B. S. Santos entende necessário proceder a uma análise crítica das relações entre os três marcos da história da modernidade: a subjetividade, a cidadania e a emancipação. O excesso de regulação e o desequilíbrio deste pilar, experimentado na modernidade, são examinados pelo autor. Considerando a teoria política liberal a expressão mais sofisticada deste desequilíbrio, B. S. Santos aponta, na modernidade, uma tensão permanente entre a subjetividade individual e individualista, e a cidadania direta ou indiretamente reguladora e estatizante. Afirma, também, que esta “só é susceptível de superação no caso de a relação entre a subjetividade e a cidadania ocorrer no marco da emancipação e não, como até aqui, no marco da regulação” (2005, p. 240).
Apontando a hegemonia da racionalidade instrumental e a hipertrofia do princípio do mercado como causas da liquidação do potencial emancipatório da modernidade, B. S. Santos critica a ideia marxista da realização da emancipação através da substituição do Estado pela classe operária, como sujeito monumental; o que leva, também, à redução das especificidades individuais, que fundam a personalidade, a autonomia e a liberdade dos sujeitos individuais, à equivalência e à indiferença. B. S. Santos abre a possibilidade de pensar a subjetividade individual e coletiva de modo mais integrado e íntegro.
Para pensar a questão da democracia e de uma possível nova teoria da democracia, B. S. Santos aponta, em primeiro lugar, a impossibilidade de determinar os rumos dos processos de transformação social. Assim, para que esses possam contribuir para com a ampliação da democracia, devem ser processualmente democratizados. Isto quer dizer que “a renovação da teoria democrática assenta, antes de tudo, na formulação de critérios democráticos de participação política que não confinem esta ao ato de votar” (2005, p. 270). A necessidade de uma nova articulação entre a democracia representativa e a democracia participativa exigirá uma redefinição do campo do político, reduzido, na modernidade, ao espaço da cidadania.
Para o autor, a nova teoria democrática deverá proceder à repolitização global das práticas sociais, e o campo político imenso que daí resultará, criará
oportunidades para o exercício de novas formas de democracia e cidadania. Politizar significa identificar relações de poder e imaginar formas práticas de transformá-las em relações de autoridade partilhada (2005, p. 271).
A ampliação da democracia passa pela superação dos autoritarismos. Reconhecer o caráter político destas relações sociais existentes em todos estes espaços-tempo, coloca a exigência de que a luta pela democracia assuma a especificidade de cada um e de cada luta a ser travada. Cada um dos espaços estruturais29 precisa ser entendido como um espaço político específico.
Para B. S. Santos, a nova teoria da democracia tem como objetivo alargar e aprofundar o campo político em todos os espaços estruturais da interação social, o que requer uma imaginação social que inclua “novos exercícios de democracia, e novos critérios democráticos para avaliar as diferentes formas de participação política”. Isso se prolonga no conceito de cidadania, o qual se amplia “para além do princípio da reciprocidade e simetria entre direitos e deveres” nesse processo. A cidadania passa a ser identificada não só com a obrigação política vertical entre cidadãos e Estado, mas como uma obrigação política horizontal entre cidadãos. Tal fato leva-nos à revalorização do “princípio da comunidade e, com ele, a ideia de igualdade sem mesmices, a ideia de autonomia e a ideia de solidariedade” (SANTOS, 2005, p. 276-278), consideradas bases na construção da democracia social.
A impossibilidade de determinar finalisticamente o que será o futuro alerta para os riscos que a sociedade contemporânea enfrenta, os quais nos levam a entender melhor queremos e o que não queremos. Tal fator será um princípio que regula a transformação emancipatória do que existe, sem, contudo, nunca se transformar em algo existente. Assim,
[...] a emancipação não é mais do que um conjunto de lutas processuais, sem fim definido. O que a distingue de outros
29 B. S. Santos distingue quatro espaços políticos estruturais. O espaço político da cidadania,
segundo a teoria liberal; o espaço doméstico como sendo o privilegiado de reprodução social, e a forma de poder é o patriarcado; o espaço da produção, onde se encontram as relações sociais de produção, e a forma de poder que lhe é própria é a exploração; e o espaço mundial, que é o conjunto dos impactos em cada formação social concreta, decorrentes da posição que ela ocupa no sistema mundial.
conjuntos de lutas é o sentido político da processualidade das lutas. Esse sentido é, para o campo social da emancipação, a ampliação e o aprofundamento das lutas democráticas em todos os espaços estruturais da prática social conforme estabelecida na nova teoria democrática” (SANTOS, 2005, p. 277).
