica – cujo título, de resto, pode-se crer, faz menção à ontologia hegeliana41 –, as outras duas direções são, pelo contrário, amplamente discutidas.
Com efeito, essa atenção dirigida a apenas duas das direções identificadas na lógica pode ser justificada em alguma medida. Isso se dá, por um lado, ao se ter em mente que Husserl toma partido pela direção de investigação da lógica formal para desenvolver algumas das suas principais idéias nos Prolegômenos, e que, portanto, deve se deter nela. Mas também, por outro lado, aquela atenção privilegiada se justifica na medida em que Husserl apresenta o combate exaustivo aos pressupostos, aos argumentos e às conseqüências da lógica psicológica ou psicologista como um preâmbulo necessário para a demonstração da necessidade de uma doutrina da ciência.
Aqui, atesta-se, como já foi dito, que a refutação é um alicerce essencial, posto que a redução ao absurdo e a indicação das contradições das teses que negam a legitimidade de uma lógica pura em sua radical idealidade funcionam como os pilares mestres da fundamentação da validade e da objetividade do conhecimento tal como expostas nas Investigações Lógicas. De fato, uma parte considerável das Investigações Lógicas é
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Prolegômenos, §1, orig. p.3, tr. esp. p.35.
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Nos Prolegômenos, Husserl, ao que parece, faz um pequeno comentário acerca de sua interpretação da filosofia hegeliana: “Em Bolzano, contemporâneo de Hegel, não encontramos marca das profundas ambigüidades da filosofia, naqueles sistemas que mais pretendiam ser genial intuição filosófica do universo do que saber teórico-analítico, e que, numa infeliz confusão destas intenções radicalmente distintas, tanto dificultaram o progresso da filosofia científica.” (loc. cit., apêndice ao §61, orig. p.226, tr. esp. p.189)
constituída por discussões negativas, isto é, discussões dedicadas diretamente à refutação de teorias e posições doutrinais de outros autores.
Ao discutir aqui esses tópicos e as concepções com as quais Husserl lhes faz frente, assumir-se-á a tarefa de apresentar o psicologismo de uma forma bem geral, não entrando nos detalhes das posições teóricas defendidas por cada um dos autores abordados no texto das Investigações. De fato, há toda uma gama de diferenças teóricas entre as concepções dos autores tachados de psicologistas, diferenças consideráveis que deveriam ser levadas em conta para uma nítida e justa apreciação das idéias e das reais posições filosóficas combatidas por Husserl. As seguintes indicações gerais sobre o psicologismo, portanto, apenas servirão para efeito de contraste e delineamento dos temas que propriamente interessam ao presente trabalho.
Com efeito, nas Investigações Lógicas, a abordagem da posição psicologista na sua caracterização em diversos autores, no levantamento dos seus pressupostos e conseqüências, e na sua conseqüente refutação é feita de modo extenso e enfático, sobretudo, nos Prolegômenos à lógica pura, em seus capítulos 3 a 9, parágrafos 17 a 56. Pode-se esboçar a problemática fundamental que motiva a apresentação e a discussão do psicologismo nos Prolegômenos através da seguinte questão, cujas partes resumem alguns dos principais tópicos constituintes dos conceitos husserlianos de “teoria” e de “ciência”: posto que a lógica possui um caráter notoriamente normativo na construção e avaliação de juízos, argumentos e teorias42, e dado que toda ciência normativa se funda em uma ou várias ciências teóricas43, em qual ciência ou em quais ciências teóricas se funda a lógica normativa? Isto é, quais são os conhecimentos puramente teóricos que servem de base à normatização própria da lógica, e a que ciência eles pertencem?
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Cf. Prolegômenos, §11.
