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FONTE: Almanack do Diario do Maranhão para o anno bissexto de 1880. 3º anno. Maranhão: Typ. do Frias, 1880.
As fontes evidenciam a efervescência da indústria tipográfica maranhense, ao longo do século XIX, desde os materiais e recursos humanos empregados até os produtos que saíam dos prelos, como: cartazes, livros, convites, folhetos e inclusive papel moeda.
De acordo com os almanaques publicados no Maranhão entre os anos de 1848 e 1882, a província possuía uma média anual entre 6 e 8 tipografias em funcionamento.197 Algumas dessas tipografias faziam uso do prelo mecânico e do prelo a vapor, demonstrando que estavam em busca de uma hegemonia, ao adotarem novas tecnologias.
De acordo com a tabela 7, entre 1848 e 1882, existiram 19 tipografias no Maranhão, sendo que a Tipografia Constitucional de Ignacio José Ferreira foi a única que esteve em funcionamento durante todo este período. A Tipografia da Temperança, de Joaquim Pereira Ramos funcionou entre 1448 e 1860. A Tipografia Comercial de Antonio Pereira Ramos d’Almeida e a Tipografia do Frias198 funcionaram entre 1860 e 1882, e a Tipografia do Progresso, de Belarmino de Mattos funcionou entre 1860 e 1868.
Estes dados, ainda que lacunares199, apontam que as tipografias acima mencionadas foram consolidadas no mercado tipográfico maranhense, devido ao seu tempo de funcionamento: 34, 22, 12 e 8 anos. As demais tipografias tiveram pequena duração, com uma participação menos significativa no mercado. Os dados reafirmam que existia um considerável público leitor no Maranhão oitocentista.
197 Conferir no apêndice B a relação de tipografias existentes no Maranhão entre 1848 e 1882, de acordo
com os almanaques publicados na província no período mencionado.
198 Conforme já apresentamos neste capítulo, segundo o Catálogo da Tipografia do Frias, a mesma
funcionou entre 1859 e 1909.
199 Como os almanaques foram produzidos por editores diversos cada um apresenta um estilo de escrita
também diverso. Alguns almanaques pesquisados como os de 1878, 1879, 1880 e 1881 não apresentam uma lista de tipografias, mas mencionam a existência da Associação Tipográfica Maranhense (ATM). Ora, se existia a ATM é porque existiam tipografias, só não sabemos o nome delas.
Tabela 7 – Relação de tipografias maranhenses entre 1848 e 1882
TIPOGRAFIAS ANOS
1848 1849 1860 1867 1868 1882
1 Tipografia Maranhense X X
2 Tipografia Constitucional (Ignacio José Ferreira) X X X X X X 3 Tipografia da Temperança (Joaquim Pereira Ramos) X X X
4 Tipografia Independente X X
5 Tipografia de Jose Antônio Gonçalves de Magalhães X X 6 Tipografia de R.A.R de Araújo X X
7 Comercial (Antonio Pereira Ramos d’Almeida) X X X X
8 Do Observador X
9 Tipografia de José Maria Correia de Frias X X X X 10 Tipografia do Progresso (Belarmino de Mattos) X X X
11 Tipografia da Fé X X
12 De José Mathias Alves Serrão X X
13 Do Major Joaquim Ferreira de Sousa Jacarandá X X
14 Luiz Magalhães & C. X
15 Ricardo Alves de Carvalho X
16 Themistocles da Silva Maciel Aranha X
17 Da Civilização X
18 Da Pacotilha X
19 Do Tribuno X
FONTES: Almanaques diversos
Os Almanaques apresentam uma descrição minuciosa dessas tipografias, mencionando a mão-de-obra empregada, os materiais impressos pelas mesmas, a concorrência entre elas, apresentando também as tendências políticas dos jornais publicados na província naquele período, como podemos conferir a seguir:
Destas é a Commercial que emprega o melhor e mais completo material, porque dispõe o seu proprietário de muito maior fundo capital que os outros, e quanto à perfeição do trabalho lutão em louvável competência as duas do Progresso e de Jose Maria Correia de Frias, sem que uma leve grande vantagem sobre a outra, cumprindo notar-se que na officina do Progresso é onde trabalhão o maior numero dos melhores operarios desta especialidade, empregrando a de Jose Maria Correia de Frias apenas meia dusia de trabalhadores de menor idade, e que pouco tempo tem ainda o officio, dirigidos pelo proprietario do estabellecimento. Outra que tambem vae querendo emparelhar-se com estas duas é a de Jose Mathias Alves Serrão, e assim o indica o esmero de pequenas amostras de trabalhos que nesta officina se tem publicado. Todas as mais occupão-se exclusivamente com a publicação de gasetas, cujas algumas, ou para melhor dizer, a maior parte vivem vida bem curta, sendo ainda mais curta a gloria que deixão dos serviços por ellas prestados. As que no anno de 1867 se publicarão nesta cidade forão o Publicador Maranhense, sustentada pelos cofres públicos para a vulgarisação e defesa dos actos do governo. O Paiz jornal sem cor politica determinada, porem mais inclinado ás ideias do partido conservador, que as do liberal, pugnando principalmente pela prosperidade do commercio.
