Balmès375, autor a quem recorremos na terceira seção do capítulo ante- cedente para tratar sobre a questão da verdade em Lacan, chama a atenção acerca de uma particularidade – como distinguir ou como situar os diferentes lugares onde é
368 LACAN, 2008b. 369 Idem.
O avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992b.
370 Idem.
De um discurso que não fosse semblante. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009.
371 Idem, 2003m.
372 Idem. Sobre a experiência do passe.
Revista Letra Freudiana, Rio de Janeiro, v. 14, n. 0, p. 54-59, 1995.
373 SOUZA, A.
Os discursos na psicanálise. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2008.
374 TEIXEIRA, M.
Vicissitudes do objeto. Salvador: Ágalma, 2005.
375 BALMÈS, F.
posicionada a verdade na teorização lacaniana? Se se trata do dispositivo analítico, há, de um lado, uma fala, a do analisante, e, de outro lado, o analista, com a inter- pretação, ou o “[...] lugar de reserva onde essa verdade é esperada”376. Esse lugar de reserva é o lugar que pode causar o desejo do analisante, é o lugar reservado a uma falta – o objeto “a”. Nesse caso, a verdade situada ao lado do analista diz res-
peito à sua condição de causar o desejo do analisante, ou a uma verdade acoplada ao objeto.
Portanto, seguindo o que foi apresentado antes, trata-se de demonstrar a estrutura de funcionamento do desejo de analista, ponto fulcral em termos da forma- ção, na posição de objeto para servir de causa ao desejo do analisante, afinal de- vemos repetir: não há intersubjetividade no dispositivo analítico. Por conta disso, adiantamos que na estrutura dos discursos o lugar do agente – o que dá nome ao discurso – é o lugar do semblante, sendo que, no caso do discurso do analista, trata- -se de semblante de objeto “a”, donde se entende que não há qualquer interlocução
entre as posições do agente e do outro no discurso.
A partir da lógica de funcionamento do discurso no dispositivo analítico, Lacan pôde perceber que “A essência da teoria psicanalítica é um discurso sem fa- la”377 – na verdade, sem palavra, pois o que aparece neste lugar é a noção de estru-
tura. Essa percepção de Lacan provém de sua leitura de trabalhos de Althusser e outros autores que procuraram enquadrar o pensamento de Marx na linha do estru- turalismo.
Independentemente do êxito ou do fracasso desses autores nesse em- preendimento – não importa –, o que é destacado para Lacan é a noção de estrutu- ra. Segundo ele, esses autores teriam conseguido demonstrar que Marx era estrutu- ralista, porque “[...] é propriamente por ele estar, ele, como ser de pensamento, no ponto que determina a predominância do mercado de trabalho, que, como causa de seu pensamento, destaca-se a função – [...] – que é a da mais-valia”378. Na ótica desses autores, essa mais-valia, ou mais-valor, forma escolhida nesta escrita, é o objeto do capital. Posto isso, Lacan passa ao paralelo com o discurso do analista:
376 BALMÈS, 2008, p. 40.
377 LACAN, 2008b, p. 11. O quadro com esses dizeres na edição oficial consta a tradução “A essência da teoria psicanalítica é um discurso sem fala”, contudo Ivan Correa, em seus seminários, explica que a palavra francesa parole que pode ser tanto “fala” quanto “palavra”, nesse lugar ela significa
“palavra”, é isso inclusive que se depreende ao longo do texto, já que a própria estrutura do dis- curso é a de um discurso sem palavra.
Assim como o trabalho não era novo na produção da mercadoria, a renúncia ao gozo, cuja relação com o trabalho já não tenho que definir aqui, também não é nova. Desde o começo, com efeito, e ao contrário do que diz ou pare- ce dizer Hegel, é ela que constitui o senhor, o qual pretende fazer dela o princípio de seu poder. O que há de novo é existir um discurso que articula essa renúncia e que faz evidenciar-se nela o que chamarei de função do ‘mais-de-gozar’. É essa a essência do discurso analítico.379
No discurso do analista, o objeto representando a perda de gozo é tam- bém a essência desse discurso, conforme Lacan acentua no seminário de De um
Outro ao outro, porquanto é esse objeto que detém o controle do desejo do sujeito.
