A efetivação dos concursos não é definida apenas em decorrência da necessidade de professores, mesmo havendo a existência de vagas na instituição e considerando a enorme carência. Os departamentos reclamam porque a Universidade tem crescido, com vários cursos novos e consequente ampliação do número de alunos, mas sem a respectiva correspondência no aumento de docentes. Nesse caso, se evidencia que não há substituição de servidores docentes no mesmo patamar das perdas: a universidade cresce, as pessoas saem,
mas nunca se consegue repor todos que saíram, porque de certa forma se está
Explicando melhor, para a abertura do concurso, o primeiro passo é a autorização do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão – MPOG, seguida da liberação do MEC, o que está no próprio Edital do concurso:
O Reitor da Universidade Federal do Ceará, tendo em vista autorização concedida pelo Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, através da Portaria Nº381/2006, publicada no DOU de 19/12/2005, e pelo Ministério da Educação, através da Portaria Nº384/2006, publicada no DOU de 02/02/2006, torna público, para conhecimento dos interessados, que se acham abertas, no período de 13 de abril a 12 de maio de 2006, as inscrições para Concurso Público de Professor Adjunto, para os Departamentos, Setores de Estudo e Vagas a seguir indicados (...). (Edital Nº42/2006).
Embora uma Instituição Federal de Ensino Superior - IFES seja vinculada ao MEC, a autorização de concursos é competência delegada ao MPOG, o qual
funciona como órgão de pessoal de todos os outros ministérios, (...) tudo que diz respeito à política de pessoal, redistribuição de vagas, liberação de concursos,
primeiro passa lá. (GCNA).
O primeiro encaminhamento para o concurso é a informação do MPOG, mediante portaria publicada no Diário Oficial da União – DOU, concedendo às IFES um quantitativo de vagas para o magistério superior, informando que têm seis meses para iniciar o concurso.
O MEC realiza a distribuição das vagas, normalmente ouvindo antecipadamente a Associação Nacional dos Dirigentes de Instituições Federais de Ensino Superior – ANDIFES, órgão de classe que possui significativa atuação e respeitabilidade.
Em seguida, após 30 a 45 dias, divulga-se a portaria do MEC. Nesse momento, se percebe grande movimentação em articulações – de representação das IES e político-partidárias – no sentido de conseguir mais vagas para as instituições de cada estado do País, o que está expresso de maneira interessante na seguinte citação:
Aí lá vai o Deputado Federal do Ceará (...). Se são 2.500 vagas no total, a gente recebe 80, 58, de acordo com a distribuição. Às vezes, a gente pode ter, por exemplo, 100 vagas de professores aqui decorrentes de
aposentadorias, exonerações, falecimentos, essas coisas, mas a gente só tem autorização de 58. Então, a gente só pode fazer o concurso das 58.
(GCNA).
Percebe-se que a distribuição de vagas para cada instituição, na verdade, não representa vagas reais, acréscimos reais. Mesmo considerando vagas destinadas aos cursos novos, na realidade estão inseridas em um total que a própria instituição ensejou com saídas de professores, pelos mais diversos motivos. Sabia-se que
(...) mesmo essas de ampliação a gente não recebe como uma vaga nova, a gente usa as nossas vagas. Nunca ultrapassa o que a gente tem, nunca! Eles chamam de ampliação porque está lhe dando para você usar num curso
novo, mas ele não está lhe dando uma vaga nova. (GCNA).
Destaca-se mais um agravante dessa situação:
Agora com as ampliações de cursos acontece o seguinte: ‘Anexo 3 - 10 vagas para Sobral’. Então você tem que usar as 10 vagas para o concurso de Sobral, mesmo que você ache que lá só precise de nove e queira usar
uma para Fortaleza, pois você não pode mudar. (GCNA).
Como informado, as negociações são feitas entre as instâncias superiores da UFC e do MEC, demonstrando pouca ressonância parâmetros que representam a demanda da Instituição, como levantamentos e previsões elaborados por setores envolvidos nos concursos, ou seja, a conquista de vagas para concursos de professores parece estar mais relacionada à articulação de reitores e políticos do que mesmo a estatísticas internas que explicitem a real necessidade de docentes para a Universidade.
Consequentemente à falta de reposição de vagas nos concursos para docente e paralelo ao contínuo crescimento da Instituição, existe aumento de professor substituto e de professor visitante. Muitas vezes estes ocupam o lugar que deveria ser do professor efetivo e não o é pela falta de autorização para concursos.
