2.2. İlgili Araştırmalar
2.2.3. Bilişüstü Farkındalık İle İlgili Çalışmalar
Em sua gênese e sua busca por delimitar um campo de atuação, a Análise do Discurso definiu-se incialmente como “estudo linguístico das condições de produção.” (BRANDÃO, 2012, p. 17) Nesse sentido, analisando as questões de que já tratamos nos tópicos anteriores, o interdiscurso e o dialogismo, faz-se necessário abordarmos a noção de ideologia e de formação ideológica para compreendermos como elas nos auxiliam a compreender o aspecto dialógico da linguagem.
A noção de ideologia é ainda hoje bastante controversa. A filósofa Marilena Chauí afirma que a ideologia tem por função “[...] ocultar e dissimular as divisões sociais e políticas, dando-lhes a aparência de uma indivisibilidade social e de diferenças naturais entre os seres humanos.” (CHAUI, 2005, p. 175) Nesse sentido, a ideologia é vista de maneira pejorativa e de tal forma que se torna perigosa para a ordem social e as relações de poder.
Chauí define ao termo baseando-se em Marx. Para Marx, a ideologia opera a separação entre as forças de produção e a realidade histórica com a produção de ideias e condições sociais (BRANDÃO, 2012). Desta maneira, a produção de ideias, costumes, valores e crenças são determinadas pelas classes dominantes que, dispondo dos meios materiais, também dispõem dos meios culturais, de tal forma que, constroem e produzem ideias como formas de ver o mundo e as coisas, inclinando-as aos seus interesses.
Por sua vez, há uma base concreta sobre a qual a ideologia opera. Entretanto, ela distorce a realidade para produzir uma significação particular dessa mesma realidade. Em Marx, nesse âmbito, a ideia de ideologia está vinculada ao falseamento da realidade a partir de uma ressignificação dessa mesma realidade pelos grupos mais abastados e mais poderosos, configurando-se como uma noção que tem como “norte” a crítica ao sistema capitalista e ao poderio da classe burguesa.
Partindo dessa concepção de ideologia e das ideias gerais sobre as críticas ao modo de produção capitalista, Althusser, influenciado pelo pensamento de Marx, desenvolve suas ideias a partir desses mesmos pressupostos. Desta forma, analisaremos as ideias de Althusser sobre a ideologia de modo a relacioná-la com a noção de formação ideológica.
Althusser (1970) preconiza que as classes dominantes criam formas de perpetuação dos modos de pensar, viver e agir da sociedade, a fim de, igualmente, perpetuar as relações e as maneiras como as classes sociais interagem reproduzindo as formas de poder em todas as suas esferas: política, econômica, social e cultural.
Desenvolvendo suas análises, Althusser preconiza que o Estado cria as instituições e as relações entre essas instituições e a sociedade no sentido de garantir a perpetuação desses valores e ideias. Assim, o autor estabelece dois “Aparelhos” de Estado que operacionalizam esse princípio:
- o Aparelho Repressor do Estado (APE), compreendendo as instituições públicas, o poder executivo, a polícia, os tribunais, o exército, entre outras;
- o Aparelho Ideológico do Estado (AIE), compreendendo a família, a escola, a religião, o direito, a informação, a cultura, entre outras.
Ainda segundo Althusser, os dois aparelhos funcionam “colaborativamente” para disseminação da ideologia do Estado. Os AREs funcionam, sobretudo, pela repressão e pela coerção social, orientada pelas leis e instituições públicas que realizam a repressão, até mesmo física. Os AIEs funcionam de maneira simbólica, dissimulada, reproduzindo nas manifestações culturais e sociais os valores referentes à ideologia dominante. A interação entre as duas faz com que os AREs dependam dos AIEs e, os AIEs utilizem da repressão física em seu limite extremo, como por exemplo, nos casos de combate pela força às
manifestações de ordem reivindicatória, com o argumento para utilizar a força a garantia da ordem e a paz pública.
Partindo dessas definições, o autor estabelece o seu conceito de ideologia de uma maneira mais geral abandonando parcialmente a dicotomia de classes como referência. Tendo como base as ideias marxistas, ele desenvolve seu conceito categorizando-o em três princípios organizadores:
- o primeiro princípio parte da ideia de que a ideologia é a relação imaginária dos indivíduos com a realidade material a que está inserido. Para o autor, a ideologia é a forma imaginária com que os homens percebem as suas condições materiais de existência. Por serem imaginárias essas relações são simbólicas e distanciadas da realidade concreta. Desta forma, esse distanciamento seria a razão pela qual a ideologia opera a deformação das relações entre esse imaginário e a realidade.
- A existência da ideologia é garantida pela presença de um dos referidos Aparelhos do Estado em suas práticas sociais, culturais, políticas ou econômicas. Em outras palavras, as práticas cotidianas do sujeito histórico são repletas de práticas materiais orientadas por essa ideologia que reproduz o modo de organização da sociedade a partir dessa mesma ideologia, naturalizando as práticas e, consequentemente, reproduzindo-as. Assim, a ideologia passa a possuir uma existência material, pois as suas práticas são ritualísticas em situações concretas.
- Por fim, o autor considera que a ideologia atribui aos indivíduos o papel de protagonistas de suas ações considerando-os como sujeitos históricos. É através da ritualização e das práticas cotidianas que a ideologia transforma os indivíduos em sujeitos colocando em prática a ideologia e consolidando-a.
O autor atribui à ideologia o papel central na organização e significação das práticas ritualísticas da sociedade, dando-lhe caráter fundamental na dissimulação e disseminação da prática coletiva dos homens.
Ricoeur (1977) realiza uma análise que distancia um pouco a percepção acerca do termo ideologia apenas com um elemento manipulador de classes e, portanto, aproximado da mentira e da ilusão. Para tanto, o autor elenca primeiramente três aspectos principais para definir os limites do termo ideologia:
- O primeiro refere-se à função geral da ideologia. Nesse sentido, a ideologia é mediadora ao permitir a coesão social. Por ser mediadora ela permite reviver o caráter inicial do ritual a ser partilhado pelo grupo através do seu exercício e repetição;
- o segundo refere-se à função de dominação. Nesse aspecto, a ideologia tem papel de difusora das hierarquias sociais, através da legitimação dessas diferenças e hierarquização social;
- O terceiro aspecto refere-se à função de deformação. É nesse aspecto que o termo toma uma concepção mais fortemente influenciada pelo marxismo, uma vez que por essa função ocorre a deformação da realidade pelo seu reflexo invertido, subvertendo a realidade.
Dessa maneira, partindo das reflexões sobre o marxismo, ideologia e formação discursiva6, Pêcheux desenvolve uma crítica a essas discussões formulando um programa de análise que fundaria a Análise do Discurso. Nesse sentido, o teórico articula o materialismo histórico, os estudos linguísticos e a teoria do discurso como elementos balizadores. (BRANDÃO, 2012)
Assim, passaremos agora a discutir essa definição do quadro teórico de Pêcheux.