Então, a ponte aberta pelos estruturalistas em relação à leitura marxiana e à “homo- logia” – não se trata de analogia (na verdade, ele depois fala como se fosse uma analogia), acentua Lacan380, entre os objetos mais-valor e “mais-de-gozar”, pois a relação entre ambos é circunscrita à função do objeto “a”, perda de gozo, efeito do
discurso – abriu o caminho pelo qual Lacan trilhou a construção de seu conceito dos discursos. Essa filiação é tão grande que ele afirma que Marx, se não tivesse “fun- dado o capitalismo”, é dizer, da forma como ele entende o efeito da denúncia marxi- ana, como propulsora desse sistema, ele (Marx) :
[...] teria se dado conta de que a mais-valia é o mais-de-gozar. Tudo isto não impede, é claro, que por ele o capitalismo tenha sido fundado e que a função da mais-valia seja muito pertinentemente designada em suas conse- qüências [sic] devastadoras.381
A construção do conceito dos discursos foi iniciada a partir desse seminá- rio de 1968-1969, com a formulação em torno do “mais-de-gozar”, e depois desen- volvido por Lacan no seminário O avesso da psicanálise, ou a Psicanálise pelo a-
vesso, a considerar o esclarecimento na abertura da primeira lição. Isso em relação aos quatro primeiros discursos; já quanto ao discurso do capitalista, Lacan só teceu alguns comentários, sem apresentar maiores formulações sobre seu funcionamento. Esses comentários estão numa jornada de trabalho em Milão, realizada em 12 de maio de 1972382, no seminário De um discurso que não fosse do semblante383, no
seminário O saber do psicanalista384, no texto “Sobre a experiência do passe”385,
dentre outros. 379 LACAN, 2008b, p. 17. 380 Idem, ibidem. 381 Idem, 1992b, p. 100-101. 382 SOUZA, 2008. 383 LACAN, 2009. 384 LACAN, J.
Lacan concebe o discurso como uma estrutura sem palavras. Não se trata de uma continuidade de enunciados, é, antes, uma “[...] certa disposição da estrutu- ra que condiciona todos os enunciados que podem produzir-se nele”386. Isso a partir da relação fundamental da estrutura do sujeito, definida pela fórmula já consagrada como: “[...] o significante é aquilo que representa um sujeito para outro significan- te”387. Um significante determina um sujeito sempre a partir de uma relação funda- mental, a qual se passa numa cadeia significante, ou, expressa Lacan: “Um sujeito só pode ser produto da articulação significante. O sujeito como tal nunca domina essa articulação, de modo algum, mas é propriamente determinado por ela”388. Isso porque a cadeia significante já estava lá; como toda linguagem está inscrita na di- mensão do simbólico, antes do advento do sujeito, trata-se da referência ao Outro, conforme tratado no capítulo anterior.
Para o mestre francês, “os significantes [...] estão distribuídos pelo mun- do, pela natureza, estão por aí a rodo”389, o significante se apresenta como “[...] i- dêntico ao status como tal do semblante”390. Ou “O semblante é o significante em
si”391. Isso é básico, é fundamental, e está incorporado à lógica da estrutura de lin- guagem que Lacan já vinha desenvolvendo a partir da linguística, sendo incorporado a seu ensino desde os primeiros seminários e escritos. Com efeito, atendo-nos ao que ele descreve no texto “A significação do falo”392, de 1958, podemos entender a dimensão que assume o conceito de significante em Lacan:
Essa paixão do significante, por conseguinte, torna-se uma nova dimensão da condição humana, na medida em que não somente o homem fala, mas em que, no homem e através do homem, isso fala, em que sua natureza torna-se tecida por efeitos onde se encontra a estrutura da linguagem em cuja matéria ele se transforma, e em que por isso ressoa nele, para – além de tudo o que a psicologia das idéias [sic] pôde conceber, a relação da palavra.393
Ele adverte, contudo, que não se trata da relação entre homem e lingua- gem como fenômeno social, mas algo estreitamente ligado aos efeitos das leis que operam no inconsciente – a condensação e o deslocamento –, ao atuar como matri- 385 Idem, 1995. 386 BALMÈS, 2008, p. 42. 387 LACAN, 2008b, p. 18. 388 Idem, 2009, p. 18. 389 Idem, ibidem, p. 16. 390 Idem, ibidem, p. 15. 391 Idem, ibidem, p. 14.
