• Sonuç bulunamadı

BÖLÜM 2: DENETĠM TÜRLERĠ VE SÜRDÜRÜLEBĠLĠR ĠġLETME BAġARISI

2.4. Bir Bilim olarak ĠĢletme

O trabalho com a coleta seletiva de resíduos sólidos é uma atividade penosa nos aspectos físicos e emocionais. Físicos porque independente do trabalhador realizar suas atividades no coletivo ou individualmente, os riscos para a saúde e o esforço físico despendido para realizar a coleta é desgastante. Emocionais porque comumente os trabalhadores se colocam nessa atividade por falta de opção, por estarem excluídos do mercado de trabalho formal. Nesse sentido, a infra-estrutura básica para manutenção das cooperativas de reciclagem e a criação de novas unidades torna-se um elemento primordial para a dignidade do trabalho de catadores de resíduos sólidos, com intuito de minimizar as

69

dificuldades enfrentadas de forma isolada pelos trabalhadores com a busca de conquistas de direitos e organização do trabalho através da coletividade.

A produção de lixo doméstico no Brasil em 2000 chegava a 125.281 mil toneladas diariamente, desse total 47,1% vai para aterros sanitários, 22,3% a aterros controlados e 30,5% a lixões. Apenas 32,2% dos municípios brasileiros possuem aterros sanitários (IBGE, 2009). A realidade da gestão dos resíduos sólidos no Brasil tende a evoluir através de iniciativas governamentais com a criação da Secretaria Nacional de Saneamento Ambiental - SNSA, na estruturação dos ministérios das cidades. A SNSA tem como meta promover um significativo avanço, no menor prazo possível, rumo à universalização do abastecimento de água potável, esgotamento sanitário (coleta, tratamento e destinação final), gestão de resíduos sólidos urbanos (coleta, tratamento e disposição final), além do adequado manejo de águas pluviais urbanas, com o conseqüente controle de enchentes.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE identificou que em 2000 havia cerca de 24.500 catadores nos municípios brasileiros, 22% menores de 14 anos. Nos últimos anos o Ministério Público tem atuado com vigor junto às prefeituras, objetivando impedir o trabalho de crianças e jovens nos lixões.

Nesse cenário, a partir da década de 80 os catadores ambulantes e informais passaram a se organizar em cooperativas e associações em busca do reconhecimento profissional. Em 1990, com o apoio de instituições não governamentais, foram promovidos encontros e reuniões em vários locais do país. Isso levou a acontecer o I Congresso Nacional de Materiais Recicláveis e a I Marcha da População de Rua. Em 2002, a Classificação brasileira de Ocupações (CBO) classificou os catadores de lixo com o registro 5192-05. Em 2003, o Governo Federal criou o comitê de inclusão social de catadores de lixo, com o objetivo de implantar projetos que viessem a garantir condições dignas de vida e trabalho à população catadora de lixo e apoiar a gestão e destinação adequada dos resíduos sólidos dos municípios brasileiros (MEDEIROS; MACÊDO, 2005).

Com o aumento de pessoas trabalhando com a coleta seletiva do lixo, a sociedade civil passou a apoiar a organização desses trabalhadores. Contudo, muitas vezes esse apoio encontra dificuldades.

A afirmativa a cerca de um estudo realizado em uma cooperativa de catadores de resíduos sólidos demonstram essa realidade:

... as dificuldades da sociedade civil em compreender as relações de produção baseadas na autogestão e as dificuldades dos movimentos sociais em relação ao

mercado e a burocracia estatal. Percebe-se que a sociedade civil, embora deseje contribuir com a consolidação do grupo, está atrelada ao paradigma positivista de ciência, de mercado e de Estado. Por outro lado, os movimentos sociais, embora procurem protagonizar uma nova realidade, muitas vezes recaem a espera de uma atitude “paternalista” da sociedade civil e do Estado. Por sua vez o Estado procura contribuir, mas fica preso nos mecanismos da burocracia impostos pela reforma neoliberal que solapa o Estado brasileiro (SGUAREZI; LIMA; BORGES, 2009).

Evidencia-se, na realidade do empreendimento analisado, que houve a necessidade da sociedade civil organizada intervir para que o empreendimento pudesse se desenvolver.

