4. ARAŞTIRMA BULGULARI VE TARTIŞMA
4.2. Bileşiklerin Yapı Analizleri
4.2.9. Bileşik 12’nin Yapı Analizi
Bergson inicia o texto de A evolução criadora retomando reflexões anteriores sobre a continuidade da nossa vida psicológica, sobre a nossa duração, que é mudança ininterrupta, permanência da mudança, progresso contínuo. Essa vida psicológica, interior – da qual o tempo é o próprio estofo – é um eu profundo que pulsa, que se engrandece, que cria a si mesmo incessantemente, que evolui. Eis o sentido que nossa consciência dá à palavra existir: “existir consiste em mudar, mudar, em amadurecer, amadurecer, em criar-se indefinidamente a si mesmo.124” A evolução de qualquer ser vivo, explica Bergson, “implica um registro contínuo
da duração, uma persistência do passado no presente e, por consequência, uma aparência ao menos de memória orgânica.125”Há, pois, uma semelhança do vivo com a consciência na
medida em que tudo o que é vivo dura126: “continuidade de mudança, conservação do passado
no presente, duração verdadeira, o ser vivo parece, portanto, partilhar tais atributos com a
consciência do poder fundamental que nós temos de modelar nosso próprio espírito" (LEMOINE, Maël. Durée, différence et plasticité de l´esprit In Bergson: la durée et la nature. PUF, Paris, 2004; p.112)
124 BERGSON. L´évolution créatrice. p.7 125 Ibid. p.19
126 “Em todo lugar onde alguma coisa vive, há aberto, em alguma parte, um registro onde o tempo se inscreve”
consciência.127” A vida também é invenção e criação incessante. Tudo está no tempo e tudo nele
pulsa (matéria) e evolui (espírito) interiormente. Rompendo com a espacialização imposta pelo entendimento ou pelos hábitos por ele contraídos, é possível acessar a continuidade da nossa vida psíquica profunda; recuperando aquilo que a vida acabou por abandonar ao evoluir na direção particular que culminou na inteligência humana, poderemos acessar a organização vital:
Se, evoluindo na direção dos vertebrados em geral, do homem e da inteligência em particular, a vida teve que abandonar pelo caminho elementos incompatíveis com esse modo particular de organização e confiá-los, como mostraremos, a outras linhas de desenvolvimento, é a totalidade desses elementos que deveremos procurar e fundir com a inteligência propriamente dita para recuperar a verdadeira natureza da atividade vital. Seremos nisso, sem dúvida, ajudados pela franja de representação confusa que envolve nossa representação distinta, quer dizer, intelectual: o que pode ser essa franja inútil, com efeito, senão a parte do princípio evoluinte que não se encolheu até a forma especial da nossa organização e que passou por contrabando? É, portanto, aí que teremos que ir buscar indicações para dilatar a forma intelectual de nosso pensamento; é aí que obteremos o elã necessário para nos elevar acima de nós mesmos128.
Assim como mostramos tratar-se a causalidade psíquica de uma força específica irredutível à causalidade na natureza e às explicações reducionistas do associacionismo, também a atividade vital precisará de um “modo de explicação sui generis129”, não redutível
nem ao mecanismo nem ao finalismo; uma explicação que, abrindo mão de representar a organização da vida por analogia com a fabricação humana130, seja capaz de dar conta a um só
tempo da “complexidade do organismo e da unidade da função131”, mostrando que a infinita
complicação aparente do objeto diz respeito antes ao entendimento que o analisa ou aos sentidos que o contornam e não ao objeto mesmo, ao qual pertence a simplicidade132. A atividade vital
ou o ato de organização é um ato indivisível e explosivo133, como indivisíveis e explosivos são
os atos livres que emanam da nossa personalidade inteira.
Essa compreensão do vital para além do mecanismo ou do finalismo é o ponto de vista da filosofia, que enxergará na materialidade um “conjunto de obstáculos contornados134”, o
127 Ibid. p.23
128 BERGSON. L´évolution créatrice. p.49 129 Ibid. p.96
130Ibid. p.93 131 Ibid. p.89 132 Ibid. p.90
133 “ […] o ato de organização tem qualquer coisa de explosivo” (Ibid.p. 93) 134Ibid.p.94
rastro solidificado de um movimento real, indivisível e invisível para o qual a sua ordem aponta em um sentido inverso, “a forma global de uma resistência e não uma síntese de ações positivas e elementares.135” É para adotar essa perspectiva filosófica e tornar possível um novo tipo de
explicação que Bergson propõe a hipótese do elã vital, imagem para a qual converge a análise dos dados biológicos da evolução interpretados à luz do seu método de pesquisa.