392 Idem. A significação do falo. In: Idem.
Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998c.
zes de significados, a partir da metáfora e da metonímia. Bem mais tarde, no texto “Radiofonia” (1970)394, Lacan esclarece “[...] que o significante não é apropriado pa-
ra dar corpo a uma fórmula que seja da relação sexual”, no que ele conclui que “[...] não há relação sexual – subtenda-se: formulável na estrutura”395. Essa é, diz ele, a
falha estrutural, uma falha na inscrição, isso que a dimensão do real traduz, ou seja, a própria não inscrição.
Há uma certa plasticidade em relação à verdade ecoando nesse conceito lacaniano dos discursos, pois sua escritura mostra que, dependendo do laço social, seu lugar será tomado por facetas diferentes, ou melhor, por “letras” diferentes. Con- tudo, esse lugar da verdade será marcado por uma disjunção em relação ao lugar da produção, própria da discursividade, ou seja, essa disjunção é reflexo de uma im- possibilidade como condição imanente à estrutura de qualquer discurso.
Os discursos representam diferentes laços sociais – do mestre, do histéri- co, do analista e do universitário – e nos fornecem uma variedade de leituras. Sua forma de apresentação indica quatro posições fixas, dispostas em duas colunas, sem interlocução entre elas396. Na primeira coluna, o numerador se destina à posi- ção que nomeia o discurso – e que governa os outros termos –, no caso o agente ou sujeito do discurso, ou ainda o semblante, enquanto que em seu denominador fica o lugar da Verdade – notação feita em maiúsculo por Lacan, conforme lembrado por Souza397. Na segunda coluna, é o lugar do outro – outro significante – ou do traba-
lho; no numerador e no denominador, é o lugar da produção ou da perda produzida:
agente outro semblante trabalho
Verdade produção - gozo
Já dissemos acima, mas é importante destacar que não há ligação entre a produção e a verdade, termos que ficam nos denominadores, há antes uma disjun- ção entre esses, é dizer, não há um caminho nessa estrutura que leve da produção à verdade. No entanto, há uma exceção a esse princípio, pois o discurso do capita-
394 LACAN, 2003m.
395 Idem, ibidem, p. 411. A tradução oficial de “
rapport” por “relação” será mantida nessa citação, con-
tudo convém explicar que o termo diz respeito a uma “proporção” ou “razão”. 396 Idem, ibidem.
lista fura essa lógica e apresenta a verdade desprotegida; ele desfaz esse caráter disjuntivo.
Nesses lugares, serão alocados quatro termos – letras –, as quais passa- rão por um deslocamento no sentido horário de um quarto de giro, dentro da circula- ção no “quadrante” do discurso, sendo que a passagem de um discurso a outro nes- se quadrante terá sua leitura inicial a partir do discurso do mestre – isso por razões históricas, pois esse conceito sobre os discursos foi construído a partir da experiên- cia analítica, conforme esclarece Lacan398, daí os demais foram estabelecidos. Na sequência, é alojado o discurso da histérica, seguido do discurso do analista e do discurso do universitário, num giro em direção inversa àquela dos ponteiros de um relógio, conforme dispostos a seguir.
Os termos a serem deslocados são designados da seguinte forma: S1 –
significante mestre,
$
– sujeito barrado ou dividido, S2 – saber; e “a” – “mais-de- -gozar”. A relação entre essas letras segue o caminho ancestral da relação saber–gozo, sendo o saber “[...] o que faz com que a vida se detenha em um certo limite em direção ao gozo. Pois o caminho para a morte – [...] – nada mais é do que aquilo que se chama gozo”399. Desse ponto Lacan estabelece a ponte com a verdade, a
partir do “mais-de-gozar”: “Assim, o que articulei sob o termo mais-gozar remete vo- cês ao que é interrogado no discurso freudiano como colocando em causa a relação de alguma coisa que se articula como verdade, em oposição a um semblante”400.
Nesse aspecto, fica estabelecida a concordância de Lacan em relação ao construto marxiano sobre a verdade moldada pelo semblante. O lugar da verdade nos discursos passará a dar calibre ou o peso desse real, pois o “[...] lugar da Ver- dade fundamenta a consistência do real e, como tal, passa a definir a própria condi- ção que causa os discursos”401.