Em uma cooperativa de Goiânia-GO, o perfil dos catadores de uma cooperativa de catadores de resíduos sólidos é apresentado da seguinte forma: idade entre 30 e 60 anos, o estado civil predominantemente concubinato, todos semi-analfabetos. Poucos tiveram acesso à escola, sete deles não concluíram a primeira fase do ensino fundamental. Em relação a auto- imagem os catadores associam sua profissão e posição social a falta de estudo, o que representa humilhação e vergonha, inferindo essa associação ao preconceito e descrédito que os próprios catadores têm em relação à profissão que exercem. As condições de trabalho são extremamente precárias, envolvendo riscos à saúde, desprovidos de garantias trabalhistas, mal remunerados, vítimas de preconceitos e não reconhecidos. O desemprego aparece como elemento fundamental para o direcionamento de atividade de catação. Quanto ao uso de EPI, verificou-se o uso de luvas em alguns catadores ( MEDEIROS; MACÊDO, 2005).Os riscos no desenvolvimento do trabalho de catadores de resíduos sólidos podem ser comuns para diversas cooperativas.

Rutkowski (2008) em sua tese de doutorado apresenta que as características dos cooperados coincidem com o estudo apresentado por Medeiros e Macedo (2005). A idade fica entre 21 e 40 anos, a escolaridade até a 4ª série do ensino fundamental, a maioria nunca trabalhou de carteira assinada e não possui outro trabalho remunerado ou mesmo benefícios. Um fator que não havia sido apresentado no estudo anterior é que mais da metade tem casa própria e acesso à água tratada, energia elétrica e saneamento.

Quanto aos riscos oferecidos no desenvolvimento do trabalho, tanto a Associação quanto a Cooperativa que foram analisadas apresentam diversos riscos no desenvolvimento de várias atividades. Vários problemas na esfera ergonômica foram detectados, entre eles: falta de segurança e condições adequadas para o exercício da atividade produtiva (chão sem piso antiderrapante, local de difícil acesso), forte calor, alto nível de ruídos, além de giros indevidos de quadris e a permanência em pé por um tempo prolongado

71

por parte das trabalhadoras. Não há bebedouros e banheiros na área, eles estão a cerca de 100 metros de distância do galpão de triagem (RUTKOWSKI, 2008).

Em uma pesquisa sobre a formação de cooperativas de trabalhadores que se encontram no setor de reciclagem de lixo, detectou-se que a estrutura e o funcionamento do mercado de reciclagem são baseados em três componentes: o catador autônomo, que participa ou não de associações e cooperativas, realiza a primeira etapa do processo, recolhe e separa os resíduos em um cenário competitivo (quem chega primeiro ao lixo); os sucateiros, que informal ou formalmente, compram os produtos reciclados pelos catadores ou cooperativas e os vendem às indústrias, ou compradores internacionais; e as indústrias e os compradores internacionais compõem o terceiro componente desta cadeia de reutilização de resíduos. Pode-se afirmar que os grandes beneficiados de todo o processo de reciclagem no Brasil e no mundo são as indústrias. Quando reduz o número de empresas que consomem os materiais recicláveis, ocorre a imposição às condições de preços aos catadores e às cooperativas, tornando-os reféns da exploração da economia formal sobre a informal (MAGERA, 2008).

Miura (2004) faz uma análise da história de vida de alguns catadores, evidencia que a vida desses trabalhadores é toda marcada pela exclusão social, assim a ocupação de catador é mais um sofrimento, dentre outros já sentidos em épocas anteriores. Desta forma, as emoções mais freqüentes apresentadas são a vergonha e a humilhação, decorrentes sobretudo da discriminação e do preconceito. Contudo, tornar-se um catador pode ser também motivo de alegria, isso por questões éticas, pela possibilidade de o indivíduo recuperar a própria dignidade ao se inserir e ser reconhecido socialmente como trabalhador honesto, distinto de mendigos e de bandidos. E também por lhe dar a oportunidade de organizar-se e mobilizar-se coletivamente na luta por melhores condições de trabalho e de vida. Desta forma, o grupo pode oficializar seu trabalho como profissão, tornado a atividade menos isolada, mais organizada, mais limpa e rentável. Estes catadores demonstram também sentirem alegria quando essa atividade lhes permite obter itens até então inacessíveis. Sobre a questão da saúde, esses catadores não acreditam que o trabalho de catação seja de fato um risco. Concluir que tornar-se catador, principalmente se participante de um grupo organizado, pode ser um fator que potencializa melhor qualidade de vida para aqueles que se viam excluídos do mercado de trabalho e sem opções. No entanto, continuam prejudicados no que se refere à escolaridade e à preparação técnica.

Benzer Belgeler