No início do século XVI, os conflitos intertribais foram documentados, sobretudo pelos cronistas franceses, holandeses e portugueses. A noção de alteridade entre Tapuias e Tupis foi primeiramente apresentada pelo viajante Gabriel Soares de Souza, em seu “Tratado Descritivo do Brasil”, de 1587,56 em que aponta os Tapuia como os primitivos povoadores do litoral brasileiro, os quais foram desalojados por grupos inimigos. A lógica das guerras, o trato com os prisioneiros, a mitologia, a nudez, a poligamia, a antropofagia, bem como outros elementos se constituíram nas primeiras e mais importantes informações sobre o universo desses nativos. Uma delas era a de que as terras em que viviam não lhes pertenciam desde “sempre”, essas haviam sido ocupadas pelos seus contrários, “que propriamente se dizem escravos”57, que mais tarde foram denominados pelos lusitanos de “Tapuias”. Essas guerras iam redesenhando novos espaços e reconfigurando novas fronteiras territoriais, cujo ritmo levou a que muitos habitavam o litoral ocupassem os sertões. Dessa forma, tanto
Na volta como na ida o transito de homens para os quais a guerra era um elemento, e o desejo de possuir novas terras de que careciam e que cobiçavam, originaram novas lutas. Os vencidos não podendo retrogradar, e sendo difícil a passagem por meio de populações intactas, ou se fundiram também com os vencidos, ou se retiraram para o interior. Por isso vemos mesclados ramos de famílias distinctas, habitando os sertões alguma do litoral.58
Para o historiador John Monteiro, se com os outros grupos indígenas um nome genérico englobava semelhanças em suas tradições e padrões culturais, em relação aos Tapuia, tal denominação servia para separar estes grupos indígenas dos grupos Tupi que ocupavam o litoral. Segundo Monteiro: “[...] a denominação representava pouco mais que a antítese da sociedade tupi, sendo, portanto projetada em termos negativos”.59 Desse
55 TODOROV, Tzvetan. El Miedo de los Bábaros – mas allá del choque de civilizaciones. Barcelona:
Editora Galaxia Gutemberg, 2008.
56 SOUSA, Gabriel Soares de. Tratado descritivo do Brasil em 1587. 2000[1587]. Apresentação de
Leonardo Silva Dantas. Recife: Fundação Joaquim Nabuco.
57 ANCHIETA, Padre José de. Cartas Jusuiticas III: Cartas, Fragmentos Históricos e Sermões. 1554-
1594. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 48.
58 DIAS, A. Gonçalves. Emigrações dos Indígenas do Brasil. Revista do Instituto histórico Geográfico
Brasileiro. Tomo XXX, 1867, p. 20-21.
59 MONTEIRO, John M. Negros da terra: índios e bandeirantes nas origens de São Paulo. São Paulo:
Companhia das Letras, 1994. Apud ARAUJO, Soraya. O Muro do Demônio: economia e cultura na Guerra dos Bárbaros no nordeste colonial do Brasil – séculos XVII e XVIII. (Dissertação). Fortaleza: UFC, 2007.
modo, percebemos que mesmo no primeiro século de colonização, o termo Tapuia já passara a designar um “todo” composto por uma diversidade de línguas, de usos e costumes desses grupos indígenas que habitavam os sertões. 60
Mapa 4: Terra Barbarium dos Tapuias. Mapa intitulado “Recens Elaborata Mappa Geographica Regni Brasiliae in America Meridional”. Goerge Mattaus Seutter, 1740.
Fonte: MICELLI, Paulo. O tesouro dos Mapas: a cartografia na formação do Brasil. São Paulo: Instituto Banco Santos, 2002, p. 257.