Nessa hipótese está implicada uma definição da vida como “tendência a agir sobre a matéria bruta136”, em um sentido não predeterminado, donde “a imprevisível variedade de
formas que a vida, evoluindo, semeia sobre o seu caminho.137”Nessa imprevisibilidade está
contida a contingência, que implica possibilidade de escolha que, por sua vez, “supõe a representação antecipada de muitas ações possíveis138”. A percepção visual será justamente o
desenho de tais possibilidades de ação139, sendo o mundo, tal como o percebemos, a resposta,
como já vimos, a um determinado grau de liberdade, ou da liberdade atingida pelo espírito em um determinado grau do ser.
Atualmente a biologia evolucionista supõe que as diversas linhagens evolutivas vieram de um ancestral comum. Bergson se vincula a essa hipótese140, propondo no ensaio A
consciência e a vida uma linha de argumentação a partir da suposição de uma “massa de geléia
protoplasmática141” que, sendo deformável à vontade, teria tomado, de um lado, o caminho do
movimento - assinalando o rumo do animal e da consciência – e, de outro, o caminho da fixidez e da insensibilidade – assinalando o mundo dos vegetais. Essa primeira duplicação do ancestral comum deveu-se à forma peculiar com que o ser vivo buscou assegurar-se da provisão de carbono e de nitrogênio de que tinha necessidade142.
Provenientes de um elã comum, vegetais e animais resultam de uma primeira diferenciação de funções, sendo a primeira responsável pela produção e acumulação de energia e a segunda pela utilização dessa energia para o movimento. A evolução é a continuação de um movimento inicial e indivisível cuja trajetória não é linear, mas cheia de bifurcações e retornos,
135BERGSON. L´évolution créatrice.p.95 136 Ibid. p.97
137 Ibid. p.97 138 Ibid. p.97 139 Ibid. p.97
140“Ainsi, tout nous fait supposer que le végétal et l´animal descendent d´un ancêtre commun que réunissait, à
l´état naissant, les tendances de l´un et de l´autre.” (ibid..p.114)
141BERGSON. A consciência e a vida IN A energia espiritual. Trad. Rosemary Costhek Abílio. SP: WMF
Martins Fontes, 2009. p.11
muito embora tenha encontrado na linha que sobe ao longo dos vertebrados até o homem um espaço aberto para a transmissão daquilo cuja passagem constitui o essencial143.
A compreensão do movimento evolutivo requer, segundo Bergson, a determinação da natureza das tendências que se dissociaram a fim de sugerir ao intelecto o que seja o seu princípio comum. As direções divergentes da evolução da vida foram o torpor, a inteligência e o instinto. Não havendo na vida manifestação que não contenha em estado rudimentar, latente ou virtual, os caracteres essenciais da maior parte das outras manifestações144, tem-se que a
diferença de grupos se dará não pela possessão de certos caracteres, mas pela tendência a acentuá-los.145Desse modo, segundo essa “definição dinâmica146”, os vegetais se distinguem
pelo poder de criar a matéria orgânica “às custas do elemento mineral que eles tiram diretamente da atmosfera, da terra ou da água147”, enquanto os animais se distinguem pela necessidade de
buscar os vegetais ou os outros animais que consumiram os vegetais a fim de se nutrirem. Isso significa que o animal é necessariamente móbil, estando a mobilidade implicada com a consciência, que é justamente aquele algo especial para cuja passagem o ser vivo se fez. A evolução da vida é uma criação que prossegue sem fim em virtude de um movimento inicial que dá unidade ao mundo organizado, “unidade fecunda, de uma riqueza infinita, superior àquilo que alguma inteligência poderia sonhar, porque a inteligência é apenas um de seus aspectos e de seus produtos.148”
A observação do conjunto do mundo organizado mostra ainda que é essencial nessa evolução a formação e manutenção do Sistema Nervoso, que é “um verdadeiro reservatório de indeterminação.149”Nas plantas, porém, não há um verdadeiro Sistema Nervoso e “o mesmo elã