O Apreciavel, extremado conservador. A Fé, jornal do clero. O Semanario Maranhense, jornal de litteratura e noticias, além de alguns outros tambem
literários, onde se exercitão alguns talentos ainda em flor, e de cujo viveiro tem sido transplantados com tanto viço e proveito para o solo das lettras e sciencias os Leaes, os Serras, os Gentis, os Galvões, os Marques Rodrigues e
ainda muitos outros cujo merecimento em nada inferior ao destes, tanto honra esta terra onde nascerão.200
De acordo com o exposto, percebe-se a variedade de periódicos maranhenses, apresentando jornais das mais diversas tendências políticas: liberal, de esquerda, conservador, bem como aqueles que propagavam a fé católica e/ou a literatura. Além disso, dá-se destaque ao fato do Publicador Maranhense ser o periódico subsidiado pelo governo e o impressor dos atos oficiais da província.
Os homens de letras supra mencionados são os Leaes -Antonio Henriques Leal – autor do Pantheon Maranhense e Pedro Nunes Leal, os Serras – Joaquim Serra, os Gentis – Gentil Homem de Almeida Braga, os Galvões, referindo-se a Trajano Galvão, os Marques Rodrigues, referindo-se a Antonio Marques Rodrigues, autor do livro Tres Lyras, em parceria com Gentil Homem de Almeida Braga e Trajano Galvão.
Quanto às condições técnicas das tipografias maranhenses, no que diz respeito à mão de obra empregada, os registros são escassos, temos dados mais específicos apenas da Tipografia do Frias,
[...] que empregava 8 pessoas: 2 compositores de levantar letra, que compõem efetivamente, um interno e outro externo; 3 aprendizes internos, que distribuem todos e compõem parte, metem papel na máquina, dobram folhas etc. etc; 1 homem que toca a roda do prelo, cuida do asseio da casa, e na conservação das máquinas; 1 moleque de seis anos, que coadjuva a impressão; e eu que pagino, revejo, aperto as formas e registro-as no prelo, faço quase todas as formas de avulsos, inspeciono a impressão e dirijo todos os mais trabalhos da casa.201
Conforme as fontes consultadas, percebemos a inserção de crianças no trabalho das tipografias. Frias e Belarmino, os mais ilustres tipógrafos maranhenses foram aprendizes de tipógrafos, na mais tenra idade, ao se tornarem profissionais, passaram a empregar, em suas oficinas, aprendizes de tipógrafos. Deduzimos, portanto, que era uma prática da época as tipografias recrutarem crianças para a aprendizagem do ofício.
O trabalho do compositor é descrito por Joaquim dos Anjos especificando que:
este deve costumar-se a acompanhar quando possível os movimentos do braço esquerdo com os do direito, isto é, deve levar o componedor202 (foto
200 Almanak do Povo para 1868. Maranhão: Typographia do Frias, 1868. p. 245-247. (grifos nossos) 201 FRIAS, op. cit., p. 44.
202 Utensílio do compositor tipográfico que permite reunir os caracteres de um texto e justificar as linhas;
12) o mais junto possível do caixotim203 aonde tem que ir buscar a letra, pois, deste modo, economiza tempo e dá mais exercício ao corpo; enquanto levanta o espaço para a separação da palavra, deve reparar na que ultimamente compôs, pois, num rápido olhar, conhece se tem algum erro, que logo pode corrigir; e, antes de espacejar a linha, há de proceder a outra leitura, confrontando pelo original; só assim conseguirá que as provas não apresentem muitos erros, o que consome um tempo improdutivo com emendas.204