A partir dos boletins da BEMFAM, é possível perceber também um ideal de saúde e de mulher. Como já sabemos, os serviços de planejamento familiar prestados por aquela entidade – distribuição de pílulas e inserção de
406Anais Brasileiro de Ginecologia. Rio de Janeiro, v.69, nº6, jun. 1970. Propaganda do
anticoncepcional Anacyclin, do laboratório CIBA.
407COELHO, Clair Castilhos. Contribuição para uma política nacional de medicamentos.
1980, 159f. Dissertação (mestrado em Saúde Pública) - Faculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo. São Paulo, 1980. p. 22.
408Em sua dissertação de mestrado, Souza Júnior afirma que na propaganda do
anticoncepcional Nordette que pode ser encontrado na Revista de Ginecologia e D’Obstetrícia de setembro de 1975, uma mulher aparecia vestida de noiva, o que mostra uma postura diferente dos publicitários responsáveis pelos anúncios daquele anovulatório. Em nossas fontes, porém, não encontramos nenhuma propaganda do citado anticoncepcional. SOUZA JUNIOR, Aujôr de. A política demográfica da Igreja Católica e
a medicalização da contracepção (1960-1980). 2006. 158 f. Dissertação (Mestrado em
História Cultural) – Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2006. p. 47.
DIUs – direcionavam-se principalmente para as mulheres pobres. Isso ocorria porque, de acordo com os dirigentes daquela instituição, as mulheres ricas e de classe média já dispunham dos meios e das informações necessárias para realizar o controle de sua fertilidade.
No Boletim da BEMFAM de outubro, novembro e dezembro de 1973 fica clara essa diferenciação entre pobres e ricas, bem como o direcionamento dos serviços da entidade. Segundo aquela publicação, os padrões familiares da época estavam sendo condicionados pelo “progresso urbano”. As classes de “maior nível cultural”, como aponta o documento, teriam maior facilidade para se adaptar a essa nova situação (de residir em apartamentos, ter maior mobilidade de vida e momentos de lazer, habituando-se aos novos padrões morais), pois contariam com uma “concepção racional a respeito da reprodução humana”, o que faria com que elas definissem, com base em sua vontade, o número de filhos que teriam e o espaçamento entre eles. Contudo, para as classes mais pobres, esta situação estaria sendo vivida de forma diferente:
Não acontece, porém, a mesma coisa com as classes mais pobres e desassistidas. A falta de cultura adequada faz com que permaneçam em um conceito “fatalista” da procriação: “os filhos é
Deus quem manda”; “sejam os filhos que Deus mandar”... e evidentemente isto dificulta a integração social 409.
Era necessário, portanto, dar assistência a estas classes e modificar esta concepção. Apesar disso, não se trataria, como dizem os autores do texto em questão, de uma interferência do Estado na vida íntima dos casais. A iniciativa da BEMFAM constituiria, no caso, uma maneira de garantir “às
famílias mais pobres os conhecimentos e meios necessários para que, voluntariamente, elas possam realizar o seu planejamento familiar(...)410”.
Na continuidade do texto, os mais pobres eram colocados como “os responsáveis” pelo desenfreado crescimento populacional o que, por sua vez, ocasionava “desigualdade das rendas individuais”. Isto, de certa forma, contraria a opinião anteriormente exposta, já que o planejamento familiar era posto não apenas como solução para questões familiares, mas para um
409 Planejamento Familiar e Promoção Social. In: Boletim da Bemfam. Rio de Janeiro, ano VII,
nº 80. Out/Nov/Dez. 1973. p. 20. Grifo nosso.
assunto nacional. Vale ressaltar que, segundo a publicação, a responsabilidade dos pobres no aumento populacional não se dava intencionalmente, mas pela “ignorância” que possuíam. Era contra essa falta de instrução que a BEMFAM deveria trabalhar.