que levou o animal a se dar nervos e centros nervosos deve ter resultado na planta na função clorofílica150.”A vida fabricou um explosivo através do armazenamento da energia solar tendo
em vista a própria explosão dessa energia. Portanto, não apenas a direção fundamental da vida
143“A evolução da vida, desde suas origens até o homem, evoca a nossos olhos a imagem de uma corrente de
consciência que penetrasse na matéria como para abrir uma passagem subterrânea, fizesse tentativas à esquerda ou à direita, forçasse menos ou mais em frente, na maior parte do tempo fosse partir-se contra a rocha e entretanto, pelo menos em uma direção, conseguisse abrir caminho e reaparecesse à luz. Essa direção é a linha de evolução que leva ao homem” (BERGSON. A consciência e a vida IN A energia espiritual p.21)
144 BERGSON. L´évolution créatrice. p. 107 145 Ibid.p.107 146 Ibid. p.108 147 Ibid. p.109 148 Ibid. p.106 149 Ibid. p.127 150 Ibid. p.115
se deu na evolução do animal e não do vegetal como também pode-se constatar – pelo fato de ser no elemento nervoso que se concentra essa faculdade de liberar bruscamente a energia acumulada – que o sistema sensório motor não está no mesmo patamar que os outros, mas que é dele que tudo parte e é para ele que tudo converge, estando o resto do organismo a seu serviço151 e sendo a emergência da atividade nervosa da massa protoplasmática o que chama
todo o restante da complicação funcional do organismo sob o qual ela irá se apoiar152. “Da mais
simples Monera até aos insetos os mais bem dotados, até aos vertebrados os mais inteligentes, o progresso realizado foi sobretudo um progresso do sistema nervoso com, a cada etapa, todas as criações e complicações de peças que esse progresso exigia”153. Da irritabilidade geral e
uniforme dos seres unicelulares provocada por excitações químicas ou físicas à canalização gradual dessa irritabilidade através do desenvolvimento de mecanismos de condutibilidade e contratilidade e da consequente diferenciação das células sensoriais, constata-se uma tendência ao movimento possibilitada pela complexificação do organismo.
Chegando à animalidade, a força que evolui se engajou em quatro grandes direções, duas delas nas quais houve um impasse154. Ao mesmo tempo em que se desenvolvia a
mobilidade entre os animais, crescia a ameaça de uns contra os outros. Estruturas protetoras como a pele dura e calcária do equinodermo, a concha do molusco, a carapaça do crustáceo e a couraça ganóide dos antigos peixes, ao mesmo tempo em que protegiam, cerceavam o movimento e às vezes imobilizava155. Com essa parada no progresso que conduzira à
mobilidade, equinodermos e moluscos caíram no torpor, enquanto artrópodes e vertebrados, embora sujeitos à mesma ameaça, triunfaram na situação suprindo a insuficiência do invólucro protetor por agilidade que permitia escapar dos inimigos156.
As duas vias exitosas, a dos artrópodes e a dos vertebrados, evoluíram, a partir de então, separadamente. Tendo como ponto culminante respectivamente os insetos himenópteros e os homens e levando em conta que em nenhuma parte o instinto é tão bem desenvolvido quanto nos insetos himenópteros, pode-se dizer que “toda a evolução do reino animal […] se completou sob duas vias divergentes das quais uma ia para o instinto e a outra para a inteligência157. De
151 BERGSON. L´évolution créatrice. p.125 152 Ibid. p.126 153 Ibid. p.127 154 Ibid. p.130 155 Ibid. p.132 156 Ibid. p.132 157 Ibid. p.135
complicação em complicação a tendência ao movimento, à ação, à atividade, a energia criadora, o elã vital ou simplesmente a consciência lançada através da matéria “fixou sua atenção sobre seu próprio movimento ou sobre a matéria que ela atravessara. Ele se orientava assim seja no sentido da intuição, seja no sentido da inteligência.158”. No primeiro sentido, aquele que seguiu
a corrente da vida, a consciência permaneceu interior a si mesma, comprimindo-se e encolhendo-se em instinto. No segundo sentido, aquele que se especializou em agir sobre a matéria, a consciência intelectualizou-se, exteriorizando-se e alargando seu domínio.