A legislação que regulamenta os contratos temporários, previstos como emergenciais, considera que o professor substituto deve aparecer no cenário da
universidade para substituir o docente que está com problemas de saúde e passa um tempo afastado, que se ausenta para realizar estudos de mestrado ou doutorado, que se aposenta, dentre outros; entretanto, hoje em dia eles estão
complementando a força de trabalho, o que tem sido muito prejudicial para os alunos, porque entra muita gente sem experiência e sem maturidade para dirigir
uma turma. (GCNA).
Nesse sentido, há contradição entre o que as IES consideram correto – admitir professores doutores para serem efetivos – e contratações de recém- graduados para trabalhar como professores substitutos – o que acontece em demasia – os quais, em última instância e na prática do cotidiano, são igualmente docentes, com os mesmos direitos e deveres em relação ao papel que exercem na formação acadêmica dos alunos.
O risco de contratar professores sem a devida qualificação é uma realidade agravada ainda pela questão salarial, forte fator impeditivo de maior interesse de candidatos nas seleções para professor substituto, como relatado:
Agora eu queria até aproveitar essa oportunidade para falar sobre uma séria questão que nós temos aqui: o Professor Substituto. Ganha por 20 horas de trabalho R$380,00, e quando calcular os descontos é arriscado ele ganhar menos que o salário mínimo. Então nós tivemos agora um concurso que vários candidatos chegaram aqui e perguntaram: “Quanto é o salário?
R$380,00? Vou embora!” Não quis participar.Eu tive um concurso que só
teve um único candidato e assim mesmo porque nós telefonamos pra todos os possíveis candidatos, que tinham terminado o curso, pedindo pelo amor de Deus que ele viesse fazer o concurso aqui: “Rapaz você venha, vai ser uma forma de você botar no seu currículo que foi professor da Universidade Federal do Ceará, que é uma coisa importante”. Mas se a
pessoa morar longe não paga nem a gasolina. (ChDpto).
Pelo baixo salário pago, ficam à procura de candidatos que muitas vezes se resumem a ex-alunos recém-graduados e que querem iniciar sua experiência docente no ensino superior, acreditando estar dando o primeiro passo para um futuro concurso de professor efetivo em alguma IES.
Outro fator que dificulta a contratação de melhores professores substitutos é a demora para resolver questões burocráticas. Há casos em que o chefe de
departamento pede autorização para fazer seleção em caráter de urgência e muitas vezes o problema não é resolvido, causando prejuízo aos alunos. Conforme relatado:
(...) faz mais de um mês que eu pedi professor substituto, porque 3 professores substitutos chegaram aqui pra mim no começo do semestre: “Professor, eu não venho mais. Eu quero pedir minhas contas!” Eu disse: “Rapaz, você tem que ficar pelo menos 30 dias”. “Tudo bem, 30 dias eu fico, mas completados os 30 dias eu vou embora”. E eu pedi professor substituto para os 3, com a carta deles pedindo pra sair e até hoje não chegou. Tá aí, os alunos tudo sem aula. Então as coisas não andam na
Universidade. É emperrado, emperrado! (ChDpto).
Como maneira de complementar as carências existentes, há também a contratação de professores visitantes, mediante a justificativa, entre outras, da troca de conhecimentos. Por exemplo, quando um professor da instituição realiza curso em outro estado ou país e desenvolve pesquisa de interesse da Universidade com seu orientador, procura dar continuidade ao estudo na sua instituição de origem. Então, pode convidar o orientador para alguma atividade como cursos esporádicos, seminários, palestras, algo que justifique a contratação como visitante, para atuar em área preferencialmente relacionada à pesquisa iniciada.
Entretanto, a gente sabe que hoje em dia os professores visitantes, brasileiros principalmente, estão entrando na universidade para dar aula na pós-graduação. Isso está acontecendo. Na pós-graduação, por que?
Porque o professor visitante tem que ter doutorado. (GCNA).
Neste sentido, a maioria dos doutores se recusa a dar aulas na graduação, o que é um pouco amenizado pelo fato de os recentes concursos já contratarem doutores em decorrência das próprias exigências dos editais.
Definida a cota da UFC, começa outra negociação, agora interna”,
porque “sempre há carência maior do que as vagas, então há uma negociação,
para onde vão as vagas. (GCNA).
O reitor convoca os diretores de centros e faculdades para discutir a distribuição, que normalmente se decide também por cotas para cada unidade
acadêmica. Posteriormente, os diretores definem o destino das vagas em ação conjunta com seus respectivos departamentos, por meio da análise de demandas e prioridades.
Concluída a fase de definição de vagas para o concurso, desde o MPOG e MEC, passando internamente pela Reitoria, diretoria de centros e faculdades e pelos departamentos, inicia-se o momento da operacionalização burocrática e acadêmica propriamente dita, no âmbito da Instituição, em conformidade com a legislação interna.