Assim como nas propagandas de pílulas, a mulher idealizada no discurso da BEMFAM é mãe e vive na cidade. Segundo o Boletim já citado, a época moderna tem como uma de suas características a “afirmação da mulher na vida social”, seja através de sua maior frequência nos cursos universitários, por sua melhor qualificação profissional ou por sua participação política. Dentro dessa evolução a mulher passou a ter, de acordo com o documento, os mesmos direitos que o homem no casamento, dividindo com ele a responsabilidade pelo lar e pelos filhos. Apesar de ocupar estas “novas funções”, a mulher o faria, porém, sem “renunciar à sua missão de mãe.” Assim, ainda que elogie essa mulher que acompanhou a época moderna e que trata a maternidade como uma opção, os dirigentes da BEMFAM não vão além: ser mãe ainda seria uma “missão”. Assim como pudemos identificar nos anúncios de pílulas que vimos anteriormente, o uso da contracepção tem como um de seus objetivos fazer com que a mulher possa ter mais dedicação aos filhos que já possui:
A grande vítima dessa reprodução incontrolada tem sido principalmente a mulher, que muitas vezes passa a vida toda com uma sobrecarga de filhos superior à própria capacidade de exercer para com eles, de modo digno, a função materna, ou recorrendo, às vezes, a meios inadequados e altamente nocivos à própria saúde, como o aborto provocado para solucionar o problema 411.
Portanto, com a divulgação de informações sobre o planejamento familiar e a maior acessibilidade aos métodos ditos “modernos”, a mulher seria a maior beneficiária da situação, mas isso ocorreria porque só assim ela exerceria com maior dignidade a sua “função materna”. Logo, ainda que a partir das publicações da BEMFAM seja possível visualizar um novo ideal de mulher – que frequenta a universidade, que trabalha e que divide com o marido as responsabilidades do relacionamento -, avançar no sentido de uma desvinculação total entre mulher e mãe não foi uma opção daquela entidade,
pois certamente faria crescer o número de críticas direcionadas a ela. Ter poucos filhos e poder dedicar-lhes mais atenção é, de acordo com o Boletim, a melhor maneira de exercer a maternidade.
A partir das publicações do Boletim da BEMFAM (dos números que tivemos acesso) entendemos que a Sociedade Civil Bem Estar Familiar no Brasil era contrária à prática do aborto. A mulher idealizada não mais precisaria recorrer ao abortamento, pois contaria com os meios e informações necessárias para fazer de forma segura e eficaz o controle de natalidade. O exemplar de Janeiro, Fevereiro e Março de 1979 exibia na capa o título de sua principal matéria: “O aborto no mundo”. A forma como a prática do aborto foi tratada no periódico justifica a nossa assertiva:
(...) matar um feto é um ato imoral sob qualquer circunstância. Nem o fato de, recentemente, os partidários dos direitos da mulher sustentarem que o aborto deve ser um assunto privado entre a gestante e o seu médico e que toda a mulher deve ter o direito de decidir sobre a interrupção da gestação, diminui a sua gravidade. A prática abortiva sempre implica em homicídio doloso, pois o homem – ele próprio resultante de leis que o transcendem – não pode formular razões de vida ou de morte para o feto 412.
Nota-se, nesta afirmativa, que um viés transcendente/religioso perpassa o discurso da entidade. Além de ser uma estratégia de ação – aproximando-se, na medida do possível, dos discursos da Igreja e do Estado, que proibiam os abortamentos, – é uma maneira de continuar a existir: a procura pelos anticoncepcionais modernos poderia diminuir, caso o aborto fosse seguro e acessível a todas as mulheres que quisessem fazê-lo. Além disso, “permanecendo ilegal, o aborto apresenta um sério risco para as mulheres que decidem interromper uma gravidez” 413, constituindo, nesse
sentido, um incentivo para a utilização das pílulas e DIUs. Assim, uma boa mãe tem poucos filhos, cuida deles com afinco e quando não os quer, evita a gravidez para não provocar o aborto, já que este “representa um sério problema de índole moral” 414.
412O aborto no mundo. In: Boletim da BEMFAM. Rio de Janeiro, nº 98, jan/fev/mar 1979. p. 9. 413BARROSO, Carmen. Esterilidade feminina: liberdade e opressão. In: Revista de Saúde
Pública. São Paulo, v. 18, nº 2, p. 170-180, 1984. p. 176.
A eficácia de métodos como a pílula e o DIU era, nas páginas do
Boletim, inquestionável. O índice de falha apresentado era muito baixo e na
maioria das vezes ocorria por descuido da usuária. Ao mencionar a descoberta de uma nova pílula - de menor teor hormonal – e as experiências que estavam sendo feitas com ela em vários locais do mundo, a matéria presente na segunda página do Boletim da BEMFAM de agosto de 1969 garantia que: “(...)num grupo de 4.700 mulheres que utilizaram a pílula só houve 163 concepções, das quais 101 foram fruto do descuido quanto às instruções para o seu uso, e as outras foram motivadas por falta de uso da pílula” 415. Nesse sentido, a orientação médica era colocada como essencial.