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O psicologismo – de um modo geral e em traços caricaturais – defende a tese de que é possível identificar as bases teóricas da lógica numa ciência empírica, mais precisamente, nos conhecimentos próprios à psicologia tal como praticada nos fins do século XIX44. Os objetos próprios do domínio lógico, enquanto isentos de caráter normativo, seriam, portanto, conhecidos a posteriori por meio da observação das características e mecanismos psíquicos envolvidos nas atividades cognitivas humanas. A lógica estaria, dessa forma, dependente da psicologia empírica e dos seus resultados observacionais. Ela seria, em linhas gerais, uma ciência cujo desenvolvimento estaria completamente apoiado sobre o conteúdo teórico dos conhecimentos experimentais acerca das peculiaridades psíquicas da espécie humana.
Vale mencionar que entre os pensadores mais citados por Husserl, em cujas obras se pode identificar traços da tendência psicologista, estão os clássicos empiristas de língua inglesa – Locke, Hume, Berkeley, Stuart Mill – e alguns psicólogos e teóricos do conhecimento do século XIX – tais como Lipps, Wundt, Sigwart, Erdmanns, Brentano, Stumpf, entre outros.
Porém, Husserl identifica outra forma de fundamentação empirista da lógica, presente em sua época, o biologismo. Esta tendência consiste em conceber as relações lógicas como leis de adaptação biológica da espécie humana, num modelo darwinista45. As teorias que caem sob a definição em questão são aquelas acerca da economia do pensamento ou do princípio de menor esforço, tais como defendidas, por exemplo, por Mach, Avenarius e Cornelius. Contudo, segundo Husserl, em última análise, estas concepções desenbocam no
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Husserl define a psicologia da seguinte forma: “é uma ciência de experiência que estuda propriedades e estados psíquicos de realidades animais” (Introdução ao segundo tomo, §2, orig. p.7, tr. esp. p.219-220) ou ainda como a “ciência objetiva da vida psíquica dos seres vivos (animalische Seelenleben)” (VIª Investigação, Apêndice, §7, orig. p.241, tr. esp. p.776, tr. bras. p.180).
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psicologismo46, padecem dos mesmos problemas e estão sujeitas, portanto, às mesmas objeções.
Para se compreender justamente as graves objeções husserlianas dirigidas às teorias apontadas acima, genericamente rotuladas de psicologistas, e evitar os equívocos, é preciso se ter em mente mais algumas distinções. Muitos dos erros fundamentais da teoria do conhecimento e da filosofia em geral, conforme Husserl, devem-se à ausência de rigor e de distinções conceituais. Os equívocos se multiplicam facilmente numa teoria. Segundo Husserl, isso ocorre especialmente na lógica: “não há nenhuma esfera de conhecimento onde o equívoco revele ser mais fatal do que na esfera da lógica pura”47.
De fato, um dos problemas mais sérios para a compreensão da lógica é a sua terminologia equívoca48. Este é um dos principais problemas que geram os extravios na compreensão da lógica, como se dá nas teorias de caráter psicologista. Para perceber a equivocidade dos conceitos lógicos, basta pensar que, em geral, eles podem ser tomados como conceitos de classes de produtos psíquicos ou como conceitos gerais de individualidades ideais. Por exemplo, “juízo” pode designar tanto o resultado psicológico-subjetivo da predicação ou da representação particular expressa em palavras, enquanto fim de um ato psíquico cognitivo, quanto pode fazer referência ao conteúdo ideal e meramente significativo de uma proposição tomada abstratamente, considerada em si mesma, enquanto unidade de sentido constituída categorialmente49. Dessa forma, na psicologia, fala-se em juízos enquanto vivências empíricas da consciência, ao passo que, na lógica, trata-se deles enquanto unidades ideais de significação. As distinções são essenciais. O juízo psicológico é determinado temporalmente e submetido às características psicológicas daquele que julga. Nada disso faz
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Cf. Prolegômenos, §52, orig. 192, tr. esp. p.165. Os capítulos 4 e 5 da IIª Investigação tratam dessas teorias em suas formas ancentrais encontradas em Locke, Berkeley e Hume.
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Prolegômenos, §67, orig. p.245, tr. esp. p.202.
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Cf. Prolegômenos, §40, orig. p.148, tr. esp. p.134; §46, orig. p.173, tr. esp. p.151. Também na Introdução ao segundo tomo, §2, orig. pp.6-7, tr. esp. p.219.