A noção e o conceito de Tapuia, como sendo de um povo bárbaro, adversário e inimigo comum foi então construída historicamente, isto é, criada no próprio contexto colonial, tanto a partir do texto das crônicas e relatos dos viajantes, como também nos documentos oficiais. E foi reforçada, ainda, “durante o período de ocupação holandesa, uma vez que esses grupos indígenas mantiveram não só alianças militares como também tiveram participação ativa no serviço da empresa colonial holandesa no Brasil e na
60 POMPA, Cristina. Religião como tradução: missionários, Tupi e Tapuia no Brasil colonial. São Paulo:
manutenção do território ocupado por estes”.61 Segundo Roulox Baro, essa era uma nação brutal
que vivem completamente nus nas matas, como vagabundos (havendo alguns que habitavam em comum as aldeias ou vilas, mas que se locomovem de seis em seis meses para serem mais sadios e andam por todos os lugares), esse nunca puderam acostumar-se e logo que se lhe apresenta um fuzil, lançam-se em terra e prontamente se levantam, sem, as vezes, dar tempo de carregá-lo novamente. Levam apenas clavas largas e chatas na ponta, feita de uma madeira dura com as quais parte um homem ao meio com um só golpe [...] marchavam e corriam em uma velocidade incomparável. Se houvesse necessidade de bater-se em campo raso os portugueses tinha certeza de perder a vida caso não fugissem.62
A cultura material, as práticas de caçar, pescar, coletar, habitar e o nomadismo, bem como outras características desses povos ainda eram comuns quando do início da dominação colonial. Foi a partir desses elementos que muitas concepções foram construídas, e utilizadas pelos não-índios para tentar compreender os nativos que habitavam o litoral, em relação àqueles que viviam nos sertões da Colônia, em especial, nos do extremo Norte. Muitas dessas características foram importantes para que os colonos as utilizassem como justificativas para usurparem suas terras, bem como definirem o lugar que cada uma deveria ocupar no processo de construção daquela sociedade. Das principais características dos povos que viviam na faixa litorânea, além da poligamia, religião, guerras, a forma de manipular a natureza, o que gerou espanto, repugnância e aversão, em especial, por parte dos religiosos, foram os rituais antropofágicos.
A despeito dessas conjecturas, é importante compreender que tal prática foi encarada de forma distinta pelos agentes que estavam à frente do processo de conquista territorial. Gabriel Soares de Sousa, um dos importantes reinóis a se aventurar pelos sertões, é enfático ao considerar que “esses selvagens comem carne humana por mantimento, o que não tem outro gentio que a não comem se não por vingança de suas brigas e antiguidade de seus ódios”.63 Para ele, comer carne humana por mantimento e não de forma ritualizada, como os Tupinambá, significava a selvageria levada ao extremo. Tal assertiva passa a transformar esses nativos em verdadeiros canibais. Fernão Cardim, por sua vez, observou que esses tapuias.
61 ARAUJO, Soraya Geronazzo. O Muro do Demônio: economia e cultura na Guerra dos Bárbaros no
nordeste colonial do Brasil – séculos XVII e XVIII. (Dissertação). Fortaleza: UFC, 2007, p. 84.
62 MOREAU, Pierre; ROULOX, Baro. História das últimas lutas no Brasil entre holandeses e
portugueses e relação da viagem ao país dos tapuias. 1979[1651]. Tradução e notas Lêda Boechat Rodrigues. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo Ed. USP, p. 26
São cruéis como leões; quando tomão alguns contrários cortão-lhe a carne com uma canna de que fazem as frechas e os esfolão, que não lhes deixão mais que os ossos e tripas: se tomão alguma criança e os perseguem, para que lha não tomem viva lhe dão com a cabeça em um pau desentranhão as mulheres prenhes para lhes comerem os filhos assados.64
Após os encontros iniciais, as visões idílicas e as fantasias dos europeus relativas aos “nobres selvagens” deram lugar a avaliações mais materialistas e exploradoras dos índios. A vida idílica de Caramuru na Bahia ou de João Ramalho em Piratininga, com suas grandes famílias, no início do século XVI, foi de curta duração. De acordo com Russel-Wood:
O canibalismo deu aos europeus as bases morais, justificando a exploração e a escravatura. As ofensivas europeias forçavam os índios a se retirar de suas terras tribais para evitar outros contatos, em processo de retirada contínuo, para os recantos mais remotos do sertão ou da floresta. Sua recompensa foi a conservação da independência e da integridade cultural”. Pelo menos por algum tempo. A luta era contínua.65