Tudo isso evidencia a indissociabilidade entre democracia e emancipação. Assim, a precariedade das soluções emancipatórias que acompanharam a crise das formas regulatórias da modernidade, vai exigir que a ida às raízes da crise da regulação se faça acompanhar de reinvenção, não só do pensamento emancipatório, como, também, da vontade de emancipação. Pela análise das dificuldades encontradas em cada um dos espaços estruturais, B. S. Santos define alguns campos de conflitualidade paradigmática e busca identificar os traços mais característicos do paradigma emergente.
Na área de conflito entre conhecimento e subjetividade, B. S. Santos formula que todo conhecimento é autoconhecimento, por isso, “o conflito epistemológico desdobra-se num conflito psicológico entre a subjetividade moderna e a subjetividade pós-moderna”. O autor estabelece que nos termos do novo paradigma “há muitas formas de conhecimento, tantas quantas as práticas sociais que as geram e sustentam” e, não reconhecê-las “implica deslegitimar as práticas sociais que as sustentam e, assim, promover a exclusão dos que as promovem” (2005, p. 328). Só com a instauração de uma concorrência epistemológica leal entre os diferentes conhecimentos é que se poderão reinventar as alternativas das práticas sociais que balizarão a construção da democracia e as lutas emancipatórias, na medida em que superar a verticalidade e a hierarquia nas relações entre eles.
B. S. Santos relembra que o ponto de chegada não está pré-definido e argumenta que o conhecimento a ser produzido neste processo depende do modo como se dará o processo argumentativo no interior das comunidades interpretativas. O grau de democraticidade do diálogo entre os diferentes conhecimentos interfere decisivamente na validação do conhecimento, no novo paradigma. A especificidade do conteúdo ético de cada conhecimento precisa ser reconhecida nesse processo.
Sempre, e necessariamente vinculado a uma cultura e às práticas sociais que nela se desenvolvem, o conhecimento do novo paradigma rejeita a
ideia da intemporalidade das verdades e, com isso, a ideia de evolução e de completude do conhecimento nele subentendida. O novo paradigma suspeita, também, da distinção cientificista entre aparência e realidade. E na possibilidade de diferenciá-las, a aparência não é necessariamente o lado inferior do par. Considerando o conhecimento científico como conhecimento discursivo, o novo paradigma o remete à condição de ser parte das humanidades, descaracterizando a fronteira supostamente fixa e indelével entre as ciências naturais, sociais e humanidades, entre arte e literatura, entre ciência e ficção.
A preocupação no novo paradigma é com a criação de alternativas e a concorrências entre elas e com a formação de subjetividades capazes de lutar por elas. O novo paradigma vai reabilitar os sentimentos e as paixões enquanto forças mobilizadoras da transformação social, buscando alcançar a vontade individual e coletiva de lutar pelas alternativas. As novas alternativas de realização pessoal e coletiva só o serão, de fato, se puderem ser apropriadas por aqueles a quem se destinam. Isto é, um conhecimento complexo, permeável a outros, local e articulável em rede como outro conhecimento local exige uma subjetividade com características similares ou, pelo menos, compatíveis. O reconhecimento em uma subjetividade multidimensional permite considerar a pluralidade de alternativas credíveis que ela pode comportar, em função das diferentes possibilidades engendradas em cada espaço-tempo estrutural e das composições entre elas.
A ampliação e a concretização das energias emancipatórias são condições apontadas por B. S. Santos como necessárias para o desenvolvimento dessas subjetividades. As primeiras repousam sobre a recuperação das dimensões subjugadas da racionalidade moderna (racionalidade moral-prática e racionalidade estético-expressiva), que leva ao alargamento da ideia de racionalidade para razoabilidade.
Mas esta ampliação das energias emancipatórias só faz sentido se a sua extensão for igualada pela sua intensidade, se a energia emancipatória se souber condensar nos atos concretos de emancipação protagonizados por indivíduos ou grupos sociais (SANTOS, 2005, p. 346).
Ou seja, o novo paradigma desconfia das abstrações e mergulha nas realidades múltiplas que a vida social comporta e pode comportar.
O desenvolvimento do campo das alternativas sociais, considerando as desigualdades entre os paradigmas, coloca a exigência da ampliação da credibilidade de tais alternativas, bem como das possibilidades inscritas na realidade – mas ainda apenas potenciais – de formulação de outras práticas.