Os quatro discursos iniciais foram dispostos da seguinte forma: Discurso do Mestre Discurso do Universitário
S1 S2 S2 a
$
// a S1 //$
Discurso da Histérica Discurso do Analista
$
S1 a$
a // S2 S2 // S1 398 LACAN, 1995. 399 Idem, 1992b, p. 16. 400 Idem, 2009, p. 154. 401 SOUZA, 2008, p. 119.Lacan inicia com o discurso do mestre, remetendo a Hegel e ao fato de que, para este, o significante do senhor absoluto é a morte, enquanto, do lado do servo402, houve a renúncia a esse confronto, aludindo aqui à famosa passagem do
filósofo alemão na obra A fenomenologia do espírito. Importa ressaltarmos com
Balmès que não se trata nessa sequência dos discursos de progresso, assim como não “[...] há saber absoluto nem acumulação”403 de um discurso em relação ao ou- tro, culminando no discurso do capitalista.
Mas a obra hegeliana continuou a inspirar Lacan, assim entende Balmès, haja vista que, na sequência de apresentação das letras, o “[...] lugar da verdade é, em cada discurso, o que está oculto, latente, e que vem a se impor no lugar domi- nante no discurso seguinte na ronda sucessiva dos discursos”404, isso, segundo o autor, espelha-se na forma como Hegel situa a verdade e a certeza na sucessão das figuras n’A fenomenologia do espírito. Assim, o lugar da verdade, no discurso do
mestre, é o sujeito dividido –
$
. Vejamos como Balmès esclarece essa posição:O discurso do mestre é o que assegura àqueles que se encontram tomados nele ser idênticos a si mesmos (S1 é o significante da identificação, Lacan o escreve também significante m’être405, pois assegura ao sujeito o engano do
ser). A verdade subjacente que este discurso encobre e recobre é a essencial divisão do sujeito – coração primeiro do descobrimento freudiano.406
A divisão do sujeito é a própria verdade, é a fratura exposta no sujeito, ou dizer, é a verdade da castração do próprio mestre e a condição do seu desejo, uma vez que a essência do senhor é “[...] o fato de que ele não sabe o que quer”407. Re- metemos ao ponto acima no qual fizemos a correspondência da Ichspaltung freudia-
na, nos termos em que ele elaborou os mecanismos da recusa da realidade, a Ver-
drangung, no recalque, e da Verleugnung, no desmentido.
Sobre o posicionamento de Lacan, já vimos que é a renúncia ao gozo que marca a constituição do senhor no discurso hegeliano, nisso se contrapondo a He- gel, sendo que, a partir dessa renúncia, o senhor se vale para fundamentar seu po-
402 Aqui a leitura se fará com a designação “servo”, e não “escravo”, porquanto a leitura n’
A fenome- nologia do espírito conjuga duas consciências livres (HEGEL, G. A fenomenologia do espírito. 2.
ed. Petrópolis: Vozes, 1999). 403 BALMÈS, 2008, p. 44. 404 Idem, ibidem.
405
M’être (mestre) e m’être (ser-me) são homófonos em francês.
406 BALMÈS, opus citatum, p. 44. 407 LACAN, 1992b, p. 30.
der. Vale notar que a perda de gozo é ainda mais radical no discurso analítico do que a revelada pelo mais-valor no discurso marxiano, já que o “mais-de-gozar” é fundamento da linguagem408.
Suspendemos o esclarecimento sobre o discurso do mestre para aden- trarmos em giros nos outros discursos. No discurso da histérica, a posição da verda- de é ocupada justamente em ser a causa do desejo do mestre, instigando-o ou de- safiando-o a produzir um saber. Já no discurso do analista, a posição da verdade é ocupada pelo saber suposto do analista, e nesse ponto lembramos com Balmès que há dois vieses, o do lado do analista, como “[...] função de reserva de seu próprio saber no processo do tratamento”, e o do analisante, como o saber suposto ao sujei- to na relação transferencial, ponto já mencionado no capítulo precedente quando tratamos da transferência409.