Na medida em que o processo de conquista e ocupação dos sertões se configurava e a necessidade de mão de obra para abrir novos caminhos, construir estradas, Casas Fortes, dentre outras atividades, tornava-se mais importante conhecer quem era quem nesse universo de diferentes povos. Além das características supracitadas, aos olhos dos europeus, havia outras que também serviram como parâmetro na construção das relações e alianças com muitos desses nativos, as quais foram se tornando úteis para cada vez mais ir se definindo o binômio tupi/tapuias; que passa a se apoiar, dentre outros elementos, na língua e nas diferentes formas que ambos tinham de manipular a natureza. Em relação ao trato com a natureza, se bem observarmos, nos relatos de Gabriel Soares e nos demais cronistas da época, há uma nítida tendência a comparar tapuias e tupinambá, especialmente quando elucidam a prática da agricultura e a forma de habitação. Na observação de Gabriel Soares,
São esses tapuias muito fogazoes, e não trabalham nas roças, como os tupinambás, nem plantam mandioca, nem comem senão legumes, que lhes as mulheres plantam, e granjeiam em terras sem mato grande, a que põem fogo para fazerem suas sementeiras; os homens ocupam-se em caçar, a que são muito afeiçoados [...]. Quando esses tapuias cantam, não pronunciam nada, por ser tudo garganteado, mas a seu modo; são entoados e prezam-se de grandes músicos, a quem o outro gentio folga muito ouvir cantar. São estes tapuias grandes flecheiros, assim para caça como para seus contrários, e são muito ligeiros e grandes corredores, e grandes homens de pelejarem em campo descoberto, mas pouco amigos de abaltroar cercas; e quando dão em seus
64 CARDIM, Fernão. Tratados da Terra e Gente do Brasil. [1925]1583. Introdução e notas de Baptista
Caetano, Capistrano de Abreu e Rodolpho Garcia. Rio de Janeiro: Livraria Elite: 1925, p. 199.
contrários, se eles recolhem logo para suas casas, as quais tem aldeias ordenadas, como costumam os Tupinambás.66
Hans Staden escreve que,
Na Serra habita uma raça de gente selvagem que se chama Wayganna. Estes não tem habitações fixas como os outros, que moram diante e por tráz da Serra. Os mesmos Wayganna estão em guerra com todos as outras nações e quando apanham algum inimigo o devoram; os outros também fazem o mesmo com elles. Vão a procura da caça na Serra, são peritos em matar com arco e hábeis em outras cousas como em fazer laços e armadilhas, com que apanham caça.67
Nas palavras de Gabriel Soares e de Hans Staden, percebem-se as visões que os mesmos tiveram desses povos e como ambos os grupos manipulavam o meio natural para sobreviver. A caça, a coleta, mas, sobretudo, o fato de não terem habitações “fixas” e roças, assinalavam uma característica bem distinta para os que tinham esses elementos, especialmente as sociedades litorâneas. Essas, além de caçar, pescar e coletar, cultivavam suas roças, em especial a mandioca. Também habitavam em suas localidades por muito mais tempo e dormiam em redes. Dessa forma, aos olhos dos colonos, os Tupinambá ostentavam um repertório de sobrevivência muito mais sofisticado do que os dos chamados Tapuias. Essas e outras habilidades foram bem observadas pelos agentes da colonização que cada vez mais foi se configurando sinônimo de diferenças entre essas duas sociedades.
Há outras nações contrárias e inimigas destas, de diferentes linguas, que em nome geral se chama Tapuya, e também entre si são contrarias; primeiramente no sertão vizinho dos Tupanaquins habitão os Guaumurês, e tomão algumas oitenta legoas de costa, e para o sertão quando querem são senhores das matas selvagens [...]não tem roças, vivem de rapina e pela ponta da frecha, come mandioca crua sem lhes fazer mal, e correm muito e aos brancos não dão se não de salto [...]esses dão muito trabalho em Porto Seguro, Ilhéos e Camamu, e esta terra se vão despovoada por sua causa; não se lhes pode entender a língua.68
Essas diferenças, somadas à resistência que os Tapuias ofereciam a expansão do projeto colonizador vão se acentuando à medida que avança a colonização e se tornam cada vez mais incômodas para os adventícios. Quase meio século depois das descrições de Gabriel, Staden e Cardim, Frei Vicente do Salvador escreveu o seguinte sobre os Tapuias:
O que de presente vemos é que todos são de cor castanha e sem barba, e só se destinguem em serem uns ser mais bárbaros que outros (posto que todos são
66 SOUSA, Gabriel Soares de. Op. Cit., p. 298-299.
67 STADEN, Hans. Suas viagens e captiveiro entre os selvagens do Brazil. Instituto Histórico Geográfico
de São Paulo. Tradução da Primeira Edição original [1557]. Typografia da Casa Eclectica, 1925, p. 123. Grifos meus.