Na publicação referente ao mês de maio de 1969, por exemplo, os anticoncepcionais são tidos como “exclusiva responsabilidade do médico” que, para prescrevê-los deve antes realizar um exame geral e ginecológico na mulher. O controle – que deve ser mensal, preferencialmente – poderia se dar com a ajuda de uma atendente (no caso das clínicas da BEMFAM), mas não deveria faltar um “controle médico anual” 416. Apenas em uma das publicações
analisadas este controle é descartado.
Walter Rodrigues - diretor responsável pelo Boletim da BEMFAM -, discutindo a inocuidade da pílula, expunha que vários cientistas, estudiosos e a própria OMS admitiam e recomendavam que não se deveria exigir prescrição médica para a utilização dos anticoncepcionais e isso se dava pelos “inúmeros benefícios médico-sanitários que seu emprego traz às populações”. Tais benefícios fariam, inclusive, com que os efeitos colaterais das pílulas e suas contraindicações tornassem-se mínimos, se comparados às ditas vantagens propiciadas. Para Rodrigues, esse fator deveria fazer com que os órgãos controladores admitissem o uso mais liberal, visto que
(...) a liberação do uso de pílulas, sem prescrição médica, torna-se elemento promotor de saúde materno-infantil, por permitir às pacientes o espaçamento entre as gestações, podendo a mãe se recuperar melhor de um parto recente e melhor cuidar do recém-
nascido 417.
415
Médicos descobrem “mini-pílulas” para evitar concepção. In: Boletim da BEMFAM. Rio de Janeiro, ano III, nº 8, agosto 1969. p. 2.
416Normas e programa de contrôle da natalidade: serviço nacional de saúde do Chile. Boletim
da BEMFAM, Rio de Janeiro, ano III, nº 5, maio 1969, p. 3.
417RODRIGUES, Walter. Planejamento familiar e saúde pública. Boletim da BEMFAM, Rio de
Mais uma vez indica-se, como percebemos, a utilização das pílulas como uma maneira de favorecer as mães no cuidado aos filhos. Além da possibilidade de melhor recuperação do parto, o autor não deixa claro outros benefícios “médico-sanitánios” decorrentes do uso das pílulas. Apontando estudos feitos por várias “autoridades no campo da reprodução humana” - que reconheciam a inocuidade dos anticoncepcionais -, comparava o planejamento familiar a uma “campanha de vacinação”, pois, constituía uma “atividade de saúde pública” e como tal deveria ter cobertura ampla, baixo custo e “delegação de atribuições a pessoal não médico” 418.
Assim como nas propagandas de anticoncepcionais, não há, nas publicações da BEMFAM, menção à livre vivência do sexo. Isto é compreensível, pela conjuntura da época, pela tentativa de aproximação com a Igreja (que também se dava pela reprovação do aborto) e pela aproximação ocorrida com o Governo Militar, principalmente a partir da década de 1970 (recordemos que naquela década a entidade foi reconhecida pelo Governo Federal como de Utilidade Pública).
As pílulas eram direcionadas para o planejamento da família, dos casais. Sua utilização não tinha como objetivo ameaçar os “bons costumes”. No próprio nome da entidade é possível identificar seu direcionamento: Sociedade Civil Bem Estar Familiar no Brasil; a mulher idealizada não poderia ser “mãe solteira”; isto só ocorreria por uma “imprudência cometida” 419.
Segundo Adão, uma das formas de repressão aplicada às mulheres militantes durante a ditadura, era criar uma imagem que as denegrisse. A militante política era exatamente o oposto daquelas mulheres que, por exemplo, uniram-se a seus maridos na defesa da ordem na Marcha com Deus pela Família e Liberdade, em 1964. A mulher pertencente às organizações de esquerda era uma ameaça aos padrões familiares. O governo militar procurou vincular militância à promiscuidade e uma “prova da tentativa de desmoralizar as militantes foi a exibição das caixas de anticoncepcionais apreendidas junto das participantes do Congresso da UNE em Ibiúna.” A pretensão era mostrar
418 Ibid., p. 3 419 Ibid.
que as mulheres ali presentes não buscavam apenas a discussão de questões políticas 420.