No último discurso dessa quadra, o significante mestre é a verdade do saber universitário. Quanto a isso, cumpre dar destaque ao que Lacan respondeu em nome da psicanálise sobre a crise entre a Universidade e os estudantes depois dos acontecimentos de maio de 1968:
No momento em que a psicanálise é chamada a responder a alguma coisa da qual não pensem que tenho a intenção de esquivá-la, e que é a crise atravessada pela relação do estudante com a Universidade, é intolerável, impensável, que nos con- tentemos em dizer que existem coisas que não podem de modo algum ser defini- das num saber. Se a psicanálise não pode enunciar-se como um saber e ser ensi- nada como tal, ela não tem rigorosamente nada a fazer no lugar onde só se trata disso.410
Trata-se de uma posição política sustentada por Lacan em relação à es- quiva de alguns analistas em se posicionarem diante dos impasses na estrutura de poder na universidade francesa. Fica claro que ele defende a posição do ensino na universidade, à condição que esse possa se manter à luz do saber psicanalítico – um saber que sabe de um não saber. Isso se põe como desafio permanente, visto que tal ensino revela-se ao afirmar a disjunção entre saber e verdade. É inegável a existência de um jogo de forças políticas agindo na universidade e indubitável que a correlação de forças pende para o lado do discurso hegemônico, o do capitalista.
408 LACAN, 1995.
409 BALMÈS, 2008, p. 44. 410 LACAN, 2008b, p. 18-19.
Ao longo desse mesmo seminário, ele desenvolve, ou melhor, faz a de- núncia da política negocial ou da prática do “mercado dos saberes”411 – o saber é
um objeto venal, sendo que tal política encontra sustentação no seio da Universida- de, ao tentar a conjunção verdade e saber, fruto do conluio412 entre o capitalismo e
a ciência sob os auspícios da modernidade. E se se trata de um conluio, o terceiro que sofre o dano não é outro senão o sujeito dividido, isso porque, como veremos a seguir, há uma tentativa de tornar tudo possível.
Trata-se de tecer uma triangulação em torno do saber, do valor e do gozo, sendo que a estrutura do discurso do universitário a reflete como um pacto, já que se posiciona como mediadora com vistas a atender às demandas do mercado. Isso diz respeito a “homogeneização dos saberes do mercado”413, na linha de frente do ordenamento do gozo, enquanto o valor advém como renúncia a este, como vere- mos adiante. Essa lógica é muito semelhante à estrutura do perverso.
Souza destaca que, no discurso universitário, o saber é um mero objeto “[...] que busca acomodar as diferentes realidades do sujeito, deixando-o adormeci- do em relação ao objeto-causa de seu desejo e do gozo que o afeta”414. Trata-se de uma tentativa de amortecer os efeitos da castração, ou do que causa mal-estar em relação ao não saber sobre o sexo, sendo que, por sua estrutura, o discurso do uni- versitário tem horror à psicanálise, arremata Lacan em “Radiofonia”415. É curioso, inclusive, que, nesse mesmo texto, Lacan faça o prognóstico acerca do aumento da dominação desse discurso416 – ele acertou –, e isto não é indiferente à formação
dos analistas, já que também tem crescido o envolvimento dos analistas na produ- ção universitária. Tal vínculo é objeto de controvérsias, havendo quem defenda con- tra e a favor, assim veremos.
O conceito dos quatro discursos é um balizador para o dispositivo analíti- co, já que se trata da ação do inconsciente que “[...] precipita a passagem brusca de um desses discursos para outro”417, ou dizer, numa única sessão é possível que o sujeito desfile em várias posições, uma vez que essa estrutura já está incorporada à
411 LACAN, 2008b. 412 Do latim
colludo, entender-se com o outro causando dano a um terceiro (GARCÍA DE DIEGO, V. Diccionario ilustrado latino-español, español-latino. Barcelona: Real Academia Española, 2001).
413 LACAN, 2008, p. 40. 414 SOUZA, 2008, p. 207. 415 LACAN, 2003m.
416 Idem, ibidem. Importante lembrar que o texto foi escrito quando os acontecimentos de maio de 1968 em Paris ainda eram a tônica em torno dos debates sobre a reforma universitária.
linguagem, e é o que faz com que os laços sociais funcionem mesmo sem relação ao que está sendo enunciado.
Esse mecanismo busca moldar a realidade, com a exceção do discurso do analista, pois esse fornece ao sujeito “[...] a chave de sua divisão”418, isto é ine-
gociável, a psicanálise é incompatível com o uso de qualquer narcose, seja no cam- po da mística de um sentido ou do alucinógeno no corpo.
Em suma, a psicanálise “[...] exclui os mundos que se abrem para uma mutação de consciência, para uma ascese do conhecimento, para uma efusão co- municativa”419, diz Lacan seguindo Freud em relação ao que este enunciara no texto
“Análisis terminable e interminable” (Análise terminável e interminável)420, acerca do
amor à verdade e contra toda ilusão ou engano – essa é a posição de origem que