assaz). Os mais bárbaros se chama em geral Tapuhias, dos quais há muitas castas de diversos nomes, diversas línguas, e inimigos uns dos outros. Os menos bárbaros, que por isso se chamam Apuabetó, que quer dizer homens verdadeiros, posto que também são de diversas nações e nomes porque os de São Vicente até o rio do Prata são Carijós, os do rio de Janeiro Tamoios, os da Bahia Tupinamba, do rio de São Francisco, Amoipira e os de Pernambuco até o rio Amazona Potyguaras, contudo todos fala uma mesma linguagem e este aprendem os religiosos que os doutrinam por uma arte de gramatica que compoz o padre Joseph de Anchieta. Há uma casta de gentios tapuias chamados por particular nome Aimores, os quais não fazem casas onde morem, mas, onde que quer lhes anoitece, debaixo das arvores limpam um terreiro, no qual esfregando uma canna ou frecha com outra, acendem lume, e o cobre com um couro de veado posto sobe quaro forquilhas, e ali se deitam todos os demais com os pes para o fogo, dando lhes pouco, como so tenham enxutos e quentes eque lhes chova em todo corpo. Porem as mais castas de índios vivem em aldeias, que fazem cobertas de palmas e de tal maneira que lhes fique no meio do terreiro, onde façam seus bailes e festas e se ajustem diante ao conselho.69
Essas diferentes formas de ver tais nações, e suas distintas configurações culturais, foram aos poucos se construindo como sinônimo de alteridade entre Tupi/Tapuia/branco. Essas distinções foram imprescindíveis para muitos se afirmarem em relação ao outro, como também para outros fins. Monteiro aponta que
Para além do binômio Tupi-Tapuia, surgiram outros pares de oposição com a função de introduzir alguma ordem numa situação às vezes confusa e imprevisível. O contexto colonial produziu outras definições importantes, como a oposição entre povoado e sertão, o que representava mais do que uma referência espacial, pois na verdade, delimitava dois universos distintos, um ordenado pela lei e pelo governo, o outro livre de tais constrangimentos.70 Contudo, mesmo apoiados nessas distinções, de uma forma geral, os europeus compreendiam que todos esses nativos necessitavam ser lapidados para serem integrados ao convívio daquela nova sociedade proposta por eles. Alicerçados no aparato técnico- científico da época, os não-índios entendiam que as formas de organização socioeconômica e cultural dessas sociedades, fosse ela Tupi-Guarani ou Tapuias, estavam muito aquém do mundo dito civilizado. Essa maneira de compreender levou os colonizadores a introduzir valores totalmente estranhos aos dos nativos. Essa intervenção foi planejada e aplicada de modo que pudesse proporcionar modificações em sua cultura e que os levasse a abandonar seus hábitos considerados primitivos.
Nesse ínterim, o dia a dia de milhares de nativos passou a ser a realização de atividades muito estranhas aos seus costumes, dentre elas a derrubadas de imensas florestas, especialmente, as de pau-brasil, construção de engenhos, habitações, serviços
69 SALVADOR, Frei Vicente do. História do Brasil-1500-1627. Nova edição revista por Capistrano de
Abreu, 1918, p. 42-53. Grifos meus.