A mulher usuária dos serviços da BEMFAM em nada se assemelhava à militante de esquerda, na forma como pretendeu fixar o governo militar. Em um dos artigos publicados no Boletim de setembro de 1971 é descartada qualquer ligação entre o uso dos anticoncepcionais e a liberação da mulher na vivência de sua sexualidade:
E não se alegue que a anticoncepção seja instrumento de dissolução dos costumes; o problema da regulação voluntária dos nascimentos é, na realidade, estranho ao problema do erotismo. Isto porque não se trata aqui de liberar o instinto sexual, liberando o indivíduo do temor de uma gravidez; trata-se, isto sim, de dar àqueles que se propõem a constituir família, os meios de conseguir um sadio equilíbrio físico, psíquico e social, no sentido proposto pela Organização Mundial de Saúde 421.
Percebe-se, no trecho citado, que a obtenção do prazer sexual despreocupado não seria o real objetivo da utilização das pílulas. O uso dos anticoncepcionais estaria mais relacionado à obtenção da saúde, já que as constantes gravidezes poderiam trazer desequilíbrios físicos, mentais e sociais. A mulher que utiliza-se da contracepção hormonal deve continuar fonte de “amor” e “pureza”, como bem salienta parte do texto da propaganda 422 de Anacyclin, que consta no Boletim de janeiro, fevereiro e março de 1975: “Para a plenitude do amor na essência de sua pureza...” Essa “plenitude” poderia ser vivida com a utilização da pílula, já que esta não interferiria no ato sexual, como ocorria no caso da camisinha e do coito interrompido, que acrescentavam elementos e atitudes estranhas ao ato.
Conforme já foi apontado no primeiro capítulo deste trabalho, a BEMFAM destacava, em suas publicações, a diferença entre os “métodos modernos” de contracepção – como as pílulas e os DIUs – e os “métodos clássicos” – camisinha, diafragma, ducha vaginal, abstinência e coito
420ADÃO, Maria Cecília de Oliveira. Militância Feminina: Contradições e Particularidades
(1964-1974). 2002, 146f, Dissertação (Mestrado em História). - Faculdade de História,
Direito e Serviço Social, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”. Franca- SP, 2002. p. 71.
421As motivações da anticoncepção. In: Boletim da BEMFAM. Rio de Janeiro, ano V, nº 9, Set.
1971. p. 3
422De todos os números consultados, encontramos propagandas de anovulatórios apenas em
interrompido. Uma das divergências entre eles estaria no índice de falha, menor entre os “modernos”. Uma crítica feita à continência periódica (ou “tabelinha”) vale ser aqui citada.
Para Beltrão, este método poderia ser o responsável pelo nascimento de crianças portadoras de mongolismo. Essa possibilidade foi levantada a partir da constatação de um maior número de casos de mongolismo e outras malformações congênitas nas crianças filhas de casais católicos, para os quais aquele método era o único aceito. Beltrão lançava o questionamento:
Sôbre o método da continência periódica em particular paira um sombrio interrogativo médico: não será êsse método “católico” responsável por casos de mongolismo e de outras malformações congênitas que se observam em famílias católicas com maior freqüência do que em outras religiões? Pesquisa científica realizada nos Estados Unidos revelou um índice de mongolismo igual a 17 em famílias hebraicas, 20 em famílias protestantes e 30 em famílias católicas. Daí a hipótese de interpretação plausível: o método da continência periódica, único unânimemente aceito pela Igreja Católica, é também o único método de regulação da prole que não impede de todo a fecundação com algum óvulo ou espermatozóide deteriorado a qual pode dar origem a um feto monstruoso 423.
Dessa maneira, além de usar um método não confiável, a mulher que preferisse valer-se da abstinência periódica para controlar a sua fertilidade corria o risco de ter um filho portador de deficiência e esta seria, no caso, ocasionada por sua má escolha. Vale ressaltar, todavia, que não consta no texto se as famílias ouvidas foram questionadas quanto ao método que utilizavam. Caso contrário, a suposição lançada perderia sua validade, pois o fato de ser católico não torna óbvia e necessária a utilização da abstinência periódica como método contraceptivo.