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A distinção é retomada na Introdução ao segundo tomo, §2, orig. p.4, tr. esp. p.217: “Ao lógico puro não interessa, primaria e propriamente, o juízo psicológico, isto é, o fenômeno psíquico concreto, mas sim o juízo lógico, isto é, a significação idêntica do enunciado (...)”.
sentido para o juízo lógico. O juízo psicológico é a apreensão que um determinado indivíduo particular realiza do juízo lógico.
Portanto, o nível em que se colocam as objeções de Husserl contra o psicologismo deve ser entendido à luz da distinção feita no interior da disciplina lógica, que, segundo ele, tomada em sentido amplo, possui duas partes. Uma a que se poderia chamar lógica prática, normativa ou metodológica, e outra a que convém o nome de lógica pura, ou puramente teórica. A lógica prática tem, de fato, seus fundamentos assentados em três bases: i) em parte na psicologia – isto é, na observação empírica das características do psiquismo humano –; ii) em parte na consideração das ciências dadas empiricamente – para as quais, justamente, a lógica prática serve de arte ou de tecnologia lógica; e iii) em parte na própria lógica pura, cujo conteúdo meramente teórico é submetido à normatização e à valoração para que seja empregado como um cânon para o correto e efetivo desenvolvimento das ciências particulares50.
O psicologismo é exaustivamente recusado no que toca às suas pretensões relativas à parte pura da lógica. Isto é, suas teorias, enquanto pretensas elucidações do estatuto da ciência lógica em geral, é que serão alvo das duras críticas de Husserl. Tais pretensões configuram a metábasis eis állo génos operada pelos psicologistas, apontada em várias passagens das Investigações51. Já quanto ao aspecto empírico-metodológico de algumas das teorias daquela tendência, ou daquilo que elas permitem elaborar para determinados procedimentos práticos das ciências, há o reconhecimento expresso do seu valor. Como exemplo, basta se pensar nos métodos lógicos ou matemáticos de representação gráfica de relações, os quais têm como única função o auxílio metodológico para a realização do desenvolvimento teórico dos conteúdos ideais simbolizados.
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Para ver como Husserl entende as relações entre as ciências teóricas e as ciências normativas, cf. Prolegômenos, §§14-16.
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Cf., por exemplo, Prolegômenos, §2, orig. p.6, tr. esp. p.37; VIª Investigação, §65, orig. p.199, tr. esp. p.743, tr. bras. p.148.
Ora, esta posição, bem como suas conseqüências mais distantes, gera um debate acirrado não somente acerca da definição da ciência lógica como um todo e do estatuto de seus objetos e dos seus desenvolvimentos, mas também acerca dos fundamentos da ciência em geral, como foi apontado mais acima. Pois, como é preciso compreender, em última análise, a interpretação que se dá à lógica pura condiciona diretamente a interpretação que se tem acerca de toda predicação, argumentação, teoria e ciência, sejam estas efetivas ou meramente possíveis.
A lógica não é, como aponta Husserl, o fundamento de todas as ciências, posto que está ligada à estrutura de qualquer teoria possível? Como poderia, portanto, estar submetida a uma ciência particular, experimental e referente aos processos e caracteres contingentes da atual estrutura psíquica humana, como defende o psicologismo? Husserl oferece uma comparação bastante esclarecedora do tipo de subordinação da lógica à psicologia envolvida nas doutrinas psicologistas acima mencionadas: “a lógica se relacionaria, portanto, com a psicologia, como um ramo da tecnologia química com a química ou como a agrimensura com a geometria”52.
Tal relação de dependência teórica e de subordinação na hierarquia das ciências traz como conseqüência a redução da teoria do conhecimento e da lógica, em sentido mais amplo, à psicologia do conhecimento. Em outras palavras, toda tentativa de elucidação do conhecimento e suas fontes, seus modos, sua estrutura e sua validade, estaria coordenada superiormente pela psicologia dos processos cognitivos.
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