70 MONTEIRO, John M. Tupis, Tapuias e Historiadores: Estudos de História Indígena e do Indigenismo.
domésticos, guias e demais tarefas. Partindo desses pressupostos, os homens da época moderna entendiam que só por esse viés passariam a dominar o mundo natural, incluído tudo que nele havia, inclusive os índios. Assim,
O ideal do predomínio humano também repercutia no relacionamento dos homens entre si; não apenas no modo de tratarem o mundo natural. Alguns homens eram vistos como animais uteis, a serem refreados, domesticados, doutrinados e tornado dóceis; outros eram daninhos e predadores, a serem eliminados. John Locke considerava que quando um agressor ignorava a razão humana automaticamente se tornava passível de ser eliminado como uma fera.71
Foi com esse pensamento que os agentes da colonização olharam para os povos que habitavam o “novo mundo”, em especial aqueles resistentes ao “processo civilizatório”. Os diferentes estágios em que se encontravam, bem como sua postura diante de alguns eventos, selavam o lugar de cada grupo no processo de construção da sociedade colonial. Enquanto os Tupinambá, com sua língua compreensível e uma cultura material mais requintada davam aos brancos sinais de que seriam mais facilmente domesticáveis e lhes chamar no auxílio da construção daquela nova sociedade, os tapuias, com sua língua travada e seu nomadismo, dificultavam demasiadamente a logística colonial, tornavam-se uma ameaça constante e imprevisível. Dadas essas características e com maior tendência a hostilizar os não-índios, a maioria deles era passível de violência e cada vez mais sendo obrigados a se deslocarem para os longínquos territórios dos sertões, agora em razão da chegada de povos não-índios.
Os Tapuias que vivenciaram os espaços do presente estudo eram compostos de diversas tribos diferenciadas em língua e costumes e dispersas numa imensa área que abrangia grande parte do território de, no mínimo seis capitanias. Com base nos documentos e em relatos de cronistas do século XVII, podemos esboçar como estavam distribuídas as diversas sociedades Tapuias, em especial aquelas que participaram da Guerra dos Bárbaros, naqueles espaços mais significativos para esta pesquisa. Dentre as mais citadas estão: os Paiacu, da nação Tarairiú (Janduí), que habitavam o baixo Jaguaribe, na então província do Ceará, até a Serra do Apodi e o Rio Açu, no Rio Grande do Norte. E os Kariri, da nação Kariri, que se localizavam nas cercanias da atual cidade de Campina Grande e no platô da Serra da Borborema, na Paraíba.
Da nação Paiacu faziam parte os Jenipapo – que se situavam em áreas do Ceará até o Rio Grande do Norte, na região do atual Assu –; os Canindé, na região que
71 THOMAS, Keith. O homem e o mundo natural: mudanças de atitude em relação às plantas e aos
compreende os estados da Paraíba, do Rio Grande do Norte e do Ceará – entre os rios Jaguaribe e Piancó –; os Ariú ou Pega, do Rio Piranhas, na Paraíba e na Serra da Salamandra, no Rio Grande do Norte, e os Panati, onde hoje se localiza a cidade de Piancó na Paraíba. Entre outras, por fim, a nação Tarairiú ou Janduí.
Entre aqueles da nação Cariri, os Corema, na ribeira do rio Piranhas, na Paraíba; os Icó e Icozinho, nos sertões dos estados da Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará – entre os rios Piranhas e Jaguaribe – e a Serra do Cumbe, no Rio Grande do Norte; os Caicó, na atual chapada do Apodi e sertão do Seridó, no Rio Grande do Norte e os Kariri e Cariú, no sul do Ceará. No mapa 4, os destaques em rosa indicam as etnias Kariri.
Mapa 5: Localização das nações kariri no nordeste.
Fonte – Fração do Mapa Etno-Histórico Curt. Nimuedaju: IBGE. Museu Nacional, RJ, 1943. Publicado pelo IBGE, 1980.
Por essa distribuição espacial geográfica percebemos que a região de maior conflito na Guerra dos Bárbaros, era os sertões das Capitanias do Norte; uma área onde, ainda em fins do século XVII, já se começava a delinear uma atividade comercial de grande valor tanto para a colônia, quanto para a metrópole, a saber, a pecuária. “Esses indígenas, portanto, representavam um entrave para o desenvolvimento pleno da região,
pois eram as verdadeiras ‘muralhas do sertão’, impedindo o avanço da ocupação, a posse e a utilização das terras”.72
No entanto, no decorrer da segunda metade do século XVII, entre os rios São Francisco e Jaguaribe, um amalgama de povos nativos estava sob a jurisdição das Capitanias de Pernambuco e da Bahia, fora do alcance do domínio colonial. Nações como