O que o texto em questão pretende apresentar é que as usuárias em potencial dos serviços da BEMFAM devem confiar nos métodos modernos, visto que seriam eles os mais eficazes. Além disso, expõe os riscos a que estaria exposta a mulher que optasse por um método “clássico”, deixando claro que não eram apenas as pílulas e os DIUs que poderiam ter efeitos colaterais.
Na contramão do que víamos nos jornais de grande circulação em Fortaleza (e, possivelmente, do Brasil), no Boletim da BEMFAM negava-se com
423 BELTRÃO, Pedro Calderan. Mortalidade Infantil. In: Boletim da BEMFAM. Rio de Janeiro,
veemência qualquer correlação entre a utilização de pílulas e o câncer. Citando pesquisas de médicos brasileiros – como o Dr. Leon Cardeman – que por sua vez utilizavam-se de outros estudos e de relatórios da OMS, um artigo do
Boletim de outubro de 1971 indicava que não existiam evidências de que
houvesse aumento na incidência de câncer uterino com a adoção de pílulas ou dispositivos intrauterinos. Segundo o artigo era, inclusive, entre as usuárias destes métodos que se encontrava a menor incidência da doença.
Além da ação anticoncepcional, a pílula teria mais oito indicações na ginecologia, dentre elas o tratamento da esterilidade. O artigo salientava também que os efeitos colaterais dos anticoncepcionais orais desapareceriam a partir do desenvolvimento da tolerância ao medicamento, o que ocorria no terceiro ou quarto ciclo. Efeitos positivos eram apontados, como: “sensação de bem-estar; ausência de ansiedade, dismenorréia 424, tensão pré-menstrual e corrimento vaginal; melhoria do estado da pele; cabelos menos gordurosos; aumento de satisfação sexual, etc...” 425.
Assim, unida à eficácia cientificamente comprovada estariam todas estas vantagens, que fariam da pílula o método ideal: além da tranquilidade, ofereceria bem-estar e colaboraria para a beleza da mulher. Note-se que, apesar de o aumento da satisfação sexual ser listado entre os benefícios, ele constitui um efeito colateral positivo e não uma indicação dos anovulatórios.
Interessante perceber que os dirigentes da BEMFAM não apenas colocavam o planejamento familiar como uma necessidade da mulher, mas também como um desejo que sempre foi seu. No Boletim de março de 1973, que tinha como temática “O planejamento familiar e a mulher moderna” era apresentada uma síntese do histórico de mulheres – já citadas neste trabalho - que seriam “as pioneiras do movimento de planejamento familiar”426, com
424“Menstruação dolorosa, cólica menstrual ou dismenorréia é a dor pélvica (baixo ventre) que
ocorre antes ou durante o período menstrual, de modo cíclico. Menstruação dolorosa que impede as atividades normais ou necessita de medicação específica.” Disponível em: <http://www.abcdasaude.com.br/artigo.php?135>. Acesso em 12 de maio de 2012.
425A Bemfam e o planejamento familiar. In: Boletim da BEMFAM. Rio de Janeiro, ano V, nº 10,
out. 1971. p. 2.
426As pioneiras do Planejamento familiar. In: Boletim da BEMFAM. Rio de Janeiro, ano VII,
iniciativas que remontam ao fim do século XIX. Eram elas: Margareth Sanger, Elise Ottensen-Jansen e Dhanvanthi Rama Rau427.
O número era encerrado com a apresentação de dados de uma pesquisa do IBOPE – Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística – realizada no ano de 1966 em algumas cidades brasileiras, dentre elas Fortaleza 428. De acordo com o texto, a “mulher tradicional” do Brasil era a
“dona-de-casa, rodeada de filhos”, mas tal situação começava a se alterar, conforme as informações obtidas na pesquisa. Nesta, 84% dos entrevistados - homens e mulheres - acreditava que só se deveria ter um filho quando se tivesse condições de criá-lo. A condição financeira era apontada com um fator essencial para optar pela limitação da natalidade: 79% dos entrevistados tinham essa opinião.
Chamava-se atenção para o fato de que nas opiniões acima, o número de mulheres era superior ao de homens, principalmente nas cidades do Nordeste. Questionados se a “precariedade financeira” era razão para evitar filhos, 60% dos homens e 69% das mulheres de Fortaleza afirmaram que sim.